BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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9.11.03
 
DILÚVIO NA A1 (RELATO MÍNIMO DE UMA VIAGEM COM CARROS ESMAGADOS NA BERMA, QUASE TANTOS COMO NO «WEEKEND» DO GODARD). Às vezes a chuva é só uma coisa branca a desfazer-se, em cordas líquidas, contra o pára-brisas. Uma forma de cegueira.

 
O ECLIPSE (DE ONTEM À NOITE). Estávamos em Alfama. Muito acima do casario – aquele caos com Tejo ao fundo – a lua começou a ser devorada por uma sombra. Nós falávamos sobre coisas grandes e pequenas, histórias antigas, outros eclipses. Esperámos no frio da noite, quase distraídos, enquanto a sombra avançava (lentíssima maré de escuridão) e cumpria ao segundo os cálculos exactos dos astrónomos.

 
CINEFILIA. Apareceram há alguns dias mas só agora os refiro porque a voragem do tempo é mesmo isso: uma voragem. Ainda assim, apesar do atraso, queria chamar a atenção para os quatro posts que o António Rebelo escreveu, na Janela Indiscreta, sobre o filme «Mãe e Filho», de Alexander Sokurov. Vão lá e leiam aquelas sinopses em crescendo de rigor e detalhe, aquela tentativa assumidamente falhada de captar a essência de um filme que não se pode contar, porque contá-lo implica sempre reduzi-lo.
O amor pelo cinema é também isto. Contemplarmos um plano perfeito, sentirmos o nó na garganta, percebermos o porquê da beleza convulsiva de um gesto (por exemplo, a forma como o filho pega na mãe, aquela comovente Pietà invertida) e não querer explicar o que recusa a explicação. António Rebelo percebeu o fundamental: o pasmo, o arrepio, a impossibilidade das palavras quando uma imagem nos sacode até aos ossos.
Já o sabia, mas confirmei: não há ciência mais frágil e impalpável do que a cinefilia.






 
OS EGOÍSTAS (1). Os defensores das propinas gostam de dizer por aí que os estudantes que se manifestam contra a Lei de Financiamento, gritando “Não Pagamos”, são uns egoístas cheios de dinheiro, sempre prontos para comprar roupa de marca, bebidas alcoólicas ou carros topo de gama. E assim parecem crer que a discussão está encerrada.
Já um bocado cansada de escrever textos contra as propinas, mas ainda assim não desistindo de o fazer, apetece-me, em dias maus, propor o seguinte: que se calem (nos calemos) todos os defensores do ensino gratuito e para todos e que deixem (deixemos) passar uns anitos sem gritar e sem sair à rua, pagando ordeiramente as propinas e deixando tudo como está.
Vamos ver, daqui a uns anitos, se ainda resta alguma Faculdade que não tenha sido privatizada, directa ou indirectamente, como quase tudo neste país. Vamos ver quantos filhos de trabalhadores com rendimentos médios a atirar para o baixo, e com rendimentos baixos de todo, frequentam as universidades. Vamos ver se vão existir as tão apregoadas bolsas para que essas pessoas possam estudar condignamente (sem terem de comer batatas cozidas todos os dias, por exemplo). Vamos ver se o nosso belo sistema de Acção Social Escolar não foi, entretanto, e aproveitando o sossego geral e o silêncio por parte dos “egoístas” do “Não Pagamos”, privatizado ou substituído por um sistema de empréstimos concedidos por entidades privadas, com juros definidos por essas entidades, tal como se vem falando noutros países “amigos” da Declaração de Bolonha. Vamos ver quantas faculdades fecharam por não conferirem licenciaturas “rentáveis” (as de Letras e Artes seriam as primeiras, mas muitas iriam atrás). Vamos ver…
(Sara Figueiredo Costa)

 
OS EGOÍSTAS (2). Como a mim não me apetece ver nada disto, porque não acredito no Pai Natal nem em manifestações cheias de estudantes podres de ricos a berrarem só porque não vão poder encher o tanque do Alfa Romeu todos os dias, parece-me melhor estarmos atentos e continuarmos a exigir que o Estado assuma as suas responsabilidades no que à formação e à educação diz respeito. Quanto aos estudantes com muito dinheiro, não é suposto que as suas famílias paguem mais impostos do que uma família com menos dinheiro? Não é suposto que os nossos impostos sirvam para manter activos serviços públicos essenciais ao país? Se assim não acontece, então talvez devêssemos começar por exigir uma reforma fiscal… E quanto ao argumento de que os impostos de uns não devem servir para financiar os estudos de outros, parece-me bem se assumirmos que não queremos NENHUM serviço público a ser financiado também pelas contribuições fiscais. É que eu pago impostos e não uso, felizmente, um hospital há mais de três anos. Deveria estar revoltada com isso? Sobre os estudantes que não estudam e que conseguem acabar cursos
superiores sem terem lido um único livro ou sem saberem escrever correctamente, a discussão é outra. Mas nada tem a ver com as propinas. Esses estudantes deveriam, como é óbvio, ser impedidos de chegar, sequer, à Faculdade. Mas aí as propinas já lá vão… Seria preciso dispormo-nos a outro debate, bem mais amplo, sobre qualidade do ensino, cultura geral, exigências imprescindíveis, etc, etc, etc.
(Sara Figueiredo Costa)


8.11.03
 
REMBRANDT. Vale a pena regressar a um belo post publicado no Barnabé, num dos últimos dias de Outubro, com o título «Vento holandês». Partindo da leitura ainda parcial do novo livro de António Damásio («Ao Encontro de Espinosa»), Rui Tavares fala de pintura, de Rembrandt, Espinosa e Huygens, mas também da comunidade judaica portuguesa de Amesterdão, naquele período áureo do séc. XVII, e do magnífico trabalho de divulgação científica (e humanista) de Damásio. Às tantas, debruça-se com mais detalhe sobre uma das obras-primas de Rembrandt, «A Lição de Anatomia do Doutor Tulp» (1632), e compara as abordagens feitas à tela por parte de Damásio e de W. G. Sebald, um grande escritor recentemente falecido (autor de «Austerlitz», entre outros romances extraordinários). Olhemos então para o quadro:





Nas palavras de Rui Tavares: «Damásio reconhece a análise de Sebald e faz-lhe referência em nota: para ele, o facto essencial da pintura é o olhar no vazio do Dr. Tulp. Para Sebald, é antes o corpo iluminado, o cadáver de um azarado ladrão chamado Aris Kindt, enforcado pouco antes».
Sem querer obviamente comparar-me com tão distintas figuras, proponho um terceiro eixo central para a composição de Rembrandt: nem o olhar do Dr. Tulp, nem o cadáver iluminado do ladrão morto, mas o círculo de cabeças atentas dos alunos, como que enfeitiçados pela realidade concreta do corpo humano.
Disse-o, mal ou bem, neste poema incluído no livro «Nuvens & Labirintos» (Gótica, 2001):


«a lição de anatomia do doutor tulp» [rembrandt]


Muito branco, tão branco, o cadáver atrai
os rostos para o interior do círculo de luz.
Convocado o saber de Vesalius, o mestre
apresenta os tendões do antebraço, quase
iguais aos do livro. Inerte, o corpo revela
os seus mistérios, a sua íntima mecânica
de músculos e fluídos. Os aprendizes, esses,
deslumbram-se perante a súbita ilusão de que
também o mundo se disseca, explica e cura.


 
ANTI-SEMITISMO. A recente vozearia da direita musculada sobre a sondagem Eurobarómetro – supostamente «anti-semita» só porque considera que Israel (melhor dizendo, o país agora liderado pelo militarismo sem freio de Ariel Sharon) é a maior ameaça à paz mundial – não podia ser mais ridícula e mais perigosa. Por todas as razões explicadas ontem por Miguel Sousa Tavares, no «Público», e por mais esta: só se deve usar a expressão «anti-semitismo» quando existem razões concretas para falar de um verdadeiro «ódio ao judeu» (o que não é, manifestamente, o caso). Ainda por cima, quem agita este espantalho, sem razão e a desoras, são precisamente as mesmas pessoas que disseram ser exagerado apelidar Le Pen de fascista, porque um dia destes até pode aparecer um fascismo a sério. Lembram-se? Eu, pelo menos, não me esqueci.

 
A CANTERA. Usando as palavras dele: «e pronto», lá se foi mais um itálico. O Tiago Barbosa Ribeiro não terá sido dos mais assíduos, mas as suas prosas oportunas e lúcidas ajudaram a fazer do BdE um verdadeiro blogue de esquerda. E isso não se agradece, porque todos os agradecimentos seriam sempre poucos. Como aconteceu das outras vezes (com o Daniel Oliveira, o Filipe Moura, etc), vamos estar atentos às andanças do Tiago longe da casa-mãe.
Razão tem o Filipe, num dos seus últimos posts: cada vez nos parecemos mais, aqui no BdE, com a Academia de Alcochete. Recebemos os "rapazes", vê-mo-los a progredir e depois eles vão brilhar para outros "clubes". Ainda bem. Quer dizer que a blogosfera canhota continua a expandir-se e que os pratos da balança, não tarda nada, começam a pender para o nosso lado.

 
MAIS UM ADEUS ITÁLICO. E pronto. Depois de alguns posts (poucos, é certo, mas suficientes para esta mensagem de relativa despedida) no Blog de Esquerda, também eu inicio um projecto autónomo e engrosso a lista de ex-itálicos mais residentes. É certo que já resido na blogosfera há algum tempo por via do Guerra Civil Espanhola, mas eis que me deparo com a necessidade – talvez terapêutica – de um espaço não só político, mais pessoal, intimista, localizado. Naturalmente, espero que isso não signifique o fim da minha colaboração convosco. Porque para além de algumas notas poderem ser partilhadas com o meu blogue, creio que existirá espaço para algumas mais «inéditas» aí. E fica o convite, tanto à vossa visita como divulgação: Murmúrios do Silêncio. (Tiago Barbosa Ribeiro)

7.11.03
 
MRP E A POLÍTICA. Vale a pena ler a entrevista de Margarida Rebelo Pinto, hoje, n' O Independente. Além de dizer as barbaridades do costume – por exemplo, chamar aos críticos que não gostam dela «impotentes literários» e «estalinistas da cultura» –, a escritora de best-sellers revela curiosas opiniões políticas. Ou melhor, apolíticas. Porque MRP diz-se «apolítica», da mesma forma que há pessoas que «não gostam de sexo» e por isso se dizem «assexuadas» (sic). Será que os perspicazes leitores do BdE adivinham quais são os únicos políticos de quem Margarida gosta e em quem confia? Pois é melhor prepararem-se. Estão mesmo preparados? Então cá vai: Mota Amaral, Santana Lopes e, «curiosamente», Manuela Ferreira Leite (por causa da «firmeza»).
Isto, como é óbvio, explica muita coisa.

 
UM ESTUDO POUCO (QUER DIZER, DEMASIADO) CATÓLICO. Parece que o PSD e o PP pretendem encomendar um «estudo sobre as condições em que se realizam os abortos em Portugal» à Universidade Católica – CATÓLICA, leram bem. Já agora, espero que o Governo não descarte a hipótese de pedir relatórios, igualmente imparciais, ao empresário Sousa Cintra (sobre a legitimidade desportiva do SLB), ao analista-sabe-tudo-até-o-que-não-lhe-perguntam Nuno Rogeiro (sobre as «raízes do ódio» em Bin Laden) e ao jornalista Miguel Sousa Tavares (sobre apresentadoras de telejornal com uma boca invulgarmente grande).

 
LIDO NUM JORNAL. «Europa pode aprovar novo transgénico na segunda-feira». Não consta que seja um citrino, mas nunca se sabe. Todo o cuidado é pouco. Segunda-feira vai ser mesmo um dia temível.

 
FRASE DA SEMANA. «Estudantes que gastam facilmente em cerveja ou num novo telemóvel o equivalente ao esforço mensal que representam as propinas têm pouca moral para se manifestarem» – José Manuel Fernandes dixit. Mais modesto, eu diria: «Directores de jornal que gastam facilmente em estudantes universitários ou numa manif o equivalente ao esforço mental que não usam para pôr em causa os poderosos têm pouca moral para se indignarem».

 
AINDA A PROPÓSITO DAS PROPINAS. O que se passou na reunião do Senado da Universidade de Coimbra, durante a qual o reitor aproveitou a ausência dos estudantes para antecipar a votação do montante das propinas, só merece um nome: vergonha. É nestas alturas que se torna óbvio que a desonestidade e a cobardia não escolhem graus académicos.

6.11.03
 
NÚMEROS. «O 1% de americanos mais ricos, detêm agora mais de 40% da riqueza do país». A frase está no Cruzes, citando um artigo do Guardian sobre a desigualdade na era Bush. E é daquelas que dizem tudo sobre um país, uma Administração e uma política (o republican way) que alivia a carga fiscal dos milionários, ao mesmo tempo que limita os direitos sociais das classes mais desfavorecidas. «O 1% de americanos mais ricos, detêm agora mais de 40% da riqueza do país». Eis o tipo de realidade que os blogues de direita, por uma vez, poderiam tentar justificar. De preferência com argumentos que não sejam meros exercícios de retórica ou resumos à la Reader's Digest dos "bushismos" deste senhor.

 
MANIF CONTRA AS PROPINAS. Foi enorme (10.000 estudantes). Foi ordeira (não houve notícia de incidentes graves). E foi justa (as propinas, nos moldes em que estão a ser aplicadas, continuam a ser um contra-senso). A mim, fez-me lembrar lutas antigas, 1991, outros ministros, as mesmas palavras de ordem (talvez volte a essas memórias, um dia destes).
Passados 12 anos, permanecem as lacunas e os problemas, os equívocos sobre a orgânica e os objectivos do Ensino Superior, a velha ilusão de que as propinas devem substituir as obrigações do Estado (não devem e não substituem), mais os discursos hiper-demagógicos sobre os estudantes que vão de carro para a faculdade.
Hoje, voltaria a gritar «Não pagamos». Por muitas razões. Mas sobretudo porque não se pode falar de equidade no acesso e no financiamento dos estudos universitários (nomeadamente através do sistema das bolsas de estudo), enquanto persistirem no nosso país as distorções sociais provocadas por outro tipo muito mais grave de injustiça. A injustiça fiscal.

 
MATRIX III. Ontem, o último episódio da trilogia Matrix estreou ao mesmo tempo em 50 países (às 14h00 em Lisboa; às 09h00 em Nova Iorque; às 23h00 em Tóquio; etc). Mas para desespero dos fãs da saga – entre os quais, atenção, eu não me incluo – parece que o filme é igualmente mau em todos os fusos horários.

 
PARABÉNS, SOPHIA. Foi há 84 anos, no Porto, que começaram a formar-se os contornos deste rosto. E desta luz.



 
VERSOS QUE NOS SALVAM. Dois poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen. Dois poemas de quem descobriu, tão cedo, a claridade:


TERROR DE TE AMAR

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa



LISBOA

Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso – vinda do sul – o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas –
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
– Digo para ver


 
AURORAS.



No céu, são boreais: consequência de tempestades magnéticas e erupções solares.
No Mediterrâneo, quase trágicas: sinónimo de doença, quarentena, navio amaldiçoado.
Eis as belas auroras, só aparência e segredo – metáforas perfeitas destes incertos dias.

 
SEM TÍTULO (2). «O jornalismo brasileiro tem uma coisa que eu aprecio. Usa o ponto final no lugar da vírgula», escreveu o Pedro Lomba. Eu não podia estar menos de acordo.

 
SEM TÍTULO. «Uma nota de exagerado teor intimista: os melhores filmes da vida passam num ecrã ecográfico», escreveu o Tiago, mestre do minimalismo bloguístico. É bom saber que há outros líricos por aqui.

 
LANÇAMENTO. Hoje à tarde (18h30), no Goethe Institut, é lançado o livro «Direito Penal Internacional para a Protecção dos Direitos Humanos» (editora Fim de Século), com apresentação da Prof. Paula Escarameia. Fica a sugestão e o convite.

5.11.03
 
O ENGARRAFAMENTO TAUTOLÓGICO. Conduzia na A2, de regresso a Lisboa, quando entrevi ao longe uma fila de automóveis parados, a poucos metros da saída para a Ponte Vasco da Gama. «Acidente», disse para comigo. E conformei-me com a espera. Ao fim de uns minutos, porém, os carros retomaram o caminho a bom ritmo. Para meu espanto, não havia acidente nenhum, nem nada que explicasse aquele engarrafamento inesperado. A não ser, talvez, o placard electrónico que avisava: «Trânsito muito lento». Mais à frente, pude verificar que a circulação era fluída. Uns quilómetros antes, também. Só ali, no raio de visão do placard, tudo parava. Acho que foram aquelas três palavras – «Trânsito muito lento» – que originaram, cinicamente, a sua própria confirmação.

 
EUROBARÓMETRO. Na análise feita ao último Eurobarómetro (uma sondagem feita no início de Outubro, a 7515 europeus dos 15 países da União), quase todos os jornais portugueses destacaram o facto de Israel surgir no topo da lista de nações que ameaçam a paz no mundo. O problema é que esqueceram, ou deram pouco relevo, a outro resultado muito interessante do inquérito: 68% das pessoas ouvidas (ou seja, mais de dois terços) consideraram injustificada a guerra no Iraque – sendo que em França, na Grécia e na Áustria esse valor foi superior a 80%; ao passo que em Espanha, Luxemburgo, Bélgica e Alemanha esteve entre os 70 e os 80%. No nosso país, o «não» à guerra obteve 67%. Se é verdade que as sondagens "valem o que valem" (esta por acaso até foi realizada pela Gallup, a pedido da Comissão Europeia...), não é menos verdade que os números reflectem uma tendência que já se expressara, em toda a Europa, por altura das mega-manifestações contra a invasão do Iraque. Os números estão aí. E só não os lê, como devem ser lidos, quem não quer.

PS- Todas as informações e respectivos gráficos estão disponíveis aqui (agradecimentos ao Paulo Pereira, do Blogo Social Português, pela dica).

 
TRÊS VERSOS DE UMA BELEZA QUE NOS QUEIMA. Estão em «Posteridade», um poema de José Agostinho Baptista:

não sei se o meu nome se escreverá no
silêncio branco das lápides,
rodeadas de aflição e ciprestes



 
DEPOIS DE DOBRAR INADVERTIDAMENTE A CAPA DE UM LIVRO DE POESIA AUTOGRAFADO PELO AUTOR. Os livros não falam. Os livros não se queixam. Mas será que se magoam quando os deixamos cair, quando lhes amachucamos páginas, quando escrevemos na margem a tinta permanente, quando dobramos (sem querer) a capa que nunca mais vai ficar lisa como era?

 
O INTRUSO SECRETO. Um amigo que também ficou órfão do súbito desaparecimento dos Intrusos (blogue de poesia + outras coisas essenciais) avisa-nos que há outro lugar na blogosfera que não lhe fica atrás. Tem toda a razão. Está aqui. Confirmem.

 
DA LINGERIE. Acreditem: ciclicamente, a Women's Secret envia-me, para o jornal, o seu catálogo de roupa interior feminina. Pois, adivinho o que estão a pensar. E eu não nego que há um certo encanto que se desprende daquelas páginas com pouco texto e muitas raparigas apetecíveis. Há, sim senhor, não vou dizer que não. Mas acontece que eu nunca, mas NUNCA, escrevi uma linha que fosse sobre moda, sobre as minudências do pronto-a-vestir ou sobre qualquer outro tema com estes relacionado. Quem me conhece sabe que sou um homem frugal e dado a prazeres menos mundanos.
Por isso, a única explicação que me ocorre é esta: no departamento comercial da Women's Secret, alguém decidiu escolher-me como vítima de um jogo perverso. Um jogo de que eu ignoro as regras ou os objectivos. Digo-vos mais: não sei se não haverá, escondidas, câmaras que registam as minhas reacções. Sim, todos os estremecimentos, os arrepios, os instantes em que as pupilas se dilatam. Em fases de paranóia, pondero mesmo a hipótese de estar a ser usado como uma cobaia a quem medem, por métodos dignos de um filme de FC, as flutuações da testosterona. Chegado aqui, vale tudo: imagino cenários, fantasio coisas abomináveis, chego a temer pela minha sanidade mental – enquanto uma rapariga de cabelos desgrenhados e pose lasciva, na capa do catálogo, continua a olhar-me com olhos que só podem ser de súplica.
Meus amigos: isto que vos conto repete-se quatro vezes por ano. Quatro. Uma parte de mim ainda acredita que é uma recompensa. A outra garante-me que se trata de uma maldição.

 
AS IMAGENS. Sim, lá aprendemos finalmente a colocar imagens. Não, não vamos abusar (temos péssimas memórias do tempo em que o BdE levava eternidades a abrir).

 
PRETO E BRANCO. Foi no Saldanha que ouvi chamarem por mim. Virei-me e dei de caras contigo. Estavas atrás de uma banca onde se recolhiam assinaturas para pedir novo referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária de gravidez. Apressei-me a assinar enquanto te olhava. Vestias todo de preto e reparei que tinhas a barba aparada, correndo agora rala sobre o queixo.
Lembrei-me do dia em que nos conhecemos: trajávamos os dois de branco e gritávamos em uníssono palavras de ordem frente à embaixada da ONU, apelando à intervenção da mesma em Timor. Fora uma semana fabulosa, em que tinha sentido em toda a plenitude a palavra fraternidade. Nesse dia em que Portugal se vestira de branco fora fácil compartilhar contigo uma garrafa de litro e meio de água, enquanto fazíamos as apresentações. Tão fácil como estarmos outra vez de acordo que a questão do aborto tem de ser reavaliada, tanto mais que um dos partidos do governo pretende, numa alteração à Constituição, proibir o aborto mesmo nos casos em que hoje é permitido por lei.
Da próxima vez que te encontrar, não sei se estarás de preto ou de branco, mas palpita-me que ficaremos, uma vez mais, do mesmo lado da barricada.
(Pedro Farinha)

4.11.03
 
BORGES E ELE. É um livro precioso: os «Poemas Escolhidos» de Jorge Luis Borges, traduzidos para a nossa língua por Ruy Belo. Entre poeta e poeta, a mesma música dos versos, o mesmo rigor, a mesma melancólica geometria. O volume de capa verde (precioso, já se disse) há-de chegar por estes dias às mãos de quem ama os livros. É uma edição bilingue, das Publicações Dom Quixote. E nós queremos deixar aqui a versão original, junto à traduzida, de um dos textos mais célebres (e pessoais) do divino argentino. Ora apreciem.


BORGES Y YO

Al otro, a Borges, es a quien le ocurren las cosas. Yo camino por Buenos Aires y me demoro, acaso ya mecánicamente, para mirar el arco de un zaguán y la porta cancel; de Borges tengo noticias por el correo y veo su nombre en una terna de profesores o en un diccionario biográfico. Me gustan los relojes de arena, los mapas, la tipografia del siglo XVIII, las etimologías, el sabor del café y la prosa de Stevenson; el otro comparte esas preferencias, pero de un modo vanidoso que las convierte en atributos de un actor. Sería exagerado afirmar que nuestra relación es hostil; yo vivo, yo me dejo vivir, para que Borges pueda tramar su literatura y esa literatura me justifica. Nada me cuesta confesar que ha logrado ciertas páginas válidas, pero esas páginas no me pueden salvar, quizá porque lo bueno ya no es de nadie, ni siquiera del otro, sino del lenguaje o la tradición. Por lo demás, yo estoy destinado a perderme, definitivamente, y sólo algún instante de mí podrá sobrevivir en el otro. Poco a poco voy cediéndole todo, aunque me consta su perversa costumbre de falsear y magnificar. Spinoza entendió que todas las cosas quierem perseverar en su ser; la piedra eternamente quiere ser piedra y el tigre un tigre. Yo he de quedar en Borges, no en mí (si es que alguien soy), pero me reconozco menos en sus libros que en muchos otros o que en el laborioso rasgueo de una guitarra. Hace anõs yo traté de librarme de él y pasé de las mitologías del arrabal a los juegos con el tiempo y con lo infinito, pero esos juegos son de Borges ahora y tendré que idear otras cosas. Así mi vida es una fuga y todo lo pierdo y todo es del olvido, o del otro.
No sé cuál de los dos escribe esta página.





BORGES E EU

É ao outro, a Borges, que acontecem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, a olhar o arco de um alpendre e o guarda-vento; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome num grupo de professores ou num dicionário biográfico. Gosto dos relógios de areia, dos mapas, da tipografia do século XVIII, do sabor do café e da prosa de Stevenson; o outro compartilha dessas preferências, mas de um modo vaidoso, que as converte em atributos de um actor. Seria exagerado afirmar que as nossas relações são hostis; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa tecer a sua literatura e essa literatura justifica-me. Nada me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essas páginas não me podem salvar, talvez porque o que é bom já não é de ninguém, nem sequer do outro, mas sim da linguagem ou da tradição. Além do mais, eu estou destinado a perder-me, definitivamente, e apenas algum instante meu poderá sobreviver no outro. A pouco e pouco vou cedendo-lhe tudo, embora não desconheça o seu perverso costume de falsear e de magnificar. Spinoza entendeu que todas as coisas querem perseverar no seu ser; a pedra quer eternamente ser pedra e o tigre um tigre. Eu hei-de ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas reconheço-me menos nos seus livros que em muitos outros ou que no laborioso zangarreio de uma viola. Há anos procurei libertar-me dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos são agora de Borges e terei de idealizar outras coisas. Assim, a minha vida é uma fuga e perco tudo e tudo é do esquecimento ou do outro.
Não sei qual dos dois escreve esta página.





 
DUETOS IMPREVISTOS (2). Eu gosto de coincidências. E creio que já uma vez referi a forma como a editora Guimarães embrulha os seus livros: dentro de páginas de outros livros (melhor dizendo: dentro de cadernos por cortar, agrafar e aparar; isto é, sobras das gráficas). Criam-se assim relações insuspeitas entre o livro novo que nos chega às mãos e as páginas amarrotadas que lhe servem de aconchego (ou de mortalha). Às vezes as duas obras opõem-se, repelem-se, agridem-se. Mas outras vezes parecem presas por um estranho magnetismo, um enamoramento, uma secreta afinidade estética. Sempre que recebo um pacote da Guimarães, o que me leva a rasgar o papel pardo do embrulho, com uma voragem a raiar a avidez, é muito menos o desejo de espreitar a "novidade" que aí vem do que a satisfação de conhecer o emparelhamento que o acaso desta vez escolheu.
Tudo isto para chegar ao que interessa. Hoje recebi a reedição de uma obra de Agustina Bessa-Luís: «Sebastião José» (1981), uma biografia romanceada do Marquês de Pombal. A envolvê-la, páginas de Nietzsche. Páginas retiradas de «A Origem da Tragédia». Como esta, a 163, onde posso ler:

«Que significa esta monstruosidade da investigação histórica que tanto inquieta a cultura moderna, esta compilação erudita de inúmeras culturas, este desejo devorador de conhecer o passado, que significa senão o desaparecimento do mito, o afastamento da pátria mítica, a perda do seio maternal do mito? Digam-nos se as convulsões sinistras e febris desta cultura são algo mais do que gesticulação ávida de um esfaimado que quer ir de encontro ao alimento. Quem quererá ainda contribuir para a vida da tal cultura insaciável por mais que absorva, pois logo que toca nos alimentos mais substanciais e mais salutares, os transforma em história e crítica

Talvez se perceba agora melhor – espero eu – o tal fascínio pelos caprichos do acaso.

 
ALGUÉM SE OFERECE PARA AJUDAR EPC? Conhecida pela sua generosidade inter pares, a blogosfera bem que podia prestar algum auxílio a um intelectual da nossa praça, erudito e boa pena, mas mais afoito nos segredos da lingerie do que nos mistérios da informática e assuntos similares. Resumindo: Eduardo Prado Coelho necessita urgentemente de um tinteiro TO22, o único (ou dos poucos) que a sua sofisticada impressora aceita. Para que o cronista não chegue ao extremo de fazer figuras tristes na FNAC, era bom que algum dos bloggers especialistas nestas coisas dos computadores lhe dessem, caridosamente, uma mãozinha. (Mais informações no post – perdão – na coluna de hoje, no «Público»)

 
VENHA O DIABO E ESCOLHA. O PS está mesmo a viver, em 2003, o seu annus horribilis. De tal maneira que até João Soares espeta facas nas costas de Ferro Rodrigues e decide colocar-se, desde já, como pré-candidato a secretário-geral do partido. Pior: o ex-presidente da Câmara de Lisboa garante que só não avançará se Jorge Coelho, esse político iluminado, decidir ele próprio «assumir o controlo da situação no partido». Era só o que faltava aos socialistas: depois das teses da cabala, um dilema. O dilema de terem que optar entre o mau e o péssimo.

 
AINDA SOBRE O ENCONTRO INFORMAL DE BLOGUES. Do que pude ler, o melhor relato do que se passou na Sociedade de Geografia de Lisboa está aqui (blogosfera) e aqui (imprensa).

 
DUETOS IMPREVISTOS (1). Da conversa entre José Saramago e José Luís Peixoto, no programa de Bárbara Guimarães («Oriente», SIC-Notícias), retive as seguintes notas:

- Alguém se esqueceu de dizer à apresentadora que não há «Chuva de Estrelas» na literatura e que os trocadilhos fáceis com títulos de livros são isso mesmo: fáceis (e foleiros)
- José Saramago foi igual a si mesmo: um Prémio Nobel que sabe que é Prémio Nobel
- José Luís Peixoto foi igual a si mesmo: um tímido consumido pela timidez
- José Saramago chamou «todos os nomes» (como diria Bárbara) a José Luís Peixoto: José Luís Pacheco, José Luís Porfírio e, quase por acaso, José Luís Peixoto
- JLP engoliu em seco muitas vezes
- Saramago prometeu para a próxima primavera um romance político polémico: «Ensaio sobre a Lucidez» (cá o esperamos)
- Peixoto falou dos seus livros com parcimónia e modéstia (talvez demasiada modéstia)
- Houve em Saramago, aqui e ali, um tom condescendente para com o escritor mais novo
- Peixoto vingou-se, obrigando o octogenário autor do «Memorial do Convento» a ouvir, do princípio ao fim, uma canção dos Moonspell
- Bárbara assistiu a tudo, deslumbrada, como se estivesse a andar na montanha russa pela primeira vez (se calhar estava)

3.11.03
 
E NÃO QUEREM QUE ANDEMOS TODOS DEPRIMIDOS? Primeiro, atiraram-nos à cara com o fim da ZonaNon, uma interessantíssima revista digital de «cultura crítica» que se pretendia um «espaço de reflexão e debate em rede, preocupado com as contradições do mundo contemporâneo». Agora, crescem os rumores sobre o fecho próximo da rádio Luna (onde trabalha o Crítico Musical), uma das poucas alternativas às teias de aranha da Antena2 e ao suicídio da TSF.
Entretanto, o país vegeta em frente aos telejornais hipertrofiados com os detalhes mais sórdidos do escândalo Casa Pia; o governo desgoverna e desgoverna-se como há muito não se via; Manuela Ferreira Leite inventa contorcionismos para transformar os 6% do défice nos comunitariamente aceitáveis 2,8%; o PS consome-se num delírio auto-fágico; as instituições colidem umas com as outras como bolas de bilhar num pano cheio de manchas, pregas, queimadelas de cigarro; e sente-se por toda a parte o desânimo, o quebranto, um lento baixar de braços. É outra vez a camoniana «apagada e vil tristeza», a morder-nos por dentro. E temo que nos faltem forças para amordaçá-la.

 
A CAUDA. O que é mais deprimente nas notícias que nos empurram outra vez para a cauda da Europa, em termos de criação de riqueza (PIB per capita), não é o facto de sermos ultrapassados pela Grécia. É o sentimento – quase uma certeza – de que tão depressa não voltaremos a apanhar os descendentes de Péricles e Platão.

 
CRAVO & FERRADURA. Na última página do DN, Bandeira assina mais um óptimo cartoon. Ao telefone, o elemento masculino do casal Cravo & Ferradura encomenda uma pizza. O diálogo (ouvido do lado de ) segue assim:

– Estou? Bom Dia. Quero encomendar uma pizza.
– ...
– Pode ser com optimismo, esperança, alegria e emprego.
– ...
– Tão caro assim?
– ...
– Bom, então tire lá o emprego e ponha anchovas.


 
DESAPARECIDOS. Pergunta 1: alguém sabe o que é feito dos magníficos Intrusos? Pergunta 2: por onde andará o Carlos Vaz Marques (cujo blogue se calou, esperemos que provisoriamente, há duas semanas)?

 
PARA UMA AMIGA. Pudéssemos nós atirar pedras à morte. Fazer qualquer coisa. Devolver-lhe, de uma vez, o espanto e a dor. Mas não, Lia. Não há nada que torne mais suportável o silêncio que vem depois. (Um abraço muito forte)

 
JCM POR VST. Esta noite (22h), há filme e conversa na Abril em Maio. No habitual ciclo Não é Cinema, exibe-se «Le Bassin de John Wayne», de João César Monteiro, comentado logo a seguir por Vítor Silva Tavares – o editor-artífice da & Etc. Eis uma oportunidade para (re)ver, em grande ecrã, um dos filmes menos conhecidos de JCM (esteve apenas uma semana em cartaz): delírio em que João de Deus faz de Lucífer, seguindo as palavras de Strindberg. E em que alguém equipara o menear das ancas de John Wayne a um arquétipo do divino.



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