BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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23.11.03
 
DOGVILLE. Quase não falámos aqui no BdE do último filme de Lars von Trier. E, no entanto, teríamos gostado de entrar no princípio de polémica que passou pela blogosfera (ver aqui e aqui). Voltaremos ainda a este filme, sem dúvida. Para já, transcrevemos uma crítica do nosso amigo Pedro Rodrigues que, na sua coluna do Combate, nos continua a espantar com o seu olhar livre e pertinente sobre o cinema.


“Dogville”
de Lars Von Trier

Jogo cão

Cidade de cães. Homens cães e mulheres cães. E um cão. Numa terrinha americana, território da moral e dos bons costumes, uma Graça vem perturbar tudo. Não, não é a nova ministra da educação: é Nicole Kidman, que é Grace.
A vilória é um tabuleiro, e a vida um jogo. Grace vem de fora. Mas deste "fora" só se sabe que há polícias e bandidos. Só resta ao espectador uma hipótese. Entrar ou não entrar no jogo. E entra-se. Basta não sair da sala.
Tudo se passa às claras (para quem vê). As portas e as paredes das casas não estão lá. Só o barulho das portas. É uma espécie de Big Brother: há até as reuniões da "comunidade" onde se discute sobre se Grace sai ou fica em Dogville. Mas é um Big Brother mais erudito. A música barroca aparece de vez em quando para nos lembrar disso. Mas será que tudo se passa mesmo às claras?
De onde vem essa música, por exemplo? De onde vem a voz do narrador, ao mesmo tempo pregadora e irónica? Pede-se ao espectador que entre no jogo. Mas quem fez esse jogo? Quem inventou as regras e para quê?
Para fazer uma "ilustração". Para, com um exemplo "típico" (embora caricaturado) de uma certa moral e de uma certa "civilização", mostrar as hipocrisias dessa moral, mostrar as duas faces da mesma moeda, onde se juntam Bem e Mal. Lars Von Trier põe-se nessa posição (quase invisível) de pregador de uma nova moral, que denuncia a que reina em Dogville. Põe em questão, aparentemente, os fundamentos dessa moral: a palavra e a argumentação, a ideia de "planificar" a acção, a racionalidade, a educação ("eu acredito na educação", diz a certa altura uma das habitantes, mãe de filhos com nomes de deuses greco-latinos). É também a moral da culpa/desculpa, do certo/errado, do crime/punição. Grace vem perturbar, porque é menina rica e citadina. Tem a "arrogância" de ser paternalista e desculpabilizadora em relação aos outros. Acaba por "encaixar" (de maneira perversa) em Dogville. E aprende uma lição, que é a que Trier quer que todos aprendam. Que o ser humano é "mau" e cão.
Quem inventou as regras foi Trier e o tom de Trier é ainda moralista, mas já duma outra moral. Envolve o espectador (apesar da divisão em capítulos, apesar das ironias, apesar do tabuleiro) para lhe impingir a sua tese. A representação regressa estranhamente a um novo naturalismo (há quem prefira dizer "underacting"), e procura um intimismo baseado nos sussurros de Kidman e na proximidade da câmara, além do uso banalíssimo e tradicionalíssimo da música. A câmara na mão e a montagem com saltos bruscos tornou-se (já era) o tique do artista, a sua imagem de marca.
O problema é que as velharias de Trier usam coisas novas e vêm com a aparência do novo e do radical. É essa a sua lição de marketing: provocatório à superfície e nos temas, inovador pelos tiques, ilusório e naturalista com uns pós de distância e ironia. E descobriu a pólvora: conciliar os seus jogos morais com o star system americano, "cinema de autor" que sabe alargar a sua fatia de mercado.
As contradições de Trier jogam-se aí: querer afrontar a moral fazendo "ilustrações" morais, ter a côdea arrojada e o miolo conservador. Obcecado pelo Bem e pelo Mal, Trier não consegue sair desse jogo onde se fecha (também não há saída de Dogville, é preciso voltar para trás...). Anda às voltas com o seu existencialismo soluçante.
O que ele adora, no fundo, é ver a Kidman sussurrando meio chorosa, filmada em tremelique com o Bach a acompanhar. Às vezes não há pachorra.
(Pedro Rodrigues)

 
FRIEDRICH.




A verdade é que não sei explicar muito bem porque gosto tanto das telas de Caspar David Friedrich. Mas gosto. Gosto das paisagens agrestes, dos cumes da montanhas, das capelas perdidas em bosques sombrios, dos cemitérios varridos pela neve, das ruínas ao crepúsculo e dos campos no momento em que são tocados pela primeira luz da manhã. Há neles uma honestidade tremenda (ia dizer franqueza). Aquelas brumas podem ser hiper-românticas, mas são também absolutamente reais. Olho e respiro-as; vejo e sinto no rosto um vento frio.





E depois há a presença humana: sempre dúbia, sempre esmagada pela natureza. O homem apaga-se diante do mar, das nuvens ou dos gelos eternos. A paisagem reflecte estados de alma (lembram-se de Garrett, nas «Viagens...», deambulando pelas charnecas do Ribatejo?), espelha o turbulento vórtice de ideias do homem romântico, a fúria de compreender a lógica mais secreta do mundo, a essência do Sturm und Drang. A existir uma banda sonora para estas imagens, seria Schubert.





Um dos aspectos mais fascinantes da pintura de Caspar David Friedrich é este: as figuras humanas estão sempre de costas. Elas vêem o mesmo que nós, ou o que nós gostaríamos de ver. Pertencem ao lado de , não fazem parte de um retrato. São projecções do olhar do pintor, fantasmas sem face, espectadores aleatórios que ficaram, quase por acaso, dentro do enquadramento. Como se tivessem sido apanhados de surpresa, à revelia da sua vontade. Ou então talvez estejam de costas porque se recusam a devolver-nos o olhar. Não sei. Não sei se há nisto uma desistência ou a primeira sombra da despedida.

22.11.03
 
RÂGUEBI. Acabou hoje, com um travo amargo para mim, a Taça do Mundo de Râguebi, disputada nos ântipodas (Austrália) e por isso entrevista fugazmente pela televisão, uma vez que os jogos se disputavam quase de madrugada (nove horas da manhã, desculpem lá, é madrugada). Na final, em Sydney, venceu a Inglaterra, que se tornou a primeira selecção europeia a trazer o troféu para o Hemisfério Norte. O travo amargo não se deve apenas ao colapso da França (a minha selecção) nas meias-finais e no jogo para a atribuição do terceiro lugar, depois de um percurso simplesmente brilhante nas fases iniciais da competição. O travo amargo deve-se sobretudo ao facto de ver o râguebi, o desporto colectivo por excelência, reduzido à eficácia mecanicista de Jonny Wilkinson, um médio de abertura que mais parece um robot (genial, mas robot) capaz de destruir as defesas adversárias à custa de drops. A Inglaterra foi a equipa mais forte e mereceu a vitória – sobre isso não restam dúvidas. Mas não consigo bater palmas, nem entusiasmar-me, com um XV campeão que é Wilkinsondependente e só marcou um ensaio nos dois últimos jogos. Acham que alguém vibraria com uma vitória do Brasil, no Campeonato do Mundo de Futebol, obtida apenas com golos (e a maioria de penalty) do Mário Jardel? Não me parece.

 
MERIDIANOS ESTRANGEIRADOS. Querem mais dois blogues muitíssimo recomendáveis? Então anotem. Há (uns) meridianos à maneira, onde pontifica mais um "filho" do BdE (a prole parece inesgotável), de seu nome Abel Campos. E há o excelente Estrangeirados, escrito em Paris por Bruno Manteigas e em Londres pelo João Cepeda, que, sobre ser um bom jornalista (e agora correspondente do DN no Reino Unido), foi um fraterno camarada de redacção. Sejam bem-vindos.

 
LANÇAMENTO. Na próxima segunda-feira, pelas 19 horas, na livraria Ler Devagar (Bairro Alto), é lançado o livro «Fogo sobre os Media», de Francisco Ferrándiz (professor da Universidade de Deusto, em Bilbao) e José Manuel Pureza (professor da Universidade de Coimbra). O livro reúne comunicações apresentadas em dois colóquios internacionais promovidos pela HumanitarianNet sobre a temática do relacionamento entre
media e conflitos armados. A apresentação estará a cargo do jornalista Adelino Gomes e do Prof. José Paquete de Oliveira (ISCTE).

21.11.03
 
VERSOS QUE NOS SALVAM. Ainda quente, acabadinho de sair da gráfica, o novo livro de um poeta que já andou pela blogosfera (nos saudosos Intrusos): Mário Rui de Oliveira, também um excelente tradutor de Tonino Guerra. O volume, com pouco mais de 50 páginas, intitula-se «Bairro Judaico» (Assírio & Alvim). Na capa, a imagem de um fresco. Vemos um anjo precário, a pairar numa parede vermelha. Lá dentro, nos poemas, fala-se de destroços e paisagens, memórias e flores brancas, música e Deus, Jerusalém e a «cinza sempre inacabada» da epígrafe de René Char. Há por aqui, sobretudo, uma espécie de luz ferida. Oiçam-na.


NEGRO CREME AZUL

A Eugénio de Andrade


A conversa era sobre pássaros
dizias a defender-te de ti próprio
o gaio é mais belo do que o melro
negro creme azul

bem desejavas não tremer quando
subias a um lugar que deixamos
no mais alto
com os ninhos

arrancavas uma flor
o gesto mais inocente
e por te sentires perdido
oferecias-ma

não sabias o que acordavas
por isso lancei-a ao mar
como verdade que mete medo



© Mário Rui de Oliveira

PS: Vozes amigas recordam-nos que o poeta Mário Rui de Oliveira não abandonou a blogosfera. Com os restantes Intrusos, limitou-se a mudar de poiso. Agora, deixa as suas palavras no caderno graficamente exemplar de um Companheiro Secreto.

 
EFÍGIES & ESFINGES. Eu ouvi. Juro que ouvi. O jornalista desportivo, naquele afã de dizer tudo num segundo, a correr, confundiu as duas palavras. Em vez de efígie, disse esfinge. Tragédia maior do nosso tempo: a ignorância à solta, transformada em lugar-comum.

 
REDUNDÂNCIAS. «Servi a Pátria e Acreditei no Regime», diz Rosa Casaco no título do seu livro de memórias. Como se nós não soubéssemos.

 
LIVROS, HUMOR E CORRUPÇÃO NO "É A CULTURA, ESTÚPIDO!" (PUB). Vai ter lugar no próximo dia 26 de Novembro, quarta-feira, às 18h30, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, mais um encontro sobre livros e escritores. Depois de António Mega Ferreira – que inaugurou o novo ciclo de encontros –, o convidado do segundo "É a Cultura, Estúpido!" é Gonçalo M. Tavares, um dos mais criativos e produtivos escritores da nova geração, autor de, entre outros livros, "O Senhor Henri", "O Senhor Valéry" e do recém-editado "Um Homem: Klaus Klump" (todos da editorial Caminho). A equipa mantém-se – a jornalista Anabela Mota Ribeiro, os críticos literários José Mário Silva e Pedro Mexia, os jornalistas João Miguel Tavares e Nuno Costa Santos, os colunistas Daniel Oliveira e Pedro Lomba e o stand-up comediant Ricardo de Araújo Pereira. Quem passar pelo Jardim de Inverno poderá, por exemplo, saber "O Que Não Andam a Ler" os críticos, conhecer as sugestões de "Baixa Cultura" dos jornalistas, ouvir a crónica humorística sobre a actualidade literária e assistir a um debate a partir do livro "O Inimigo Sem Rosto – Fraude e Corrupção em Portugal", de Maria José Morgado e José Vegar (Dom Quixote).
O "É a Cultura, Estúpido!", evento organizado pelas Produções Fictícias, continuará a realizar-se até Junho de 2004, nas últimas quartas-feiras do mês, no Teatro Municipal São Luiz.


20.11.03
 
HORROR. Na EuroNews, vejo em silêncio imagens dos atentados de Istambul. Prédios destruídos. Ruínas. Pessoas em estado de choque, com a cabeça e as mãos cheias de sangue. Do ar, um helicóptero sobrevoa a desgraça. Visão terrível. Mais prédios destruídos, mais ruínas, mais sangue. Como se por ali tivesse passado a sombra negra de um terramoto. Só que não foi um terramoto. Foi uma mistura de ódio e explosivos. Perante uma coisa destas, ao pensar nos autores do atentados, o que sinto não é repúdio. É repulsa.

 
UM BLOGUE TEATRAL. Não sei se conhecem estes rapazes:



Se não conhecem, eu apresento-os. Da esquerda para a direita: Tiago Rodrigues, Luís Filipe Borges e Nuno Costa Santos. Por acaso, são meus amigos. Por acaso, até escrevem todos no Desejo Casar. Por acaso, estão os três envolvidos num espectáculo teatral com um título brilhante («Stand Up Tragedy»), escrito pelo Luís Filipe e pelo Nuno, interpretado pelo Tiago. Por acaso, decidiram fazer um blogue sobre a montagem da peça, os ensaios, as angústias de quem escreve e de quem representa, os avanços e recuos, as histórias que ficaram de fora, as alegrias, os medos e tudo o que se passa nos bastidores e nas cabeças deles. Por acaso, o blogue está aqui e nele se faz, diariamente, a arqueologia dramatúrgica de um texto. Por acaso, o espectáculo vai estrear dentro de meia hora, no Teatro Maria Matos – onde ficará em cena até 14 de Dezembro, de quarta a sábado (21h30) e aos domingos (18h00). Por acaso, suspeito que vai ser muito bom.
Por acaso, nada disto é por acaso.

 
CHAMAS. Nas traseiras do jornal onde trabalho, há um pequeno quartel de bombeiros. E nesse quartel, ao fim de uns quantos lanços de escadas que parecem sempre intermináveis, há um pequeno restaurante. Uma espécie de tasca, com mesas de fórmica, guardanapos de papel, meias doses e preços baixos (em tempos, também sobrava espaço para um jogo de matraquilhos, onde só se podia jogar depois das três; agora já não). É ali que eu almoço às vezes, um bacalhau cozido ou uma cabidela, por entre a vozearia dos grupos que descem ritualmente dos seus escritórios e alguns tresmalhados jovens com pinta de estudarem no Chapitô. De quando em quando, ouvem-se sirenes. Nas paredes, fotografias a preto e branco, picadas pelo tempo, com homens agitando vetustas agulhetas junto a carros do princípio do séc. XX. E, em lugar de destaque, uma imagem a cores, muito ampliada. Hoje, não sei porquê, essa imagem perturbou-me. Mostra a fachada do Teatro D. Maria II, no dia do famoso incêndio. Lá em cima, no telhado, uma frente de chamas vermelhas e amarelas. Cá em baixo, no Rossio, vários veículos dos bombeiros e uma enorme escada Magirus, em cujo topo alguém aponta, directo ao coração das labaredas, um muito branco jacto de água. Enquanto mastigava, pensei no efeito irónico daquele fogo emoldurado. O que noutro lugar seria apenas uma tragédia, aqui é uma coroa de glória.

19.11.03
 
QUESTÃO DE PRESTIGE. A verdadeira história do naufrágio do petroleiro Prestige, ao largo da Galiza, ainda está por contar. Pressente-se que existem muitas questões nebulosas, movediços cenários económicos, obscuras jogadas políticas, cortinas de fumo, irresponsabilidades, cobardias, álibis. Enquanto isso, a realidade, nas praias galegas, continua a ser negra. Negra como o crude. Porque a poluição persiste. Porque o navio afundado é uma bomba-relógio.
Um ano após a tragédia, vale a pena espreitar aqui algumas das ligações perigosas em torno deste caso. E pasmar com a criatividade dos artistas que apoiaram o movimento «Nunca Máis», como este Colectivo Chapapote – a cujo site fomos buscar a belíssima (e terrível) ilustração de Miguelanxo Prado que abaixo se reproduz.



 
MANIFS. Disse há uns dias Pacheco Pereira: «Tanto quanto eu saiba, manifestações da esquerda em Portugal nunca houve contra Kadafi (pelo contrário, houve quem recebesse dinheiro dele), contra a dinastia norte-coreana, contra Cuba, contra o Hamas, contra Saddam. Só me recorda haver contra os EUA e com cartazes a dizer "Bush assassino e terrorista"». Este é um argumento recorrente. Já o tinha ouvido na altura das mega-manifestações contra a guerra, voltei a ouvi-lo como um estribilho nas monolíticas argumentações dos blogues de direita. De todas as vezes, só me apeteceu responder assim: «Pois é, têm toda a razão. A esquerda não se manifestou contra Kadafi, o Hamas e Saddam. Mas e vocês? Por que raio é que a direita, aparentemente tão preocupada com o povo líbio, israelita e iraquiano, mais a liberdade e a democracia, não se manifestou? Alguém a impediu? Não, pois não? Então deixem de nos moer o juízo, por favor».

 
NOVOS BLOGUES. São muitos, a merecerem visitas demoradas e atenção. Deixamos aqui a referência de alguns que nos agradaram mesmo. Mas há mais.


Bologna Nihil - Tem haikus e contra-haikus, muitos textos sobre temas culturais, sociais e políticos, além de uma manifesta dificuldade no uso dos acentos. Segundo os próprios, que se assumem como «um anarquista e um comunista à procura de companhia», a ideia é dar «notícias de Bolonha, Itália e Berlusconi», junto com «visões do mundo entre o dandysmo e a dinamite».

Via da Verdade - Um excelente «Blog de Filosofia & Literatura» (embora um pouco denso para não-iniciados), pelo mesmo autor do Folhetim Iluminados.

Laranja Amarga - Excelente ritmo, posts curtos, estilo incisivo, humor mordaz (e ainda por cima são de esquerda).

Quase em Português - Curiosa página de Lutz Brückelmann, um alemão que se descreve como «imigrante», «arquitecto» e «pai de família». O blogue, esse, tem um ligeiro sotaque. E Lutz diz que é «sobre tudo».

Miniscente - Hiper-activo blogue do escritor Luís Carmelo.

Tabaco só ao Balcão - Frases soltas (com erros ortográficos), slogans, palavras escritas em muros e montras de lojas, memorabilia verbal do nosso tempo.

18.11.03
 
CRISÁLIDA. Hoje e nos próximos dias, o ritmo deste blogue vai abrandar (desculpem-nos os leitores fiéis e exigentes). Há uma razão para isto. Fechado num casulo, emaranhado em fios de seda, o novo corpo do BdE ganha forma. Todas as nossas energias se viram para dentro, para o processo de metamorfose. A pausa impõe-se. É preciso ganhar balanço. Esperemos que a borboleta, prestes a esvoaçar, compense a espera.




 
O ESPIGÃO. Em frente a uma pastelaria, duas raparigas conversam. São adolescentes, com roupas adolescentes, cadernos da escola adolescentes, conversa adolescente. Uma delas, particularmente fustigada pela acne, tem um piercing no sobrolho e um espigão pontiagudo (não faço ideia do “nome técnico” daquela coisa) a sair do espaço reduzido de pele que fica entre o lábio inferior e o queixo. Devo dizer que o piercing não me incomoda nada. Já vi muitos. São quase banais. Mas o espigão é diferente. Imagino os tormentos para o colocar ali, naquela posição de prego espetado de dentro para fora. Imagino a dor da rapariga. O incómodo dos primeiros dias. O risco de infecção. E, pior que tudo o resto, uma pergunta: alguém quererá beijá-la, à rapariga cheia de acne e sonhos com estrelas pop, sabendo que o beijo dela é uma arma branca?

 
THE FRENCH WERE RIGHT. Só agora conseguimos encontrar on-line o artigo do National Journal, uma respeitável revista americana, em que se reconhece que os "cheese-eatin surrender monkeys" afinal tinham alguma razão. A penitência vem um pouco tarde, mas não deixa de ser um salutar reconhecimento da cegueira que dominou a política dos Estados Unidos no último ano. Vale a pena ler e fazer circular.

17.11.03
 
NA ESQUINA DA RUE DE LA PAIX.



De repente, à esquerda, surgiu a fachada da Ópera Garnier, com a sua imponência, os seus dourados, a cúpula verde. Há poucas coisas mais belas do que isto: ver o espanto num rosto que se ama.

 
ENÉSIMO TEASER. Faltam cada vez menos dias para a chegada do BdE II.

 
MANUELA MOURA GUEDES. Eu pensava que a arrogância da pivot desbocada da TVI era sobretudo pose. Não é. Leiam a entrevista que deu ao DN, hoje. Está lá o retrato de um monstro.

 
ITÁLICOS ABRUPTOS. As primeiras colaborações externas do Abrupto (isto é, os textos que não eram escritos por José Pacheco Pereira) começaram por aparecer sob a frase «O Abrupto feito pelos seus leitores». Agora é diferente. Os títulos surgem em maiúsculas e a bold; a prosa em itálico; a assinatura entre parêntesis. Tenho a impressão que já vi esta solução gráfica algures, mas ainda assim parece-me bem.

 
ESTÁDIO DO DRAGÃO. É bonito, sim senhor. Muito bonito. Mas, por favor, não venham dizer que é o «o melhor da Europa», «o mais belo do mundo», «uma superlativa obra de arte» e os exageros do costume. Porque o novo estádio do F.C. Porto não é nada disso. É apenas um recinto desportivo moderno, elegante, bem desenhado, funcional. E um empreendimento de construção civil que nos custou os olhos da cara (como os restantes estádios do Euro 2004). Desculpem, mas não há nisto nenhum motivo especial de orgulho.



 
AO GNR DESCONHECIDO. Meu amigo GNR: tenho um favor a pedir-te... Sei que quando te ofereceste para ires para o Iraque a situação era bem diversa, sei que estiveste em Timor e nunca como nessa altura, ao te sentires respeitado e acolhido por esse povo irmão, sentiste o que era a tua missão. Sei que até já houve momentos em que acreditaste que sim, que era verdade, que talvez não fosse motivo, mas que existiriam armas de destruição maciça. Meu amigo GNR: é por isso que te faço este pedido. Para além e acima de te pedir que honres a nossa pátria, que possas mostrar o habitual respeito e facilidade de comunicação que os portugueses têm com os outros povos, peço-te que voltes vivo. Pois sei – e acho que tu já sabes também – que se um dia verteres sangue será, irremediavelmente, em vão. (Pedro Farinha)

 
UMA GARGALHADA COMO UM VIDRO QUE SE PARTE. Há pessoas que não sabem rir. Abrem muito a boca, deixam a glote à solta, carregam nos decibéis, mas não riem. Aquilo não é rir. Aqueles sons que mais parecem guinchos de um animal sem hipótese de fuga, para lá do sobreagudo, não são gargalhadas. São balas, atentados acústicos que ameaçam o mais resistente dos tímpanos, mas não são gargalhadas. Não podem ser.
As pessoas que riem mal, ou não sabem rir sem exagero, representam um perigo público: incomodam-nos, invadem-nos a privacidade, roubam-nos o direito ao silêncio (esse bem precioso). Atacam-nos com uma arma invisível e, sobretudo, estridente. A sua alegria deixa de ser algo de prazenteiro, algo que se partilha entre amigos, para se transformar numa coisa rude. Uma inconveniência. Um golpe baixo. Uma agressão.

 
BOA NOTÍCIA. Recebo um e-mail do João Nogueira que diz assim: «Depois de uma longa ausência, o Socio[B]logue está, finalmente, de regresso». Aleluia.

 
MAIS REMBRANDT. Em certo sentido, a blogosfera funciona como um lago. Alguém lança uma pedra e os círculos na água (os ecos) sucedem-se. Veja-se o caso da «Lição de Anatomia do Doutor Tulp»: começou por ser mencionada no Barnabé, passou por aqui, foi glosada pelo Vilacondense e chega agora ao Planeta Reboque, com direito a esquemas com setas, triângulos e interpretações quase metafísicas. É bonito de se ver.



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