BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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16.11.03
 
MIRADOURO DA SENHORA DO MONTE (FREGUESIA DA GRAÇA). Ela diz-me: «tens que ver a cidade lá de cima». E eu vou. Ao fundo da rua, uma capela, uns quantos pinheiros batidos pelo vento, o céu muito azul. Aproximo-me. Há qualquer coisa de esmagador nesta paisagem: o corpo multiforme de Lisboa descendo até ao rio, as sinuosidades, as casas encavalitadas, as rugas, uma espécie de esplendor gasto e cansado, mas esplendor. Nunca tinha vindo aqui antes. Por isso fico a olhar. Absorto. Pasmado. Ela pergunta-me: «É ou não é o mais belo miradouro de Lisboa?» E eu nem preciso de responder. Claro que é.

 
PONTA DO VÉU. OK, amigos, tomem lá mais um teaser: se tudo correr bem, no fim da semana este blogue vai morrer e ressuscitar (mas não como Cristo). Muito simplesmente, ao Blog de Esquerda vai suceder o BdE II, com outro endereço, outro template, os mesmos capitães mas novos marinheiros. Acreditem: desta vez é que as prometidas novidades se cumprem. A sério. Estejam atentos.

 
AGRADECIMENTO. Ao Nuno Ramos de Almeida, pela simpática referência que faz ao BdE num artigo sobre blogues, publicado na última edição da revista «Ler» (Outono 2003). «Um bom sítio à esquerda, para tentar contrariar a ciber-direita», diz ele, ao comentar-nos na sua «ementa pessoal» da blogosfera. Não seremos só isso, mas também somos isso. Obrigado, Nuno.

 
BIG MOTHER IS WATCHING YOU. Um texto da Onion narra com muita graça aquele que é o pior pesadelo de certos bloggers. Tudo se resume à inquietante questão: e se a minha mãe descobre o que ando a escrever no blogue? Eu por mim não tenho problemas – até porque a minha progenitora já assinou textos aqui na página. Mas compreendo que o Pedro Mexia, por exemplo, tenha sentido calafrios. Se o pobre estremece com a mera hipótese de uma parente afastada, como Agustina Bessa-Luís (parente literária, entenda-se), poder espreitar os seus «ludismos sem jeito nem proveito», imagine-se o terror que não sentiria sabendo que a mãe lhe espiava as desvanecidas deliquescências com as musas da SIC-Notícias (Joana Gomes Cardoso à cabeça) e outros pecadilhos menos líricos. É caso para um homem se preocupar. Por isso, ao Pedro e a todos os bloggers temerosos do que de si revelam nos respectivos diários, aconselho a leitura atenta das instruções que o pessoal da Blogger Support compilou para minorar, de forma eficaz, os estragos provocados pela excessiva curiosidade materna. São simples, estão bem escritas e têm muita piada.

15.11.03
 
ATRASOS. Não chegamos a horas. Fazemos metade do que queríamos fazer. Adiamos tudo. O que era para ser ontem, fica para hoje. O que era para ser hoje, fica para amanhã. Olhamos para o lado e passaram semanas. Os relógios como utopia, como maldição. O tempo a cair no vazio, areia por entre os dedos. Que nome dar a esta lufa-lufa, a este corrupio, a este heraclitiano rio sem margens? Talvez síndrome de Cronos. Não sei. Digam-me vocês.




 
TODOS À MANIF. A partir das 14h um grande cortejo altermundialista vai percorrer Paris. Será sem dúvida um dos momentos fortes deste FSE, um registo visível e festivo da convergência que se foi tecendo não só ao longo dos últimos dias, mas em outros fóruns e noutras cidades. Amanhã será a vez de se reunir a "Assembleia dos movimentos sociais", uma assembleia aberta a todas as organizações presentes no FSE que desejam participar. É nesta assembleia que se decidem as grandes mobilizações e que se define a estratégia do movimento. Uma reunião que amanhã poderá lançar uma importante campanha por um "Não" de esquerda à constituição europeia de Giscard. Um "Não" que afirme um projecto de Europa democrática e social, a mesma exigência partilhada pelos milhares de participantes que hoje vão desfilar dizendo que "uma outra Europa e um outro mundo são possíveis".

 
CAOS PRODUTIVO. O clima do FSE foi, como seria de esperar, o de uma confusão eufórica. As salas foram quase sempre demasiado pequenas, deixando centenas de pessoas à porta dos debates mais esperados. Como impressão geral, ficou-nos a multiplicidade de reuniões e o calor dos debates, a profusão de panfletos e de jornais, a multidão colorida e poliglota. Daremos conta aqui, nos próximos dias, dos debates que mais nos marcaram. Mesmo se correspondem apenas uma ínfima parcela do que por aqui passou, constituem o testemunho empenhado de um espectador atento. Aliás, a impossibilidade de dar conta de maneira global do FSE é uma das maiores qualidades dos eventos deste novo tipo. É mesmo a condição da sua independência e a garantia da irredutibilidade do movimento. Uma condição de liberdade que funda esta nova radicalidade e que dá um novo alento para as mobilizações que se vão seguir. Só por isto, este segundo FSE podia já ser considerado um sucesso. Mas houve mais, houve progressos no trabalho lento e profundo de maturação das alternativas à globalização liberal. Talvez não as afirmações espectaculares que a imprensa esperava, mas a muito mais importante consolidação de uma convergência democrática (e por isso complexa e contraditória) de todos aqueles que contestam a ordem económica e militar que hoje governa o mundo.

14.11.03
 
LÁGRIMAS. Por esse país adentro, começam a aparecer imagens de Nossa Senhora a chorar, para gáudio dos peregrinos da fé instantânea mas também da TVI (perdoe-se a redundância). Querem um sinal de que estamos em crise – e das valentes? É ver as lágrimas destas estátuas, tão espantosas e puras. Milagres perfeitos, servidos à hora dos telejornais.

 
COLÓQUIO. Começa na próxima quinta-feira e é organizado, entre outros, pela Lia – a nossa amiga socióloga do blogue Tomara-que-caia. O título é sugestivo –«Sonoridades Luso-Afro-Brasileiras» – e o encerramento, uma jam session no Chapitô (sexta-feira, às 22 horas), prometedor. Toda a informação relevante pode ser encontrada aqui.

 
AUGÚRIOS. O dia começou mal: problemas graves com jornalistas portugueses no Iraque – cuja presença, aliás, parece que era pretendida/apreciada pelo comando da GNR. E tudo indica que o dia não podia acabar pior: com um comunicado “pilatiano” e uma conferência de imprensa que morreu antes de ser ovo.
Isto não augura nada de bom. Exigem-nos (?) solidariedade; e nós exigimos o quê, e a quem?
(JCampos)

 
CUNHAL. Muito se falou esta semana, na blogosfera, de Álvaro Cunhal. Porque fez 90 anos. Porque permanece igual ao que sempre foi; isto é, coerente (o mais assassino dos elogios que lhe podem fazer e de que a direita, com cinismo, abusa). E porque escreveu um artigo lamentável no «Avante!» – onde diz, entre outras coisas pouco razoáveis, que as «forças» capazes de deter o «imperialismo» americano estão, em primeiro lugar, nos países cujo objectivo é a construção de uma sociedade socialista (um saco onde cabem, ao molho, a China, Cuba, o Vietname, o Laos e a Coreia do Norte). A não ser que a revisão do texto tenha sido feita por Bernardino Soares, é incompreensível que os "camaradas" tenham deixado passar tamanho disparate. Há muito tempo que toda a gente sabe que naqueles países o que está a ser construído é uma negação do que se deve entender por sociedade socialista – tal como era uma negação do socialismo o que se passava na URSS e na RDA.
Aos 90 anos, Cunhal tem direito às suas ideias fixas, ao seu discurso com cheiro a formol, à sua ultrapassada leitura da realidade e até às suas fraquezas, à sua senilidade. O grave é que o PCP aplauda o triste ocaso do seu antigo líder, ou se deixe ficar numa espécie de embaraçado silêncio. Recolhido na sombra, Cunhal ainda era uma figura tutelar. Exposto assim, na sua fragilidade de homem vencido pela História e incapaz de aprender com as suas lições, é apenas uma caricatura. Caricatura que a direita explora com visível contentamento, mas que a mim me deixa entregue a uma das mais terríveis formas de olhar para outrém: a comiseração.

 
A CULTURA DA MENTIRA. Primeiro, foram as armas de destruição maciça. Ninguém as viu, ninguém sabe onde estão, ninguém sabe sequer se alguma vez existiram. A «grande ameaça» de Saddam, o pretexto maior para uma guerra evitável, transformou-se afinal num gigantesco MacGuffin, um artifício narrativo manhoso que justifica uma história sub-hitchcockiana e muito mal contada. Agora, descobre-se que até a fantástica heroína americana, Jessica Lynch, uma angelical rapariga lourinha "salva" das mãos dos terríveis iraquianos num dos momentos críticos da guerra, não é heroína coisa nenhuma. A jovem soldado, personagem mais-que-perfeita para telefilmes patrióticos (já em fase de produção), afinal não disparou um único tiro (porque a metralhadora emperrou), sofreu os vários ferimentos num desastre de viação e não foi maltratada no hospital iraquiano (onde até havia uma enfermeira que cantava para ela). Está tudo aqui, numa entrevista à ABCNews. A questão já não é saber quais foram as mentiras que nos contaram sobre o Iraque, a guerra, os seus objectivos e as suas justificações. A questão é saber se chegou a haver, em tudo isto, alguma verdade.

 
MANHÃ INQUIETA. Estas são horas de incerteza e tribulação. No Iraque, há jornalistas portugueses em risco. Maria João Ruela, da SIC, foi ferida a tiro numa perna. Carlos Raleiras, da TSF, está desaparecido. A estes meus camaradas de profissão, mas também às famílias e companheiros de trabalho, deixo a minha solidariedade. São horas duras, estas. O Carlos Vaz Marques dá-lhes um nome: angústia. E explica que não há verdadeiros repórteres de guerra em Portugal. Ninguém se prepara como deve ser. Os nossos enviados especiais dependem da sorte ou da divina providência. Pois é, Carlos. Infelizmente, tens toda a razão.

13.11.03
 
O DEBATE. Escrevi aqui há algum tempo que o processo da Casa Pia era o problema mais importante com que o país se defrontava. Essa posição foi democraticamente contestada, mas respeitada. Hoje, passadas duas ou três semanas de ensurdecedor silêncio, julgo estar provado – ou em vias disso – que tinha razão. Segredo de justiça, prisão preventiva, direitos fundamentais e outras preciosidades do direito em geral, e do processo penal em particular, não interessam mais. Dir-se-ia que já não é preciso trazer esse debate para a praça pública. Todos já percebemos porquê e, mais uma vez, alguns perceberam-no cedo de mais. Como sempre, há um tempo para tudo, e é sempre mau ter razão antes de tempo. Perdoe-se a presunção, que apenas compenso com a certeza de que a prontidão com que reclamo a razão que entendia (e entendo) ter, será igual à rapidez com que me penitenciarei se o futuro vier a mostrar que o processo da Casa Pia não fracassou, saldado com a histórica libertação de um dos seus presumíveis arguidos.
Acabado o processo judicial, a RTP ofereceu hoje um espectáculo inimaginável sobre a participação de militares da GNR nas operações de pacificação (!) do Iraque, em que valeu tudo: demagogia, desonestidade intelectual, enfastiamento sobranceiro, entre muitas outras manifestações de idêntico jaez. Por exemplo: para Pires de Lima (filho), o deputado António Filipe (PCP) e Fernando Rosas (BE) expressam as posições oficiais dos respectivos partidos. Mas será que ele próprio não é o porta-voz oficioso do seu próprio partido (PP)? Dias Loureiro participou em mais de quinze debates sobre a guerra; agora que ela está parcialmente concluída e o Iraque destroçado, já não tem mais paciência para discutir o assunto e coloca os olhos em alvo quando se diz que ela começou com uma mentira. O que importa agora é refazer o Iraque, sem cuidar de saber quem, como e porquê se invadiu e destruiu um país soberano. Segundo diz, é preciso pacificar, e é do interesse nacional estar presente. Certo: "interesse nacional, procura-se. Dão-se alvíssaras".
Tudo isto já era, por si, penoso. António Filipe ainda explicou o óbvio: os comunistas iraquianos não defenderiam uma intervenção militar americana para derrubar Saddam, da mesma forma que os comunistas portugueses o não fariam para derrubar Marcello Caetano. Há dúvidas?
Resta Francisco Assis. Reconheço, agora, que esperava um milagre; vamos acabar por regressar aos velhos tempos do PREC, em que se falava do partido verdadeiramente socialista. Espera-se apenas que, ao contrário do que dizia Pires de Lima (filho) em relação a outros, Assis não expressasse a posição oficial do seu partido. Uma desilusão, em suma. Deste PS tudo se espera, e nada vale a pena esperar.
Razão tinha Fernando Rosas: tudo começou numa mentira e desembocou num crime; esperemos que não prossiga com (mais) uma tragédia.
Vou para a cama. E se calhar nem durmo.
(JCampos)

 
AXIOMA DU JOUR (FÓRMULA PEDIDA DE EMPRÉSTIMO A ESTES AMIGOS). Encontrei-o, ao axioma, no Desejo Casar. Assinado pelo Miguel Romão. It goes like this: «Quem escreve para blogs, finge que tem uma vida. Quem tem uma vida, finge que lê blogs.» Nem mais.

 
DA BABILÓNIA QUE POUCO RESTA. A partir desta noite, o governo português associa-se oficialmente ao acto de pirataria internacional que os EUA lideram no Iraque: um contingente de 128 elementos da GNR, com largos milhares de euros investidos e uns tanques emprestados por Berlusconi, formam a participação portuguesa na «Operação Antiga Babilónia». Da Babilónia que pouco resta.
Nos últimos tempos, a doutrina neoconservadora preparou a nação. Os defensores da ocupação neocolonial do Iraque alteraram o seu discurso: a responsabilidade pela invasão iraquiana, afinal, «é de todos». É esta a argumentação dos vencidos na evidência do desastre. Estratégia recorrente nos neoconservadores para justificar a sua total inépcia política, os múltiplos de um erro são tributação colectiva. Os responsáveis são todos e são ninguém. José Manuel Fernandes expressou-o hoje, num editorial que é um porto seguro para todos os que destilam o verbo imperial: «[...] Mesmo os que entendem que o problema [a ocupação do Iraque] foi criado contra a sua opinião deviam perceber que hoje o "problema" também é deles. O mesmo é dizer, nosso.»
Mas não. Nem hoje nem ontem: o problema não é meu. O problema não é «nosso». Dissemo-lo bem alto, a 15 de Fevereiro, quando milhões se manifestaram em milhares de cidades deste mundo: «Não em nosso nome.»
Seis meses após a invasão, o atoleiro em que se transformou o Iraque tem responsáveis identificados. Estão aí, para serem consultados, os artigos guerreiros de José Pacheco Pereira, de José Manuel Fernandes, de Luís Delgado. Estão aí também, para serem revistas, as imagens do Ben-Hur Durão nas Lajes, o beija-mão debutante a Bush, a Blair, a Aznar, o assédio fácil de canhões e petróleo, a glorificação sinistra dos obuses: «somos fantásticos pela forma como aplicamos a nossa força», disse Rumsfeld aquando dos primeiros ataques, com uma paternalidade de autor pelos seus mortos.
Na altura, estivemos vedados pelo arame farpado do neoliberalismo, impedidos de tomar parte no debate. Como permanece arredado o pensamento dissidente norte-americano e grande parte da intelectualidade árabe. Mas marcamos posição: não em nosso nome. Nunca o foi. Não o será agora: há mãos que teimam em não ter sangue. Há outras, claro. Comprometidas, sujas, demasiado fatais. Mas não as nossas.
Porque a estupidez, por vezes, custa caro. A algumas centenas de famílias, já custou a morte dos seus filhos no «esforço de guerra». À ONU, o descrédito. Ao povo iraquiano, a sua soberania, a chacina. Ao Médio Oriente, o crescendo de ódio.
E, numa altura em que Durão Barroso tem obrigatoriamente de assumir toda a responsabilidade pessoal e política pela integridade dos 128 portugueses que partem, retorna a hipocrisia áspera daqueles para quem o mundo não passa de uma simulação de jogo de computador, os mesmos adjectivos da incompreensão besta dos índios e dos cowboys. Da Direita que financia Saddam nos anos 80 e bombardeia o seu país na década seguinte. Dos inspectores biológicos de jornal, sempre prontos a encontrarem armas de destruição massiva nas esquinas do alvo que se segue. Das presenças efémeras nos palcos imediatos de decisão.
Da força pela força, turva de responsabilidades, substituta da razão. Dos mortos por enterrar. Da memória que só a história julgará. Da antiga Babilónia que pouco vai restando nas baionetas dos novos colonizadores. Civilizadores, dizem-se.
(Tiago Barbosa Ribeiro)

 
PARTILHA. Apesar de ter criado o seu blogue autónomo, juntando-se assim à vasta prole do BdE, o Tiago Barbosa Ribeiro não quis cortar completamente o cordão umbilical. Por isso, numa altura em que volta a ser necessário unir esforços na denúncia da desastrosa política externa do governo português, ele propõe-nos um «post partilhado» entre os dois blogues. Um post sobre o envio dos 128 soldados da GNR para o Iraque e o absurdo dessa "aventura". Nós dissemos que sim à partilha, claro. Dêem-me só cinco minutos para italizar o texto.

 
ESCRITA (QUASE) EM DIA. Vendo-me impedido de blogar, passei parte da jornada a responder a e-mails que os leitores nos enviam, em quantidades incompreensivelmente gigantescas. Claro que ainda não consegui completar o serviço de respostas personalizadas, mas dei conta de uma boa parte do expediente. Um dia destes o monte de papel virtual deixará de parecer o Everest. Vão ver.

 
ATRASOS & AVARIAS. Hoje, durante umas horas, os bloggers que ainda estão presos ao Blogger (passe o aparente pleonasmo) viram-se privados de um direito fundamental: o direito de escrever na sua página. Parece que os servidores, lá na América, estavam em manutenção. Pois. É por estas e por outras que não tarda muito mudamos de casa e de senhorio.

 
NE VARIETUR. Eis uma notícia importante. Em breve, o Blog de Esquerda vai ter os seus textos fixados por especialistas (pausa para exclamar: «Oh!»). Desculpem a imodéstia, mas é mesmo assim. Como não somos menos que o autor de «A Ordem Natural das Coisas», também queremos correcções e emendas ratificadas por um comité, também queremos rigor na exegese e também queremos dizer em voz alta, num latim sonoro, as palavras mágicas: ne varietur.

PS: Aceitam-se sugestões de nomes a convidar para a Comissão de peritos.

 
HAPPY DAYS. Hoje recebi, de uma assentada: dois fabulosos livros da Cavalo de Ferro («Os sete loucos», de Roberto Arlt; e «A planície em chamas», de Juan Rulfo), o «Verdade Tropical» do Caetano (edição da Quasi), um ensaio do Manuel Frias Martins («Em Teoria (A Literatura)», da Ambar), dois romances muito esperados («Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina», de Mário de Carvalho; e «Um Homem: Klaus Klump», de Gonçalo M. Tavares; ambos com a chancela da Caminho), além do último tijolo do Lobo Antunes («Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo», Dom Quixote). Sim, é verdade, sinto-me um homem de sorte.

 
ANIMAL FARM RELOADED. E se tudo o que comermos não passar de uma terrível mistificação? Eis a pergunta que resume esta brilhantíssima paródia às aventuras de Neo e Morpheus.

 
CHEIRO A ENXOFRE. Segundo o Sitemeter, a actual média de visitas diárias ao Dicionário do Diabo é de 666. Toma cuidado, Pedro. Olha que ainda te perdes de vez no reino das trevas.

12.11.03
 
LE POÈME. São do LFB e foram escritos em Paris. Como é que nós podíamos ignorar os versos que se seguem, aqui divulgados em exclusiva pré-publicação?


BÚSSOLA


Este amor, este acontecimento duradouro entre mim e Joolente,

nunca o vislumbrei no guião de um filme
nunca o escutei numa canção
nunca o encontrei numa parede do Louvre
nunca o vi numa escultura renascentista

enfim,
jamais o ouvi gritado da boca de alguém

o compreendi num início de Outono
o realizei com o meu papel e caneta
o encontrei numa montra qualquer do Soho
o avistei – súbito – durante um eclipse solar

meu Deus,

nem sequer o encontrei ao virar uma esquina da Madragoa
ou depois de uma chávena de chá em Praga
não o descobri nas minhas viagens
não o gravei na minha sony machine
não o emendei nas páginas brancas do caderno que me deu Joolente – numa noite de
smog e spleen,

este amor não está em nenhum dicionário
nem sequer, penso, se escreve com as mesmas letras,
não tem nome de homem nem de mulher
e não se encontra em saldo nas feiras culturais,

não é gato
não é surrealista
não tem frio nem morre

o meu amor por Joolente
é só
é ar

é um amor que não se confunde com Roma
mas que mantém o mesmo número de letras

que tem o "ódio"

não foi fotografado
discutido
imitado
não é platónico tampouco sexual

é um amor com filhos, casas, coisas mesquinhas,
comezinhas e que jamais entrarão para a História.

é um amor de aqui, de agora,
deste momento que termina.

de oeste a este.

é este.

16 de Dezembro de 2001, Montmartre (Paris)


© Luís Filipe Borges

 
LANÇAMENTO. É já amanhã, quinta-feira, que o Luís Filipe Borges entra para o clube dos gajos-que-além-de-escreverem-num-blogue-porreiro-também-publicam-livros. A admissão será feita com um volume de poemas – o homem é lírico, caramba – brilhantemente intitulado: «Mudaremos o Mundo Depois das 3 da Manhã» (uma boa hora, digo eu). A editora chama-se Tágide, apropriado nome de camoniana musa. Quanto ao lançamento da obra, ocorrerá amanhã (repito para que memorizem), às 21 horas, no bar Madres de Goa (R. dos Industriais, uma perpendicular à Av. D. Carlos I). Parece que não vão faltar «gin tónico e comezainas». 'Bora aí, pessoal.

PS: Num gesto de generosidade não isento de algum interesse próprio, LFB propõe-nos a pré-publicação de um dos poemas do livro. E nós, porque somos magnânimos (ou se calhar só uns gajos fixes, vai dar ao mesmo), aceitamos de braços abertos. Ora leiam lá, no post que aí vem.

 
SOBRE KLEIST. Já o dei a entender várias vezes, mas repito: se este não é, em termos absolutos, o melhor blogue cá do burgo, é pelo menos aquele onde se pode ler o melhor português. Apontamentos do quotidiano, críticas a filmes e indignações republicanas, nada fica aquém da perfeição. E ainda temos bónus, como a imperdível «Panóplia do Fetichista Cinéfilo» (concluída – hélas – nem há cinco minutos) ou os frequentes exercícios oulipianos (com óbvio destaque para os engenhosos resumos de uma telenovela da TVI).

 
EXIGÊNCIAS. Ontem, o primeiro-ministro Durão Barroso veio pedir que ninguém politizasse o envio de militares portugueses para o Iraque e, sobretudo, exigir (sim, EXIGIR) a solidariedade de todos os portugueses.
Quanto ao primeiro pedido, pode resumir-se numa palavra: ridículo. Convém talvez recordar que os problemas desta "aventura" começaram justamente no deficit de discussão política sobre o assunto. Quer o alinhamento com os EUA e o Reino Unido, na vergonhosa cimeira dos Açores, quer o apoio declarado à ocupação militar americana do Iraque, de que resulta este "serviço de segurança" da GNR, foram decididos pelo Governo e só pelo Governo, sem o correspondente e necessário debate parlamentar. Como é que Durão Barroso pode agora pedir silêncio sobre a matéria?
A exigência de solidariedade, então, é de bradar aos céus. Não sei se o primeiro-ministro tem consciência disso, mas o tempo em que o senhor de São Bento nos exigia tudo e mais alguma coisa, incluindo um colectivo cerrar de fileiras mansas em torno dos desígnios pátrios, esse tempo felizmente já lá vai.

 
ADEUS, ATÉ AO MEU REGRESSO. Não sei porquê, mas a partida do contingente da GNR, esta noite, do aeroporto de Figo Maduro, fez-me lembrar outras partidas, do Cais da Rocha do Conde de Óbidos, para outra guerra. E sabem porquê? Porque é mesmo para a guerra que estes soldados vão. A guerra a sério, contra inimigos desesperados. O atentado desta manhã, no preciso quartel onde o destacamento português ficará alojado, prova isso mesmo. Vejam os escombros, em Nassiriah, onde ficaram 18 italianos mortos e oito iraquianos. Acho que não é preciso dizer mais nada.
Ou melhor, é. É preciso dizer isto: temo que o que começou por ser uma teimosia do governo de Durão Barroso, contra a vontade manifesta do povo português, se esteja a transformar numa inconsciência absoluta. Só espero – sinceramente – não vir a considerá-la uma coisa ainda pior.

 
LANÇAMENTO. Começou hoje, pelas 18h30, a maratona do FSE de Paris/Saint-Denis/Bobigny/Ivry-sur-Seine. Vão ser 55 plenários, 271 seminários e mais de 300 ateliers espalhados por umas dezenas de espaços. Milhares de pessoas vindas de toda a Europa e de muitos outros cantos do mundo começaram a chegar, numa babélica convivialidade, para discutir os desmandos da globalização liberal e partilhar experiências alternativas. A partir de hoje, e por três dias, esta é a capital da Europa social e dos povos.

 
O CHARLATÃO. A alterglobalização, desde há pouco tempo, entrou na moda. Pelo menos em França, onde os partidos do centro descobriram recentemente o interesse eleitoral que este movimento poderia esconder. E de facto as "operações de charme" não se fizeram esperar. Não só do PS, subitamente consciente da sua matriz de esquerda, mas até da direita, que chegou ao ponto de organizar um comício na semana passada para falar dos "perigos da globalização". E Alain Juppé, o chefe de fila da UMP (o partido de Chirac e Raffarin), veio mesmo afirmar que o mundo actual anda de "pernas para o ar"! Era, de certo modo, previsível. Agora que os argumentos começam a faltar, a única manobra que resta à liderança liberal é tornar a alterglobalização num movimento consensual e simpático, mas essencialmente decorativo. Ou seja, esvaziá-lo de qualquer conteúdo político e transformá-lo numa espécie de "boa consciência" do mundo ocidental, num novo avatar da caridadezinha cristã. Foi esta banha da cobra que Juppé tentou vender a quem o quis ouvir. Pelo que nos foi dado ver, os activistas do FSE limitaram-se a sorrir com mais esta manobra evidente e algo grotesca.

 
LONGO CAMINHO. Iniciou-se ontem, também em Paris, um outro FSE. O "Fórum Sindical Europeu". Apesar de não estar integrado nas actividades do Fórum Social, pretendia ser uma oportunidade para estabelecer contactos entre as duas correntes do movimento social. Porém, apesar da boa vontade e de algumas intervenções animadoras, ficou uma vez mais provado que a Confederação Europeia dos Sindicatos (CES) ainda não conseguiu encontrar uma verdadeira plataforma de articulação internacional, que permita passar das belas declarações a um internacionalismo efectivo. Ainda não é desta que teremos uma grande marcha europeia e inter-sindical contra as reformas liberais nos domínios das pensões e de oposição ao desmantelamento dos sistemas de saúde e de educação públicos. E enquanto a resistência ao ataque aos direitos dos trabalhadores e serviços públicos não se fizer ao nível europeu, a relação de forças vai ficando hipotecada por mais algum tempo. Com as consequências trágicas que sabemos.

11.11.03
 
DE NOVO A QUATRO MÃOS. O nosso cartão de visitas, afixado no canto superior esquerdo desta página, diz que o blogue é mantido por dois irmãos. Ora como já devem ter reparado, isto aqui tem estado, de há uns tempos para cá, apenas entregue ao Zé Mário. Foi ele que ficou com a tarefa ingrata de aguentar o barco durante as minhas prolongadas e proverbiais ausências. Foi ele que teve de gerir a penúria de itálicos e afrontar todas as polémicas sozinho. Foi ele que conseguiu manter as visitas ao BdE constantes e que ainda teve tempo para inovar, introduzindo a fotografia. Foi ainda ele que teve de justificar a minha desaparição quando me tornei num autêntico blogger fantasma. Chega agora ao fim o pousio. Ainda antes de transformações mais profundas (que estão para breve, está confirmado), fecha-se mais um ciclo no BdE – José, I’m back!

 
O FÓRUM. Começa amanhã o segundo Fórum Social Europeu, depois de uma primeira e conseguida experiência o ano passado, em Florença. Vai realizar-se simultaneamente em Paris e em três comunas dos arredores da capital francesa: Saint-Denis, Bobigny e Ivry. O BdE vai andar por lá. Prometemos uma cobertura diária deste novo encontro do "movimento dos movimentos", o tal que abriu novos caminhos à esquerda e que anda a mudar a maneira de fazer política.

 
AGRADECIMENTO. Ao blogue O Vilacondense, pelo post em que respondeu, com o brilhantismo da dupla Uderzo-Goscinny, à nossa evocação de uma obra-prima de Rembrandt.

 
DANÇA. Não sei se Paulo Cunha e Silva estava a pensar nos «anjos» de Kylián quando escreveu a sua última crónica no DN (edição de domingo). Mas entre as muitas frases pesadas e pomposas com que sobrecarregou o texto, houve esta que se salvou e diz tudo de outra maneira: «Ao dançar, o corpo investe o movimento com um suplemento de imaterialidade que quase o faz voar».

10.11.03
 
ANJOS CAÍDOS.



Eu vi-os cair, aos femininos «Fallen Angels» de Jirí Kylián. Foi sábado, na Gulbenkian. E cada corpo foi uma explosão de energia. Uma energia eufórica, toda virada para a luz.

(agradecimento à Janela, pela imagem que lá fomos «roubar»)

 
LEITURA OBRIGATÓRIA (2). É um blogue novo. É de esquerda. É muito bom. Fala de Eisenstein, de Kafka, de Rilke, de teatro e catedrais. É imperdível. É o Saudades de Antero (o nome diz tudo).

 
LEITURA OBRIGATÓRIA. Ontem, a revista «Pública» trazia uma reportagem arrepiante (infelizmente sem acesso on-line) sobre as condições miseráveis em que vivem – e morrem – milhares de «subsarianos ilegais», enquanto esperam, perto de Tânger, uma oportunidade para atravessar o Mediterrâneo, em busca de um ilusório El Dorado. O texto é terrível, na sua crueza, mas absolutamente necessário para abrir os olhos de quem ainda os tem fechados. A mim, fez-me lembrar «Longe», um belíssimo filme de André Téchiné (completamente menosprezado pela crítica portuguesa), sobre Tânger e as desilusões de quem sonha com a Europa, escondido no atrelado de um camião TIR prestes a entrar para o ferry-boat.






 
BLOGS.SAPO.PT. Há exactamente uma semana, o Sapo inagurou o seu novo serviço de blogues: aqui. As promessas são muitas (plataforma do Movable Type, dezenas de templates à escolha, servidores potentes) mas nós continuamos a simpatizar muitíssimo mais com o trabalho solitário e incansável deste blogger, autor do fenómeno weblog.com.pt. Entre David e Golias, escolheremos sempre David.



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