BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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2.11.03
 
SOPA DE BELDROEGAS. É preciso estar lá, sentado à mesa numa sala barulhenta. É preciso estar lá e comer o caldo, as ervas escuras que são daninhas no campo e divinas no prato fundo, o ovo cozido, o naco de queijo salgado que se desfaz na boca. É preciso estar lá, depois do pão em fatias generosas e das entradas (o polvo a preceito, as febras em tiras, os cogumelos de chorar por mais). É preciso estar lá, no restaurante «O Chico», em São Manços. E provar também a sopa de cardos com bacalhau desfiado. E beber um bom tinto alentejano, dividido entre amigos. E partilhar uma sericaia com quem partilhamos tudo o resto. E sair reconciliado. É preciso estar lá. E eu estive. Hoje.

 
COMÉRCIO JUSTO. Sob as mãos experientes de Alima, as peças começam a ganhar forma. João rasga o papel do embrulho que os pais lhe colocam à frente. Estes, de mãos dadas, sorriem expectantes. Alima, a jovem do Bangladesh, conta as pecinhas, enrola-as no tabuleiro de serapilheira e insere-as num pequeno saco também de serapilheira. João abre o jogo. É diferente. As peças são menos coloridas e a caixa não diz Majora ou Mattel, mas ao sentir as diferentes texturas nas suas mãos de criança, percebe que aquele jogo tem algo de autêntico. Não é apenas um jogo.
Os pais que têm aquela estranha capacidade de ler os sorrisos e os olhos dos filhos, tudo percebem e o seu sorriso abre-se. Ao terem escolhido uma loja do comércio justo para comprarem a prenda para o filho, para além de saberem que o dinheiro que pagaram chegará em grande parte à rapariga que o fez no Bangladesh e não aos inúmeros intermediários, deram um objecto cujo significado ainda que não percebido foi sentido pelo seu filho de seis anos.

P.S . Para saber mais, aqui; para comprar em Lisboa pode-se ir ao quiosque "Cores do Globo" (Campo Grande 244, ao lado dos CTT) às terças e quintas, entre as 18h00 e as 20h00, sábados e domingos das 10h30 às 13h30, ou contactando através do telefone 96.290.80.66. E-mail: info@coresdoglobo.online.pt.
(Pedro Farinha)

 
PIADINHA. Os escritores que vendem muito vão para um spa; os que vendem pouco, para a S.P.A.

1.11.03
 
TEMPO DE BALANÇO. Hoje, o Blog de Esquerda chega aos 10 meses de vida (nascemos há uma eternidade, no primeiro dia do ano). Nem de propósito, o contador exibe outro número simbólico e redondo: 100.000 visitas (com 139.000 page views). Já agora, o Technorati regista 400 inbound links e 350 inbound blogs. Não sei se é muito, se é pouco, nem me interessa. É a prova de que há pessoas que nos procuram, que nos lêem, que nos comentam, criticam e estimulam. Pela nossa parte, vamos continuar. Estes foram apenas os primeiros 10 meses do resto das nossas vidas.

 
O PRESIDENTE ÓBVIO. Para grande surpresa de duas pessoas (Jaime Antunes e Guerra Madaleno), Luís Filipe Vieira venceu as eleições no Benfica com uma maioria democrática digna de Enver Hoxa, Kim Jong Il ou Saddam Hussein: mais de 90% dos votos. Por mim, não tenho nada contra o facto de Vieira se tornar o líder oficial do SLB. Mas tenho uma dúvida: ele já não era, antes, o verdadeiro líder do SLB?

 
A CANÇÃO DO IVAN. Vale a pena ir ao blogue A Memória Inventada por muitas razões (a primeira das quais é a excelência da escrita). Mas também por esta: a oportunidade de ouvir uma canção do Ivan − «Só» − a provar que os talentos do moço não têm limites.

31.10.03
 
VERSOS QUE NOS SALVAM. De José Agostinho Baptista, um poema do livro «Anjos Caídos» (Assírio & Alvim), que está neste momento a ser apresentado, no bar Verde Perto, junto ao Castelo de São Jorge:


ADEUS


Não sei onde estás agora, o que fazes,
se bordas ainda a colcha antiga, com todas
as cores das telas rasgadas,
atiradas ao chão,
não sei,
solitária estrela do anoitecer,
onde deixaste a luz que batia ternamente nos
espelhos negros das
minhas madrugadas sem água,
a luz que um deus cruel roubou aos pássaros
dos teus olhos escuros.
Não sei se chove.
Agora,
talvez caminhes sem rumo através dos
quartos,
numa casa onde já nada se ouve,
nem os acordes da alma,
nem a respiração da orquídea,
numa casa onde as portas se fecharam para
sempre,
e a cortina não se move.
É uma casa sem vinho, sem pão, sem as
altas fogueiras de um sol eterno,
talvez o mesmo sol que hoje cai sobre este
cais que nunca viste,
este cais onde regressarei depois de um longo
e mortal exílio,
para dizer-te como isto dói,
estes barcos que voltam a partir de uma ilha
e do meu coração,
estes barcos que são a minha própria voz,
rouca e devorada pelo sal,
a dizer-te adeus.


© José Agostinho Baptista

 
LAÇOS DE FAMÍLIA. Numa blogosfera tantas vezes atravessada por rancores doentios, é comovente descobrir a forma como falam um do outro, com enlevo e respeito (com amor), este avô e este neto.

 
OXÍMORO VISUAL. Um pintor de rua exibe, junto à parede, duas obras. Só duas − talvez as melhores (ou as mais recentes). Reparo que há no seu rosto um certo orgulho. Sim, é orgulho. Ele tem orgulho do trabalho que fez, da segurança no traço, do uso criterioso da cor. Mas nenhuma noção, parece-me, do contraste que fazem aqueles dois retratos: assim, lado a lado, a Madre Teresa de Calcutá e Luís Filipe Vieira.

 
RAPAZ COM CÃO MINÚSCULO. Reconheço-os. O rapaz maltrapilho, arrancando uma melodia pirosa do acordeão, mais o canídeo insignificante, com uma cesta de plástico na boca, aguardando as moedas dos turistas condoídos. Estão sentados na calçada, a meio da Rua Augusta, aproveitando ao máximo o tempo de uma aberta. Reconheço-os porque os vi há pouco tempo, no filme «Vai e Vem», em longa deambulação pela cidade, dentro de um autocarro da Carris perdido na noite. A música era quase a mesma, os gestos do miúdo também, já para não falar dos olhos submissos do cão. Só não vi − e como gostava de poder ver − a figura esquálida e crepuscular de João César Monteiro.

 
RUA AUGUSTA. Atravesso a Rua Augusta, do Rossio até ao Terreiro do Paço. Vejo poças de água reflectindo as fachadas tristes, pedintes sem pernas estendendo o braço, pessoas com uma pressa indiferente à própria vida e rapazes com mau aspecto exigindo dois minutos para nos oferecerem miragens em time-sharing, num primeiro andar ali perto. Levanto a gola do casaco, caem umas pingas, abro o chapéu-de-chuva. É um frio até aos ossos, isto que sinto.

 
LANÇAS EM ÁFRICA. Há umas semanas, o Pedro Lomba vangloriou-se, com razão, por ter sido citado no «Avante!». Hoje percebi melhor o que ele sentiu. Por razões que me ultrapassam, o «Independente», num rasgo de inexplicável tolerância ideológica, decidiu citar um excerto do que escrevi aqui («A vaia»). Se isto não é uma coroa de glória, não sei o que possa ser uma coroa de glória.

30.10.03
 
RESUMO POSSÍVEL DE UM ENCONTRO. Ironicamente, o que se discutiu na Sociedade de Geografia foi o impossível mapa de um território – a blogosfera – sem limites nem fronteiras. O resto foi a partilha do que se pode partilhar: experiências, encantamentos, inquietações. Houve ainda quem imaginasse o futuro e quem teorizasse as "bolhas hermenêuticas" provocadas pelo Technorati (cf. junto deste simpatiquíssimo pré-sociólogo). Também se repetiram ideias, claro, coisas que toda a gente sabe, lugares comuns. Em suma: falou-se muito, talvez demais (cinco horas), mas longe dos computadores e da tentação do "post & publish". É um começo.

PS: Do que eu gostei mesmo foi de ver bloggers a (re)conhecerem-se. Cara a cara. E tudo – outra vez a ironia – numa sala cheia de estátuas brancas. Estátuas de outros (mais antigos) navegadores.

 
JPC IS BACK. Depois da licença sabática (ou foi um período de nojo?), ele está de volta. Ele, João Pereira Coutinho. Ele, o ex-infame. Ele, o reaça provocador. Ele, o gajo que escreve bestialmente bem sobre ideias bestialmente erradas (daqui de onde as vemos). Ele, o desbocado, o desbragado, o elefante na loja de porcelanas. Ele, o enfant terrible que gosta de épater le bourgeois (pardon my french, Johnny). Ele, o leitor obsessivo de Oakeshott, de Joseph Conrad e de Flaubert – por esta ordem, infelizmente. Ele, o homem consumido pela insónia, que o torna mais vulnerável (isto é, mais trágico). Ele, o escritor que um dia assinou um texto belíssimo sobre Nápoles e os napolitanos. Ele, o conservador que sofre na pele, coitado, o infortúnio de viver num sítio onde há povo, essa coisa abstracta e imperfeita a que chamam humanidade. Ele, João Pereira Coutinho.

(Vão lá ver. Há textos antigos e um "diário". Há, previsivelmente, pecados à esquerda e virtudes à direita. Sim, as mesmas dicotomias de sempre. Bem e Mal. Céu e Inferno. Como se tudo fosse tão simples. Não é. Mas haveremos de falar nisso lá mais para a frente. Por agora, deixo-lhe apenas uma saudação e o desejo de que os diálogos futuros se pautem pela civilidade. De rixas virtuais estamos todos fartos. E há purgatórios blogosféricos a que ele, JPC, certamente não quer voltar.)

 
THE ELECTION DAY. Pensei, na comovente ingenuidade que alimento aos vinte e nove anos, não me pronunciar sobre as eleições do Sport Lisboa e Benfica, Glorioso para os íntimos. Até porque na blogosfera alguém o faz muito melhor do que eu. Mas o sonho que acalento de um dia me tornar presidente da agremiação desportiva supracitada leva-me a discorrer sobre o assunto. Isto e a sensação de que as únicas eleições realmente relevantes para o curso da humanidade são, por ordem, as democráticas corridas para a presidência do clube da Luz e o carrossel circense das eleições para a presidência dos Estados Unidos da América... O resto são peanuts irrelevantes.
Na impossibilidade de me tornar uma pedra fundamental no xadrez técnico-táctico do esquadrão da Luz, por inata falta de jeito, excesso de peso e normalidade capilar e descomedido uso de álcool, cigarros e poesia, vou tentar deixar aqui as minhas impressões sobre o que falta realizar para que o Sport Lisboa e Benfica saia dignificado, e com isso o desporto português, domingo após domingo:

1. penteados escanificobéticos terminantemente proibidos na equipa principal de futebol! É altura de alguém avisar o Simão Sabrosa que as rastas não fazem parte da viril tradição benfiquista. A fitinha do Nuno Gomes apenas seria autorizada caso o ex-marido da Isméria marcasse dois tentos por partida ou três no caso do adversário ser o F#*$#& C$%#% P*ª(/&# ou o S%$# C#%$$#* P/&%$%$! Banidas, portanto, excrescências capilares ao jeito de um pouco saudável Paulo Madeira e afins! E definitivamente "out" as patilhas à la Vítor Baía!

2. para além de exibirem apurada técnica de bola, os jogadores teriam que ser bonitos! Não é nenhuma bicheza ou qualquer laivo gay, mas seria emocionante ver um onze bem composto. Com rapazes que fizessem vender mais camisolas a moçoilas em fase pré-menstrual que os saldos da H&M, advindo daí dividendos e lucros para a S.A.D. Bem ao género da squadra azzurra... todos coquettes! (...)

3. por fim, e já que o contrato com a Adidas está em vigor nos próximos dez anos, a obrigatoriedade dos equipamentos fornecidos por esta marca alemã serem os mesmos que a equipa de futebol ostentava nos loucos "eighties" (logótipo da marca incluído). Ou seja, camisas vermelhas justas e apenas com as simples três riscas da marca e gola o mais simples possível; calções também eles justos e não as fraldas que agora se usam.

4. a quarta e última medida seria opcional e sujeita a teste psicotécnico prévio a cada jogador de futebol: um curso superior de boas maneiras, onde não participassem em RGA’s e patetices afins, onde pagassem as propinas e tirassem brilhantes médias. Audições compulsivas da Nona de Beethoven e leituras desregradas da «Origem da Tragédia» de Nietzsche dentro dos balneários.

(...) Assim, estou certo, facilmente seríamos campeões europeus.
Como nenhum dos candidatos apresenta no seu programa nenhuma destas urgentes medidas (basta ver o labor capilar de cada um deles), temo que a travessia pelo deserto das glórias se prolongue por mais alguns anos. E com isso tornando a minha vida cada vez mais miserável. Como se não bastasse ser arquitecto, é também necessário ser fanático adepto de um clube que nada ganha?!...
(João Amaro)

 
A XENOFOBIA A QUEM A TRABALHA. Segundo uma notícia do Público, alguns elementos do PNR criticaram «as declarações de Paulo Portas na "rentrée" do CDS-PP», reivindicando a «exclusividade partidária no combate contra a "invasão de imigrantes"». Compreende-se a revolta. O Ministro da Defesa demonstra uma certa tendência para ser mais papista do que o Papa; neste caso, mais xenófobo do que a extrema-direita. E isso não é coisa que se faça a quem anda a espalhar, com tanto empenho e tão poucos meios, belos cartazes pela cidade.

 
ENCONTRO. Daqui a pouco, terá início mais um encontro de bloggers, desta vez organizado pelo hiper-activo Crítico Musical. O local: Sociedade de Geografia (Sala Algarve, segundo andar). Morada: Rua das Portas de Santo Antão (edifício do Coliseu dos Recreios de Lisboa). Aqui fica o essencial do programa:

15h - Boas vindas pelo presidente da Sociedade de Geografia
15h15 - «O que é um blog/weblog?», por Paulo Querido
15h30 - Intervenções informais: aceitam-se inscrições no local, para quem ainda queira participar
18h - Comentário crítico por Guilherme Statter (sociólogo): preparação para o debate que se segue
Intervalo
19h - Relançamento dos trabalhos com debate livre – sessão independente da primeira, totalmente aberta. Moderador: José Mário Silva. Duração prevista: entre uma hora e uma hora e meia.

29.10.03
 
VERSOS QUE NOS SALVAM. Do livrinho mencionado no post anterior, onde a páginas 18 se encontra o texto que inspirou o blogue País Relativo, escolhemos um outro poema (também ele perfeitamente adequado aos tempos que correm). Este:


FEIRA DESMANCHADA


Num frouxo de riso, desmonto o barraco;
vida é outra loiça, que não este caco.

Rio como pode rir um português
ao ouvir, ocioso: – Será para outra vez...

– Aqui há talento! Dizem-me os vèdores.
Seja para alívio das nossas dores!

Mas que remédio senão ser talentoso
quando tudo anda tão nervoso

e não há licença de porte dessa arma
que é a palavra não desfigurada!

Talento manejado a meu talante,
sê modesto, já que és, afinal, o circunstante,

e eu, o teu dono, se tivesse lazer,
sem disparos verbais andava era aos pardais,

por esses trigais e milharais
que lhes dão de comer...


Alexandre O'Neill

 
ATENÇÃO, BIBLIÓFILOS. Corram à FNAC do Chiado, rápido, e procurem na banca da poesia. No meio das novidades, se procurarem bem, vão encontrar um montinho de livros de capa violeta. Ou melhor, uns quantos exemplares – em perfeito bom estado – da 2.ª edição da Feira Cabisbaixa, de Alexandre O'Neill, publicada em 1979 pela Sá da Costa, com uma espantosa capa em relevo de Espiga Pinto. Não sei se o volume é raro ou não, mas eu trato-o como aquilo que é: uma preciosidade. Se fosse a vocês, despachava-me.

 
RUI FRA(U)DE. Quando num julgamento tão importante como o de Carlos Silvino se dá ouvidos ao parecer clínico de um falso psiquiatra, só há uma coisa a dizer: este país bateu no fundo.

 
POST IT (PARA HOJE). São Luís, 18h30, «É a Cultura, Estúpido!». Debate com livros, polémica, humor e muitos bloggers. Não esquecer.

28.10.03
 
ESCRITA EM DIA. Confesso que já tinha saudades. Depois de umas semanas a meio gás, com actualizações irregulares e textos a surgirem com datas passadas, regressámos à normalidade. Quer dizer, regressei eu (o Manel há-de voltar um pouco mais tarde, quando a tese e as aulas deixarem de ser tão absorventes). E o regresso é uma bênção. Recupero o prazer da escrita em tempo quase real, o diálogo com os leitores, o velho entusiasmo de alimentar um corpo feito de palavras e a vertigem de acompanhar o seu movimento acelerado (por vezes a exigir um scroll até ao fundo da página). Daqui para a frente, não prometo o ritmo febril dos primeiros meses, claro, mas antes uma constância a que algumas pessoas se habituaram.

PS: Quanto às mudanças anunciadas para o Outono, elas vêm aí...

 
RECITAL. Na próxima quinta-feira (dia 30), pelas 22 horas, haverá poesia dita por um poeta – António Poppe – na livraria Eterno Retorno, ao Bairro Alto. Apareçam.

 
O PADRE. Cruzei-me com ele nas escadas da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, ali ao pé da Rua de Santa Marta, um templo todo em betão que foi desenhado pelo arquitecto Nuno Teotónio Pereira e ganhou o Valmor em 1975. Caminhava devagar, com a sotaina negra, o colarinho branco e aquele sorriso beatífico que nos padres costuma ser sinal de paz de espírito ou de satisfação pós-prandial. Cruzei-me com ele – eu que não sou paroquiano, nem católico, nem sequer crente; eu, perfeito desconhecido – e em resposta recebi um ligeiro aceno de cabeça, quase uma vénia, acompanhado de um sonoro «Muito boas tardes». Só isso. E isso, para mim, foi muito.
A ver se me explico: o gesto do padre em nada abalou as minhas convicções anti-clericais, como é óbvio, mas houve naquela atitude um desprendimento e uma humanidade que poucas vezes encontro em pessoas com quem me identifico ideologicamente. Percebem o que quero dizer com isto? Eu posso estar nos antípodas do padre (de quem nem sequer conheço o nome ou a obra) em quase tudo, das questões morais às do planeamento familiar, mas isso não me impede de admirar a sua candura. Digo mais: aquele singelíssimo «Muito boas tardes» encher-me-ia a alma – se a tivesse. Foi um momento de dádiva, uma ponte lançada sobre o vazio que rodeia cada ser humano, um olhar para o outro sem nada exigir em troca. Uma coisa rara, portanto. E preciosa.
No fundo, não sei explicar essa «coisa», hélas pour moi, mas espero que não a confundam com o que pode parecer vista de fora: um mero efeito de cortesia.

 
DUPLOS PARABÉNS. Para o Luís, da Natureza do Mal: pelos quatro meses do blogue que é uma prisão magnífica (aqui os parabéns estendem-se à Sofia); e pelo Prémio Médicis que acaba de ser atribuído ao seu escritor-fétiche, Enrique Vila-Matas. Ainda por cima, o prémio distingue o romance «El Mal de Montano», precisamente aquele que foi dissecado, durante dias a fio, pela prosa culta e perspicaz deste nosso compagnon de route (vai assim, em francês e em itálico, quando na realidade o que me apetecia era chamar-lhe amigo).

 
INTEGRAÇÃO. Começa hoje, no Goethe-Institut de Lisboa (Campo dos Mártires da Pátria), um colóquio internacional sobre «condições de vida, aspirações e identidades de jovens "imigrantes da segunda geração" na Europa». O título é todo um programa: À procura de um caminho para a integração. Até quinta-feira, serão discutidos temas como «Racismo e Violência», «Assimilação ou Multiculturalismo?» e «É a cultura um factor de integração?», através de conferências e debates em que estarão presentes «académicos, responsáveis políticos, escritores e activistas de ONG's da Alemanha, França e Portugal». Como é evidente, a todos os leitores do BdE que participem no colóquio, lanço desde já o repto de partilharem connosco, na condição de itálicos, as conclusões.

27.10.03
 
ERRATA. Quero fazer uma pequena correcção. Afinal o meu best post of the week, pelas mesmas razões abaixo invocadas (e outras), é esta lapidar «Hipérbole».

 
LEITURAS DE FIM-DE-SEMANA. A chuva tem destas vantagens. Ficamos em casa, com lâmpadas acesas contra a escuridão do dia. E cedemos ? como há muito tempo não o fazíamos ? aos apelos da blogosfera. A partir das muitas navegações (e respostas a pedidos de visita) poderíamos coligir uma extensa lista de blogues que valem a pena. Por enquanto, sugerimos estes: epiderme, Linha de Cabotagem, O Rosto com que a Europa Fita (uma espécie de "eixo" Paris-Berlim-Lisboa, com o Joel a assegurar as prosas de cá), Lápis de Cor, o Vítima da Crise (interessantíssimo «diário de um desempregado», onde Bagão Félix é uma previsível bête noire), Leitura Partilhada (o lugar onde um grupo de leitores ávidos troca impressões sobre Joyce, Virginia Woolf e As Horas, de Michael Cunningham), Lembrar (bloco de notas de Jorge Reis Sá, escritor e um dos editores da Quasi) e o muito heterogéneo mas convincente Grupo do Pato (salvé Nuno Domingos).

 
FETOFILIA. Na banca dos jornais, espreito as capas das revistas cor-de-rosa (the horror! the horror!) e arrependo-me demasiado tarde. Entre outras coisas inúteis, fiquei a saber, por exemplo, que uma cantora pimba gravidíssima, abraçada na foto a um tal de Peter Pan (no comments), decidiu mostrar ao mundo a ecografia do seu futuro rebento. É, temo bem, um precedente que se abre. Depois da vaga de actrizes telenoveleiras que decidiram ser mães e, naturalmente, da vaga de bebés exibidos despudoradamente (nove meses mais tarde) como troféus de caça, vem aí a exploração dos domínios intra-uterinos. O melhor é prepararmo-nos para os «bracinhos», «cabecinhas», «dedinhos» e «pilinhas» da prole dos famosos, revelados com sorridente enlevo pelos progenitores. Nos cafés, em vez do tradicional «Já viste o filho da X? Tem a cara chapada do pai, não achas?», vamos ouvir coisas como: «Ó Maria, olha lá o feto da Z.! Um matulão, hem! Cá para mim deve ter no mínimo quatro meses». E o melhor é ficar por aqui. Loucos tempos estes, em que nem dentro da barriga materna há descanso.

 
O CANDIDATO PERFEITO PARA O BENFICA. Não sei quem foi o estratega que gizou tão brilhante jogada eleitoral, mas o anúncio de que Guerra Madaleno é acusado pelo Ministério Público de nove crimes (oito por burla qualificada e um por associação criminosa) pode comprometer seriamente as aspirações de Luís Filipe Vieira, até agora o favorito dos adeptos benfiquistas. Com um currículo (perdão, um cadastro) tão brilhante e a perspectiva de uma estadia, por tempo indeterminado, nos calabouços da PJ, Guerra Madaleno chega-se à frente na corrida para Presidente do "clube da águia". Aldrabão como Vale e Azevedo, mole como Vilarinho e demagógico como Vieira, ele reúne o"melhor" de três mundos. É o verdadeiro candidato "à Benfica". Por mim, já venceu. E gostava muito de o ver na tribuna VIP do novo estádio, para o qual não meteu prego nem estopa, a levar até ao fim a derrocada que outros começaram.

 
LINHA AMARELA. Na plataforma do metro, o cego caminhava com passo incerto, agitando a bengala à sua frente e aproximando-se sempre, não sei porquê, da linha amarela e da respectiva ameaça (a queda no abismo dos carris). Quando a proximidade era excessiva, ouvia-se uma voz de mulher – «não vá por aí, senhor, venha para este lado» – ou então surgiam mãos atentas, de um rapaz de mochila, que o desviavam do perigo. Depois a cena repetia-se, como se os carris tivessem um misterioso poder de atracção, uma força da gravidade que convida ao desastre. De fora, com os olhos abertos, os outros passageiros podiam ver naquilo tudo uma imagem das suas próprias existências, ou dos respectivos amores em ruínas, ou da precária condição da vida pública portuguesa, ou até do salvador golpe de asa que nos redime no último instante. A metáfora estava ali, à espera. E para cada um de nós, reunidos por acaso na mesma plataforma de metro, ela teria (mas não sei se teve) significados diferentes.

 
DITOSA PÁTRIA (2). Arrepia pensar que muitas das notícias falsas de O Inimigo Público (suplemento satírico deste jornal de referência) são afinal tão verosímeis.

 
DITOSA PÁTRIA (1). Sobre a histeria futebolística (e benfiquista) em que o país insiste em viver, ninguém escreveu melhor do que o Francisco. Está lá tudo: das bifanas à representação de Caracas, do burro que veio de Elvas ao triste orgulho bacoco diante do gigantismo de betão – isto é, o catálogo completo da saloiice lusitana. O novo estádio da Luz, por muito que os jornais desportivos gritem as suas hipérboles, não é uma «Catedral». É um espelho do país, isso sim. Um espelho deformado e melancólico.

 
BEST POST OF THE WEEK. Eu gosto de posts breves, precisos, directos. Posts que nos agarram com o seu ritmo poderoso (e rigoroso). Posts que reproduzem o movimento e o detalhe das coisas que tantas vezes não sabemos ver. Posts que ampliam o mundo ou o concentram. Posts sem uma palavra a mais, nem uma palavra a menos. Posts como este «Conselho de profissional».



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