BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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15.2.03
 
ENTRETANTO, EM WASHINGTON. George W. Bush não viu as imagens dos milhões de pessoas a marchar em todo o mundo, contra a guerra. Segundo informações que nos chegaram, o Presidente estava, à hora dos telejornais, a tentar engolir um "praetzel".

 
A TRISTE HISTÓRIA DE TONY. A manif contra a guerra, em Londres, foi a maior de que há memória em Inglaterra. Nem nas comemorações pelo fim da II Grande Guerra saiu tanta gente à rua como hoje. E que faz Blair? E que diz Blair? Nada. Isto é, mantém o mesmo submisso alinhamento com Bush.
Há qualquer de trágico (shakespeareanamente trágico, até) neste suicídio político. Blair governa contra a vontade do seu povo e, cada vez mais, contra a vontade do seu partido. Com guerra no Iraque ou sem ela, o "menino bonito" da terceira via apresta-se a morrer politicamente por causa da fidelidade canina a um líder republicano e belicista. É triste, muito triste.



 
E AGORA, JOSÉ (MANUEL DURÃO BARROSO)? O primeiro-ministro, num gesto de suprema deselegância (que já comentámos ontem), recusou-se a receber os líderes da oposição que decidiram não prescindir, ao contrário de Ferro Rodrigues, do seu direito (e dever) de se manifestarem contra a guerra. Barroso já assinara a famigerada Carta dos Oito sem dar cavaco a ninguém,
agora não ouve sequer as vozes que discordam da sua política externa. Infelizmente, esta arrogância não nos surpreende. Mas será que o governo pode ignorar uma manifestação com o peso (e a diversidade ideológica) da que se viu esta tarde em Lisboa?

 
O MUNDO NÃO DORME. Foram milhões, muitos milhões de pessoas em todas as latitudes. Uma mega-manifestação como nunca se viu. Os americanos podem continuar a fazer os seus jogos de guerra, criando novas alianças e eixos (do Bem, do Mal, etc e tal); podem quebrar os equilíbrios geo-estratégicos e dividir a UE, a NATO e a ONU; podem querer, à força, provas da existência de armas de destruição maciça iraquianas (God Blix America); podem estar com o dedo a tremelicar no gatilho e já dormente com tanta espera; mas a verdade é que não podem invadir o Iraque «in our name». Não podem mesmo. E hoje isso viu-se.



 
PRIMEIRAS IMPRESSÕES SOBRE A MANIF EM LISBOA. À hora marcada, o Largo Camões, o Chiado e as ruas adjacentes estavam cheias como um ovo. Lembram-se da Expo'98 no último dia? Era parecido. Havia tanta gente que o cortejo teve que descer pela R. do Alecrim em direcção ao Cais do Sodré, seguir pela R. do Arsenal até ao Terreiro do Paço e depois pela R. da Prata até à Praça da Figueira e, finalmente, o Rossio, numa torrente humana que se manteve, ininterrupta, durante mais de duas horas. Não sei ao certo quantas pessoas desfilaram esta tarde em Lisboa, mas sei que foram largas dezenas de milhares (é bom ter presente que uma parte dessas pessoas não chegou ao Rossio, dispersando-se pelo caminho).
Só para que conste, vi: bloquistas, bloguistas, comunistas, anarquistas, artistas (a Cornucópia em peso, por exemplo), católicos, meninas de Cascais, crianças de colo, grupos de idosos, gays & lésbicas, socialistas (envergonhados com a cobardia de Ferro Rodrigues), norte-americanos (envergonhados com o que andam a fazer em nome deles), sindicalistas, escuteiros, galegos (com o melhor slogan de todos: «Se quiserem petróleo, vão buscá-lo à Galiza»), monárquicos, okupas, etc. Ou seja: pessoas de todas as idades, credos, raças, nacionalidades e convicções. Se alguma vez uma manifestação representou, transversalmente, a sociedade portuguesa, foi esta.
Só para que conste, não vi: os colunistas infames (uma pena), nem «neo-nazis», nem «amigos de Bagdad», nem «adeptos do terrorismo», nem «integristas religiosos», nem nenhum representante da «escória do mundo» de que eles (os infames ausentes) tanto gostam de falar.
Quanto à «extrema-esquerda sinistra», só se fosse aquele grupo de senhoras de meia-idade, todas italianas, que agitavam lenços coloridos com a palavra "pace" e para quem a expressão é, obviamente, uma redundância.




 
O MEDO. É curioso verificar a forma como a direita reage à manif. Fecha-se em casa, a ler e a ouvir discos (com o volume no máximo, presume-se), as janelas bem calefetadas, espreitando de longe a rua que "uiva". Pois é: há traumas antiquíssimos que nunca se resolvem e uma multidão na rua ainda faz medo. Tanto medo que quem os leia até pode pensar que se está a montar uma guilhotina no Rossio, quando a verdade é que só pretendemos marchar em paz contra uma guerra injusta.
Vá lá, tenham calma, amigos "infames", não vale a pena tanto nervoso miudinho. Podem respirar fundo, destapar os móveis, entreabrir os reposteiros e tirar as pratas da família do esconderijo na cave. Ainda não é desta que vamos fazer a revolução.



 
CAT FIGHT. A propósito da crónica de Clara Ferreira Alves sobre Clara Pinto Correia (hoje, no Expresso) escreve Ivan Terráqueo:

A clara e a gema, partes do todo hamonioso que é o ovo, por vezes andam às turras. Questões de protagonismo, bem entendido. Tenhamos também presente que a gemada é uma união algo forçada. Daí ser natural que a gema não goste da clara e que a clara não suporte a gema. Ora, para quem até gosta da gema, é triste vê-la perder tempo com ataques cerrados e oportunistas à clara, logo agora que esta anda com a albumina toda desnaturada. Dir-se-ia que a haver contas por ajustar, melhor seria um duelo num descampado distante e protegido do luar. Ainda que enterrar um punhal já espetado tenha um toque de enredo de Shakespeare, a gema passou hoje a coisa literalmente amarela e um pouco mal cheirosa, metamorfose pouco nobre para quem tem de gema a parte da pedra preciosa.

 
TODOS À MANIF (2) Hoje é o grande dia de mobilização global contra a guerra, com mais de 600 manifestações previstas em todo o mundo. Já aqui falámos dos preparativos das manifs em Portugal e mais tarde daremos conta das nossas impressões (e das que os nossos leitores nos façam chegar) das manifs de Lisboa e Paris. Nos países do "Eixo do Bem" espera-se cerca de um milhão de participantes em Londres, e muita gente em Nova Iorque, onde um juiz, "por razões de segurança", quis impedir qualquer concentração de opositores à escalada guerreira (ainda uma boa lição de democracia). Com as provas que teimam em não aparecer (malvado sr. Blix!) e com toda esta gente “sinistra” na rua, o partido da guerra está em muito maus lençóis. Joga-se agora o momento decisivo.

 
OPINIÕES. Para que conste, seguem os indicadores da opinião europeia contra a guerra, reunidos e apresentados pelo jornal Le Monde:

Alemanha: 71% apoiam a decisão do governo
Áustria: 49% (65% apoiam uma guerra com o apoio da ONU)
Bélgica: 84% contra a guerra sem o apoio da ONU
Bulgária: 81% contra a guerra sem o apoio da ONU
Dinamarca: 53% pela guerra com o apoio da ONU
Espanha: 91% contra a guerra
França: 77% contra a guerra
Grécia: 88% contra a guerra
Hungria: 82% contra a guerra
Irlanda: 68% contra a guerra
Itália: 61% contra a guerra
Noruega: 90% contra a guerra sem o apoio da ONU
Holanda: 80% contra a guerra
Polónia: 72% contra a guerra sem o apoio da ONU
Portugal: 65% contra a guerra
Rep. Checa: 65% contra a guerra sem o apoio da ONU
Roménia: 70% contra a guerra sem o apoio da ONU
Reino-Unido: 90% contra a guerra sem o apoio da ONU
Eslováquia: 57% contra a guerra
Suécia: 50% contra a guerra
Suíça: 83% contra a guerra sem o apoio da ONU
Turquia: 94% contra a guerra

As diferenças entre as soluções com ou sem ONU e a natural variabilidade entre os métodos de sondagem não permitem comparações directas. Mas ficamos pelo menos a saber que a tal diferença entre velha e nova Europa só existe na cabeça do Rumsfeld e nas elites políticas dos países que lhe prestam vassalagem. Fica bem claro que as opiniões públicas dos países de leste não são diferentes da portuguesa ou da francesa. Alguns dirigentes é que têm ideias muito próprias sobre esta guerra, tão próprias que nem as querem discutir nos seus parlamentos. Como um certo primeiro-ministro, Aznar de seu nome, que até apoia uma guerra sem a ONU, quando 90% do seu país está contra a guerra. Olé!!! Uma bela lição de democracia, não haja dúvida.

 
TODOS À MANIF. Já toda a gente sabe mas é só para relembrar mais uma vez: a manifestação mundial contra a guerra no Iraque começa às 15h30. Em Lisboa, a concentração faz-se no Largo Camões. No Porto, o local de partida é a Praça da Batalha. Afinem as vozes, preparem os slogans e gritem-nos bem alto. Nós sabemos que a razão está do nosso lado.

14.2.03
 
VOSSA EXCELÊNCIA, A FILHA. Não resistimos a transcrever, do Independente de hoje, a Carta à Directora Inês Serra Lopes, publicada na última página e assinada por Maria de Jesus e António Serra Lopes, nem mais nem menos do que os pais da dita jornalista (ainda ontem implicada numas manobras nebulosas em torno do caso de Carlos Cruz, de quem António Serra Lopes é - olha que coincidência - advogado). A carta fala por si:

CARTA À DIRECTORA

V. Exa., Senhora Directora, já há largos anos atrás comunicou-nos que pretendia formar-se em Jornalismo. Atentos os verdes 17 anos, alvitrámos o Direito, valor mais sólido para os tempos que corriam. Aceitou V. Exa. a sugestão e cinco anos depois tinha cumprido. Enquanto estagiava, escrevia para os jornais. Pôs de seguida a toga e bem! De novo os jornais chamaram V. Exa. Que havia a opor a uma juventude sólica e cheia de esperança que se escolhia? Em casa, pouco lhe pudemos dar como contra-veneno. Tentou-se: demos-lhe verdade, amor, lealdade, coragem. Falhou a mezinha para o Direito. Saiu Jornalista. Continuamos orgulhosos, Senhora Directora. Ser jornalista é bonito e tem uma culinária fácil, como se disse: Verdade, Amor, Lealdade, Coragem. Continuamos orgulhosos e felizes, hoje mais que nunca. Sobretudo hoje, dia de bruxas.

Digam lá se não é uma ternura?


 
O GRAU ZERO. É o regresso de SAF ao Blog de Esquerda:
A notícia da constituição das autoridades metropolitanas de transportes, por demais adiada e por demais urgente, é quase luz a meio do longo túnel do discurso da «tanga». Mas é necessário perceber se o trabalho das futuras autoridades será mesmo defender o interesse público dos utentes dos transportes e ajudar a gerir o património rodoviário e ferroviário, face a vectores de crescimento das necessidades de mobilidade incompatíveis com a manutenção de cidades na sua forma sustentável. Falando essencialmente da capital, que aturamos, a qualidade do ar, do ruído e do ambiente urbano de que se parte não são famosos, mas poderiam ser piores. O que se observa é que as tímidas melhorias não se têm feito senão com exorbitantes benefícios para os privados, à custa do retalho indiscriminado do espaço público, configurando um preço incomportável a longo prazo que compromete sempre, e concomitantemente, outras dimensões do viver urbano. Por outro lado, quem disseca a vasta panóplia de legislação em vigor aplicável ao transporte público, rapidamente detecta a sua obsolescência, da qual se espreme meia dúzia de regras vagas que em praticamente nada protegem os utentes de péssimos serviços e veículos (particularmente no verão, em que o pessoal, rarefeito pelas férias, é ainda desviado para serviços turísticos de maior retorno, embora se desconheça a rentabilidade), violações da legislação de emissões (despejadas directamente na cara dos utentes), da lei do ruído, atropelos aos direitos dos deficientes, tudo agravado pelo caos viário instalado com a benção das autoridades (que só conhecem o Bairro Alto) e pelo deficiente estado dos pavimentos. Os aumentos de produtividade, que políticos e patronato tanto perseguem, não se farão com a manutenção deste caos, nem a melhoria dos padrões de saúde física e mental das populações urbanas, e muito menos a diminuição da sinistralidade rodoviária dentro da cintura das cidades. O poder terá que dizer, finalmente, o que quer e como pensa fazê-lo, com o benefício de quem e a qual a repartição de custos. Seria altura de os cidadãos largarem o futebol por uns instantes e terem consciência da parte interessada que são na questão pendente. E lembrarem que a resposta ainda está por dar, nomeadamente face ao modelo, objectivos e "modus operandi" das futuras reguladoras.
(«O Grau Zero» é da responsabilidade de Sandra Augusto França, que não tem afinidades com nenhum partido nem está muito convencida de ser de esquerda)

 
O MOMENTO ALL-BRAIN DE DURÃO. Há uma coisa que temos de admitir: o nosso primeiro-ministro tem muita fibra e vitamina ES (de Esperteza Saloia). Já não bastava ter assinado, à revelia do que pensa a maioria do povo português, a famigerada Carta dos Oito, comprometendo a nossa posição no seio da UE em troco não se sabe de que compensações do "amigo americano". Agora, veio mostrar que é mesmo Durão, ao marcar os encontros com o PCP e o Bloco de Esquerda, preparatórios do Conselho Europeu da próxima segunda-feira em Bruxelas (sobre o Iraque), precisamente para as 15h30 de amanhã, a hora de partida da manif. contra a Guerra, em Lisboa. Houve tentativas de compromisso - substituição de Carvalhas por um elemento da Comissão Política, do lado do PC; proposta de encontro a qualquer outra hora, durante o fim-de-semana, por parte do Bloco - mas essas tentativas de nada valeram. Durão marcou os encontros para as 15h30 porque assim pode ficar descansado: os partidos mais à esquerda nem sequer serão ouvidos (ao contrário de um PS que nos momentos cruciais vacila sempre e se acobarda).
Querem melhor exemplo do que é o espírito democrático deste governo?



 
VERSOS QUE NOS SALVAM. A secção de poesia deste blog tem hoje o privilégio de vos oferecer não apenas um poema inédito, mas uma estreia absoluta! Os versos que se seguem foram-nos enviados por Fernando Venâncio; esse mesmo, o crítico literário de pena ácida e obra vasta (espalhada por jornais e livros - vide «Maquinações e Bons Sentimentos», Campo das Letras), o professor universitário em Amesterdão, o ensaísta que tanto investiga a "língua literária" no tempo de Castilho como os caminhos da escrita de Saramago, o tradutor dessa língua àspera que é o neerlandês e o ficcionista bissexto (editou «Um Selvagem ao Piano» em 1987; «Os Esquemas de Fradique» em 1999; e «El-Rei no Porto» em 2001). Agora, «para o melhor e para o pior», aventura-se pela primeira vez na poesia. E o Blog de Esquerda congratula-se com este inesperado "exclusivo".

OS AMANTES SEM TELEMÓVEL

Um perdeu-o. O outro
teve de vender.
Para pagar o do outro
que era emprestado.
Encostaram-se à internet.
Mas os horários eram um castigo.
Ainda assim trocaram
beijos, fotos, ciúmes.
Um dia chegou dinheiro
para um telemóvel. Um, repita-se.
Serviu para dos fixos
se receberem afectos e juras.
Rápidos, e aconteceu que dolorosos.
O amor, calado, aguentou.
Acabaram em ligação directa,
coração a coração.
No fim do mês, faz um jeito
que todos os dias comentam.


 
O ATAQUE DO "CLONE". À história de Carlos Cruz - uma sucessão de baixezas, denúncias, rumores, golpes de teatro, ameaças, cabalas, cortinas de fumo e muitas dúvidas - só faltava mesmo isto: o toque burlesco.



 
RECURSOS HUMANOS. Um ano depois de ser eleito, o verniz de Pedro Santana Lopes começa a estalar. Primeiro, soubemos do tratamento miserável que os seus serviços deram ao arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, afastado da Câmara Municipal de Lisboa sem o mínimo respeito pelas acções por ele desenvolvidas ao longo de décadas. Agora, tomámos conhecimento da dispensa de nove dos 15 técnicos da Divisão de Apoio Juvenil da mesma autarquia.
Se é certo que todos eles eram contratados a prazo, com um trabalho precário por natureza, a verdade é que o "modus operandi" da dispensa não prima pela clareza e autoriza as suspeitas de que estamos perante um saneamento com motivações políticas. Deixamos aqui, no essencial, o conteúdo da Carta Aberta redigida pelos visados.

Carta Aberta à Cidade de Lisboa

(...) Este documento procura denunciar factos graves decorridos na gestão corrente da Câmara Municipal de Lisboa, nomeadamente no que diz respeito aos recursos humanos da sua Divisão de Apoio Juvenil (DAJ).
A DAJ funcionou até ao passado dia 28 de Janeiro com 15 técnicos, seis do quadro de pessoal da CML e nove técnicos contratados, assegurando uma actividade que se desenvolve em três espaços físicos diferentes: as instalações centrais da DAJ, no Edifício Central do Município ao Campo Grande, e os dois espaços LX Jovem – Espaço de Informação à Juventude, no Amoreiras Shopping Center e no Edifício Central do Município. Estes dois espaços são assegurados exclusivamente por funcionários contratados.
Neste momento, os nove funcionários contratados receberam cartas de rescisão de contrato e diga-se que não houve qualquer indicação neste sentido por parte da vereação antes do envio das referidas cartas. Pelo contrário, o Gabinete da Srª. Vereadora Ana Sofia Bettencourt sempre transmitiu às chefias e trabalhadores uma ideia de continuidade de trabalho, reforçada até há bem pouco tempo por elogios ao trabalho desenvolvido pela DAJ. A renovação automática da maioria dos contratos, ocorrida a 31 de Dezembro último, materializava as expectativas de continuidade.
Porém, à revelia das chefias intermédias (...), esses contratos foram rescindidos.
Consideramos que não foram cumpridos os valores mínimos de respeito, de consideração e de urbanidade para com os trabalhadores dispensados. (...) Por indicação da Assessora da Srª Vereadora para a área dos recursos humanos, os técnicos da DAJ terão sido dispensados por não preencherem "o perfil requerido para os novos projectos de juventude" pensados pelo actual executivo. Daqui se deduz um afastamento de cariz político e não funcional, uma vez que o argumento invocado é vago e ambíguo como convém nestas situações.
(...) Em consequência desta situação, está posto em causa o cumprimento do plano de actividades para a Juventude aprovado pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) para o ano de 2003, que inclusive previa um incremento de áreas de trabalho. (...) Estaremos a assistir a mais um processo de abertura de vagas para a entrada de técnicos nomeados pelo novo poder político da CML?
(...) E as promessas? Como podemos entender a situação atrás descrita, quando o Presidente, Pedro Santana Lopes, se
comprometeu a não despedir trabalhadores aquando da reunião convocada em Outubro último para a Cordoaria Nacional? (...) Estaremos todos conscientes de que estamos a falar da dispensa de 60% dos meios humanos de uma Divisão da Câmara Municipal de Lisboa, que se reflectirá sobretudo na camada juvenil da Cidade?

Os trabalhadores em protesto
Alexandre Maurício, Isaura Lobo, Jorge Sousa, Maria João Branco, Marta Martins, Pedro Magina, Pedro Vieira, Sónia Tavares, Tiago Caeiro


Fala-se muito do projecto de Frank O. Gehry para o Parque Mayer e da possível vinda para Lisboa do festival Rock in Rio, não é? Pois bem, este é o reverso da medalha.


 
COM COMENTÁRIOS. A partir de hoje, os leitores deste blog podem interagir de forma ainda mais directa com os textos que vão sendo publicados diariamente. No fim de cada post, basta "clickar" na frase comente este texto (acima) e escrever o que muito bem entenderem - dentro dos padrões normais da comunicação entre pessoas civilizadas, claro. A única coisa que não toleraremos, nestas janelas de diálogo com quem nos lê, são os insultos gratuitos e os abusos de linguagem. Mas críticas e polémicas (ou palavras elogiosas, quando as merecermos) são bem-vindas.
Fica aqui o nosso agradecimento ao Nuno Centeio, cinéfilo aplicado e cúmplice nesta coisa dos blogs (o dele chama-se Espigas ao Vento), por todo o apoio técnico na instalação de mais esta ferramenta.
Já sabem: além de continuarem a enviar e-mails, podem agora escrever-nos directamente no blog. Nós prometemos estar atentos às vossas reacções.




 
VERSOS CONTRA A BARBÁRIE. Algumas palavras de José Gomes Ferreira, a antecipar a jornada de luta de amanhã contra a guerra e contra todos os belicistas (de alma ou por ideologia) que a querem impor. Escolhemos o poema «O General», imagem-memória de todos os bombardeamentos do século que passou.

O GENERAL

("Depois de fortemente bombardeada, a cidade X foi ocupada pelas nossas tropas.")

O general entrou na cidade
ao som de cornetas e tambores ...

Mas por que não há "vivas"
nem flores?

Onde está a multidão
para o aplaudir, em filas na rua?

E este silêncio
Caiu de alguma cidade da Lua?

Só mortos por toda a parte.

Mortos nas árvores e nas telhas,
nas pedras e nas grades,
nos muros e nos canos ...

Mortos a enfeitarem as varandas
de colchas sangrentas
com franjas de mãos ...

Mortos nas goteiras.
Mortos nas nuvens.
Mortos no Sol.

E prédios cobertos de mortos.
E o céu forrado de pele de mortos.
E o universo todo a desabar cadáveres.

Mortos, mortos, mortos, mortos ...

Eh! levantai-vos das sarjetas
e vinde aplaudir o general
que entrou agora mesmo na cidade,
ao som de tambores e de cornetas!

Levantai-vos!

É preciso continuar a fingir vida,
E, para multidão, para dar palmas,
até os mortos servem,
sem o peso das almas.


13.2.03
 
DESTINATÁRIO: PEDRO MEXIA. Continuam a chegar, umas atrás das outras, respostas ao Pedro Mexia, o "deus ex machina" da Coluna Infame. Não vamos obviamente publicá-las todas (até porque achamos que a polémica não justifica tanto espaço e tempo consumidos) mas também não as podemos ignorar assim, sem mais nem menos. Hoje é a vez de dar a palavra ao Filipe Moura:

AO PEDRO MEXIA

Caro Pedro, para começar, e esperando não violar as regras elementares de etiqueta (não sou leitor da sra. D. Paula Bobone), deixa-me tratar-te por "tu". É uma tendência danada que eu tenho para tratar automaticamente por tu pessoas da minha idade e mais novas - a não ser que sejam chatos a quem eu não queira dar confiança -, e que não sei até que idade conseguirei manter. Espero que não te importes. Mas adiante.Embora "mal educado" tenha sido o que implicitamente te chamei, não era isso o que eu queria dizer (não posso fazer tal afirmação sem te conhecer pessoalmente). Queria dIzer que "mal educados" (em sentido figurado) são
alguns dos teus comentários. Mas retiro o "mal educado", embora mantenha - para alguns dos comentários - o "ordinários" e, acima de tudo, despropositados.
Quero agora focar dois pontos. O primeiro é que tu afirmas-te como um "jovem", e que isso te dá o direito "à ironia, à laracha, ao comentário de café". Tudo bem. Só que, como tu próprio reconheces, tudo tem um limite. Com certos comentários que fizeste, mais pareces não um jovem mas um homem de meia idade solteirão e ressabiado, daqueles que fazem crítica não literária mas televisiva ou gastronómica. Fazes lembrar um conhecido adepto do FC Porto e "jovem empresário". Pensa nisso.
O segundo ponto é que não é minha intenção, de todo, parecer moralista e muito menos politicamente correcto. Adoro uma boa polémica e também tenho por vezes um estilo provocatório. Simplesmente não gosto de provocar pessoas por provocar, quando estas não se podem defender. Para ser concreto, nunca gostei d'"A Noite da Má Língua". E é isso que o vosso blog às vezes parece.




 
NOITE BRANCA. Daqui por uma hora ou duas, começa no Bairro Alto, em Lisboa, a Noite Branca Contra a Guerra. O objectivo é «ganhar balanço para a mundimanif do próximo sábado» (15 horas, Largo Camões). Haverá música nas ruas, poesia nos bares e cartazes colados nas paredes (com slogans e imagens contra a guerra). Além da participação de muitos artistas plásticos e actores, a ATTAC, organizadora da festa, conta com a presença de todos os que recusam a arrogância de George W. Bush e a perspectiva de um conflito em larga escala no Médio Oriente.
Além da animação nos bares, o grande destaque da noite vai para a apresentação lisboeta das famosas provas de Colin Powell. Segundo informações que nos chegaram hoje de manhã, um agente americano estará em Lisboa para convencer os cépticos, às 23h30, na livraria Ler Devagar. O Blog de Esquerda teve acesso a documentos secretos da CIA e está em condições de revelar, em rigoroso exclusivo, as primeiras frases do briefing que o tal agente americano (vagamente parecido com o actor Karas) lerá aos portugueses:

O governo norte-americano decidiu enviar agentes – que neste momento se encontram em várias capitais europeias – para esclarecer os sectores mais cépticos da opinião pública em relação às provas apresentadas por Colin Powell às Nações Unidas. Esse cepticismo tem por base um mal entendido. Apesar da advertência prévia, feita a partir das assessorias da Casa Branca, de que as imagens deveriam ser olhadas como se fossem quadros do pintor pontilhista Seurat, a desconfiança permaneceu. Depois de um estudo aturado, chegou-se à conclusão que, de facto, apenas alguns dirigentes do velho continente conhecem este pintor do séc. XIX. Os portugueses podem considerar-se com sorte: Mr. Barroso é um dos que mostrou compreender que estas imagens demonstram uma monstruosa conspiração em marcha.


 
CRÓNICA MOÇAMBICANA. Álvaro Belo Marques escreveu-nos a dizer que é leitor e divulgador deste blog desde que leu o texto de Isabel Coutinho no Mil Folhas (1 de Fevereiro). E depois acrescentou: «Julgo que nunca tiveram colaboração de Moçambique. Por isso e porque considero uma boa crónica, junto envio-vos "Luto nas Estrelas", escrita por Machado da Graça, cronista semanal do jornal "Savana", de Maputo, com a devida autorização dele».
Obrigado, Álvaro. Este blog não quer ter fronteiras. É com muito gosto que partilhamos com os nossos leitores esta crónica, publicada originalmente a 3 de Fevereiro.

LUTO NAS ESTRELAS

A notícia apareceu assim, de repente, a abrir o jornal informativo da Rádio: O vaivém Columbia tinha desaparecido dos ecrãs de radar poucos minutos antes da aterragem prevista em Cabo Canaveral.
A bordo iam 7 astronautas.
O choque foi grande.
Talvez para a maioria dos leitores essas viagens se tenham tornado tão rotineiras que aquela notícia pouco mais terá significado do que um qualquer outro desastre, em qualquer parte do mundo, onde se perderam vidas humanas.
Para mim e, creio, para a minha geração, foi muito mais. Para nós que assistimos à conquista do espaço desde aquela pequenina laranjinha (Sputnik, se dizia em russo) que, pela primeira vez, venceu a atracção terrestre, os passos que hoje se dão a bordo das naves espaciais e na construção da nova estação orbital internacional são o continuar de uma aventura científica que há-de levar a nossa espécie a passear entre as estrelas.
Se antes disso não dermos cabo dela.
Para nós, que não somos nem americanos nem russos, os astraunatas, chamem-se eles Gagarine ou Glenn, não pertencem a nenhuma pátria terrestre. Pertencem a todos nós, os homens e mulheres que torcemos por que eles cheguem cada vez mais longe, melhor, com mais sabedoria.

Talvez não venha a propósito mas recordo, no início da década de 70, quando compartilhei uma cela do Forte de Caxias com dois camaradas do MPLA (o Feyo e o Neto) e, entre muitas políticas também discutimos se a nova ideia dos vaivéns espaciais tinha viabilidade. Eu, mais sonhador, dizia que sim. Eles, mais científicos (eram médicos) diziam que não, que era cientificamente impossível. Mas o sonho sobrepôs-se à dúvida científica, como tem vindo a acontecer sistematicamente desde o principio da História. E foi precisamente este desgraçado Columbia quem inaugurou a nova forma de ir, e voltar, do espaço.

Foi por isso que fiquei chocado com o desastre e com a morte daquelas 7 pessoas. Para mim não foram concidadãos de George Bush e de Ariel Sharon que se fizeram em pedaços por sobre o território americano. Foram concidadãos meus, cidadãos deste meu mundo que se maravilha com as conquistas da ciência e com a coragem dos que tripulam aquelas naves, que ainda parecem saídas dos filmes de ficção científica, cheios de efeitos especiais, mas são já realidade concreta, feitas por seres humanos para uso de outros seres humanos.
Acho mesmo que estão nos antípodas dos Bushs e Sharons. Que morreram por uma causa que é de todos nós e não pelas malditas causas que matam diariamente na Palestina e em Israel e podem começar a matar em massa no Iraque, muito em breve.
Inclino-me perante a sua memória.



 
VERSOS QUE NOS SALVAM. Para quem não conheça a poesia (quase secreta) do José Carlos Barros, deixo aqui três dos seus poemas.

Vermeer tinha vinte e quatro anos quando
pintou a cortesã. Insistentes vozes procuravam
nele ainda o ardor volúvel, a vigília, o
desencontro, a ilusão do amor. De certo
modo a sabedoria exige o logro, o frémito
efémero da paixão sem outro nome, a
devastação dos sinais de ruína e morte sobre
a ignorância crepuscular da idade. O
tempo, essa inefável clepsidra, dilui
o sobressalto em águas claras e resume os
hábitos do sangue nesta paz tranquila e sem
cuidado. Tão próximo da eternidade, só
é difícil, sempre, a manhã insidiante e seu
ruído contra os vidros e a parede branca.


***

TEORIA DO ESQUECIMENTO

Não perguntas nem respondes. Tinham saído
todos, levavam para sempre os livros
e os discos como quem partilha o espólio
dum naufrágio, garrafas vazias, cartas
de jogar. Um deles olhou ainda por instantes
o que ficava no espelho de sombra da
parede. É tão difícil a renúncia,
logro, o exílio. Lá fora a noite
convidava ao delírio, não custa inventar
motivos que justifiquem a traição.


***

A IMPOSSIBILIDADE DO AMOR

Um inverno que levasse tudo. As folhas,
os caules, os ramos secos de novembro,
a gramática, o ardor remanescente
de criança suja brincando nos telhados
dos armazéns. Pouco ficou desses
desenhos, o cinzento das fábricas,
a pressentida sombra da idade, o pó do
ouro soprado contra os vasos altos
do armário. E agora é tarde, a inocência
em travessia difícil contra os vidros
do passado, o ultraje da lírica exposto
nas praças. Já nem procuras, como se
um cão abandonado te esperasse à
porta para a impossibilidade do amor.





 
INOCÊNCIA. Se há uma coisa boa que os blogs têm é isto: permitirem o reencontro com velhos amigos que as circunstâncias afastaram, por vezes durante anos, da nossa vida. Vocês não podem imaginar a alegria que senti ao receber um e-mail do José Carlos Barros, um dos melhores colaboradores que passaram pelo mítico DNJovem e um poeta magnífico, mas que ainda não encontrou forma de lhe fazerem justiça. A propósito da guerra no Iraque e das polémicas com a Coluna Infame, ele escreveu-nos este texto:

Eu sei bem que isto é ser inocente, primário, totó, mas também é só um parêntesis: custa compreender que os argumentos a favor e contra a intervenção no Iraque – alguns deles, muitos, de um e outro lado, brilhantes do ponto de vista da análise política, e económica, e estratégica, e geo-estratégica, e o diabo a quatro – nem por um instante considerem uma coisa simples: estas guerras não são como aquelas que fazíamos em criança disparando com o dedo e dizendo “estás morto”, nem como aquelas que jogávamos em tabuleiros com peças de plástico a fazer de infantaria. Esperava-se que nas análises sobre esta história, sobretudo nas dos heróis que escrevem a seu favor, por um instante se metessem num qualquer dos pratos da balança os homens e as mulheres que vão morrer e que vão matar, os que vão peregrinar fugidos da guerra não propriamente a Santiago de Compostela ou a Meca, os que vão assistir à morte dos filhos ou começar a andar com uma perna às costas atada por um fio ou passar a batê-las com a mão esquerda se quiserem e essa mão lhes ficar intacta ou sofrível. Uma guerra, obviamente, pode infelizmente justificar-se apesar dos inocentes que morrem. Mas, por um instante, um instante breve, não ficava mal pesar também este aspecto ao esgrimir os argumentos contra e a favor. Eu bem sei que isto é ser inocente e retirar o brilho literário à coisa: de facto é mais interessante, e intelectualmente estimulante, discutir o pentelho das francesas ou a importância do Camembert na história da gastronomia ocidental. Desculpe-se portanto esta intromissão anómala, e continue-se a discussão à seria.

Não precisas de pedir desculpa, Zé Carlos. E podes intrometer-te, com inocência ou sem ela, sempre que queiras.


12.2.03
 
PINGUINS (2). O leitor José Costa Nunes oferece-nos a explicação do misterioso cartaz que os Pólo Norte andam a espalhar por Lisboa. Dois parágrafos de pura ciência esclarecem tudo:

Com o aquecimento global do planeta, desprendeu-se um pedaço de uma calote e os pinguins decidiram singrar até ao Norte para saborear uma "Carlsberg", pois já estavam fartos da Iceberg.
A razão porque aparecem retratados no cartaz do agrupamento musical, tem a ver com o facto de estes pinguins pertencerem a uma geração de luso-descendentes dos navegadores quinhentistas.



 
ONDE ESTÁ O BIN? Afirma Eduardo Prado Coelho na sua coluna : «Os adversários da guerra dizem que os EUA a pretendem por causa do petróleo. É óbvio que o argumento do petróleo é certamente importante, mas julgo que há que ter em conta que esta guerra é sobretudo o efeito da convergência de dois factores de índole mais psicológica: o enorme trauma do 11 de Setembro e a incapacidade que os EUA revelaram para matar Bin Laden e desmantelar a rede da Al-Qaeda. É no nó deste duplo desaire que tem sentido esta urgência ofegante de uma guerra perante um Saddam Hussein que está hoje militarmente muito mais enfraquecido do que estava em 1991». Nem mais, caro EPC, nem mais.

 
21-4. O Público fez um dossier sobre o que pensam os «intelectuais e artistas portugueses» sobre a guerra. Em 25 personalidade contactadas, 21 estão contra (84%) e quatro classificam-se como «não opositores» (16%). Tudo normal. Do lado contra a guerra, encontramos figuras como Siza Vieira, Eduardo Lourenço, Maria de Medeiros, Jorge Silva Melo ou Prado Coelho; do lado dos «não opositores», os esperados Vasco Graça Moura, Pedro Mexia (o bloguista "infame", na qualidade de poeta e crítico literário), bem como o irrelevante fadista João Braga. Únicas surpresas: ver o filósofo Fernando Gil assumir uma posição pró-Bush e Agustina Bessa-Luís a escrever «palavras honestas e sábias» sobre a crueldade dos poderosos ou sobre essa arma de destruição maciça que é a ignorância.



 
SCOLARI. No seu primeiro teste à frente da nossa selecção, Scolari perdeu com a Itália (1-0) em Génova. Um mau resultado? Só para quem não tem os pés assentes na terra. Factos são factos: Portugal nunca ganhou para lá dos Alpes e o melhor que conseguiu foi um empate (ainda no tempo do Eusébio). Para além disso, o "mister" Trapattoni está com a corda na garganta devido ao percurso engasgado dos italianos na fase de qualificação para o Euro 2004. Se não vencesse hoje, "Trap" ficava em muito maus lençóis.
A partida em si foi fraquinha. Portugal usou vários sistemas tácticos, rodou jogadores novos e está ainda longe de ter o chamado "fio de jogo". A Itália mostrou-se melhor, mais forte, mais rápida e mais consistente - sobretudo na primeira parte. Na segunda, mesmo antes de sofrer o golo, a Selecção mostrou um esboço do seu talento e um jogador que merece mais oportunidades: Luís Loureiro, do Gil Vicente. Durante 15 minutos, para usar o lugar-comum de Artur Jorge, «fizemos algumas coisas bonitas». Ainda não chega, mas é um começo.
Claro que houve logo quem criticasse o treinador brasileiro, apesar de ele só ter feito dois treinos com os jogadores. É a habitual mesquinhez xenófoba, transferida dos dentistas para o campo de futebol. O que esses exaltados de todas as horas esquecem é que ainda falta quase um ano e meio para o Europeu. Ainda faltam 12 jogos amigáveis para definir uma estratégia e construir uma equipa. Scolari sabe muito bem pôr na ordem as vedetas e resistir às pressões da imprensa. Melhor ainda: já provou ser capaz de levar uma selecção brasileira invulgarmente pouco talentosa até ao título mundial.
Vamos com calma. Por agora, só podemos dar-lhe um voto de confiança e deixá-lo trabalhar. É no fim do caminho que se fazem as contas.



 
PINGUINS. Vejo, espalhados pela cidade, os cartazes que anunciam um concerto dos Pólo Norte. A ilustrar, uma imagem com pinguins. Não vamos discutir aqui a qualidade gráfica da promoção, mas acontece que os pinguins (como muito bem sabe qualquer espectador das séries sobre o mundo animal que passam na TV) só existem no Hemisfério Sul. Os rapazes da banda revelam assim que percebem de zoologia o mesmo que percebem de música. Isto é, nada.

 
ÉLOGE DE LA FRANCE. Do leitor Nuno Carvalho recebemos um elogio àquele país tenebroso de que a Coluna Infame tanto fala:

Abomino a palavra civilização. Raramente a uso, convicto que não é este o projecto de sociedade que desejo. Contudo, quando penso na França, não me ocorre outra. Se a cultura ocidental tem algum mérito é no coração da Europa que se encontra. Três instantâneos:

1. Tarde de sol, Janeiro de 1999. Há um jovem que estuda em Ciências e em Letras, no campus da Cidade Universitária, num curso pioneiro mas que depressa se extinguiu. Há uma biblioteca de Linguística, onde tenta fazer a ponte entre os diferentes saberes. Há o encontro com um autor, Barthes, que com a ajuda do dia claro, o irá fazer mudar de curso, instalando-se por quatro anos na Faculdade de Letras. Os livros mudam o curso de uma vida. Seguem-se Foucault, Deleuze, Derrida, constelação de estrelas a anos-luz das banalidades de um Steiner ou Bloom.

2. Agosto de 2002. Cagnes-sur-mer. Uma mulher inclinada numa varanda sobre o mar. Os dias são longos, a água quente, as livrarias abundantes, pequenos seixos, o mar azul. Em vez de gelados, Pierre – nome fictício – vende cafés e tartes de maçã à beira-mar. Mais tarde, nas compras para o jantar, consegue-se roubar «Le Marin de Gibraltar», de Duras, no supermercado local.

3. Outubro de 2002, Paris, céu nublado com nesgas de sol. À saída da exposição Matisse-Picasso, no jardim do Grand Palais, pausa para retemperar forças, beber água, ler refastelado no colo da namorada. Ah, mas aproxima-se um grupo de crianças barulhentas, a leitura terá de ser interrompida. Erro meu: Marc – nome fictício –, um metro e vinte, seis ou sete anos, óculos de cores vivas e sardas no nariz, interpela-me num sorriso a rasgar o mundo: «Excusez-nous pour le bruit, monsieur!».

Por isto – e tantos outros instantâneos imprimidos na pele funda da memória – amo a França, e detesto esta "piolheira" (JCM dixit).





 
PAVLOV. A Coluna Infame lança-nos duas acusações: 1- somos previsíveis (basta eles tocarem a sineta, i.e. soltarem a língua, para nós ficarmos logo indignados) e 2- somos puritanos (só porque recusamos a linguagem grosseira e sexista de que eles tanto gostam).
A previsibilidade nem merece resposta. Mas quanto ao puritanismo, a questão é tão simples que até magoa. Quem vive sem complexos e sem fantasmas (morais ou outros), não precisa de levantar a voz ou armar-se em macho. O desbragamento da Coluna é irmão gémeo da gabarolice marialva. Desculpem lá, amigos "infames", mas os vossos excessos provam precisamente que o puritanismo continua – e de que maneira – nesse lado da barricada.

 
DIFOOL DIXIT (2). E agora o "guerrilheiro" vira-se para João Pereira Coutinho, outro dos "colunistas infames":
JCP... hops, JPC, bacano, curto as tuas bojardas mas essa última tem efeitos tão colaterais que deu cabo da culatra. Sabias que os franceses descrevem exactamente da mesma forma as mulheres... portuguesas? Pois é, a xenofobia não precisa de um acordo de Schengen para nada...

 
QUESTÕES DE LINGUAGEM. Decidiu a Coluna Infame enveredar por um estilo de escrita que raia, por vezes, a grosseria. Eles dizem que são "voluntariamente desabridos" e que a "língua é por vezes violenta porque só assim se pode lidar com a violência de certas realidades". Estão no seu direito. Cada um sabe as linhas com que se cose. Mas parece-nos que há outras formas de ser desabrido, nestes espaços de absoluta liberdade, que não passam pelo recurso à chalaça vulgar, ao subentendido licencioso e a um vocabulário de uma truculência quase sempre despropositada.
Lembram-se do «Cântico Negro», do José Régio? Pois é, amigos da Coluna: não sabemos para onde vamos, mas sabemos que não vamos por aí.

PS: Alguns dos leitores/colaboradores deste blog vêm respondendo, mais ou menos à letra, a algumas das provocações "infames". Podem, evidentemente, continuar a fazê-lo, tanto agora como no futuro. Na verdade, até nos prestam um favor. Nós (o núcleo duro do blog) temos pouca paciência para guerrinhas de palavras e talvez deixássemos passar impunes, ó miséria, algumas das atoardas que vocês, de olhos bem abertos, não deixam escapar.


11.2.03
 
DIFOOL DIXIT (1). O "guerrilheiro" Difool, amigo do nosso já famoso Ivan Terráqueo, é um especialista em terrorismo verbal. Na sua mira, para começar, está o "infame" Pedro Mexia. Um alvo recorrente nos últimos dias? Não é de estranhar. Segundo algumas vozes, ele "anda mesmo a pedi-las":
Este Mexia é um cromo raríssimo, meus. Retrospectivando, aquela tirada falocêntrica a implicar com a nova musa do hemiciclo seria suficiente para o bacano levar uns calduços de uma qualquer feminista, mas eu nem sequer vou por aí. Curtes Monica Bellucci? Confesso que a bojarda do Pedro mereceu uma nota técnica razoável (5.6) e enquadra-se na onda Fernando Henrique Cardoso do “posso perder um amigo, mas não perco uma piada”. O humor é sempre um compromisso. Agora, pessoal, o que me fez ir ao tapete de tanto rir foi a justificação do Mexia, sobretudo quando diz: “ao contrário dos outros dois infames, o meu estado não-conjugal permite essa licença e atrai essa debilidade do espírito que consiste em apreciar impenitentemente o sexo oposto (ou o oposto de sexo)”. Fónix, não comento a eficácia das leituras subliminares desta mensagem para futuros jantares a dois, embora desconfie que não haverá por aí moçoila que vá na cantiga, pelo que sugiro uma aposta nas “angústias centimétricas” (parece que às vezes resulta). Aquilo que é fabuloso na ressalva do Mexia é o conservadorismo em estado bruto, mais genuíno e puro que o mel silvestre. Como se para as pobres almas acorrentadas numa relação a piada apimentada fosse tabu. Como se o olhar que se demora uns nano-segundos mais por outras paragens fosse um crime. Como se o Pedro estivesse a falar a sério (?). É nestes pequenos detalhes, muito antes de se entrar nas clássicas arenas do confronto político, que se percebe a essência de um conservador. Este rapaz leva selo de garantia. A propósito, também andas a cavalo com os estribos curtos, segundo o genuíno estilo marialva?

 
AVENTURAS DA RAPOSA DIALÉCTICA.
– Ouviste falar desta história da Clara Pinto Correia? – perguntei eu à raposa dialéctica.
– Ouvi.
– E então?
– Então o quê?
– O que é que achas disto tudo?
– Acho mal. Eu nunca faria uma coisa dessas.
– Plagiar?
– Pois. Quer dizer, plagiar a «New Yorker», uma revista burguesa. Se fosse eu copiava prosas, sei lá, da «Nation» ou do «Le Monde Diplomatique».

Não sei se já vos disse que a raposa dialéctica é, para usar a terminologia "infame", uma esquerdista.





 
ARMAS DE DESINFORMAÇÃO MASSIVA (3). A cumplicidade dos media na primeira guerra do Golfo, denunciada sobretudo nas universidades americanas, deveria ter sido matéria de reflexão nas redacções dos jornais e televisões. Para que em novo período de conflito, como o que vivemos actualmente, certos erros se não repetissem. Mas não. A maioria dos jornalistas não parecem muito preocupados com isso e a maior parte tarda em considerar a administração Bush como uma parte beligerante do conflito, e não apenas como mais um observador entre outros. Toda a gente sabe que as operações militares há muito que não dispensam uma guerra de informação paralela. O exército americano tem serviços especializados na matéria, bem rodados em décadas de Guerra Fria. Para mais, a submissão ao poder económico dos órgãos de comunicação facilita consideravelmente a disseminação da propaganda. Não só porque as estratégias editoriais podem ser decididas pelos agentes económicos, como a crescente homogeneização dos “conteúdos” informativos determina a circulação pelos vários canais mediáticos das mesmas narrativas, imagens e, o que é pior, da mesma leitura dos factos. Afinal não vemos nós todos as imagens carimbadas pela CNN?
Esta “circulação do idêntico” participa na polarização desejada pela administração Bush – se não estás com a CNN, estás com a Al-Jazeera! – e faz com que as redacções caiam, umas atrás das outras, nas armadilhas informativas programadas pelo Pentágono.
Isto tudo quer dizer, por outras palavras, desinformação e manipulação.
Para quem não acredita, e pensa que isto são outra vez os “fantasmas conspirativos” da esquerda, sugerimos uma olhada no resultado de uma sondagem da Knight Ridder (um grupo de imprensa americano) realizada no início de Janeiro.
No fim da página podem ler que, bem antes das “revelações” de Powell, já um quarto dos americanos estavam convencidos que a administração Bush tinha apresentado provas de que o Iraque participara activamente no “planeamento e no financiamento” do atentado do 11 de Setembro. O próprio instituto de sondagens se viu obrigado a comentar que tais provas nunca tinham sido reveladas. Pudera! Se Powell não conseguiu sequer demonstrar de forma convincente que havia ligações entre a Al-Qaeda e Saddam, como é que teria provado que este último tinha organizado e pago o atentado? Mas que raio andam a fazer os jornalistas americanos? Uma coisa é certa: com informação assim não admira que a opinião pública se deixe embarcar em perigosas aventuras.
No entanto, alguns sinais (entre os quais outros resultados da referida sondagem) parecem mostrar que a batalha da propaganda americana não está ganha, longe disso. Apesar do martelar constante do partido da guerra (ou se calhar por isso mesmo), as opiniões públicas não cedem. Aumenta mesmo uma desconfiança pelos tais “conteúdos”, que escondem cada vez menos o seu carácter parcial. Uma prudência que deixa a esperança de evoluções futuras. Se a desconfiança der lugar a uma reflexão crítica e a uma mobilização da opinião, então talvez esta guerra até deixe de ser inevitável.

 
ARMAS DE DESINFORMAÇÃO MASSIVA (2). Mas esta história de propaganda descarada faz lembrar outras. Desde 1991 que vários estudos dissecaram os mecanismos de comunicação que os Estados Unidos utilizaram para influenciar a opinião pública durante a «Tempestade no Deserto». Lembramo-nos por isso de uma certa campanha em que se denunciou a morte de bebés tirados das incubadoras por soldados iraquianos no Kuwait. Veio a saber-se, mais tarde, que fora tudo fabricado e que a “testemunha” dos crimes era a filha do embaixador do Kuwait no Canadá e que o cirurgião que depôs no Conselho de Segurança da ONU, afirmando que tinha visto 40 bebés mortos, afinal era um dentista e tinha inventado tudo. Uma campanha muito bem orquestrada pela associação fantasma “Citizens for a Free Kuwait”, que pagou 11 milhões de dólares à agência Hill & Knowlton pela campanha de comunicação. Esta Campanha foi, no entanto, a razão invocada por vários senadores americanos para votarem a “luz verde” à intervenção armada.
E lembramo-nos também das fotografias por satélite a que a Newsweek, a ABC e o Chicago Tribune tiveram acesso e nunca publicaram. Simplesmente porque essas imagens mostravam que não havia qualquer concentração de tropas iraquianas na fronteira com a Arábia Saudita, contrariando o argumento da “invasão eminente” do “amigo saudita” (na altura ainda o era) pelo exército de Saddam. Como era um elemento central na justificação de Bush (pai) para a concentração militar americana na península arábica, os jornais, em atitude muito “patriótica”, meteram as fotos na gaveta.


 
ARMAS DE DESINFORMAÇÃO MASSIVA. A semana passada ficou marcada pela revelação (enfim!) das famosas “provas” que decidiriam os indecisos, prometidas pela administração americana e pelo governo inglês desde há muito. Mas a operação mediática fracassou. Não que as provas pareçam falsas (são demasiado imprecisas para o ser), mas porque indícios já existiam e muitos (por isso é que os inspectores andam por Bagdad). E o que Powell pretendia provar era a necessidade do recurso à força militar para esclarecer as dúvidas, ou seja, a existência de um “perigo eminente”. Mas muito mais que os dados imprecisos de Powell, foi a lamentável actuação dos serviços secretos ingleses que desacreditou a estratégia de comunicação do “eixo do Bem”. O relatório sobre as manobras do Iraque para evitar o seu desarmamento, um relatório apresentado no site de Tony Blair e referenciado por Powell na ONU como um dos indícios importantes (?), não passava afinal de um plágio. Uma gaffe monumental que revela o desespero a que a engrenagem da comunicação de guerra pode levar.
Que o relatório cite sem descaramento vários trabalhos publicados, entre os quais o estudo de um estudante universitário que se baseou em dados da primeira guerra do Golfo, não só prova que os serviços britânicos estão às aranhas, como desautoriza Tony Blair, que andava há meses a dizer que a sua secreta tinha provas consistentes.


 
VICHYSSOISE. Continua a cruzada anti-francesa da Coluna Infame, agora aberta ao grande público que esteja disposto a imaginar, com o som de fanfarras ao fundo, os mais provocatórios exercícios de estilo vocabulares. Sim senhor, bonito serviço. Já lá dizia o Paulo Portas: a melhor vingança é a que se serve fria, de preferência tão fria como certa sopa.
Vista daqui, digamos que tem alguma graça, toda esta fúria. É que os rapazes, como não se podem alistar nas tropas de Bush, vão mostrar o músculo e a testosterona por outros meios. Pela minha parte, aguardo ansiosamente os frutos da "criatividade" dextra. E enquanto espero, vou comendo mais umas fatias generosas de Roquefort, Brie e Camembert.



 
O QUE AS COISAS SÃO. Primeiro ponto: a Coluna Infame rejubilou com o recuo de Ferro Rodrigues em relação à manif do próximo sábado. Segundo ponto: nós ficámos contentes por descobrir que a Igreja – habituada a dizer não ao preservativo, à interrupção voluntária da gravidez e à modernidade – também sabe negar outras coisas (como a guerra "preventiva"). Conclusão: nós apoiamos a súbita "lucidez" dos católicos e eles apoiam a súbita "lucidez" do PS (eu chamo-lhe cobardia política, mas enfim). As voltas que o mundo dá.

 
AIR DU TEMPS. O próximo volume da colecção Mil Folhas, vendida com o Público à quarta-feira, é uma obra-prima: «Lolita», de Vladimir Nabokov. Quanto à escolha literária, não temos rigorosamente nada a apontar. Muito pelo contrário. Mas convenhamos que o timing da saída acaba por ser assim um bocadinho... ehr... como dizer... irónico.



 
HOMILIAS. Nas missas rezadas domingo, os padres portugueses mostraram-se alinhados com o Papa, na condenação que este faz da "guerra preventiva", ao chamarem a atenção para a «crise política, social e moral do nosso tempo». Um deles chegou mesmo a dizer que «não precisamos de olhar para os Estados Unidos».
Infelizmente, o Sr. Revel já se tinha ido embora. Estamos certos que o ensaísta gostaria de perceber até onde chega, no nosso país, a maldita "obsessão anti-americana"...

 
O ABOMINÁVEL CÉSAR DAS NEVES. Há uma cena memorável da série «Os Sopranos» (ai as saudades!) em que o carismático Tony reage às ideias "prá frentex" da filha. Quando esta responde que o conservadorismo do pai não faz sentido («Já estamos no séc. XXI!»), o mafioso põe fim à discussão com uma frase de antologia: «Lá fora as pessoas podem viver no séc. XXI, mas dentro desta casa ainda estamos em 1957». Com o articulista João César das Neves, a quem já temos prestado a devida atenção, passa-se a mesma coisa. Se cá fora o ano é 2003, dentro das suas crónicas ainda se está na Idade Média.
Leiam, por favor, a crónica de ontem no DN e tirem a limpo.
Só para despertar a curiosidade, deixo aqui duas citações:
«Se a alguns ainda choca pensar que daqui a uns anos será banal considerar o horror das práticas pedófilas, é porque esqueceram o passado. Há uns anos era com a mesma náusea que se considerava o aborto e a homossexualidade. Há umas décadas era com o mesmo asco que se via a pornografia e o preservativo. Há umas gerações era com a mesma aversão que se olhava para o adultério e as uniões de facto. (...) O repúdio natural passou a oposição violenta, evoluiu como aceitação contrariada e terminou em banalização neutra. Hoje quem manifestar (sempre humilde e respeitadoramente, claro) opinião contra o divórcio, a pílula ou a pornografia será queimado como herege».
Aborto, homossexualidade, adultério, uniões de facto, preservativo, a pílula e a pornografia - para César das Neves, é tudo igual. Ou seja: faz tudo parte do inferno em que a pecadora sociedade actual, na sua infinita perversidade, mergulhou.
Mas há mais:
«Se a busca do prazer se sobrepõe ao pudor e à família, onde estão os seus limites? Se é aceitável matar crianças dentro do seio da mãe, porque não se pode abusar delas depois de nascerem? (...) A lógica de liberdade absoluta aplicada à propriedade e à raça deu a "ditadura do proletariado" e o "holocausto", tendências que estão a reaparecer. Aplicada à vida quotidiana dá ciúme, divórcio, promiscuidade, droga, a violência nos media, a clonagem, a inseminação artificial, as novas armas, o terrorismo e, claro, guerra.»
Se ainda têm a boca aberta de espanto, fechem-na. Há coisas tão ridículas que nem sequer merecem a nossa indignação.





 
2 POEMAS ENTRE PARÊNTESIS. Do leitor que assina Caim Abel, dois poemas:

(Mais do que o manuscrito e
a sua antiguidade foi a mão
encontrada a seu lado um feixe
de canas de cal agarrando um
coração a lamber-se da terra a
pôr-se bonito)



(O síndroma dos olhos feridos
dos astrónomos é menos conse-
quência dos astros malignos do
que de certo coração científico
órgão vestal com garras e sem
órbita ideia quente e morena como
um músculo cruzamento da pél-
vis e das mãos no espaço come-
ta fecundando o Sol)



10.2.03
 
PRIMEIRA APROXIMAÇÃO A FRANCIS BACON. Em Serralves, diante das telas de Bacon, o mais difícil é encontrar palavras. Como dizer o que as imagens se recusam a revelar? Como aprisionar no discurso aquelas terríveis máquinas líricas? Como reduzir a esquemas e figurações o que é incadescente? Eu não consegui na altura e temo não conseguir agora.
Por isso deixo-vos, num primeiro momento, as palavras do pintor. Francis Bacon por Francis Bacon: «Odeio o meu rosto mas continuo a pintá-lo por que não tenho outra pessoa para pintar. Uma das coisas mais bonitas que Cocteau disse foi: "Todas as manhãs, ao espelho, vejo a morte em acção." É isso que uma pessoa faz a si própria.»
Nestes quadros de Bacon vemos homens em prisões de sombra, corpos fundidos com uma violência para lá do amor, tratados de melancolia e solidão, ratoeiras existenciais, muitos gritos. Mas por trás de tudo está sempre o que a lucidez de Cocteau lhe revelava: a morte em acção, a morte sempre atenta e triunfante.


 
LAPSUS LINGUAE. Num texto do Público sobre o espectáculo «Não Há Crise» – levado à cena no São Luiz pelo colectivo Manobras de Diversão (lá iremos um destes dias) – descobrimos uma daquelas "gralhas" involuntariamente divertidas. Para sermos exactos não é bem no texto, é na legenda da foto: «Uma sátira à sociedade e aos bons costumes, com a assinatura das Ficções Fictícias».
Queriam eles dizer que os textos são das Produções Fictícias, claro. Mas este novo nome, nascido de um lapso (que desde Freud sabemos ser uma janela aberta por uma qualquer «verdade» inconsciente), não deixa de ter os seus encantos. O que poderiam ser as Ficções Fictícias? Qual é o território em que a ficção se ficciona? Será isto a que chamamos vida? Será o Real (a realidade com maiúscula)? Menos por menos dá mais?


 
AS BOAS RAZÕES PARA FAZER A GUERRA. E agora é tempo de mais uma estreia neste blog. Senhoras e senhores, abram alas para o incomparável Ricardo de Araújo Pereira (esse mesmo, o rapaz das Produções Fictícias que também tem jeito para a "stand up comedy"). Voilà:

Caros amigos do Blog de Esquerda,
Não me parece que estejam a ver com clareza a questão da anunciada guerra no Golfo. Pela minha parte, concordo com (o tipo que escreve os discursos de) George Bush. Em primeiro lugar, porque é urgente estabelecer um regime democrático no Iraque, e a História demonstra que os Estados Unidos são a potência indicada para levar a cabo uma intervenção com esse objectivo. No mundo em geral, e no continente americano em particular, com especial destaque para o edificante exemplo do Chile, quase não há país em que os Estados Unidos não tenham soltado as peias ao seu altruísta desígnio de estabelecer democracias. Em segundo lugar, porque a existência de uma ditadura que possui armas de destruição maciça é perigosa para a paz mundial. O Paquistão e algumas outras ditaduras que também possuem armas de destruição maciça não ameaçam a paz do mundo porque, sendo aliadas dos Estados Unidos, não pressionarão o botão vermelho sem pedir licença. Era exactamente isso, aliás, que fazia Saddam no tempo em que, em lugar de ser o facínora cruel que é hoje, era um estadista respeitado e amigo do ocidente, que se limitava a dizimar curdos. Em terceiro lugar, porque Colin Powell, nas Nações Unidas, deixou provado, sem margem para dúvidas, o seguinte: a) que no Iraque há militares; b) que esses militares conversam uns com os outros, às vezes até por telefone; c) que o Iraque possui vastos descampados onde está construído aquilo que se pode garantir, sem risco de errar, serem barracões. Por último, porque o Iraque possui, de facto, armas químicas, e os americanos sabem-no. Sabem-no porque foram eles, com outros Estados ocidentais, que proporcionaram a Saddam o material e as condições para as construir. Posto isto, give war a chance. A paz é para os maricas.


Bem-vindo, Ricardo. Esperamos que isto seja apenas o início de uma longa amizade...


 
SUGESTÃO PARA O PM. Filipe Moura volta a "dialogar" com a Coluna Infame:
Ainda sobre as respostas do Pedro Mexia, eu devo começar por esclarecer que, pessoalmente, não tenho a mínima razão de queixa da forma como fui "tratado" pela Coluna Infame nas respostas que até hoje me deram (o pior que me chamaram foi mesmo "esquerdista"). Mas a verdade é que há nesta coluna algumas respostas a leitores (e provocações a deputadas, e outras coisas que tais) que são despropositadamente ordinárias e não correspondem ao talento literário (como escritor e como crítico) do autor, que admiro desde o DN Jovem. Gostaria de recomendar ao Pedro Mexia uma cura de audição intensiva de Caetano Veloso, para ele aprender como se pode ser provocador sem se ser mal educado. É claro que isto é só para uns. Como diria o Caetano,
"Uns vão
Uns tão
Uns são
Uns dão
Uns não
Uns hão de
(...)
E não há outros"


9.2.03
 
A TELEVISÃO. Filipe Moura, parte dois:
Outro óptimo artigo, este no Público, é o do prolixo (ele entenderá porquê) Daniel Oliveira, sobre a regulação da televisão. Gostaria de apresentar uma proposta a este respeito. Para quem vive nos EUA, a principal diferença na televisão relativamente a Portugal reside no facto de os horários dos programas serem SEMPRE CUMPRIDOS. Não importa se durante o dia se tem programas tipo "O Juíz Decide" em praticamente todos os canais; se se tem o "Jerry Springer" e outros shows tais que me levem a recear que em Portugal se esteja apenas na Idade da Pedra do telelixo; se se tem intervalos comerciais a cada dez minutos. A verdade é que também se tem TODOS OS DIAS episódios (antigos, é certo) do "Seinfeld", dos "Amigos" e dos "Simpsons", novelas brasileiras (dobradas em espanhol) como "O Clone" e a "Esperança", SEMPRE À HORA MARCADA. E tudo isto, refira-se, nos canais de acesso gratuito (acessíveis a quem tenha antena); não estou a falar de canais por cabo. A grande diferença é que nos EUA um espectador só vê o telelixo se quer, pois sabe que a programação que foi anunciada (nos jornais, nas revistas, na internet e na própria televisão) é a que é transmitida. A "contra-programação", o prolongamento de novelas por horas enquanto no outro canal está a dar desporto, aqui seriam impensáveis. Muito menos a interrupção de telejornais com directos do "Big Brother"! A verdade é que as estações de televisão, aqui, têm muito mais respeito pelos espectadores! A principal restrição que as emissoras de televisão em Portugal deveriam ter - e isto teria de ser o Estado, a tal "entidade reguladora" a que se refere o Daniel, a fazer, mais do que propriamente interferir nos conteúdos - era a obrigação de cumprir os horários. Só isto alteraria substancialmente - para melhor - o panorama audiovisual em Portugal.

 
LE PEUPLE, C'EST MOI... E agora Ivan Terráqueo, de volta à Terra:
José António Saraiva (JAS), director do paquiderme da imprensa lusa, é capaz do pior e do catastrófico. Na crónica desta semana (a pagar), debruça-se sobre o incontornável caso Cruz. Depois de uma verborreia de banalidades em irritante estilo “paragrafoso” sobre a vil natureza do povo, esse monstro acéfalo e cego capaz de linchar primeiro e não chegar a perguntar depois, JAS conclui: «Se (o senhor Cruz) estiver inocente, a multidão vai sentir-se defraudada: a necessidade de sangue não será satisfeita.» Não só a conclusão é pouco elegante, a ficar bem na boca de um Pôncio Pilatos, como é também razoavelmente absurda. Usando a lógica de JAS, admitamos que o povo gosta de sangue, mas lembremo-nos que é ainda maior o seu fascínio pelo espectáculo, o volte-face e as emoções fortes. Uma absolvição do senhor Cruz seria uma pratada para saborear a quente e por muitos anos a frio, sobretudo agora, quando até o director do Expresso se junta à populaça no atear da fogueira, com o seu desastroso remate: «Mas, afinal, não é ele (o senhor Cruz) o apresentador que sempre melhor fez "bluff" com os concorrentes nos concursos televisivos?» JAS, o arquitecto, antes de enviar as suas tiradas de café para a tipografia, devia ser informado que, até o trânsito em julgado, o arguido não pode ser considerado culpado, como até se presume inocente. Devia depois ser informado das vantagens de uma reforma antecipada.



 
JANELA INDISCRETA. Escreveu-nos, assim, Cristina Fernandes:
Antes de mais os parabéns pelo vosso blog. É certo que só o conheço desde a semana passada (via artigo da Isabel Coutinho no Mil Folhas) mas ele entusiasmou-me tanto que levou à criação da janela-indiscreta. Em recompensa e uma vez que o Público não editou a (excelente) entrevista do Molder, ofereço-vos o texto, editado na íntegra, no nosso blog.
Esta Janela Indiscreta, onde se cruzam textos e imagens sobre filmes, livros, quadros, caligrafia chinesa e tudo o que tenha a ver com uma reflexão estética, merece muito mais do que uma espreitadela. É uma espécie de magazine cultural on-line, muitíssimo bem feito e com escolhas de um gosto inatacável. Resultado: já está nos nossos Favoritos, com direito a uma visita diária (pelo menos).
Keep the good work.


 
VILLAVERDE CABRAL. Começamos a abrir as "cartas" com esta mensagem que nos chega do Filipe Moura:
Se a Coluna Infame encontra «só três ou quatro colunistas de direita no DN» (eu conto seis, sem incluir o Vasco Pulido Valente, que é um caso à parte, mas mais importante que isso é a redacção do jornal), colunistas de esquerda eu só conto o Miguel Portas e o Manuel Villaverde Cabral. Este último sumarizou (com o pouco espaço que lhe resta para escrever, não dá para mais...) os nossos argumentos contra a guerra num excelente artigo. É um dos escassos motivos para continuar a ler o DN, desde que este jornal pintou o cabeçalho de laranja e azul e espalhou anúncios por tudo o que era sítio, com uma manchete a dizer "maioria apoia portagens".


 
REGRESSO. Depois de um fim-de-semana a norte, em peregrinação a Serralves para ver a exposição de Francis Bacon, encontrámos o correio electrónico a abarrotar de correspondência. O que é que se pode dizer? Apenas que ficamos felizes por termos leitores tão fiéis e tão interventivos.
Já agora, chamamos a atenção para mais uma pequena novidade. Mesmo ao fundo da página, no canto inferior esquerdo, passou a existir um contador. É um rectângulo que diz «Site Meter» e que nos/vos oferece, depois de um click, diversas informações sobre o número de "hits", as médias diárias e semanais, a duração das visitas, entre outras minudências (obrigado Filipa, pelo apoio técnico).
E isto é só o princípio de um demorado "upgrade". Aos poucos, vamos procurar que o grafismo do Blog se torne mais elegante e que apareçam outras "mais-valias", como uma secção de links, a possibilidade de comentar os posts, etc. Se houver dicas, truques ou ideias geniais que queiram partilhar connosco, façam favor.




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