BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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22.2.03
 
ÓSCAR. O Pedro Mexia a falar da gravidade fez-me lembrar o saudoso Óscar Mascarenhas. Antes de ter sido "saneado" do DN, tendo sido uma das vítimas da já aqui referida recente tonalidade laranja do cabeçalho do jornal, o Óscar escreveu durante muitos anos uma coluna semanal intitulada "Manifestos & Exageros". De vez em quando, recorria a modelos físicos elaborados para estabelecer analogias com situações da vida corrente (em política ou em sociedade). Por duas ou três vezes, meteu os pés pelas mãos no que à Física dizia respeito – estou a lembrar-me daquela vez em que confundiu o Faraday com o Franklin. Contactei-o por e-mail a assinalar a gaffe, e logo na crónica da semana seguinte ele fez o "mea culpa", em termos tão humildes e arrependidos que até me deixaram com remorsos.
O Óscar, manifestamente, exagerava às vezes, mas era um prazer semanal para mim ler a sua coluna, de que sinto falta. Óscar: se nos está a ler, dê sinal de vida, homem!
Filipe Moura




 
EU A DAR UMA DE CROMO. Caro Pedro, o que faz com que um copo se parta quando o deixamos cair é simplesmente o contacto com o chão (e o facto de este ser um corpo rígido, como referes). Não o atrito (a não ser que largues o copo da altura de um avião a voar – julgo que não é isso que queres dizer) e muito menos a gravidade! A gravidade ainda é um mistério na Física, mas não tem nada a ver com a loiça a partir-se. Filipe Moura


 
ABOUT BRECHT. Do Francisco Frazão, "leitor assíduo" e atento, recebemos um e-mail sobre os versos de Bertolt Brecht que o Pedro Mexia, na Coluna Infame, tresleu. O Manel já se referiu ao lapso, mas aqui fica mais uma achega.

Ao ler a citação do Brecht pelo Pedro Mexia pensei que fosse deliberada "tresleitura" de um texto que já tinha aparecido no Blog de Esquerda (até por causa da "versão inglesa" versus "versão francesa"). E tinha achado alguma graça por causa disso, azar o meu.
De qualquer modo, quando li o primeiro post do Manel já me tinha lembrado deste outro bocado do Brecht, que até faz parte do teatro dele, mesmo se as linhas não chegam ao fim da página (e não me parece tão mau como isso):

FATZER:
O ponto significa
Fatzer
Este sou eu e aqui, à minha frente
Invisível, uma linha: Soldados
Como eu, mas meus inimigos
E aqui, imediatamente
Vejo outra
Linha, que embora estando atrás de mim, também está
Contra mim. Quem são? São
Os que nos enviam, são
A burguesia.
Finalmente, depois de muitos anos
Descubro o inimigo.
Realmente não é
Nossa responsabilidade que
Se negoceie de uma maneira tão sangrenta
O fogo luta contra a água, de um lado
E do outro, a água combate o fogo.
Bastaria virar a cabeça, neste abraço sangrento, para descobrir por trás
O inimigo. E assim
Depois de quatro anos de guerra selvagem e cega
Olhando em frente, olhei para trás e compreendi logo tudo:
À minha frente, contra quem lutava: o meu irmão
E atrás de mim e atrás dele: o nosso inimigo.
Agora, fumo debaixo desta meia árvore
O nosso último cigarro.
Para mim
Esta guerra acabou-se
Foi bom
Ter vindo até aqui, a este
Lugar do mundo, onde
Durante três minutos pude reflectir
Agora
Podemos ir embora.

Bertolt Brecht, «A Queda do Egoísta Johann Fatzer», 1926-1932 (versão cénica de Heiner Müller)

Esta e outras citações sobre a(s) guerra(s) estão na Agenda 2003 da Abril em Maio – e que úteis têm sido.
Quanto aos "métodos de trabalho" do Brecht, talvez esteja aí uma questão interessante. Parece fazer parte do consenso entre a Coluna Infame e o Blog de Esquerda uma comum admiração por um conjunto determinado de obras de arte: nada contra, desde que, para falar depressa, não se esqueça a forma como (também elas) são atravessadas pela política.
[Já passou pelo Blog o exemplo de Graça Moura, num texto em que se reproduzia o lugar-comum segundo o qual VGM é um político e cronista sinistro (actividade em que é de direita) e um bom poeta e tradutor (actividades em que não é nem de direita nem de esquerda). Como se a tradução, que – como a espionagem e o contrabando – faz o trânsito entre países, línguas e culturas, não passasse na alfândega ideológica; como se aí cada escolha (de autor, de livro, de palavra) não implicasse uma estratégia historicizável, que costumamos reduzir ao binómio fidelidade/liberdade.]
Em Brecht (e em Müller), a questão do "plágio" está no coração da obra e torna instável e problemática a noção de propriedade (intelectual). Os "direitos de autor" são um problema (esquecido) da esquerda.


 
ERRO. Como corolário do post anterior, Filipe Moura sublinha mais uma vez: a guerra é um grande erro (ver com atenção).


 
NYC, FEBRUARY 15th. Depois de Lisboa, Paris e Sidney, recebemos finalmente o relato do que se passou em Nova Iorque, no dia da manifestação global contra a guerra. O "repórter" é o nosso bem conhecido Filipe Moura:

Só de Stony Brook (a meio de Long Island), onde eu estudo, as pessoas que foram, alunos e professores, encheram um comboio (de muitas carruagens), "The Peace Train", especialmente "fretado" para o efeito. A manifestação do passado dia 15 em Nova Iorque, embora sem atingir a dimensão que teve em Roma ou Londres (muito por culpa da manipulação da opinião pública que os media aqui fazem, como já tive ocasião de referir), não deixou de ser a maior manifestação em que eu já alguma vez participei. Para terem uma ideia da sua dimensão, fiquem com estes pormenores: o "centro" da manifestação era suposto ocorrer na 1ª Avenida, mas não conseguimos passar da 3ª (tal era a multidão e as restrições impostas pela polícia). Falando em polícia, um pormenor delicioso: antes da manifestação, disseram que esperavam cerca de 100 mil manifestantes; durante a manifestação, disseram que estavam a ter dificuldades em controlar os movimentos, pois tinha vindo muito mais gente do que estavam à espera; depois da manifestação, estimaram o número de participantes em... (adivinhem) 100 mil! (Os organizadores falavam em 400 mil.)
Não posso estimar o número de participantes; posso adiantar que a manifestação se situou entre a 1ª e a 3ª Avenidas, entre as ruas 42 e 57, tendo alguns grupos de manifestantes conseguido furar o bloqueio policial e, segundo soube, chegado à Rua 80! Na zona leste de Manhattan, as estações do metro foram encerradas. Como é comum na cidade, viam-se pessoas de todas as raças, de todas as idades e, sobretudo, de todos os estratos sociais. Viam-se famílias completas, muitos grupos de jovens mas
também muitas pessoas de idade mais avançada. Qem esperava encontrar somente os "freaks" do costume enganou-se. Quem esperava encontrar indiferença por parte da população – confesso que era o meu caso; afinal, os nova-iorquinos são conhecidos por isso – também se enganou. Ninguém poderia ficar indiferente a tamanha demonstração de vontade própria – repita-se, contrária ao "mainstream", que os vê como "antipatriotas" – de uma porção tão grande da população americana. Lembrou-me a canção de Leonard Cohen – finalmente a democracia poderá chegar aos EUA!


 
AINDA TARKOVSKI. Vi ontem «A Infância de Ivan», último filme de um pequeno ciclo que a RTP2 dedicou ao autor de «Nostalgia». Não conhecia esta obra de Tarkovski, a primeira, ainda muito expressionista e "soviética". E não imaginava que pudesse gostar tanto dela. Mas quando vi a primeira cena – o sonho do rapaz (voando atrás de borboletas até ao rosto sorridente da mãe, assassinada pelos nazis) e depois o seu despertar numa "waste land" – percebi que o cineasta que Tarkovski veio a ser já estava, todo, aqui. E depois há cenas e planos magníficos. A sedução da enfermeira pelo soldado, no bosque de bétulas. Os contrapicados (assombrosos). O rosto do miúdo, o seu olhar vingativo, as suas fúrias. Os interiores sombrios, os pântanos atravessados por «very lights». E uma das sequências oníricas mais fortes que alguma vi em cinema: a câmara aproxima-se da cama onde o rapaz dorme, há um pingo de água que lhe cai das mãos e é então que percebemos, "espreitando" para cima, que já estamos dentro do sonho; isto é, no fundo de um poço. Lá em cima o miúdo e a mãe conversam sobre a estrela que está lá em baixo, caída na água, depois o miúdo tenta apanhar a luz submersa (a estrela) e ouve-se o tiro que mata a mãe e cai o balde (na direcção do miúdo, da estrela e do nosso olhar). É ao ver coisas destas que eu agradeço, secretamente, aos pais dos irmãos Lumière por terem existido.

 
UM PRÉMIO «PEDRO MEXIA»? O Pedro Mexia não dorme. O Pedro escreve e lê muito. E depressa. Às vezes demasiado depressa. E com tanta correria, o rigor fica pelo caminho. Então quando descobre um texto que aparenta ser contra as horrendas "manifestações de rua", não consegue deixar de o espalhar logo aos sete ventos. Sem mesmo verificar se o texto diz realmente o que parece à primeira vista. Assegura-nos o Pedro Mexia, na sua Coluna Infame, que ao ler Susan Sontag deu de caras com este excerto de um poema de Bertold Brecht:

When it comes to marching many do not know
That their enemy is marching at their head.
The voice which gives them their orders
Is the enemy's voice and
The man who speaks of the enemy
Is the enemy himself.


E ficou tão contente, pensando ter encontrado uma pérola (imaginem, até o Brecht lançou uma "diatribe reaccionária contra a rua", até o Brecht!!!), que nem hesitou em "depositá-la" na Coluna Infame, num estonteante e perverso triunfo sobre os "acéfalos tiffosi" da esquerda.
Mas acontece que o texto de Brecht não se refere de maneira nenhuma a manifestações de rua, mas sim ao exército e à guerra. Aliás, como todo o «Manual de Guerra Alemão» a que pertence (é o 18.º poema), trata-se mesmo de um implacável libelo anti-militarista. O que Brecht nos diz é que o verdadeiro "inimigo" do soldado que "marcha" é o seu general, representante do poder capitalista que envia para a morte os proletários em nome de inimigos imaginários, ou melhor, contra os proletários do exército que se perfila do outro lado da trincheira. O apelo que o poema dirige aos soldados (àqueles que não têm consciência do que fazem) é o de revolta contra os chefes militares, seus primeiros opressores. Um tema na directa filiação da oposição da esquerda à I Guerra Mundial.
Safa, mas em que confusão mental anda o Pedro Mexia!!! Então o Brecht ia escrever poemas contra a mobilização popular na "Rua"?! Esta até merecia um daqueles prémios sarcásticos, bastante comuns na blogosfera. Assim no estilo do Andrew Sullivan, que a Coluna aprecia tanto (até há um prémio «Susan Sontag», não há?).
Mas não sejamos demasiado severos, que no fim de contas estas coisas acontecem aos melhores. O que deve ter induzido em erro o nosso amigo e crítico literário Pedro Mexia, foi certamente aquele "marching" danado. É que tanto podia significar um guerreiro "marchando contra o inimigo", como um pacifista "marchando contra a guerra". Na sua pressa (ou terá sido cegueira?), Pedro Mexia deixou-se levar pelo entusiasmo e projectou a sua fúria anti-manifestação na poesia do "pobre BB".
No entanto, se o Pedro tivesse mais tempo para visitar o Blog de Esquerda, poderia ter lido uma tradução francesa desse mesmo poema que "postámos" há dias (ver os últimos «Versos contra a barbárie»), juntamente com alguns outros do mesmo ciclo que não deixavam margem para dúvidas. Talvez tivesse pensado duas vezes antes de fazer leituras precipitadas.
Agora já estou a imaginar o Filipe Moura a sorrir: «Ó Pedro, não cites autores que não conheces bem...» Pois é, as frases assassinas são assim: às vezes viram-se contra quem as profere.

21.2.03
 
O PODER DA MÚSICA. «Foi ouvindo música americana que estive nos Estados Unidos muito antes de conhecer a realidade americana. Foi ouvindo música que pedi beijos de um número infinito de mulheres lindas e sedutoras (mulheres da noite e das taças de cristal). Foi ouvindo música que andei pelos jardins cobertos de poeira de estrelas, lugar imaginário onde se dançava uma valsa que eu não sabia com uma moça que eu ainda haveria de conhecer. Foi com a música que eu aprendi que ficar loucamente apaixonado era repetir dentro de si mesmo um «dia-e-noite» (noite-e-dia) compulsivo e tão impossível de evitar quanto as batidas do meu coração, cujo signo tinha o rosto da pessoa amada. Foi a música que me disse existir um amor eterno e uma pessoa definitiva, uma mulher que seria minha para sempre. Foi com a música que eu reconciliei - como mamãe fazia misturando, com a precisão de suas mãos ágeis, as teclas pretas com as brancas - a monogamia dos elos exclusivos, com as memórias dos amores fugazes». Este é um excerto da crónica de Roberto Damatta, sociólogo e cronista brasileiro que o DN publica quinzenalmente. Hoje fala de música e no fim questiona-se: «Não sei porque estou escrevendo essas coisas. Meu propósito era falar de política, como todo mundo.» Não se apoquente, Roberto. Por entre tanto disparate que anda para aí a manchar papel (leiam os cronistas políticos do Independente e confirmem), o seu intermezzo musical é uma espécie de bálsamo.


 
GUANTANAMERA. Na base americana de Guantanamo, em Cuba, estão detidos cerca de 650 homens, suspeitos de terem ligações à Al-Qaeda. Capturados no Afeganistão, vivem em condições miseráveis e são sujeitos regularmente a todo o tipo de interrogatórios por parte de agentes da CIA. Isto passa-se há 14 meses, desde que se improvisou o Campo Raio X (um conjunto de "jaulas" diminutas, feitas de rede), e na maior parte dos casos nem sequer existe uma acusação formal contra os suspeitos. O "exemplar" tratamento dado pelos americanos aos prisioneiros, à margem das próprias leis dos EUA e das convenções internacionais, já provocou quase duas dezenas de tentativas de suicídio, três das quais na última semana.
É um escândalo? É. Mas, à excepção de alguns abnegados grupos de defesa dos direitos humanos, ninguém parece muito preocupado com o assunto. Basta folhear os nossos jornais de referência: as notícias sobre Guantanamo ficam sempre (quando ficam) na coluna de breves da secção internacional.

 
GMT EM AVEIRO. Os fazedores da livraria «O Navio de Espelhos», amigos a quem ainda estou a dever uma visita inaugural (mea culpa), organizam amanhã, sábado, em parceria com a associação A Baleia das Ideias, o lançamento do mais recente livro de Gonçalo M. Tavares: «a colher de Samuel Beckett e outros textos». O encontro com o escritor começará às 16h30, no Estaleiro Teatral do Efémero, em pleno Parque Municipal Infante D. Pedro, em Aveiro. Quem puder assistir, não perca. Quem não puder assistir, leia o magnífico conto do Gonçalo que o DNA publica amanhã. Sempre consola.

 
JANELA. O conjunto dos blogs portugueses que valem mesmo a pena ainda é reduzido. Já temos "comunicado" com alguns deles: a Coluna Infame, claro; mas também o Ponto Media, de António Granado; e as Espigas ao Vento do Nuno Centeio. Faltava referir aqui o projecto Janela Indiscreta, uma criação colectiva sobre temas culturais e objectos de paixão (estética e/ou ética), feito no espírito dos "work in progress". O resultado é um "corredor" de imagens e textos (alguns retirados da imprensa diária) que geram no visitante uma espécie de encantamento, primeiro passo para a descoberta daqueles segredos que o colectivo – constituído por Ana Alves, António Rebelo, Cristina Fernandes, Lídia Pereira e Luís Rei –
nos oferece com um bom gosto no mínimo invulgar (para não dizer raro).
Na minha lista de temas a tratar – sempre incompleta e adiada – eu já tinha previsto há muito tempo este aceno cúmplice à Janela Indiscreta. Se aparece hoje, finalmente, é porque se deu ontem uma coincidência reveladora. Umas horas antes do meu post sobre os poemas do pai de Andrei Tarkovski, já eles tinham colocado na sua página um poema de Arsenii Tarkovski, antecipando (imagino) a exibição pela RTP2 do filme «O Espelho». Não era preciso mais nada para perceber que funcionamos, de facto, no mesmo comprimento de onda.

 
O GRAU ZERO. Soubemos pelo Público que um pequeno e bucólico país, o Butão, que em 1640 proclamou a primeira proibição sobre o tabaco, pretende retomá-la, opinião para a qual a cultura religiosa concorre positivamente. No coração rural do país, há pelo menos uma localidade em que a medida já vigora, imposta por moção popular. Em matéria de dissabores causados por vícios, o argumento mais usado contra este tipo de medidas será o do álcool na Suécia. Sabe-se dos vexames de hordas de suecos quando, logo nos aeroportos dos países de destino, se enfrascam com as primeiras garrafas com que os assolam no «tax free». E sabe-se das 300 mil destilarias clandestinas que se estimam existirem na Suécia. Tudo porque nesse avançado país do mundo – onde os mais ávidos chegam a beber o anticongelante do ar condicionado (o etilenoglicol) – são proibidas as bebidas alcoólicas. Ora o Butão entendeu que algo que só dá prejuízo – nem sequer é produzido no país – não deveria ser estimulado nem suportado pelo sistema nacional de saúde. Ao não ser produtor, o Butão perde ainda divisas com o consumo de tabaco, além da perda financeira, embora esta pudesse ser contrabalançada com medidas fiscais. Mas o argumento económico que a notícia reproduz não falava sequer em divisas, mas na pertinência de parte do rendimento nacional – privado, o dos cidadãos – ser gasto em algo que dá prejuízo a todos. «Deve o nosso pequeno país, onde a saúde é gratuita para todos, subsidiar maus hábitos?» questiona o director do departamento de saúde. Sabemos que desde 1974 a invocação dos «maus hábitos» é muito mal vinda entre nós, em qualquer contexto. Sabemos que para a geração educada posteriormente, essa coisa dos maus hábitos nem sequer existe e que, para a geração que a educou, qualquer conversa sobre bons e maus hábitos termina sempre com uma invocação à PIDE.
Temos honra em ter sido educados com critérios que, do Estado Novo ou não, sabiam ainda algumas diferenças entre maus e bons hábitos. E acreditamos que ambos existem e se dão mal, porque os maus contagiam depressa de mais os bons. No caso do tabaco, em que a poluição parece pequena, os tóxicos são debitados bem debaixo do nosso nariz, levando a uma taxa de absorção brutal, ao invés da das chaminés das perigosas incineradoras ou das termoeléctricas a carvão, hoje com elevadas responsabilidades e custos de despoluição. Sabemos como é difícil convencer um criminoso a mudar de vida, mesmo não sendo nós o Instituto de Reinserção Social. Muitos nem nunca mudam. Mas achamos que quem, ao observar esta notícia, lhe ocorra retaliar com a palavra obscurantismo, deve meditar. Sobretudo, na ignorância efectiva que os estados sustentam relativamente à economia nacional do tabaco. País produtor (modesto) de tabaco, Portugal viu há pouco serem anunciados cortes aos apoios a este tipo de cultura, sendo expectativa da UE que acabe por ser substituída por outras. A resposta dos agricultores ainda está por dar. Mas é só isto que se sabe. Ministério da Agricultura, da Saúde, Estatística, os dados públicos escasseiam. Como serão os não-públicos? Quanto gera no total a colheita de impostos sobre o tabaco? Quantos empregos gera? Quanto gasta(va) a UE em apoios? Quanto custam os prejuízos sobre a saúde, suportados pelo SNS? Quanto sobra a suportar por terceiros, fumadores involuntários incluídos, que pagam parte da saúde do seu bolso? Qual a taxa de crescimento do tabagismo entre as jovens mulheres, para a qual somos de vez em quando alertados, sempre com números de pouca precisão? Quanto pagam, em suma, por ano, os não fumadores, para que os fumadores continuem o seu
vício envenenador em paz e sossego? Quantos agricultores fazem dinheiro e quanto? Quanto ganham as tabaqueiras? Nada disto é líquido. À semelhança, de resto, de muitas outras questões nacionais, relativamente às quais os governos decidem sem os cidadãos poderem sequer avaliar a respectiva
justeza, critério que, quanto a nós, preside à calamidade da nossa democracia.

Oremos. Que a pequenez do Butão o preserve dos tentáculos das tabaqueiras.


(«O Grau Zero» é da responsabilidade de Sandra Augusto França, que não tem afinidades com nenhum partido nem está muito convencida de ser de esquerda)



 
O «PAPÁ» ROUSSEAU. Ficámos espantados com a evocação, há uns dias atrás, do fantasma de Rousseau (que pelos vistos continua a atormentar a direita), pelo meio da discussão sobre as importantes manifestações contra a guerra. Nós pensávamos que toda a gente sabia que o contraditório Jean-Jacques tinha deixado os seus filhos na “roda” (ou seja num “hospício de enjeitados”, ou num "orfanato" se preferirem). A descendência de Rousseau foi criada como “filhos de pai incógnito”, o que dificulta enormemente a procura dos seus descendentes. Segundo algumas fontes, o iluminismo burguês de Rousseau anda um pouco espalhado por todo o lado, do Congresso americano ao Eliseu, do teatro naturalista ao cinema de Hollywood, da ecologia política à declaração dos direitos humanos (nenhuma tinha ainda referido o regime de Ceausescu, mas quem sabe?). Nós, no Blog de Esquerda, suspeitamos fortemente que também devemos ter herdado qualquer coisa dele, mas não temos a certeza absoluta: é que não estabelecemos a nossa genealogia na Torre do Tombo...

 
OIL WAR. É estranho. A extrema-direita americana descobriu que a França e a Rússia estão contra a intervenção militar no Iraque por causa dos seus interesses petrolíferos na região. O que será sem dúvida verdade e uma razão de peso para desconfiar da boa fé de Chirac e de Putin. Por isso a contestação a esta guerra terá que passar por outros meios, como provaram as manifs do último fim-de-semana. Mas afirmando isto, a mesma extrema-direita (e as suas câmaras de eco) continuam a querer convencer-nos que o texano Bush e a sua administração (a mais próxima das companhias petrolíferas de que há memória), apenas querem atacar o Iraque por questões morais e para defender a democracia. É estranho. Mesmo muito estranho...

 
VERSOS QUE NOS SALVAM. Houve dois aspectos fundamentais de «Zerkalo» que não cheguei a mencionar no post anterior: a extraordinária interpretação de Margarita Terekhova (uma belíssima actriz em todos os sentidos da palavra) e a poesia de Arsenii Tarkovski, o pai de Andrei. Os seus poemas são pequenos milagres que surgem ao longo do filme, como aparições. E alguns deles estão traduzidos em português, por Paulo da Costa Domingos, num pequeno livro precioso intitulado «8 Ícones» (Assírio & Alvim, colecção Gato Maltês). Deixo aqui quatro.

Rios palpitantes por dentro do cristal,
A montanha assomando na bruma, mar enfurecido,
E tu com a bola de crista nas mãos,
Sentada num trono enquanto dormes,
- Deus do céu! - tu pertences-me.
Acordas para transfigurar
As palavras de todos os dias,
E o teu discorrer transbordante
De poder revela na palavra «tu»
O seu novo sentido: significa «rei».
Simples objectos transfigurados,
Tudo - a bacia, o jarro -, tudo
Uma vez de sentinela entre nós
Se torna límpido, laminar e firme.

***


Porque o destino seguia-nos o rastro
Como um louco com uma navalha na mão.

***

Hoje vieste, e o dia pôs-se
soturno, de chumbo,
e chovia, fazendo-se tarde,
com gotículas na ramagem fria.

***

Não acredito em pressentimentos, nem agoiros
Me assustam. Não evito a calúnia
Ou o veneno. Não há morte sobre a terra.
Todos são imortais. Tudo é imortal. Não há
Que ter medo da morte aos sete
Nem aos setenta. O real e a luz
Existem, mas não a morte ou a treva.
Viemos hoje à enseada,
E o cardume da imortalidade veio
Quando eu puxava as redes.



 
REFLEXÕES DE TARKOVSKI. Há muitos anos, o Alexandre Andrade falou-me deste filme como sendo um dos que ele mais amava: «O Espelho» («Zerkalo»), de Andrei Tarkovski. A RTP2 acaba de o transmitir (neste ingrato horário da meia-noite) e eu ainda estou naquele estado catatónico em que ficam os cinéfilos quando vêem filmes de uma desmesurada beleza.
Esta é uma obra autobiográfica, onírica, cheia de suspensões, elipses, regressos à infância, caminhos de bruma, mistérios. Se fosse uma casa, teria as portas todas fechadas (e nós a escutarmos, atrás delas, os mais secretos ruídos). Há sobretudo dois planos de que gosto muito: toda a sequência do incêndio no celeiro (as crianças estão à mesa, a mãe avisa-os, eles levantam-se e a câmara deambula pela casa, vai captando reflexos nos vidros, movimentos na sombra, até chegar cá fora, à paisagem das chamas com duas pessoas paradas em frente ao incêndio, como num quadro) e o último traveling, aquele em que a câmara se move "para dentro", na direcção do espectador, afastando-se das personagens e mergulhando no "bosque escuro" do esquecimento ou da morte (a dada altura alguém cita, certamente não por acaso, os primeiros versos da «Divina Comedia» de Dante: «Nel mezzo del cammin di nostra vita/ mi ritrovai per una selva oscura/ ché la diritta via era smarrita»). Quando filmou «O Espelho», em 1975, Tarkovski tinha 43 anos.




20.2.03
 
O NOSSO MUNDO. O homem que lançou fogo a uma carruagem de metro, em Daegu (Coreia do Sul), matando mais de 120 pessoas, disse que o fez «para morrer na companhia de outras pessoas». Pelos vistos, sobreviveu; as outras pessoas é que não. Estranho mundo este, em que até os suicidas, no acto mais desesperadamente pessoal que existe, não conseguem enfrentar, sozinhos, a solidão.

 
NÓS SOMOS A OUTRA SUPERPOTÊNCIA. Na crónica de hoje no DN, Miguel Portas refere um editorial do New York Times que chega a uma conclusão óbvia: após a mega-manifestação planetária do passado sábado, passaram a existir duas superpotências. Se de um lado temos os EUA, na sua incansável fuga para a frente, combatendo o fogo do terrorismo com gasolina; do outro temos uma opinião pública mundial consciente e que cada vez se limita menos a depositar o voto no dia das eleições. Em Espanha, o PP já percebeu esta nova dinâmica e veio dizer que "compreende" os manifestantes que saíram à rua. Aznar continua a fazer o seu frete a Bush, mas os companheiros de partido não querem, pelos vistos, ir ao fundo com ele na próxima chamada às urnas. Só por cá é que Barroso e o PSD (mais o PS...) continuam impávidos e serenos, como se nada se tivesse passado. E nada se pudesse, muito brevemente, vir a passar.



 
AVENTURAS DA RAPOSA DIALÉCTICA. Esta manhã, a raposa dialéctica sentou-se na "Brasileira" a folhear o Jornal de Letras, enquanto lá fora a chuva caía, oblíqua, sobre a estátua de bronze do poeta (sim, às vezes dá-lhe para ser snob, são fases).
Mas dizia eu que a raposa estava a ler o JL, quando, de repente, perdendo por completo a compostura, deu um pulo na cadeira e quase entornou a bica curtíssima, a escaldar, em cima de um turista de Milão (habituado ao assédio, é certo, mas por outro tipo de italianas). E qual foi a causa de tamanho sururu? Ora essa, a página 3, claro está. Então não é que na secção dos "Sinais" duas das cinco setinhas apontam para baixo (Morais Sarmento e Clara Pinto Correia)?
A raposa dialéctica exibiu um sorriso de triunfo (sim, às vezes dá-lhe para ser snob, são fases). E pensou para os seus botões: «Ena, ena, quem diria. Parece que a malta do JL anda a ler o que eu digo no Blog de Esquerda...»


 
DEBATE. A associação Intervenção Democrática promove, no próximo sábado (dia 22), às 14h30 horas, no Hotel Roma (Lisboa), uma mesa redonda sobre «Comunicação Social e Democracia». Os oradores convidados são: Mário Ventura («A Comunicação Social no Estado Actual da Democracia Portuguesa»; Fernando Correia («Quem São Os Media Hoje»); José Rebelo («Os Media e o Discurso Político»); e António Rego Chaves («Jornalistas Sem Direito à Palavra»). Depois das quatro intervenções, haverá um debate aberto à participação da assistência, com moderação de João Corregedor da Fonseca. A entrada é livre.


 
O GRAU ZERO. O governo angolano classificou recentemente de terroristas as emissões da Rádio Ecclesia (de inspiração católica) que transmitiram críticas a oficiais das Forças Armadas Angolanas por parte dos ouvintes da rádio, em chamadas telefónicas. Não é a primeira vez que acontecem dissabores entre a comunicação social e o estado angolano, governado por uma «esquerda» que alguma outra «esquerda» portuguesa ajudou a colocar no poder em Angola após a independência. Não é à geração da blogmania, julgo, que cabe fazer juízos sobre a descolonização. No entanto, cabe-nos absolutamente perguntar: quando começa essa «esquerda», há vinte e oito anos no poder, a governar o país? Nos restantes países democráticos, os mandatos são bem mais curtos...

(«O Grau Zero» é da responsabilidade de Sandra Augusto França, que não tem afinidades com nenhum partido nem está muito convencida de ser de esquerda)



 
CINEMA ABERTO. Aproveitando uma nesga de terreno desocupada, o novo cinema MK2 em Paris (que abriu ontem) é uma espécie de grande volume branco encalhado à beira das torres da Biblioteca Nacional de França, estendendo-se por um triângulo estreito numa arquitectura transparente de fachadas de vidro. Um espaço amplo, onde a luz entra livremente, para um conceito de cinema como “interface” artístico, na boa tradição do circuito independente de cinema em Paris. O tal modelo que Paulo Branco transplantou para Portugal e que os frequentadores do King conhecem bem.
Mas este MK2 Bibliothèque (14 salas) parece querer ir ainda mais longe no contacto com as outras artes e na extensão do conceito de “sala de cinema”. Além de cafés e restaurantes (entre os quais um très chic «Jules et Jim»), de uma loja de DVD's e uma outra da Harmonia Mundi, abrem-se, pelo meio das lojas, pequenos e inesperados espaços de exposição, onde se pode ver um sofá-automóvel chamado “Bonnie and Clyde”, ou uma algo rarefeita e insípida instalação a partir de imagens do “Mépris” de Godard. Prometem, os programadores, que se seguirão animações musicais e literárias. Mais: anunciam uma apresentação regular de curtas-metragens e a difusão vídeo de filmes que não conseguiram orçamento para distribuição, graças às novas tecnologias do digital. Vamos esperar.
Por enquanto tivemos o gosto de ver cinema em salas acolhedoras (o designer chamou-lhes “receptáculos de pessoas e imagens”) e em que o conforto do espectador parece ter sido, por uma vez, pensado em função da visão e da concentração desejáveis. Ou seja, lugares em anfiteatro e em altura, onde as cabeças de outros espectadores não interferem no campo de visão e, detalhe importante, cadeiras não demasiado confortáveis, lembrando certas texturas ortopédicas e impedindo o despontar da sonolência mal o espectador se senta. Para mais, e além do desenho cuidado, as cadeiras podem tornar-se num sofá de dois lugares, convite a uma outra intimidade. Resta saber se esta nova maneira de viver o cinema significa um início de resistência durável, nos meios da distribuição comercial, ao império das pipocas. É, pelo menos, uma óptima notícia para quem passa os seus dias no rez-de-jardin da Biblioteca Nacional, enfiado em pilhas de livros. Há agora, ali mesmo ao lado, uma agradável e secreta rede de “receptáculos” de visão à nossa espera, numa irresistível alternância entre salas escuras e átrios luminosos.

 
COLUNA INSONE. Os nossos rivais não dormem. Literalmente. Sempre agarrados ao computador (sobretudo o Pedro Mexia), escrevem a um ritmo diabólico. São textos atrás de textos atrás de textos, colocados "on-line" às horas mais incríveis. Um verdadeiro exemplo de bloguismo militante e mais-que-perfeito – sobretudo agora que começam (at last) a falar de outros temas, menos polémicos e com mais "substância". Parabéns.

PS - Por variadas razões, incluindo as estritamente profissionais, os mentores do BdE nem sempre conseguem acompanhar a pedalada "infame". Esperamos que os nossos leitores fiéis não se sintam defraudados, até porque os blogs não se medem aos posts.


 
VASCO DESGRAÇA O MOURO. Além de poeta, tradutor e deputado europeu, Vasco Graça Moura é um caso clínico de dupla personalidade. Nele coexistem a delicadeza erudita do esteta (Dr. Jekill) e a vocação trauliteira do polemista (Mr. Hyde). Escusado será dizer que VGM, nas suas crónicas "políticas", se deixa dominar implacavelmente pelo segundo. Nos piores dias chega mesmo a transformar-se numa espécie de João César das Neves (argh!), embora com estilo cuidado e sintaxe escorreita. Ontem foi um desses dias. E quando me preparava para dissecar a obra-prima, chegou um e-mail do Ivan Terráqueo que resume bem a questão. Ei-lo:
A lusitana pátria agradece hoje a Vasco Graça Moura (VGM) por mais uma das suas brilhantes ficções. Depois de ter caricaturado os artistas contemporâneos como um bando de sanguessugas (um exercício clássico entre os profissionais de opinião de direita que, como outros, ficou a milhas do humor com que Miguel Esteves Cardoso há quase vinte anos abordou o tema), VGM brinda-nos de novo com o seu estilo de guionista freelancer em Hollywood. Na edição de hoje do DN, pinta um fresco de uma Europa tomada pelos muçulmanos. A crónica intitula-se “Europa, 17 de Fevereiro de 2033”, mas o chauvisnismo é tão desastroso e desastrado, que não se percebe por que motivo VGM não intitulou a peça de “Europa, XVII de Fevereiro de MMXXXIII”. Aguarda-se com expectativa a continuação desta saga com o episódio: “Bush, o cruzado que veio do Texas”. Traduza, Dr. VGM, traduza e não se disperse.


 
NOVA ERA. O Vaticano anda a discutir o conceito de "new age", bem como a compatibilidade entre a espiritualidade oriental (do Yoga, por exemplo) e os princípios cristãos. Há quem aplauda o gesto. O ecumenismo é sempre bonito, fica bem na fotografia, demonstra abertura ao "outro" e boa vontade.
Mas pergunto eu, em toda a minha inocência: neste mundo tão complexo em que vivemos, não terá a Igreja Católica outras coisas, mais importantes, sobre as quais reflectir?



 
ERRATA. A direita nunca se deu muito bem com os números, face visível dessa religião obscura que é a matemática. Números são coisa de fazedores - engenheiros, técnicos de estatística, sapateiros - ou de místicos fascinados com a perfeição do Sete. A direita gosta mais das palavras, das profissões de fé, dos discursos aéreos e da letra de lei. Só que há limites. E o João Pereira Coutinho - o "infame" enfant terrible (pode ser em francês?) da Coluna - devia saber onde eles ficam. Há uns dias, a propósito da maior manifestação global que alguma vez se viu neste desgraçado planeta, escreveu: «Milhares de pessoas em Lisboa, milhares de pessoas em Madrid e milhares de pessoas pelo mundo». Onde se leram estas palavras, deve ler-se: «Dezenas de milhares de pessoas em Lisboa, centenas de milhares de pessoas em Madrid e milhões (muitos milhões) de pessoas pelo mundo». É enorme a diferença entre as duas frases, João. A mesma que vai do rigor à má-fé.


 
VERSOS CONTRA A BARBÁRIE. Na confusão mediática dos dias de hoje (onde a guerra parece ser assunto "encerrado") fica muitas vezes esquecido o preço real das intervenções militares. Cinco poemas do ciclo «Manual de guerra alemão» de Bertold Brecht, escritos no exílio em Svendborg. Memória concisa da crueldade de outras guerras. Os poemas foram traduzido em francês por M. Regnaut (única tradução a que tivemos acesso).

5.
Les travailleurs réclament à grands cris du pain.
Les marchands réclament à grands cris des marchés.
Le sans-travail a souffert la faim. Souffre
À présent la faim le travailleur.
Les mains, qui demeuraient croisées, de nouveaux bougent :
Elles tournent des obus.

13.
C’est la nuit. Les époux
Se couchent dans leurs lits. Les jeunes femmes
Accoucherons d’orphelins.

15.
Ceux d’en haut disent :
Au bout du chemin, la gloire.
Ceux d’en bas disent :
Au bout du chemin, la tombe.

18
Quand viendra l’heure de marcher, beaucoup ne sauront pas
Que leur ennemi marche à leur tête.
Cette voix qui les commande
Est la voix de leur ennemi.
Celui qui parle, là, d’ennemi,
Est lui-même l’ennemi


Sur le mur, ces mots à la craie :
Ils veulent la guerre.
Celui qui a écrit ces mots
Est déjà tombé.


19.2.03
 
FILIPE MOURA (4). And finally, last but not least:
Quem felizmente não faltou à manifestação foi o meu Presidente (refiro-me a António Dias da Cunha). Uma vez mais, sem comprometer a independência do seu/meu clube. Penso que seria interessante que este homem se metesse na política a sério. Voltarei a este assunto noutra altura.

 
FILIPE MOURA (3). A mini-saga continua.
Ainda sobre anglo-saxões: no sábado, na Tocha, Freitas do Amaral admitiu que «a Europa sobreviviria perfeitamente sem o Reino Unido». A verdade é que, cedo ou tarde, alguém vai ter de encostar Tony Blair à parede. Talvez nem seja a Europa, mas o seu próprio povo. Tony Blair é um malabarista, com um pé na Europa e outro na América. Guterres também o era, e viu-se como acabou.

PS - Quem infelizmente não aprende e persiste em tácticas malabaristas é o nosso PS. Mesmo com Mário Soares a dizer que Saddam era "monstruoso". Mesmo se os organizadores falavam numa manifestação "contra a guerra", e ninguém tenha falado em apoiar Saddam. Que dizer de Ferro Rodrigues a declarar, à hora da manifestação, que tinha comunicado ao primeiro ministro «a posição da maioria dos portugueses»? O vocabulário "infame" é o mais apropriado: "pusilânime" e "repugnante".


 
FILIPE MOURA (2). Mais um post sintonizado em FM:
Prometo uma descrição da manifestação de Sábado em Nova Iorque para breve, quando tiver mais tempo. Primeiro queria ver o que diziam os media pró-Israel - nos EUA e em Portugal. A esse respeito já pude tirar algumas conclusões, mas alguém, Paul Krugman, no The New York Times, as escreveu muito bem. Um artigo indispensável. E não me venham dizer que estes jornais são de "esquerda"! Nem mesmo anglo-saxónica. A esquerda anglo-saxónica existe e eu vi-a no Sábado, em Nova Iorque e em Londres. Pode ser a "esquerda WASP", mas a esse respeito eu recordo as palavras do Miguel Sousa Tavares: "Outra gente. Definitivamente, outra gente."



 
FILIPE MOURA (1). Com algum atraso - desculpa, Filipe - aqui vai uma revoada de contribuições de um dos nossos "enviados especiais" (salvo seja) nos EUA. O primeiro é, mais uma vez, sobre uma afirmação do mais prolífico dos "infames".

Eu juro que queria seguir o conselho do Alexandre Andrade e não me meter em mais polémicas com o Pedro Mexia, mas quando ele escreve coisas como «organizações gay vão apoiar a manif. Faz todo o sentido: os gays são muito mais perseguidos em S. Francisco do que em Tikrit», não há como evitar. Pedro, se acreditas mesmo neste raciocínio tão linear, então desculpa mas estás
bem para o Bush. Podes passar a escrever-lhe os discursos, que serão "tudo métrica e rima". Se não acreditas, então ou és um demagogo cínico (mas estás a falar para o público errado; não creio que os teus leitores sejam tão básicos no raciocínio), ou estás a gozar connosco. Nesta última hipótese (a mais provável), não queiras ser levado muito a sério. Em ambos os casos, não fales
em «legitimidade e moralidade» pelo meio.



 
A PIOR ESTAÇÃO. Primeiro foi a chuva (muita), depois o frio (no país todo), agora outra vez a chuva e a neve (a norte). As pessoas queixam-se muito, os telejornais não falam de outra coisa. Mas a verdade é que estamos no Inverno. Aquela estação em que é suposto chover e fazer frio, lembram-se?



 
AINDA A RUA. Acácio Barradas, nosso recente leitor e jornalista de créditos firmados (como se dizia antigamente), responde num tom irónico às teses de Pedro Mexia sobre a relação da(s) direita(s) com "a rua".

Pedro Mexia dixit: «A esquerda adora a rua». Deverá ser por isso que, após o 25 de Abril, o esquerdista Manuel Múrias, anteriormente nomeado director da RTP pelo marxista-leninista Oliveira Salazar, editou e dirigiu um jornal que justamente intitulou «A Rua». E também deverá ser por isso que o ex-director do «Independente», após um longo tirocínio eleitoral por feiras e mercados como líder de um partido de esquerda, já na qualidade de ministro da Defesa convocou para o Caldas uma manifestação de desagravo contra as atoardas com que a direita vilipendiou a sua honra, acusando-o de fraude na Moderna e exigindo a sua demissão. Assim se faz a História...



 
ALTA TENSÃO. Do poeta José Carlos Barros, recebemos esta pista sobre a tempestade política que está quase a rebentar na autarquia lisboeta:

Pedro Santana Lopes é o presidente da Câmara Municipal de Lisboa. António Modesto Navarro vai ser o presidente da Assembleia Municipal. O clima de tensão e crispação já começou – e Santana Lopes ameaça renunciar ao mandato. Para os que querem continuar a seguir este caso, recomendo a leitura de um romance ("policial político"?) de Modesto Navarro editado pela Teorema aqui há uns anos: chama-se «O Emblema Leonino» e ajudará, certamente, a compreender melhor a coisa...


 
SIDNEY ANTES DA CHUVA. Decididamente, o Blog de Esquerda não pára de se internacionalizar. Chega-nos agora uma participação de Francisco Nazareth, que nos escreve verdadeiramente do outro lado do mundo. Leitor atento do nosso Blog, o Francisco estreia-se com uma crónica sobre a imensa mobilização contra a Guerra que percorre a Austrália, país onde vive. Impressões que nos ajudam a medir melhor o extraordinário impacto da manifestação internacional a que pudemos assistir sábado passado, e que nos fez descobrir uma «sincronia contestatária» sem precedentes. O texto integral da crónica pode ser lido no site usina de letras, onde estão arquivados outros textos do Francisco Nazareth. Aqui ficam alguns excertos:

O dia amanheceu cinzento e pesado; um calor sufocante abafa o pensamento e faz-me sentir que é hoje, sim, é hoje que o céu nos vai cair em cima. O Verão em Sydney é assim: ou sol e vento ou chuva e humidade (sempre com um grande e abafado calor).
Faço 8 km. de autocarro até ao centro da cidade, passando pelos incaracterísticos subúrbios nos quais foi reciclado o sonho dos imigrantes. Disseram-lhes, antes de virem, que, por aqui, "os dólares cresciam nas árvores". Em vez disso, trinta anos de trabalho trouxeram-lhes uma casa de tijolo burro, dois ou três amigos e um subúrbio cheio de suspeitas, insegurança e preconceitos.
(...)
A caminho da cidade telefono a uma amiga. Diz-me que está junto da "Archibalds Fountain", ao fim de "Hyde Park". Saio do autocarro e verifico, desde logo, que vai ser impossível encontrá-la. A ocasião é única, histórica, memorável. (...) Gregos sorriem para libaneses, anglo-saxónicos confraternizam com latino-americanos. A sociedade dos exilados exprime-se: sem barreiras, sem estereótipos, sem o controlo excessivo das carreiras, do dinheiro, do sistema, da polícia, dos horários. A própria polícia faz algo nunca visto: dança! Pessoas banham-se na fonte ao som de "tecno", grupos imensos dançam com música latino-americana improvisada. Uma mulher grávida pintou o símbolo da paz sobre a barriga da esperança. Hyde Park, um espaço sombrio, rodeado por referências neo-clássicas e coloniais (típicas de uma busca nostálgica por um passado europeu que, não só não é possuído, como nega a herança indígena local), ganha nova vida, tranforma-se num "happening" renovado dos anos 60, época na qual muitos dos presentes pensaram que algo mais era possível. (...)
Os discursos são momentos de coragem. Laurie Brereton suprime a (muito notada) ausência do "seu" Partido Trabalhista. Defende a (já pouco original) tese da dissidência de estado: deixem trabalhar os inspectores. Não é muito aplaudido. Bob Brown, senador do Partido Verde ("The Greens") faz um discurso economicamente contundente. A retórica das inspecções não resolve o problema. Os biliões gastos pelos Estados Unidos para colocarem tropas no Golfo chegavam para duas coisas fundamentais: acabar com a fome no mundo em três anos, e financiar suficientes projectos de investigação que propiciassem uma redução realmente eficaz nas camadas de gases que destroem o equilíbrio do planeta (situação na qual a Austrália também anda a reboque dos Estados Unidos, não tendo ratificado os acordos de Kyoto). Além disso, seriam ainda suficientes para reduzir o analfabetismo exactamente nesses países – presentemente atacados – que foram condenados ao "sub-desenvolvimento" por governos fantoches instalados pela CIA. Contundente; forte; pungente; os aplausos reflectem-no.
Mas a intervenção mais aguardada, a mais desejada, fica para o fim: John Pilger, jornalista e dissidente australiano que os portugueses deveriam lembrar como figura de proa da denúncia dos massacres perpetrados pelos militares indonésios em Timor. (...) Como jornalista e "free-lancer" (não tem emprego neste país uma vez que os jornais de maior tiragem – cujos donos são Rupert Murdoch e Kerry Packer – já várias vezes lho recusaram) tocou num ponto fundamental: o modo como os "media" afunilam o discurso, tornando-o manipulável pela tríade Bush/Blair/Howard. Tendo escrito para o "Guardian", esteve no Iraque por alturas da primeira guerra do Golfo e apresentou-se como testemunha dos chamados "danos colaterais": Quantos jornais mencionaram as crianças mortas? Quantas televisões falaram nos iraquianos enterrados vivos? O silêncio foi, momentaneamente, sepulcral: acabou interrompido pelo aplauso triunfante de 600 mil pessoas (com mais 200 mil que por alturas da marcha pela reconciliação aborígene, esta foi a maior manifestação de sempre na história da Austrália). Entretanto começa a chover torrencialmente (...) e a marcha, iniciada no parque, segue pelas ruas da cidade. Decido ir para casa a pé. Subo Oxford Street e viro para a Flinders Street já completamente encharcado. (...) O meu mundo não será o mesmo: "Outros – vários – mundos são possíveis".



18.2.03
 
IT RUNS IN THE FAMILY. Jeb Bush, o governador da Florida e irmão mais novo do presidente George W., está em Madrid com um grupo de empresários para uma visita de negócios. Consta que numa cerimónia oficial se referiu a José Maria Aznar como o «Presidente da República de Espanha» (ai que saudades de 1936!). Foi um lapso, claro está. Ele sabe perfeitamente que a Espanha é uma monarquia e que o rei se chama Juan Carlos. Longe dos ouvidos malévolos dos jornalistas, terá mesmo comentado, depois de esclarecida a "gaffe": «Não foi esse rei que casou com uma princesa grécia?»

 
O HOMÓNIMO. Numa notícia sobre a tragédia num clube nocturno de Chicago, em que morreram 21 pessoas devido a um movimento de pânico, descubro o nome do comissário dos bombeiros daquela cidade americana: James Joyce. Tal e qual. Será que o homem, entre dois fogos, já leu o «Ulysses»?

 
REVISTA DE IMPRENSA. Os jornais populares do Estados Unidos entraram por estes dias num verdadeiro delírio anti-francês, sugerindo entre outras coisas que os "comedores de queijo" esqueceram o sacrifício dos soldados americanos na II Guerra Mundial. Este é um argumento desonesto, porque o desembarque na Normandia não foi feito para salvar a França da ocupação nazi, mas sim o mundo e os próprios EUA. O conflito era global e os americanos fizeram a sua parte (tal como o Exército Vermelho, na frente Leste). Os franceses nunca esqueceram o dia D, mas não podem ficar reféns para sempre dessa "boa acção" americana. Se vamos por aí, os americanos também devem aos franceses muita coisa, a começar na inspiração filosófica dos "founding fathers" e a acabar na Estátua da Liberdade.

 
SOUS LES PAVÉS, LA PAIX. Paris veio para a rua em massa compacta, como muitas outras capitais europeias, apesar de o governo francês ter tomado uma posição anti-"intervenção militar". E isto porque quem veio para a rua não quis deixar nas mãos do trapaceiro Chirac, que é muito dado a manigâncias, a única manifestação francesa de recusa desta guerra. Necessária demonstração pública, portanto, para que o governo francês não venha a fazer compromissos ou a virar a casaca. No cortejo vimos de tudo, veteranos da guerra do Golfo (sim, a França já fez uma), os mais descabelados grupos maoistas (porque ainda os há), os exilados curdos (também descabelados, mas com mais razão), os fanáticos dos patins em linha, muitos cristãos ingénuos, sindicatos, partidos e o diabo a sete. Mas os franceses anónimos que se juntaram não pareceram incomodados, antes pelo contrário. Talvez porque saibam o que “manifestar” quer dizer (e porque “aprenderam” em 68 que a rua é um meio bem eficaz para lutar contra as “catástrofes políticas”), não se mostraram muito impressionados com o radicalismo de certos slogans, que até foram bem minoritários num cortejo particularmente imaginativo. Para além do já clássico «Halte à la Busherie!», pudemos ler nos cartazes frases como «Ferme ta Bush!», «Bush tes fesses de là» ou o magnífico «Chefs d’états, déBUSHez vos yeux, les peuples ne veulent pas la guerre!»... Aliás, a criatividade dos manifestantes nunca poupou os verdadeiros alvos da mobilização (ou seja, Bush e não a América, Saddam e não o Iraque). A mistura de todas as radicalidades, os discursos de todas as formas e feitios, tiveram um efeito seguro: confortaram quem lá esteve, demonstrando que esta mobilização é transversal à sociedade francesa. Afinal, viu-se depois, também o é à escala europeia. Para lá dos governos e das religiões. E sobretudo, para lá do "bem" e do "mal"...

 
JE RENTRE À LA MAISON. Depois de vários dias em que o José Mário aguentou o barco quase sozinho, voltamos a ser dois a conduzir este blog. Afastado por afazeres vários, perdi quanto a mim uma fase particularmente trepidante da nossa polémica com a Coluna Infame, em que o discurso do nosso blog rival se radicalizou, por vezes de forma grosseira. Voltarei também eu a comentar essas derrapagens, apesar das múltiplas reacções que elas já provocaram, porque elas nos parecem (a nós, Blog de Esquerda) particularmente sintomáticas do mal-estar que o partido da guerra começa a sentir, num debate em que os factos e as opiniões públicas lhe estão a tirar o tapete debaixo dos pés. Mas antes, as impressões da manif de Paris.

 
SOCORRO! O Possidónio Cachapa, amigo e excelente escritor (mais um), aventurou-se nestas coisas dos blogs com um comentário a uma das nossas prosas. Vai daí, houve resposta do Pedro Mexia na Coluna. Uma resposta a exigir réplica do Possidónio. Só que entretanto os computadores falharam, houve impasses, equívocos, hesitações. E a réplica só surge agora, como segue:

Meio adormecido, destapo a caixa de Pandora e aqui estou eu, 15 minutos depois da minha primeira incursão (se fosse sensato, a última...) pelo blogworld, para responder ao PM. Primeiro: como não sou o Prado Coelho (embora uma certa tendência hobbitiana nos una), não faço comparações entre gente brilhante, boa e simpática e os referidos políticos. Mais, nem sequer confronto as figuras públicas que nos chegam filtradas pelos media com as pessoas que elas são. Provavelmente serão todos bons chefes de família, amigos dos seus cães de raça e razoáveis devedores no Rosa e Teixeira (discutível assunto este último, e partilhado por cores mais rosadas, mas isso é lá com cada qual). Falo do papel que desempenham, do tom absolutista com que professam A VERDADE, e do ar de "coninhas" (para elucidação das hostes, quando uso o termo refiro-me a alguém que dá ideia que se escondeu atrás das saias da governanta depois de ter levado porrada de todos os rapazes da rua, mesmo dos mais piolhosos; daqueles que nem uma boneca paralítica seriam capazes de enfrentar. Não há nisto nada de sexista. Ou só tenho o privilégio de conhecer mulheres admiráveis...).
Segundo: Não disse que esta abundante qualidade de epítetos era extensível a todos os que acreditam que há mais coisas para conservar no mundo do que para mudar. E muito menos que é propriedade da esquerda o ar de cavaleiro na sua brilhante armadura... Basta pensar nos antigos ministros do ps para ver que até o Zé Cabra consegue parecer mais destemido e elegante.
Terceiro: com todo o respeito e simpatia para com os responsáveis deste blog-de-esquerda, teria respondido à interpelação de Pedro Mexia (é preciso evocar aqui as suas inúmeras e mais que evidentes qualidades? Creio que não) se SOUBESSE COMO RAIO É QUE SE RESPONDE (tecnicamente falando) NAQUELE INFAME BLOG! :-)
Ah... sobre o relatório Kin., peço desculpa de não o ter totalmente na memória. Mas li-o há muito tempo. No tempo em que lia mais e fazia menos. Ora como dizia o Camões: «Mudam-se...»



 
A BLOGOSFERA NÃO PÁRA DE CRESCER. Vale a pena acompanhar (no sempre actualizadíssimo Ponto Media, de António Granado, por exemplo) a fabulosa expansão da blogosfera a nível mundial. Nos últimos meses, as coisas aceleraram e a «cultura blog» começa a ser tratada como um fenómeno marcante deste dealbar de milénio. Ou muito me engano, ou isto é só o início de uma verdadeira revolução mediática (os jornais e as televisões que se cuidem) e é bom sentir que estávamos lá (estamos lá), ainda inocentes, no princípio de tudo.

 
UM SINAL. Só para reforçar o que é dito no post anterior, fica uma informação que está a provocar ondas de choque na blogosfera. A Pyra Labs, empresa que criou o sistema informático a que estamos ligados (Blogger), acaba de ser comprada por um dos maiores gigantes da internet: o Google. Esse mesmo, o motor de busca mais potente do universo e arredores. Pois é, isto está mesmo a tornar-se um caso sério.

 
PORTAS FECHADAS. Prepara-se uma guerra no mundo, Portugal alinha diplomaticamente com uma das partes, há divisões na Europa comunitária, vivem-se dias de crise na NATO. E o que é que faz o nosso ministro da Defesa, tão activo e palavroso noutras alturas? Remete-se à discrição e ao silêncio mais completos. Não é estranho?

17.2.03
 
A VOZ DE BIN LADEN. Por falar em Afeganistão, os americanos divulgaram registos de uma voz que dizem ser a de Bin Laden, apelando de novo à guerra santa e ao apoio dos países muçulmanos a Saddam. Este é um pau de dois bicos. Porque a voz, se for verdadeira, não vem provar apenas que há uma ligação (mesmo se limitada às muito vagas intenções anti-americanas) entre a Al-Qaeda e o regime de Bagdad. A voz, se for verdadeira, vem provar que Bin Laden continua vivo, apesar de todos os esforços da Administração americana para o deter, "dead or alive". E isso é uma derrota pessoal do presidente Bush, a prova de que não cumpriu a promessa feita aos cidadãos americanos, logo após o 11 de Setembro.


 
WHERE IS AFGHANISTAN? Derrubado o regime taliban e deitadas por terra as poucas ruínas que ainda restavam de pé, num país comido pelo pó e pela guerra, nunca mais se ouviu falar do Afeganistão. Curioso, não é? Nem uma palavrinha sobre o que se passa em Cabul, nem uma reportagem de dois minutos com refugiados em Kandahar. Já se sabe: o mundo só olha para um sítio de cada vez e agora é o Iraque, é Saddam, é Bagdad. Mas, numa altura em que se fala tanto dos cenários pós-guerra e da futura "reconstrução" americana no Médio Oriente (a democracia, o progresso, etc), talvez valha a pena colocar esta pergunta simples: o que é que os EUA fizeram pelo Afeganistão, depois de o bombardearem meses a fio? A resposta é igualmente simples: nada, rigorosamente nada.



 
A TV QUE RI. Nem sempre concordamos com os artigos de Eduardo Cintra Torres sobre televisão (coluna «Olho Vivo», às segundas-feiras, no Público), mas hoje temos que reconhecer que acertou na "mouche". Há éter a mais nas estações (públicas e privadas) cá do burgo. E aos apresentadores "sempre felizes" apetece perguntar o que numa célebre anedota se perguntava às hienas: afinal, riem de quê?

 
O QUE DIZ A FUTURA MINISTRA DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS. Ana Gomes entrou no PS como saiu da diplomacia portuguesa em Jacarta: triunfalmente. Basta ler a entrevista que deu hoje ao Público para intuir que irá longe, não só no seu novo partido mas também na política portuguesa. Pondo de lado a sua esfarrapada justificação para a ausência do PS na manif de sábado, quero destacar meia-dúzia de frases que vem pôr o dedo numa ferida que ainda nos vai causar muitos dissabores.
Diz a ex-diplomata:
Estou convencida que o Governo [de Durão Barroso] defende uma posição de alinhamento, de seguidismo em relação aos EUA. Eu vi, suponho que o ministro dos Negócios Estrangeiros português, justificar a posição portuguesa com a visibilidade. Não precisamos de visibilidade por más causas, sobretudo quando seguimos a Espanha, que conjunturalmente tem uma posição importante, que é a de ser membro do Conselho de Segurança. O Governo português colocou-nos numa situação em que não se percebe o que é que Portugal tem a ganhar. Pelo contrário, percebemos o que está a perder: uma posição especial no contexto europeu. Quando se voltar a discutir nos conselhos europeus questões como divisões de fundos a Alemanha vai explicar-nos algumas coisas . (…)
Os custos para Portugal são imensos. Não só precipitámos as divisões dentro da Europa como alinhámos com aqueles na Europa que não são necessariamente determinantes para o nosso desenvolvimento e para o projecto europeu que nós até aqui sempre encarámos. E não venham com a chantagem de dizer que é preciso escolher entre um aliado democrático e um torcionário. Não é isso que está em causa, porque o aliado, durante anos e anos, fechou os olhos ao regime torcionário. Aliás, ajudou-o.



 
MITOMANIA E "BLASFÉMIA". Outro contra-ataque, desta vez de Ivan Terráqueo, aos desvarios de João Pereira Coutinho:
JPC, que no dia 14 de Fevereiro de 2003 viveu o seu "dia triunfal" à escala blog, persiste na reinvenção mitómana. Depois da insistência de PM no surgimento de uma nova voz da direita que finalmente se faz ouvir em Portugal, JPC defende agora que o puritanismo virou à esquerda ou melhor, que a esquerda, no fundo, sempre foi puritana. Descobre depois um paralelismo com Salazar e espanta-se. A minha teoria sobre esta tendência dos infames é bastante prosaica. Algumas já mais vetustas luminárias da direita passaram os verdes anos como maoístas e a pintar paredes, tendo assim ganho um certo calo, uma visão do mundo que inclui a perspectiva do adversário, a juntar a algumas aventuras e a um certo romantismo que ficam bem em qualquer biografia. É claro que para as almas mais fundamentalistas, de um e de outro lados, não se livram dos epítetos de traidor ou vira-casacas. Já os infames, cientes da improbabilidade estatística de um percurso inverso mas enclausurados numa juventude que reclama por aventura e paixão, tentam criar um mundo só deles, um universo "dungeons and dragons", cheio de obstáculos, de travessias do deserto e de gigantes opressores a abater. A metamorfose de mais um moinho deu nisto: a esquerda é puritana. Bem, que me lembre, em Portugal e nos últimos anos:

1) foi um governo PSD a censurar um romance que ficciona a vida de Jesus Cristo, naquele que foi provavelmente o maior acto de censura desde que Portugal estabilizou como democracia;
2) uma secretária de estado do actual governo, referiu-se à igreja católica como "igreja oficial", uma "gaffe" instrutiva, nomeadamente para quem se põe a contar países islâmicos laicos pelos dedos da mão e ainda particularmente aterradora, quando nos lembramos que a senhora em questão tem (tinha?) a seu cargo a negociação com o Patriarcado do estatuto da disciplina de Religião e Moral;
3) Em Outubro do ano passado uma super-estrela da direita e membro do actual governo ausentou-se do país com um abençoado timing, faltando a compromissos de representação, para assistir à canonização de monsenhor Josemaría Escrivá, fundador de um movimento que não se caracteriza propriamente pela defesa da libertinagem.

Não seria difícil aumentar esta lista mas tal não se justifica, ou não estivesse o cerne da questão na tão batida, suposta e não auto-proclamada "superioridade moral da esquerda". É isso que verdadeiramente irrita a direita e seria melhor escrevê-lo com todas as letras em vez de se andar a mijar fora do penico.
Quanto ao exercício de "paralelas assimétricas" entre a esquerda e Salazar, até apetece escrever, usando uma expressão que não lhe soará estranha: meu caro JPC, não invoques o nome do Professor em vão.



 
UMA RESPOSTA À LETRA. Do nosso humorista residente, Ricardo de Araújo Pereira (uma das esperanças do humor português pós-Herman), recebemos uma carta com bolinha no canto superior direito. É a resposta, de uma lógica irrefutável, à mais selvagem das provocações lançadas, na Coluna, por João Pereira Coutinho. Leiam e deliciem-se. Aos leitores mais sensíveis e puritanos (de direita ou de esquerda, tanto faz) aconselha-se a passagem imediata ao texto seguinte.
Quebre-se então o lacre:

Caros amigos do Blog de Esquerda,
Apetece-me tomar parte na discussão sobre o tom do que é dito no blog rival: A Coluna Infame. O assunto, que à primeira vista parece de somenos, está longe do fim (tem-se voltado a ele várias vezes aqui, e ainda ontem foi novamente abordado lá). Quero deixar claro que não acho minimamente ofensivo nem chocante o estilo adoptado por Mexia, Lomba e Coutinho, sobretudo tendo em conta a longa história portuguesa de polémicas (algumas de tom bem mais contundente) e ainda para mais levando em consideração que os textos d’ A Coluna estão sempre escritos num português elegante e, na maior parte das vezes, têm (desculpem lá) muita graça. Além disso, e mais importante, parece-me que todo o tempo perdido a criticar o modo como dizem o que pensam seria mais bem empregado a criticar o que realmente pensam, que – isso sim – merece ser contestado. Se alguma coisa me impressiona (negativamente, bem entendido) n’ A Coluna Infame é o azedume de que, apesar do carácter mais galhofeiro de algumas intervenções, os textos vêm impregnados. Fico sempre com a sensação de que os infames colunistas escrevem aquelas prosas no exacto momento em que alguém acaba de lhes pôr uma nódoa difícil de tirar na camisa negra favorita.
Num dos textos mais azedos publicados recentemente (cujo contexto era uma discussão pouco interessante entre anglófilos e francófilos, que terminou, como sempre, numa troca de mimos de ressonância clubística), João Pereira Coutinho acusa as mulheres francesas de terem «o triângulo vaginal mais peludo e asqueroso do Ocidente». Ora, esta problemática interessa-me. E interessa-me a dois níveis: primeiro, quanto à afirmação em si; segundo, quanto à possibilidade de relacionar o grau de civilização de um país e o seu contributo para a história das ideias com a estética capilar do, digamos, labiado tugúrio, para usar uma expressão de Pessoa (que de labiados tugúrios, ao que parece, percebia pouco).
Devo dizer, para começar, que considero João Pereira Coutinho um dos maiores especialistas nacionais em questões relacionadas com a genitália feminina desde que li o opúsculo «As palavras propriamente ditas», que publicou na revista 365 (número de Dezembro/Janeiro de 2003). Nesse texto, há uma personagem que, a certa altura, distingue, com assombroso rigor, entre – e cito – «coninhas vaidosas, alegres, simpáticas, arrogantes, cerebrais, intuitivas, cordiais, virtuosas, prazenteiras, românticas, bondosas, medonhas, infantis, ciumentas, vulgares, incompreendidas, entusiastas.» Admito que fiquei emagado por tamanha erudição vaginal. Mas, se na literatura qualquer argumento se aceita, no debate ideológico as afirmações carecem de prova e, neste caso sobre todos os outros, exige-se que seja revelada a metodologia da investigação. Quantas vaginas francesas compõem o universo do estudo? Quantas outras vaginas ocidentais foram tidas em apreço para que se permita concluir que a francesa é «a mais peluda e asquerosa do Ocidente»? Por outro lado, no Oriente, supõe-se, vaginas há que superam, em frondosidade e repugnância, a francesa. Quais são elas? Por último, (e aqui, confesso, o que está por trás da pergunta é mais a lascívia do homem que a curiosidade do cientista) quais são, no Ocidente e no Mundo, as mais atraentes e bem penteadas vaginas? Uma discriminação por países será útil; uma lista com telefones e moradas é serviço público inestimável. Não sou, nem quero ser, advogado da vagina francesa. Mas quero, embora na qualidade de leigo, fazer uma achega à discussão: Ary dos Santos (que, do objecto do nosso estudo, nem apreciador era), em poema cujo título não recordo agora e tenho preguiça de ir investigar, garante que «o espumante francês faz borbulhas na cona». É um facto que me parece importante. Será – pergunto – que as francesas, sofisticadas bebedoras do melhor vinho espumoso, descuidam o aprumo capilar justamente para camuflar o acne vaginal? É questão que deixo no ar e para a qual peço a maior atenção, pois a confirmar-se a tese, aquilo que parecia desleixo pode ser afinal pragmatismo cosmético imposto pelas circunstâncias.
Finalmente, a segunda questão. Aqui, creio que João Pereira Coutinho cai em clara contradição. Se o que diz da vagina francesa não é calúnia, então creio que a França poderá estar na vanguarda do pensamento político. Como, por uma série de razões, a maior parte dos nomes importantes da Ciência Política foram e continuam a ser do sexo masculino, parece-me lógico que, quanto mais repulsivas forem as vulvas de determinado país, mais tempo os politólogos desse país dedicarão à reflexão e ao trabalho – tempo esse que escasseia, de certeza, aos pensadores oriundos de nações onde a vagina anda capilarmente impecável.
Um abraço,
Ricardo de Araújo Pereira



 
G. W. O Filipe Moura andou a mexer em ficheiros antigos e encontrou uma crónica do Miguel Sousa Tavares, publicada no Diário Digital (14-06-2001), «que vale a pena reler nos dias de hoje». Como não é muito longa, decidimos publicá-la na íntegra, agradecendo ao Filipe (pela dica) e, sobretudo, ao Miguel (já temos saudades dos textos dele no Público, mesmo daqueles com que não concordávamos).

CONVERSA DE SURDOS

É mais forte do que eu e admito que seja uma atitude muito pouco racional: mas olho para George W. Bush e não consigo ver mais nada do que a estupidez que está escrita naquele rosto. Eis o representante genuíno do americano das profundezas do «cowboy country»: branco, arrogante, ao nível mais primário quanto a ideias e valores, ofensivamente ignorante, moralmente hipócrita e oficialmente temente a Deus. Tudo cristalino nesta resposta que ele deu em Espanha, quando lhe perguntaram se os Estados Unidos não se sentiam constrangidos por serem praticamente a única nação de raiz ocidental-cristã que ainda aplica a pena de morte: «Nós somos uma democracia e nas democracias é a maioria do povo que decide. A maioria do povo americano quer a pena de morte...». No caso de Timothy McVeigh, o povo quis ainda mais: quis a morte transmitida em circuito interno de televisão, para as famílias das vítimas, as autoridades, a imprensa e os simples «voyeurs», tal qual como os linchamentos no tempo do far-west. Nesta sua visita à Europa, Bush não traz nada, que não a repetição, quanto muito mitigada, da meia-dúzia de ideias primárias que lhe deram a vitória interna, embora com batota na contagem dos votos, e que ameaçam a paz no mundo e a saúde do planeta. Assinar o Protocolo de Quioto não, porque os Estados Unidos estão com problemas energéticos e isso é mais importante do que o aquecimento global da terra. Desistir de rasgar o Tratado ABM e construir um sistema unilateral de defesa anti-missil não, porque é mais importante o interesse estratégico dos Estados Unidos e a saúde da sua indústria de armamento do que evitar nova corrida às armas no espaço. Abdicar da expansão da NATO até aos Estados Bálticos e outros Estados outrora satélites da URSS não, porque é mais importante o cerco estratégico da Rússia do que a sua convivência pacífica com a Europa. Bush não tem nada a dar e a Europa não tem nada a esperar dele. Quanto mais depressa a Europa o entender e se deixar de falsas esperanças e de compromissos onde só tem a perder, melhor para a construção da identidade europeia – da economia à defesa, da preservação ambiental à política externa. Manifestamente, com George W. Bush, «America comes first» – o que significa que, sempre que houver uma divergência entre os interesses americanos e outros quaisquer, nem que sejam os do planeta inteiro, primeiro estão os Estados Unidos. É altura de a Europa fazer exactamente o mesmo, sob pena de nunca mais deixar de ser o miúdo que viaja sempre no banco de trás da limousine conduzida pelo Tio Sam. Bush jamais fará coisa alguma que possa desagradar à sua gente, porque é para isso que ele quis a Casa Branca e porque essa é a única forma de cultura e de conhecimento, o único mundo, que ele entende. E a sua gente são os industriais de petróleo do Texas e os fabricantes de armamentos, que lhe pagaram a campanha eleitoral e, sobretudo, o bom e velho WASP que aos domingos de manhã vai à missa e à tarde acende o barbecue no jardim de casa e que olha para os europeus como um peso morto na marcha da humanidade, formado por intelectuais, ateus e comunistas. Outra gente. Definitivamente, outra gente.


16.2.03
 
RECADO. Não fizemos de propósito, mas a verdade é que vamos convocar outro escritor. Desta vez é um amigo do peito, cúmplice desde os tempos em que a trincheira dos actuais "bloggistas" e "infames" era só uma: o DNJovem. Chama-se Alexandre Andrade, está a fazer investigação científica em Cambridge e é apenas, read my lips, o melhor ficcionista português surgido nos últimos dez anos. Se ainda não leram «Benoni» (Ed. Notícias), o seu primeiro romance publicado, procurem já na livraria mais próxima. O livro é uma obra-prima que a crítica (excepção feita ao Pedro Mexia) teve a cegueira de ignorar.
Aqui vai então o...

RECADO DE UM LEITOR DO BLOG DE ESQUERDA

Custa-me a entender a apetência do BdE para entrar em polémicas com a Coluna Infame. Pode uma argumentação responder a uma negaça? Com certeza que não: trata-se de dois géneros de discurso essencialmente diferentes, e quanto mais tosca é a provocação, mais têm a perder o bom senso e a razão ao tentar contrariá-la. De um lado, estamos perante um blog, o vosso, que aposta numa visão holística da sociedade e da cultura, partindo de assunções e bases ideológicas controversas mas assumidas; do outro, uma "calúnia informe" que se compraz cada vez mais na bojarda fácil e num marialvismo bacoco que contribuem mais para atrair a antipatia sobre os seus ideais do que uma centena de fazedores de opinião esquerdistas, desses que dominam a imprensa escrita, a rádio, a TV e a Internet, para não falar dos jornais de parede e dos sinais de fumo (esgota-se a paciência para aturar certas falácias). Quem arvora a cândida certeza de que não pensar como os outros demonstra "convicção", e de que seguir a opinião dominante é sinónimo de cedência às conveniências, deleita-se no seu papel minoritário. Não lhes façam o favor de ratificar esse lisonjeiro estatuto. Façam aquilo que sabem fazer melhor, e não deitem mais achas para tão esdrúxula fogueira.

CHI PARLA MALE PENSA MALE E VIVE MALE
Nanni Moretti, «Palombella Rossa»

São as sugestões do
Alexandre Andrade





 
TELEGRAMA, QUASE. De Ricardo Cano Gaviria, um escritor colombiano radicado em Espanha e que entrevistei há uns meses para o DNA, a propósito do seu notável romance «O Passageiro Walter Benjamin» (edição da Antígona), recebi esta curta mensagem:

José Mário, varias veces he visitado tu página, muy sugerente. Creo que estamos ganando la guerra contra la guerra, lo de ayer fue emocionante de verdad, aunque de Lisboa no se ha hablado mucho.
Con un abrazo,
Ricardo


De Lisboa não se falou porque, mesmo quando somos muitos a marchar nas ruas, somos sempre menos do que em Madrid ou Paris. É uma questão de escala, Ricardo.



 
VERSOS QUE NOS SALVAM. Como é provável que a maioria dos leitores não conheça a poesia de Eucanaã Ferraz, recuperamos aqui dois poemas do livro «Desassombro», agora premiado.


Um fio de luz:
tesoura que baste
para tornar nítido
o que

sobre a cômoda,
sobre a mesa:
um lápis, uma pêra,
um cálice,

que nossos olhos
podem anotar
sem complicação,
sem gula ou fastio.

Mesmo da morte a repentina
ternura, se vista de tal modo:
num vaso, haste, pétala
que cede.

Sobre a cômoda, sobre a mesa,
belezas que um nosso gesto
pode anexar ao peito
sem grande peso.

Ou, ainda, o peso nenhum
de quando nenhum atavio:
tábua
sem nada em cima.


***

Vê: a luz, pela fresta,
estrela magnífica
e doméstica, vem,

acaso e matemática,
morder no copo
a água que dormiu à mesa.

Do corpo amado, da canção,
de uma romã, de uma manhã qualquer
a lâmpada que se exala

pode não ser a morte da morte
e talvez não mostre a agulha perdida
na sala ou no tempo, mas

infringe, por ínfimo farol
que seja, certos escuros: um canto
do quarto, da dor, do olhar.

Dure apenas um minuto
a gema de um tal ardor,
sol tão pequeno,

há que se acender
em cada mínimo
a força da minúcia.



 
PRÉMIO. Eucanaã Ferraz, um excelente poeta carioca e professor universitário de Literatura Brasileira, acaba de ganhar, ex aequo com Antonio Carlos Sechin («Todos os ventos»), o Prémio Alphonsus de Guimaraens. Atribuído pela Biblioteca Nacional, este é o mais importante prémio brasileiro na área da poesia, logo seguido pelo famoso Jabuti.
Curiosamente, a primeira edição da obra vencedora, «Desassombro», foi feita em Portugal pela Quasi, de Vila Nova de Famalicão. Eu conheci o Eucanaã no lançamento desse livro, em Outubro de 2001, na casa Fernando Pessoa, com apresentação de Gastão Cruz. Foi uma noite memorável. Depois de um jantar indiano, em que também participaram a Maria João Cantinho e os incansáveis editores da Quasi (o Jorge Reis-Sá e o Valter Hugo Mãe), acabámos a noite no Pavilhão Chinês, numa amena conversa "tu-cá-tu-lá" onde ficaram postas a nu as ridículas distâncias que vão separando, muito mais do que o Atlântico, os dois países.
Desde então, reencontrei o Eucanaã várias vezes: quando ele regressou a Lisboa, na internet e nas páginas de uma revista. É por isso com muito regozijo que o felicito por esta distinção. Ele merece.


 
CONTABILIDADE. Um dos exercícios a que PM se dedica, com um certo deleite, consiste em minimizar o impacto da manif, calculando o número dos eleitores de esquerda (sem o PS) na Grande Lisboa, para depois concluir que nem todos estiveram presentes. Ou seja, «o poder de mobilização da nossa canhota não está nos seus melhores dias». O exercício é tão básico e tão inconsequente que nem merece ser desmontado. Enfim, todos temos direito aos nossos disparates.

PS: Já agora, seguindo o brilhante raciocínio de PM, ficamos a saber que a causa monárquica deixou de existir em Portugal. Na manif que assinalava o dia do regicídio (1 de Fevereiro) estiveram presentes, no mesmo Largo Camões que ontem rebentou pelas costuras, uns cinquentas senhores de bigode retorcido. Não é de crer que os outros monárquicos todos estivessem acamados ou a brunir o brasão.



 
A RUA. Não vamos evidentemente responder à letra a todas as farpas do Pedro Mexia. Ainda assim, não deixa de ser curiosa a sua obsessão pela ideia de "rua". Diz ele: «a esquerda adora a rua». E é verdade. A rua enquanto lugar de encontro, de conflito, de partilha, enquanto caminho que nos leva a outros lados. Temos pena que a direita - encasacada, mordaz e indiferente (embora com instintos de mirone) - não saiba o que isso é.



 
A CONTRA-MANIF INFAME. Chega uma pessoa a casa, depois de um magnífico jantar com amigos, e nem quer acreditar no que o computador lhe mostra. Na Coluna Infame, Pedro Mexia assinou dezasseis (16, leram bem, 16) posts sobre a manif contra a guerra em Lisboa. Afinal, não ficou fechado em casa e até passou por lá, «embora não de propósito». Funciona sempre, a atracção secreta pelo fruto proibido.




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