BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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26.10.03
 
«CRISTO». Dentro de uma hora (21h30), começa no Teatro Municipal de Almada a última representação da peça «Cristo», com texto, encenação e espaço cénico de Paulo Mendes. São quatro os actores: Célia M. S. Ramos, Karas, Rute Figueiredo e Vitória Horta. Os figurinos têm a assinatura de Catarina Pé-Curto. Se ainda forem a tempo, vejam.
(Amanhã escreverei aqui umas breves notas sobre o espectáculo, uma produção modesta e sem pretensões, que suspeito não teve – nem terá – o destaque crítico que merecia)

 
A VAIA. O grande facto de ontem não foi a inauguração do novo Estádio da Luz (bonito mas exagerado, pois raras vezes voltará a encher), nem as habituais manias de grandeza benfiquistas (com águias a voar e discursos megalómanos e fogo-de-artifício) nem, muito menos, a sofrível vitória contra os suplentes do Nacional de Montevideu. Mas o grande facto de ontem aconteceu mesmo à volta de um relvado, junto à Segunda Circular e ao Centro Comercial Colombo. Quando o primeiro-ministro, Durão Barroso, se preparava para falar às massas, os 65.000 adeptos (ou uma grande parte deles) dedicaram-lhe uma monumental assobiadela. É em momentos como este, mas só em momentos como este, que me apetece ser benfiquista.

PS: Lembram-se do que aconteceu ao Guterres, depois da vaia na final do Masters Cup, em ténis?

 
CATEDRAL. Aí está a Catedral. Com elegância, Manuel Vilarinho cobrou tudo o que tinha que ser cobrado. Àqueles que acham que as festas são momentos de unidade, Vilarinho isolou e identificou quem não tinha nem tem o direito de se identificar, para o bem e para o mal, com o que se decidiu fazer e está feito. Notável foi, contudo, a ideia de que sai depois de ter prestado o seu serviço cívico ao Benfica: afastou Vale e Azevedo. Só por isso, merecerá ser lembrado, não como um grande presidente, mas como um presidente que fez uma coisa grande. (JCampos)


 
MUDANÇA DA HORA. Há sempre qualquer coisa de perturbante quando uma noite (esta noite que passou) ganha 60 minutos. Chegarmos às duas da manhã e ser outra vez uma, os ponteiros recuando como loucos, tem qualquer coisa de artificial, de contra-natura.
Num outro Outono (1991? 1992?), em Sintra, lembro-me de jogar xadrez com o Alexandre, uma partida que começámos à 1h30 e terminámos à 1h20 (mais minuto menos minuto). Ou seja, e isto é que importa, o jogo completou-se antes da hora a que teve início. Às vezes a realidade parece fazer questão de imitar os paradoxos do senhor diácono Charles Dodgson (aka Lewis Carroll).

25.10.03
 
CHUVAS. Estas de hoje – contínuas, fortes, pré-diluvianas – fizeram-me lembrar aquela de há uns dias, quando regressávamos do Porto, às duas da manhã, depois do concerto dos Tindesticks. Uma chuva estranha, violentíssima, oblíqua como a do outro, toda feita de gotas enormes, desabando sobre a auto-estrada como se a quisesse engolir. Os faróis iluminavam o prodígio – e também a nossa impotência.

 
ALGUMAS PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO (NÃO NECESSARIAMENTE PELO QUE SIGNIFICAM). Falésia. Macadame. Donaire. Láudano. Neve. Gólgota. Estultícia. Ascese. Magnólia. Lume. Ágora. Dogma. Musgo. Aço. Tempestade. Vitral. Íris. Púrpura. Lógica. Fuste. Narguilé. Dilúvio. Bemol. Junco. Fraga. Grifo. Halo. Raiz. Zimbório. Eclipse. Lascívia. Revelim. Murmúrio. Albatroz. Pérgula. Súplica. Cobalto. Lírio. Bálsamo. Orbe. Nefelibata. Égide. Umbral. Tiorba. Zigurate. Paráfrase. Cicuta. Relâmpago. Volúpia. Acédia.


 
O DICIONÁRIO DA NATUREZA DO MAL. Imagino o Luís de fato-macaco coçado, luvas de borracha, capacete com lanterna na cabeça. Profissão: mineiro lírico. É isso que ele é: um mineiro lírico. Porque só um mineiro lírico é que se dá ao trabalho de peneirar as 14.000 palavras do dicionário Houaiss, em busca dos vocábulos menos óbvios da nossa língua, como abarga, epochê, aravia ou arse. Podia agora explicar porque gosto tanto deste jogo de descoberta (dos significados, dos sons, das origens etimológicas, dos exemplos literários), mas os pequenos prazeres, por definição, não se explicam.

 
NÃO DIGAM DEPOIS QUE NÃO VOS AVISEI. Aqui em O Espelho (chamo-o assim porque é onde algumas vezes nos revemos) podemos ler o seguinte:

«Em Hipocras 4, servir a comunidade, ser útil, não é uma prioridade para a maioria dos médicos. Primeiro está a sua comodidadezinha, o seu negócio. Que é isso de aceitar ser colocado na província? Que é isso de ser operado no meu hospital antes de deixar o dinheiro de algumas consultas lá no consultório que tenho na cidade? Que é isso de tratar das "pequenas" coisas ? a vacinação de crianças, as bronquites, as queixas dos velhos?»

Isto que escreveu o autor dessa posta é uma caricatura a traço grosso da realidade actual, o que quer dizer que em parte da classe médica verifica-se algo de muito parecido mas nada de tão descarado e inumano. Mas caminha-se a passos largos para que esse traço grosso venha a ser no futuro a pura expressão da realidade. E porquê?
Porque toda a filosofia que está hoje a ser implementada na política oficial de Saúde (desde o Governo Guterres, com Correia de Campos a ministro), em que o que interessa são os negócios que se podem fazer com a Saúde e os resultados de gestão (números, balancetes e dinheiro ? para o que à frente dos hospitais se colocam gestores vindos de fábricas de parafusos, de refrigerantes, de papel higiénico; de empresas de electricidade, de cimentos, de pasta de papel e por aí fora) em nítido e chocante desprezo pelos cidadãos doentes e pelos técnicos de Saúde, toda essa filosofia de privatização, privatização, privatização, em que os hospitais serão mega-centros comerciais de assistência médica, só pode levar a que os médicos se sintam comerciantes, lojistas, feirantes, vendedores de "artigos" que podem interessar ao comprador necessitado e esqueçam de vez que houve um senhor chamado Hipócrates que deixou um texto lindo que ainda hoje se chama "O Juramento de Hipócrates", juramento este que hoje em dia já não compromete nenhum médico porque, simplesmente, deixou de ser exigido há muitos anos nas Faculdades de Medicina. Dizia eu que essa filosofia que os Governos estão a implementar à martelada, para satisfação de clientelas bem conhecidas, vai de facto fazer com que a Saúde passe a ser encarada como mais um negócio como os outros e à sua volta se venham a fazer movimentos transaccionais de puro comércio, em que de um lado estará o médico e os profissionais "produtores" de bens, e do outro lado estarão os doentes "consumidores" que terão que arranjar forma de adquirirem os produtos que lhes fazem falta e a que só terão acesso se tiverem dinheiro, pilim, massa, ou então crédito.
Caminha-se a passos largos (não sei se firmes ? espero que não) para a perda do Direito à Saúde por parte dos cidadãos.
Esta é a maior batalha que está nas mãos do senhor Presidente da República e lhe cabe por inteiro liderar (e felizmente ele está sensível ao problema). Porque se não for ele a interessar-se pelo assunto, o "Zé" estará tramado, com "F" (com éfe grande).
Este é um assunto que deveria estar na ordem do dia e só não está (para bem do Governo) por causa das porcarias em que chafurda a comunicação social, com as televisões todas à cabeça.
(ASM)

 
A ENTREVISTA. É uma estreia. Nunca na vida tinha sido entrevistado por e-mail. Nunca na vida tinha sido entrevistado por um blogue. O resultado está aqui. As perguntas são disparatadas, as respostas também, mas acho que o J. do inclassificável Blogue Blogue Blogue não pretendia outra coisa.

24.10.03
 
MJM. O escritor e jornalista Manuel Jorge Marmelo, discreto mas sempre interessante blogger, voltou a actualizar o seu site pessoal. Está lá tudo o que importa saber sobre MJM: notícias de lançamentos próximos, críticas aos livros, crónicas, contos e uma imperdível galeria de retratos do autor, em várias fases da sua vida. Que o Marmelo é um óptimo rapaz, eu posso atestar – e até lhe perdoo um ou outro defeito (como aquela história de ser adepto do FCP). Além disso, o site é graficamente exemplar. Vão passando por lá, sff.

 
JUDITE KO. A entrevista de Pedro Strecht foi muito curiosa. Porque mostrou que, mesmo numa televisão que se mede por tempo e espectáculo (ainda que com pretensões informativas) é possível levar uma ideia até ao fim e responder àquilo que se quer, como se quer.
A Dra. Judite de Sousa, que participou no indecoroso espectáculo que teve como estrela a foragida à justiça Fátima Felgueiras, a quem deu tempo de antena à conta dos contribuintes e em nome de uma insólita concepção de serviço público, foi às cordas.
(JCampos)

 
ALEPH. O indispensável Cruzes Canhoto lembrou-se de organizar os seus links como se de uma biblioteca se tratasse. Uma bela ideia, diga-se, mais bela ainda porque nos arrumaram com uma lombada que nos equipara ao genial O Aleph, de Jorge Luis Borges – nem de propósito, um dos nossos autores de eleição. Muchas gracias, J. e N. (não confundir com o jornal).

 
ONDE SE DEMONSTRA QUE AS MAILING LISTS NÃO SÃO FRUTO DE UMA CIÊNCIA EXACTA. Na editora Lucerna, sita em S. João do Estoril, alguém teve o trabalho de embrulhar um livro, endereçá-lo em meu nome e enviá-lo, presumo que com diligente profissionalismo, pelo correio. Acontece que o livro em causa se intitula O Primeiro Dia e reúne as «Crónicas do Céu» escritas por João César das Neves, professor universitário e cronista do DN. Querem melhor prova de que há pessoas que nunca leram blogues na vida? Ou será esta uma pérfida manobra de retaliação?

 
VERSOS QUE NOS SALVAM. Com seis dias de atraso, eis o poema com que desejávamos antecipar o magnífico concerto dos Tindersticks no Coliseu do Porto:


CONCERTO DOS TINDERSTICKS

Impossível dizer até que ponto
a rapidez de tudo
atinge as paisagens na sua certeza
o significado dos instintos
desde muito cedo
os modos de travessia, os receios
imagens em que não pensamos

pela noite tua voz descreve
isso de nós que não tem defesa
um amor
largado às sombras, irreconhecível
até de perto

dizem que se tratou de
derivas, ingenuidades, ilusões
o teu amor é um nome qualquer
que parte


(José Tolentino Mendonça, in Baldios, Assírio & Alvim, 1999)


 
SERVIÇO PÚBLICO. O Rui Almeida, além de leitor omnívoro e bibliófilo inveterado, é o autor de um excelente blogue de «Poesia distribuída na rua». Num dos últimos posts, começa por insurgir-se contra os recentes maus hábitos do BdE (as actualizações em catadupa, após longos períodos de penúria) para logo depois nos oferecer, num daqueles gestos de amizade em que a blogosfera é pródiga, o poema do José Tolentino Mendonça, sobre um concerto dos Tindersticks, de que falámos há uns dias. Obrigado, Rui. O poema vai ser finalmente publicado, aqui no BdE, já a seguir.

23.10.03
 
NO ELEVADOR. Comigo, do segundo andar ao rés-do-chão, desciam cinco gravatas. Eram todas cinzentas. Quase tão cinzentas quanto a conversa cinzenta daqueles seres cinzentos que as envergavam, orgulhosos, com o deleite (ou a resignação) dos hábitos assimilados. Seres de um planeta que não conheço nem compreendo. Um planeta de outra galáxia. Um planeta também ele, estou certo, cinzento. Cinzento como Marte é vermelho.

 
AINDA "AQUELA" FRASE DE FERRO RODRIGUES. Escreveu-se aqui mesmo, neste blog: «O problema é que a frase foi dita num contexto (conversa telefónica privada) que nós, cidadãos deste país, não tínhamos o direito de conhecer. Ponto final».
Concordo que a conversa era privada. Concordo que não tínhamos o direito de a conhecer. Não concordo com o ponto final, que devia ser substituído por um ponto e vírgula. É que, sendo a conversa privada e não tendo nós o direito de a conhecer, conhecemos. E isso muda tudo.
Houve violação de segredo, está claro. Houve escuta telefónica, é evidente. Restam duas questões: alguém já se dedicou a tentar explicar e alguém já se dedicou a tentar perceber o que é e quem está abrangido pelo segredo de justiça (com excepção dos que conscientemente o violam e dos que conjunturalmente disso se aproveitam)? Voltarei a este tema.
Alguém já se perguntou se as escutas telefónicas que estão a dar brado foram autorizadas por juiz? Certamente que sim. E qual? E porquê? Estas questões hão-de de ter uma resposta, para além de uma outra evidência; é que está provado, ou melhor, para mim está provado que havia razões para as fazer.
(JCampos)

 
O LUGAR DA ASSÍRIO (NA NET). Ainda não está operacional, mas vai estar em breve. A morada é esta: www.assirio.com. Vai ter biografias de autores, resumos de livros, promoções e todas as obras do catálogo à venda com 15% de desconto. Ainda não está operacional, repito. Mas podem ir já reservando o espaço na vossa lista de favorites.

 
O MURO. Logo após a comunidade internacional ter condenado o muro que o governo de Sharon está a construir para humilhar e oprimir os palestinianos, proferiu um ministro israelita: «Não teremos em conta a maioria da ONU que nos é sistematicamente hostil. O Mundo está contra nós e contra os EUA, e eu estou orgulhoso de estar do lado dos norte-americanos». Assim se vê o multilateralismo dos novos imperadores: cegos, censurados, turvos pelo maniqueísmo isolacionista. Desfilando nos corredores da política com uma sobranceria alarve. Contra o mundo, contra a ONU, contra a ordem internacional, contra os direitos humanos, contra o respeito pela dignidade do ser. Sob o dedo acusador da vergonha. Mas sós, cada vez mais sós. Orgulhosamente sós.
No futuro, quando José Manuel Fernandes, Pacheco Pereira e Luís Delgado soltarem a sua vozearia contra o «unilateralismo» do eixo franco-alemão, compreenderemos melhor a que se referem. É tudo uma questão de adjectivos.
(Tiago Barbosa Ribeiro)

 
A TRADUTORA. Há notícias que dá gosto revelar e esta é, sem dúvida, uma delas. O Prémio Pen Club de Tradução referente a 2002 acaba de ser atribuído a Maria de Lourdes Guimarães, pela obra «Folhas de Erva», de Walt Whitman, publicada pela Relógio D'Água. O júri – formado por Casimiro de Brito, director do Pen Club, Anabela Rita, da Associação Portuguesa de Tradutores, e Ana Hatherly – decidiu por unanimidade. Gostaria apenas de dizer que a Maria de Lourdes, que tive a sorte de conhecer há poucas semanas, é uma artesã das letras e alguém que merece inteiramente esta distinção. Parabéns.
(A cerimónia de entrega do Prémio está marcada para o próximo sábado, dia 25 de Outubro, pelas 17 horas, no Forum Picoas, em Lisboa)

 
FESTA PIPI. Sim, é verdade. Como qualquer blogger que se preza, eu também fui ao lançamento do best seller de que toda a gente fala, no muito apropriado Royal Maxime, ali numa esquina da Praça da Alegria. À entrada, deram-me um crachá amarelo a dizer: «Eu é que sou o Pipi». Mas as ilusões de grandeza foram efémeras. Dentro da sala, toda a gente ostentava um crachá igual – incluindo o verdadeiro Pipi (com quem falei animadamente e que tentou, mais uma vez sem sucesso, persuadir-me de que não é the one). Meticulosamente organizada pela Charlotte, a festa correspondeu às expectativas: após uma apresentação escorreita do Nuno Miguel Guedes, o Rui Unas conseguiu ler, sem se desmanchar, algumas passagens da «obra-prima», por entre as gargalhadas (a tender para o alarve, reconheça-se) dos distintos convidados. Como bónus, tivemos ainda direito a um pequeno filme promocional, bem produzido e realizado, em que o Pipi aparece com pinta de Dick Tracy (mais Dick do que Tracy, claro), vociferando contra os “rotos” e dedicando-se a jogos eróticos que envolvem uma ovelha chamada Rute. Enfim, só visto, contado ninguém acredita.
Agora em registo de publicação cor-de-rosa, pode dizer-se que pelo Maxime deambulou meia blogosfera: do Ivan Nunes ao Paulo Querido, passando pelo Daniel, pelo Mexia, pelos Relativos, pelo Lomba, pelos Gatos Fedorentos, pela malta do Desejo Casar, pelo Crítico Musical, pelas meninas do Tomara-que-caia e por muita outra gente que não conheço ou que não se quis apresentar (esta é para ti, maradona). Houve conversas e intrigas, riso solto e palmadas nas costas, pouca luz e muitos copos. Mas do que eu gostei mesmo foi do baterista cantor.

22.10.03
 
TELEFONIA SEM FUTURO. A selecção musical da TSF nunca foi perfeita (dependia das horas do dia; de quem estava a tomar conta da antena; dos programas que vinham antes ou depois). Não me enchia as medidas, nem por sombras, mas tolerava-se. De vez em quando, com sorte, até se ouviam umas bandas alternativas, música do mundo e – lá para o fim de Abril – Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Zé Mário Branco, a malta toda. Agora, quando ligo o rádio em 89.5, só oiço Eros Ramazotti, Phil Collins e programas açucarados como «A Idade da Inocência». Não só por isto, mas também por isto, para mim a TSF morreu.

 
O CRÍTICO MEFISTOFÉLICO. De vez em quando aparece um blogue cujo único objectivo é dizer mal dos outros blogues todos. Houve um prometedor mas que morreu cedo: o Criticar os Blogs. Houve outro bastante mais manhoso, escrito com os pés e que se finou num ápice: o Tolentino. E agora há o diabólico Mephistopheles, uma espécie de justiceiro que chegou para nos reduzir à nossa insignificância. Se ignorarmos alguns sobressaltos ortográficos, a coisa até tem uma certa piada. É violento, sem ser (demasiado) ofensivo. E agita as águas, coisa de que a lusoblogosfera anda a precisar. A mim, por exemplo, chamou-me «vaguérrimo poeta» – uma definição feliz (se excluirmos a palavra «poeta»).

 
SERMÃO. (...) A recente comunicação ao país do Presidente da República foi uma intervenção legítima e importante, mas que, no meu entender, cometeu três pecados capitais. O primeiro pecado está na invocação da ideia de que, sendo o Presidente da República uma personalidade importante, respeitada e sufragada em duas eleições, não é possível pensar que o próprio Presidente pudesse ter tentado influenciar a justiça. Ora, esta afirmação é excessiva. Objectivamente, não há nada, mas nada que possa garantir que a tentativa não existiu: nem o cargo, nem o prestígio, nem o passado, nem o duplo sufrágio, nem a simpatia e confiança que o titular do cargo – neste caso, e pela primeira vez, falo da pessoa e não do cargo – possa justamente merecer. O facto de o Presidente da República ter argumentado desta forma não inocenta nem condena; para mim, não diz nada sobre o fundo da questão. Mas não achei correcto, nem que a questão fosse referida e, muito menos, na forma como o foi.
O segundo pecado está na ideia veiculada de que há outros assuntos tanto ou mais importantes do que este lamentável romance. Não concordo. Com as proporções que tomou, este caso tornou-se na questão mais importante com que os portugueses se defrontam, porque ficou posta em causa de uma forma dificilmente remediável o prestígio e harmonia do funcionamento das instituições. É evidente que os magistrados (judiciais e do Ministério Público) estão em confronto vertical e horizontal; as relações entre as magistraturas e a Ordem dos Advogados arrepiam com um surpreendente Bastonário a confrontar-se com o Procurador Geral da República; a chamada classe política atira-se à canelada (estou a ser comedido) a tudo e a todos e os cidadãos desesperam de um Estado respeitável, fiável, sereno e, principalmente, com instituições a funcionar em atitude de recíproco respeito. Como alguém dizia, andámos durante anos a atirar o lixo para debaixo do tapete e agora alguém o levantou. É por tudo isto, e pelo muito mais que fica implícito, que a questão da Casa Pia é o principal problema do país. Mais ou menos como a saúde individual: com saúde, trabalha-se ou vai-se arranjando qualquer coisa para fazer, come-se bem ou lá vamos enganando o estômago, andamos agasalhados ou acreditamos que Deus dá o frio conforme a roupa; mas se a saúde falta... Agora é a mesma coisa; há o défice, a venda do património, a inflação, a recessão, o desemprego, a privatização, a regulação, mas tudo isso se apoia ou combate com instituições credíveis e Estado respeitável. Quando este se esfarela, a questão central passa a ser salvá-lo. Daí que a intervenção do Presidente da República tenha descentrado o essencial, talvez de propósito para distrair as pessoas da arena em que o país se transformou; mas, para mim, isso não está certo, porque o problema está na arena e não fora dela.
O último pecado surgiu no fim: a esperança. Imaginem que eu sou sócio do Sendim Futebol Clube (que nem sequer sei se existe) e vou jogar futebol a Madrid, ao Estádio do Real. Eu posso dizer: tenho esperança de regressar com um empate. Mas porquê? Que razões me podem levar a mim, sócio de um eventual clube de 25ª linha, a manifestar esperança num resultado positivo? Sorte? Erro de arbitragem? Acaso? É que ou tenho algum argumento concreto ou estou a confundir desejo com realidade. Regressando à esperança. Que razões tem o Presidente da República para pretender que a hora seja de esperança? Não é com certeza os oito séculos de história, os descobrimentos, os Lusíadas, a República ou o 25 de Abril. Que poderá ser para além do seu imenso e genuíno desejo? Só se for – e digo-o sem ironia, mas antes com a tristeza igual à de tantos – porque o Presidente da República sabe que não podemos ficar pior do que já estamos. Cá por mim, acho que a esperança fundada em razões, arrebata; o contrário é uma sementeira de ilusões donde nada se pode colher de bom. Em suma, a intervenção do Presidente da República desiludiu. Como disse Miguel Sousa Tavares, foi um sermão. Não creio que seja disso que o país precisa.
(JCampos)

 
OUTRA VISÃO DE UM MESMO DISCURSO. No BdE, prezamos a pluralidade de opiniões e até a discordância entre as várias vozes ("oficiais" ou itálicas) que compõem o corpo deste blogue. Assim sendo, é perfeitamente normal que um mesmo acontecimento tenha leituras distintas, porque distintos são os pontos de vista e as sensibilidades de quem aqui escreve. Foi o caso da intervenção do PR, ontem à noite. Para mim, o discurso correspondeu a uma atitude positiva de Sampaio: um gesto de apaziguamento, de relativização dos cenários apocalípticos e de esperança na sobrevivência do Estado de Direito. Um dos nossos leitores, JCampos, discorda e explica porquê (já no próximo post). Não subscrevemos, mas respeitamos os argumentos. Nesta altura, toda a discussão é pouca.

 
SERENIDADE PÓS-SAMPAIO. A intervenção do Presidente da República, ontem à noite, não foi apenas importante e equilibrada. Foi absolutamente necessária para trazer alguma ordem ao actual momento de confusão e descontrolo, tanto na esfera política como na esfera judicial. E, sobretudo, para relembrar o óbvio: há mais Portugal para além do escândalo Casa Pia. Há outros problemas, outras causas, outras prioridades a que temos que prestar a devida atenção. Se continuarmos mergulhados nesta espiral mediática monotemática e deprimente, nunca mais sairemos deste túnel que desemboca (perdoem-me a metáfora guterrista) no pantâno. Por uma vez liberto de excessos palavrosos, Sampaio apelou à razão e ao bom senso. Era bom que o seu discurso – também por uma vez – fosse ouvido e compreendido.

21.10.03
 
A VERGONHA. Segundo o senhor Ministro da Educação, David Justino, os concursos de professores para o ano lectivo de 2003/2004 iriam ser os mais justos dos últimos anos. O terminar com a Fase Regional (mais conhecida por Mini-Concursos) iria permitir que o ano lectivo começasse na data prevista, com todos os professores
colocados. Assim, professores e alunos saíam beneficiados. Até aqui tudo bem. Só que nada correu como o previsto.
Numa primeira fase, houve uma enorme desordem na colocação dos professores: professores colocados em mais que uma escola; professores contratados colocados antes de professores dos quadros de zona; professores colocados em escolas para as quais nem tinham concorrido. Na fase seguinte, começam a surgir horários completos (os chamados “horários-do-fundo-da-gaveta” que o Senhor Ministro pretendia abolir), que, para cúmulo dos cúmulos, deviam ter surgido na 2.ª parte dos Concursos; o que leva a que sejam novamente colocados professores. Numa fase posterior, que é aquela que está a decorrer, surgem novos horários (entre eles, outra vez, vários completos). E é aqui que tudo se complica ainda mais: os professores têm que fazer a sua autoproposta a cada escola, quer por fax, telegrama ou e-mail; para dificultar mais a situação, alguns dos números de telefone de escolas, disponíveis no site do DGAE, foram alterados, como também contas de e-mail, que nem sequer existem. E correm ainda rumores de que muitos horários são fantasmas, que nem sequer vão surgir nas listas do DGAE. Mas de quem é a responsabilidade? Do Ministério, do DGAE, das Escolas, de quem?
No meio disto tudo, há o papel que está a ser desempenhado pelos sindicatos dos professores. Todos eles se mostram muito indignados com a actual situação; mas, em concreto, nada fazem para resolver o estado das coisas. Continuam preocupados cada um com o seu umbigo, em vez de se unirem (definitivamente) para o bem de toda a classe dos professores; em vez de fazerem um apanhado de todas as situações irregulares encontradas e apresentarem tais provas à Comunicação Social; em vez de apresentarem uma queixa nos tribunais contra o Ministério. Mas isso não lhes interessa, pois alguns deles teriam que abdicar do protagonismo que obtêm quando posam para a fotografia, no fim de assinarem uma lei que, bem vistas as coisas, não os irá beneficiar.
Contudo, a principal questão que se levanta é a falta de palavra do senhor Ministro da Educação (ao menos ele não deu a sua palavra de honra). De tudo aquilo que disse, nada foi cumprido. O novo modelo de concursos não veio beneficiar ninguém (a não ser os cofres do Estado), pois ainda há professores por colocar; mais grave, existem crianças em aulas há um mês sem os respectivos professores. Nada daquilo que o Senhor Ministro prometeu foi cumprido.
A vergonha que é a política para a Educação deste Governo, onde podemos incluir a que está em curso para o Ensino Superior e os previstos cortes orçamentais para 2004, é uma afronta à nossa democracia e à dignidade de cada um. De todos os modelos de concurso, os “Mini-Concursos” eram os mais imparciais e os mais justos; e não há ninguém que possa dizer o contrário, nem mesmo o senhor Ministro da Educação, se fizer uma correcta análise da actual situação.
O modelo de concurso vigente revelou-se um desastre autêntico, onde nada se vislumbra de positivo. Dele só irá resultar o aumento da situação mais que precária da classe dos professores. A mesma situação que o senhor Ministro pretendia resolver.
(Manuel Abrantes Domingos)

 
SOBRE O «ESTOU-ME CAGANDO PARA O SEGREDO DE JUSTIÇA» DE FERRO RODRIGUES. Que a expressão é deselegante, sobretudo na boca de um líder político, ninguém duvida. O problema não é esse. O problema é que a frase foi dita num contexto (conversa telefónica privada) que nós, cidadãos deste país, não tínhamos o direito de conhecer. Ponto final.

 
UMA TRISTE EVIDÊNCIA. O segredo de Justiça já passou à história. Mas a Justiça de segredos, não.

 
SAUDADES ITÁLICAS. E de repente, sentimos muito a falta do Daniel Oliveira. Num momento em que não arrisco opinar sobre o pesadelo judicial em que o país vive, porque me perco continuamente numa espécie de labirinto imaterial (feito de insinuações, cabalas e contra-cabalas), o Daniel, nosso ex-itálico, pôs o dedo na ferida. Foi no Barnabé, um blogue (de esquerda) que está cada dia melhor. O post, lúcido e clarificador, diz o que é preciso dizer neste momento. Eu não diria melhor, porque não posso e porque não sei. Limito-me por isso a fazer o link - não sem uma certa nostalgia.
Leiam, por favor. E reflictam.

 
DIA DA DEFESA NACIONAL. Uma centena de miúdos abúlicos (ou a fazerem figura de corpo presente, mãos nos bolsos, para fugir à multa); magalas em parada; a soldadesca em exercícios pós-Rambo; mais uns quantos lamirés de retórica militarista e uma ausência notória (sim, a do esquivo ministro dos submarinos, talvez em período de imersão). Assim se passou, entre o Alfeite e o alinhamento dos telejornais, o tão aguardado Dia da Defesa Nacional. Como diz um amigo meu: estamos bem entregues, estamos.

20.10.03
 
BLOG-RELEASE. No próximo dia 29 de Outubro, às 18h30, voltará ao Jardim de Inverno do Teatro São Luiz mais um ciclo de encontros sobre livros e escritores. O primeiro "É a Cultura, Estúpido!" desta nova série terá como convidado principal António Mega Ferreira, que lançará em breve dois novos livros: "O Que Há-de Voltar a Passar" (Assírio e Alvim) e "Uma Caligrafia de Prazeres" (Texto Editora). A equipa entrará em campo com o sete inicial − a apresentadora Anabela Mota Ribeiro, os críticos literários José Mário Silva e Pedro Mexia, os jornalistas João Miguel Tavares e Nuno Costa Santos, o colunista Daniel Oliveira, o stand-up comediant Ricardo de Araújo Pereira − e uma nova aquisição. O também colunista Pedro Lomba juntar-se-á ao grupo para jogar à direita, no confronto de ideias com Daniel Oliveira. A polémica deste mês girará à volta do livro "La Face Cachée du Monde", de Pierre Péan e Philippe Cohen, sobre as "ligações obscuras" do jornal «Le Monde» − ponto de partida para discutir as relações entre o jornalismo e a política. Serão mantidas as rubricas "Leitura Obrigatória", "O Que Não Ando a Ler" e "Baixa Cultura", bem como o stand-up final sobre a actualidade literária.
Marque já no seu moleskine este evento organizado pelas Produções Fictícias: "É a Cultura, Estúpido!", últimas quarta-feiras do mês, até Junho de 2004.

 
PARA M. Às vezes gostava de acreditar que uma frase pode salvar o mundo (mas o mundo recusa a salvação).

 
CORREIO ATRASADO. Ainda a propósito da sexta vitória de Michael Schumacher no Campeonato Mundial de Fórmula 1 − comemorada efusivamente noutros lados (e até, pasme-se, pelo ex-itálico Filipe Moura) mas nunca neste canto da blogosfera onde o alemão é persona non grata − recebemos a seguinte missiva:

«Olá, Sou estudante de Marketing e vosso leitor desde a primeira menção ao blog de esquerda (e à coluna) feita pelo António Granado no Ponto Media. Mais assíduo nos primeiros tempos, menos nos últimos por falta de tempo, sempre segui com atenção os vossos textos, ora concordando (a maior parte das vezes), ora discordando (por vezes), mas sempre em silêncio. Por uma razão ou por outra, nunca me manifestei. Talvez por achar que nao teria tanta autoridade na matéria para me pronunciar... Escrevo-vos a propósito dos posts "Hexa" e "Adenda automobilistica". Discordo deles. Em absoluto! Minto. Sinto uma espécie de veneração por Fangio. Aos outros, admiro-lhes o talento, que é inegável, mas não têm lugar na minha galeria de campeões. Ao professor [Alain Prost], faltou-lhe sempre uma pitada de Nigel Mansell. A experiência, o saber e o conhecimento estão lá... mas faltava-lhe o virtuosismo, a garra... nunca levantou as bancadas com uma ultrapassagem do outro mundo, nunca arriscou uma manobra. Foi sempre um campeão muito calculista. Tinha falta daquilo que Montoya possui em doses excessivas. Quanto a Senna... foi um grande piloto, sem dúvida. Brilhante, velocíssimo, por vezes polémico dentro da pista mas sempre altruísta fora dela. Apresenta uma única falha no seu currículo, para poder figurar na tal galeria: nunca correu na única equipa de F1 na verdadeira acepção da palavra! Teve azar, é certo, de a Ferrari não ser suficientemente competitiva no seu auge como piloto... mas com a mesma situação se deparou Schumacher e teve o mérito de reerguer a scuderia. Schumacher apresenta, desde que entrou para a Ferrari, um percurso fora de série, que contrasta com o seu percurso na Benetton. Na minha galeria de campeões, Schumacher figura em 2.º lugar, atrás do campeão sem título, o rei sem trono, Gilles Villeneuve. Esse sim, é inultrapassável. Deixo aqui a minha visão do desporto mais apaixonante do mundo.
Cumprimentos, José Pedro Fernandes»

Como os outros desportos, a F1 também tem os seus mitos, as suas ideias feitas e as suas clubites agudas. Não adianta estar para aqui a discutir se o Schumacher é melhor que o Villeneuve ou se o Senna suplantou o Fangio. Cada um há-de ficar, no fim, com a sua verdade. A minha tem a ver com tardes de domingo em êxtase, sempre que o Alain Prost cortava a meta em primeiro lugar. Agora não, mas talvez explique um dia destes o porquê dessa fidelidade ao piloto do nariz torto.

 
MONTALBÁN (DEFINITIVO). O Luís, da Natureza do Mal, é um leitor devoto de Enrique Vila-Matas e do que há de melhor na literatura contemporânea. Ontem, escreveu a melhor evocação de Manuel Vasquéz Montalbán que pude encontrar na blogosfera. Para ser sincero, já a esperava.

 
RESCALDO. Em Serralves vimos planos de cidades imaginárias, abstrações de António Sena e o "labirinto eléctrico" de Arata Isozaki (uma complexa figuração da morte em Hiroxima). Ao fim da tarde, no terraço, a aragem trazia aromas indecifráveis e os ecos da música que um casal retirava, nem sei bem como, de uma cerca australiana montada no átrio do museu. Depois houve a chuva, um café barulhento, palavras cúmplices. E o encontro com o J., do Cruzes Canhoto (também ele com um bilhete para os Tindersticks no bolso). São coisas destas que justificam uma viagem de 300 quilómetros.

 
NO PALCO, A MELANCOLIA E O RESTO. Eu nunca tinha assistido a um concerto dos Tindersticks. Mas agora percebi o que me contavam.



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