BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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12.10.03
 
AUDIÊNCIAS. Por e-mail, o Francisco responde-nos à questão levantada aqui: a audiência do último «Livro Aberto» foi de 74.300 espectadores. Muito mais, por isso, do que os 500 supostos leitores de poesia que existem em Portugal. E bastante mais do que os 50.000 espectadores que viram o programa anterior, com Margarida Rebelo Pinto. A nova poesia portuguesa à frente da autora de I'm in love with a pop star? Uau. Pelos vistos, nem tudo está perdido.

 
KAPA. É uma ideia simples. É uma ideia útil. É uma grande ideia. Sim, alguém se lembrou de transcrever, para o suporte de um blogue, os melhores textos da mítica revista K. Estão lá os desvarios, os delírios, os temas obtusos, as prosas do MEC. E aquilo, tantos anos depois, continua a ter graça, continua a valer a pena.

 
HEXA. Por muitos campeonatos que ganhe, Michael Schumacher nunca chegará aos calcanhares dos verdadeiros campeões da Fórmula 1: Juan Manuel Fangio, Alain Prost, Ayrton Senna. Tenho dito.

11.10.03
 
SOFTWARE LIVRE. Lá estavam eles, fatos cinzentos, alguns azuis. Também eu me aperaltara para aquele colóquio, vestira a minha melhor t-shirt e as únicas calças de ganga que tenho que não estão rotas nos fundilhos.
Comecei por uma pergunta que não esperavam – Acham que alguém pode ter direito a reservar para si o ar que respiramos, a água? Então e não será que o conhecimento é um bem igualmente essencial e que, como tal, não deveria ser partilhado entre todos?
Alguns anuíram, outros ajeitaram-se nos assentos cor de laranja.
- Pois bem – fiz a pausa da ordem – e o que é que acham se um bem tão essencial para vocês, empresários, como o software fosse de igual modo partilhável? O que é que acham se qualquer pessoa em qualquer ponto do mundo pudesse aceder a esse software e caso o conseguisse melhorar, no imediato divulgasse essa melhoria e todos tivessem igual proveito?
- Isso não é possível. E mesmo que o fosse, algum espertalhão faria umas melhorias e punha-o à venda.
- Nope. Para isso criou-se o "copyleft", uma espécie de antítese ao "copyright", ou seja, o software é livre, e quem quiser pode utilizá-lo, alterá-lo, melhorá-lo, mas não pode, mesmo que o transforme, torná-lo num software não livre.
Olharam uns para os outros espantados. – Isso significaria que para além do mais pouparíamos uma data de dinheiro.
- E que em cada instante milhares de pessoas no mundo estariam a trabalhar no mesmo software com vista a melhorá-lo, adaptá-lo a situações particulares, enfim, estariam a trabalhar para eles mas ao mesmo tempo estariam a trabalhar para toda a humanidade.
- Na verdade não há direito de limitar o direito à informação e ao conhecimento tecnológico.
Remeti-me ao silêncio, satisfeito com as reacções produzidas. Um deles, mais afoito, gravata já escancarada e deixando o casaco a jazer nas costas da cadeira, levantou-se e rematou – Aqui o Pedro tem razão, um outro mundo é possível.
(Pedro Farinha)

P.S. Para informação sobre software livre visite a Ansol

 
BOXE. Falávamos de boxe. Desporto brutal? Coisa vil e desumana? Esplendor da mais decadente masculinidade? Ou antes luta antiga e bela, ritual de força trágica, puro bailado de homens impuros? Havia dentro da conversa um ringue, contagens decrescentes, campainhas, público em êxtase, sangue a jorrar de uma ferida no sobrolho, KO técnico, luvas vermelhas. Sim, era de boxe que se falava. E o problema só se pôs quando chegámos às referências cinéfilas. De um lado esgrimia-se O Touro Enraivecido. Do outro, ó deuses, o Rocky V.

10.10.03
 
OUTONO ADENTRO. Agora escurece mais cedo. E a noite não nos traz nenhum consolo.

 
RESCALDO DA FESTA DESEJO CASAR. Encontrámos bloggers que já conhecíamos e outros que ainda não. Ouvimos o Ivan dizer ao Pedro Mexia: «O Dicionário do Diabo é uma merda» (referia-se ao shot, claro). Frequentámos o canto onde poisavam as meninas do tomara-que-caia e a muito bela Vírgula. Conhecemos a Sofia, da Natureza do Mal, ainda mais misteriosa do que supúnhamos. Assistimos, embevecidos, ao encontro do LFB com o Ponto. Voltámos a falar, tanto tempo depois, com esse portento de criatividade e talento que é o Tiago Rodrigues. Vimos professores universitários - juro - a dançarem, frenéticos, ao som de «Like a Virgin». Sim, foi uma noite em cheio.

 
E NÃO SE PODE ACABAR COM ELA? (2) Na defesa da praxe como integração costumam os seus adeptos avançar com o argumento do estudante deslocado, que chegou a uma cidade nova e precisa de ajuda e de amigos. Mas será a praxe, com as noitadas a lavar os quartos dos "doutores" ou com as palhaçadas nos pátios das Faculdades a forma mais saudável de o ajudar? Ou será a forma infalível de lhe dizer que a Universidade nada tem de solidariedade e de respeito pelo indivíduo na sua totalidade, mostrando-lhe como se deve enquadrar na hierarquia para não ser chateado e como se deve adaptar ao que lhe mandam fazer para não ser segregado e para não perder a sua única hipótese de fazer amizades na nova cidade, na nova vida?
A escolha cuidada de meia dúzia de estudantes trajados para aparecerem na televisão mostrando a sua capacidade argumentativa não esconde a realidade. E a realidade, infelizmente, resulta na brutalidade, física e sempre psicológica da praxe, bem como no completo desvirtuamento de tudo aquilo que implica estudar numa instituição de Ensino Superior. Numa altura em que se discute a fraca cultura geral dos estudantes portugueses, as médias baixíssimas no acesso às Universidades, os tristes índices de leitura dos estudantes (como os da população em geral, diga-se) ou a pouca exigência que se vai instalando, parece-me irreal que se continuem a desculpabilizar (e a louvar) atitudes que só contribuem para a alarvidade reinante nas Faculdades portuguesas.
Pessoas que se sentem superiores devido ao número de matrículas num estabelecimento (e às vezes mais superiores se esse número disparar muito para além dos anos previstos para a conclusão do curso), que se auto-denominam "veteranos" e que vêem numa farda o símbolo da sua autoridade, que organizam assaltos "a fingir" para exercerem o seu poder ilimitado sobre os "caloiros" (e isto sem falar na boçalidade das "semanas académicas", dos "cortejos", dos "tribunais de praxe"), pessoas que reproduzem o pior da sociedade em pequenas paradas de pátio estão longe dos princípios humanistas, de aquisição e transmissão de conhecimentos que presidiram a vários séculos de construção da ideia de Universidade, essa sim uma tradição com raízes fortes e cada vez mais distante da realidade do nosso Ensino Superior.
(Sara Figueiredo Costa)

 
E NÃO SE PODE ACABAR COM ELA? (1) No «Público» do dia 5 de Outubro, a jornalista Catarina Lázaro assina uma crónica sobre a praxe, dando conta da sua própria experiência enquanto "infiltrada" numa praxe da Faculdade de Engenharia do Porto. A necessidade dessa experiência para a realização da referida crónica parece justificar-se como resposta ao argumento de que "só pode falar da praxe quem a viveu, quem a sentiu". Ora, para além de viver um dia de praxe junto dos designados "caloiros", penso que a descrição das actividades praxísticas e do ambiente "acolhedor" teria sido beneficiada com um contacto mais duradouro com os "veteranos", aparentemente tão respeitadores e tão incentivadores da assiduidade. Para além disso, mesmo que a jornalista não tenha presenciado nenhuma espécie de violência física, os dados objectivos que fornece são suficientes para perceber que acabar com a praxe seria um importante contributo para garantir que as Faculdades deixarão de ser locais onde os estudantes reproduzem hábitos de caserna, herdados de uma suposta tradição da qual a esmagadora maioria das Universidades portuguesas não se pode reclamar porque ela nunca existiu.
A defesa da praxe recorre também à sua suposta democracia: "só é praxado quem quer", ouve-se todos os anos nos telejornais de Outubro. E é mentira. Na maioria das Universidades portuguesas, quem ousar dizer "não" é humilhado e apelidado de todos os nomes capazes de caber na cabeça pouco imaginativa de um "veterano" (a avaliar pela repetição dos mesmos slogans todos os anos… por exemplo, todos os cursos acabados em –ia têm direito ao poético “Sexo, orgia, …” seguido do nome do curso, numa rima capaz de espantar qualquer Dante…). Desde pessoas verbalmente ofendidas até às ostensivamente ostracizadas e rotuladas como "esquisitas", passando por casos mais brutais, como o do rapaz a quem raparam publicamente e à força o cabelo como consequência de um "veredicto" do "tribunal de praxe", no Minho. Mas não se trata apenas de criticar a "praxe violenta", até porque suponho que qualquer pessoa no seu juízo perfeito não acha que arrastar-se pelo chão, simular actos sexuais com pessoas que conhece há dois dias, comer dejectos animais ou ser forçado a engolir substâncias perigosas são formas de integração. Até aqui estaremos, espero, todos de acordo. Mas depois vem a suposta benevolência de outras praxes, onde aparentemente ninguém é forçado a nada, mas onde a hierarquia dos veteranos (cuja autoridade lhes vem não se sabe de onde) deixa bem claro que quem não participar será excluído das relações sociais − e dos apontamentos, das informações, da ajuda que se deveria dar desinteressadamente.
(Sara Figueiredo Costa)

 
O SILÊNCIO DE JPP. A propósito da estranheza que revelámos aqui, quanto ao silêncio de Pacheco Pereira sobre a demissão do ministro Martins da Cruz, o autor do blogue Salmoura acrescentou o seguinte:

Para além de lembrar que JPP, no seu último comentário, na SIC, disse que «a palavra de honra do ministro lhe bastava» (confesso que não percebi o que ele quis dizer com esse "bastar") – para além de lembrar isso – queria chamar a atenção dos leitores para o facto de Pacheco Pereira estar, desde há muito tempo (pelo menos no seu Abrupto isso é evidente) a fazer puros exercícios de nefelibata, que vê e fala de tudo, mas que, talvez devido ao tapete de nuvens-tabu em que anda, quando olha para baixo não consegue divisar um sítio chamado Portugal, que tem um Governo em funções, Governo esse que mexe (e remexe) e que, por acaso, é formado por gente do partido de JPP, embora coligada com o "venal" (palavra de JPP no falecido "Flashback" da TSF) Paulo Portas da Moderna.
Agora que JPP se recusou publicamente a pertencer às listas conjuntas PSD/PP, de candidatos a deputados ao Parlamento Europeu, esperemos que faça um buraquinho nessas nuvens-tabu e espreite cá para baixo o ninho onde repousa o ovo da serpente de onde surgirá um dia Paulo Portas transfigurado, para adulterar e/ou tomar conta do PSD (como, aliás, JPP previu, vaticinou, profetizou há dias neste artigo no Público) e nos fale não só desse ninho mas também do que anda a fazer quem mantém essa gigantesca chocadeira governamental.
(ASM)

9.10.03
 
UMA PEQUENA "NUANCE". Ainda há instantes, em entrevista de rua da TVI, uma senhora manifestava-se muito confusa com os últimos acontecimentos nacionais, que culminaram na apoteótica recepção feita ao deputado Paulo Pedroso na Assembleia da República. Eu, se tivesse estado preso durante meses, ia a correr para junto da família e filhos e aí esperava pelos amigos. São gostos, e gostos não se discutem, nem os quero discutir. Acho que a classe política – atenção, que não me refiro a ninguém em particular – tem uma noção distorcida das prioridades e isso até é evidente no claro fosso que os distingue do cidadão comum.
Para além do espectáculo ontem proporcionado aos portugueses – numa espécie de bigbrotherização da liberdade – acho que a confusão se pode levar mais longe do que a fugaz entrevista de rua pode proporcionar.
Vejamos. Temos quatro órgãos de soberania: o Presidente da República, a Assembleia da República, o Governo e os Tribunais; são estes órgãos que definem a soberania nacional e sobre eles assenta o Estado: um porque faz as leis, outro porque as aplica, outro por que gere os recursos e o último, ou o primeiro, porque simboliza e agrega tudo e todos. É uma espécie de elo mais forte.
Ora o estado a que isto chegou não é brilhante. O Presidente da República diz-se cansado de ver e ouvir zurzir nos políticos – umas vezes com razão e muitas vezes sem ela (não seria mais verdadeiro dizer ao contrário?) e fez declarações, em abstracto, sobre a justiça, embora toda a gente tenha percebido que falava de um caso concreto. A magistratura diz que gostou, e calou. A reacção parece-me clara. Pergunta retórica: a separação de poderes saiu incólume?
Da Assembleia da República e do Governo não vale a pena falar. Os factos dizem tudo: comissão de ética, Maria Elisa, trabalho político na final da taça UEFA, negócios estrangeiros, estudos de medicina, buracos de orçamento tapados com submarinos, guardas republicanos que partiram em propaganda para o Iraque há três meses mas ainda cá estão de corpo e alma, armas de destruição maciça mostradas na concha da mão (neste caso faltou a palavra de honra e a consciência tranquila) e tanto mais.
Quanto aos tribunais, melhor da justiça, falta aparecer a criança que diga que o rei vai nu, ou seja, que não confia nela. Heresia, mas verdade. Esta não é a mesma justiça que deixou prescrever infracções durante 14 anos e que lutou com unhas e dentes no caso Aquaparque? Que fez ou faz para merecer confiança, que celeridade, que serenidade, que autoridade, que prestígio? Até o Presidente da Relação é zurzido há quinze dias em artigos de opinião, às terças feiras.
Confiança? Auto-estima? Só se for pelo campeonato do mundo de hóquei em patins.
Bom, o deputado Paulo Pedroso está em liberdade. Se fosse o merceeiro do meu bairro, em idênticas circunstâncias, também estaria? Eu penso que não: porque não se relaciona bem com titulares de órgãos de soberania, porque não é tema implícito em discursos codificados, porque não é figura graúda do meio político, porque não faz vender jornais, porque não mobiliza comentadores de televisão, enfim, porque só é um tipo porreiro.
Entretanto, vai deixar de se falar de prisão preventiva, segredo de justiça, escutas telefónicas. Lentamente deixaremos de falar de casos incómodos. O Natal não tarda, segue o ano novo, Carnaval, Páscoa, férias e fogos. E enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.
Penúltima perplexidade: direito, política e moral. O deputado Paulo Pedroso apressou-se a pedir para regressar ao Parlamento; os parlamentares apressaram-se a concordar. É de direito! E de moral?
Para acabar: não é verdade que o arguido se presuma inocente até ser condenado; o arguido presume-se inocente até ao trânsito em julgado da sentença condenatória, ou seja, o arguido presume-se inocente até que a sentença condenatória não admita mais recursos, ou seja, o arguido presume-se inocente até que o Tribunal Constitucional diga que é culpado. Uma pequena "nuance", como se vê.
(JCampos)

 
SOBRE A LIBERTAÇÃO DE PAULO PEDROSO. A ida ao Parlamento foi um equívoco, um precedente perigoso, um desnecessário sinal de partidarite aguda? Admito que sim. Mas o que festejo aqui e agora (com um abraço forte para estes amigos) é a libertação de um homem que não merecia continuar preso, pelo menos nas circunstâncias em que estava. A libertação do homem, repito, e não do político.

 
DESEJO FESTEJAR. Logo à noite, a partir das 23 horas, no Madres de Goa (junto ao ISEG), vai acontecer «a primeira festa de um weblog português», organizada com malícia e primor pela rapaziada do Desejo Casar. Como é óbvio, espera-se uma desalmada afluência de bloggers a este histórico evento, abrilhantado por quatro DJ's de primeira água (com destaque para a dupla "casadoira" LFB/NCS e para o "relativo" PAS). Não se esqueçam de guardar um lugarzinho para nós, ok?

PS: Embora excluídos da lista de possíveis nomes para shots (onde descortinámos, entre outros, o Gato Fedorento, o Prazer Inculto, a Flor de Obsessão e o inevitável Pipi), convocaram-nos para montar o ecrã gigante. Sempre é melhor do que nada.

 
UM POEMA E DUAS NOTAS (TUDO EM ITÁLICO). Do Bruno Vieira Amaral, "jovem criador" em busca de reconhecimento literário (além de muitas outras coisas), recebemos um mail com algumas palavras amigas e esta desconcertante confissão:

«Já pensei enviar uma ou outra nota, mas confesso que, por um lado, não lido bem com a ansiedade do feedback e, por outro, raramente tenho algo interessante a dizer que ainda não tenho saído no "Dica da Semana" ou no "Destak".»

Explicitadas as razões que o levaram a não aderir, até agora, ao círculo de itálicos do BdE, o Bruno quebrou o seu próprio tabu e propôs uma colaboração (prontamente aceite):

«Envio-te um poema que é menos do que um divertimento (no sentido pascaliano
do termo, sentido que, aliás, ignoro):


Traduzir
de um para outro idioma
não é, verdadeiramente,
traduzir.

Traduzir, verdadeiramente,
é aproveitar os cabelos
da mulher amada
para tapete de entrada.
»


Deixou ainda duas notas, dois brevíssimos shots (como lhes chama o Daniel Oliveira):

1) Desde a libertação de Nelson Mandela que a comunidade política portuguesa não rejubilava tanto com a libertação de um preso... político.

2) Belo debate sobre poesia
[«Livro Aberto», moderado por Francisco José Viegas, na NTV e RTP1], mas pergunto-me: não haverá outras maneiras de, televisivamente, ou seja, utilizando a linguagem audiovisual, promover a poesia?

 
RIP. Não nego que já vamos um pouco tarde para o elogio fúnebre, mas certas coisas têm que ser ditas. Como esta: a Formiga de Langton, um dos melhores blogues que abriu portas cá no burgo, morreu em grande estilo, há precisamente uma semana. Façam o link e assistam àquele poderoso BANG! final, ao som do «Space Oddity» do David Bowie. E já agora consultem os arquivos, onde está todo o saber partilhado desde Julho pela (até agora) muito activa AntColony. Alguém sabe onde vai ficar o próximo formigueiro?

 
(NOT SO) EARLY MORNING BLOGS. Achei muito estranho o silêncio do Abrupto sobre a demissão de Martins da Cruz. Mesmo muito estranho. Palavra de honra.

 
ARRITMIAS. Quem tenha aberto hoje o BdE, após vários dias de silêncio involuntário, deparou-se com uma torrente de textos que remontam ao último sábado – assim como se o blogue tivesse continuado a existir, mas invisível. Pois bem, devo esclarecer que o problema não foi do Blogger, nem de nenhum atentado terrorista em versão informática (como o que aconteceu à Rita). O problema foi nosso. Ou melhor, foi meu. Excesso de trabalho, noites ocupadas, tempo quase nenhum para esta coisa dos blogues. Vai daí, abri “caixas de texto” (com o objectivo de manter uma certa ordem cronológica), “caixas” que só ontem tive oportunidade de preencher. Espero que compreendam, ou pelo menos tolerem, estas arritmias de um blogger em luta permanente contra a ditadura de Cronos. Não é a solução ideal, admito, mas às vezes é a única solução possível. Daqui em diante, tudo farei para que o ritmo normal (isto é, diário) regresse a este vosso cantinho da blogosfera. Obrigado pela paciência e pela persistência.

8.10.03
 
PAULO PEDROSO SHOW. O deputado do PS foi libertado e aconteceu o que esperava: banhos de multidão, solidariedade espontânea (ou nem por isso), histeria jornalística. O ruído mediático é ensurdecedor. Demasiado ensurdecedor. Amanhã falamos.

 
POESIA NA TV. Francisco José Viegas levou a poesia contemporânea à televisão, discutida por quem a escreve, por quem a critica, por quem a estuda na Universidade. A conversa foi acesa, dinâmica, interessante e até polémica (mas não demais). Só tenho uma dúvida: se os leitores regulares de poesia em Portugal não ultrapassam as poucas centenas (sabemos que a maioria dos livros de poemas têm tiragens de 500 exemplares), qual terá sido a audiência do último «Livro Aberto»?

7.10.03
 
(DES)GOVERNO. Os ministros caem, arrastando-se uns aos outros. É outra forma de Outono.

 
LOMBA EPISTOLAR. O meu amigo Pedro Lomba escreveu no DN uma curiosa carta, meio abstracta (e extremamente redutora), a um militante do Bloco. O seu óbvio destinatário já lhe respondeu à letra, pelo que não resta muito mais para dizer.

 
SOLLERS. O mais recente romance de Philippe Sollers («A Estrela dos Amantes», Teorema) tem momentos de grande brilho e outros de absoluto impasse. Foi o que tentei explicar aqui, em 3500 caracteres.

 
HÁ DIAS ASSIM. Pega-se no Diário de Notícias e param-se os olhos nos sítios do costume. Hoje valeu a pena. Os editoriais de António Ribeiro Ferreira pertencem ao grupo daqueles por que se dá uma passagem rápida, para que o incómodo não seja demasiado; é mais ou menos como nos jogos do Benfica: vê-se até que o adversário marque o primeiro golo; depois desiste-se, porque a recuperação é sempre inexistente e o incómodo imenso. Mas hoje não foi assim: pegando no terramoto antevisto por Catalina Pestana, António Ribeiro Ferreira aproveitou para não cair na tentação fácil de fazer o discurso maniqueísta, ver o mérito bem visível do juiz de instrução, zurzir, com luva de pelica, a surpreendente intervenção do Presidente da República e esperar tranquilamente o terramoto que se espera e exige. E por que já se desespera também!
Logo de seguida, uma página volvida, Luís Delgado era o grande golo que faz desligar a televisão. Este homem é verdadeiramente extraordinário, usa de uma fidelidade, de uma confiança, de uma crença, de uma cegueira que comovem; não deve haver fundamentalismo igual. E que diz este panegirista? Apenas isto: por 36 horas perdeu-se um bom ministro!!!
Não sei se o ministro era bom, nem isso interessa. Interessa, sim, a ideia de que 36 horas fariam esquecer tudo, porque o tudo é que é importante. Ou seja: moral pública é treta. Princípios são treta. Sentido de estado e de serviço público são balelas. Respeito pelo cidadão, um enfado. Trinta e seis horas resolvem tudo.
Para além de se ter introduzido um novo ridículo na vida nacional: depois do «eu acredito na justiça» segue-se o «eu acredito na palavra de honra».
Estes senhores só percebem o filme em que são estrelas.
A vida passa-lhes ao lado. Até um dia.
(JCampos)

6.10.03
 
TROMPE L'OEIL. Numa área de serviço, vi moscas desenhadas (com assombroso realismo) nos urinóis de louça espanhola. Francamente, não sei o que pensar deste bizarro apelo à pontaria. Mas dou por mim a entrar no jogo, com um empenho (ia escrevendo uma alegria) infantil.

 
VELHO CONTINENTE. Segundo o ex-confiscador de móveis da faculdade de direito, sr. Durão Barroso, poderá ter chegado a altura de referendar as questões europeias em Portugal. Estranho esta disponilidade para a consulta popular, vinda de um partido que manteve com os seus congéneres socialistas um acordo tácito de convergência na questão europeia. Sob o argumento da legitimidade representativa, expressa pelo "povo" nas eleições legislativas, o centrão da política portuguesa (PSD + PS) sempre evitou consultar directamente os portugueses em questões como Maastricht, Amesterdão ou Moeda Única. Mais estranho esta disponibilidade quando há muito pouco tempo o projecto de construção europeia sofreu mais um abalo de forte carga simbólica, com o Não sueco ao euro. Nem a força eleitoral dos maiores partidos suecos conseguiu convencer o cidadão comum das vantagens da mudança, o que poderia levar a pensar que o Bloco Central português pode falhar na mobilização do eleitorado. Mesmo assim, o sr. Durão mostra disponibilidade para a consulta, o que me leva a pensar que o cidadão eurocalmo Paulo Portas volta a pesar muito no posicionamento do governo. A realização de um referendo europeu deve agradar imenso aos conjurados do Caldas, que sempre viram a Europa como uma ameaça à soberania e independência nacionais, à semelhança aliás da sua nemésis PCP. Pelos vistos, o sr. Portas, que acabou por criar um novo adjectivo para a língua portuguesa, vai levando a água ao seu moinho, ganhando cada vez mais ascendente numa coligação de que ele é figura charneira.
Temos assim, perante as questões europeias, uma coligação caricata de uns senhores europeístas que temem o eleitorado com uns senhores "eurocalmos" que temem os imigrantes e tudo o que lhes cheire a estrangeiro. Exceptuando o capital estrangeiro, claro, mas esse também não tem pátria nem cor. O partido do sr. Barroso canta loas à Europa; o partido do sr. Portas quer mais Atlantismo, ou seja, mais EUA.
Não obstante as diferenças, é muito provável que partam coligados para as eleições... Só falta daqui a uns meses ver o protofascista Fini de regresso a Portugal, exaltando as virtudes de Sá Carneiro e, aí, a fusão oportunista será completa.
Penso que o dito referendo se impõe e até acho que peca por tardio. Espero somente que a classe política nacional conduza este processo por forma a que ocorra um referendo legítimo e vinculativo, com elevada participação eleitoral, sob pena de passarmos por outra vergonha de cidadania como a que sucedeu aquando da consulta da IVG.
(Pedro Vieira)

 
NOTÍCIAS DO PROF. MANEL. Como já houve quem comentasse, sempre com delicada ironia, as prolongadas ausências do meu irmão (veja-se a «boca» deste ex-itálico, por exemplo), talvez convenha esclarecer que o Manel escreve menos do que gostaria porque é honesto. Honesto em relação ao seu trabalho (uma thèse de doctorat em contagem decrescente) e honesto no confronto consigo mesmo (só escreve quando tem vontade e esta vem-lhe faltando). Tão simples quanto isto. O Manel é um blogger atípico, mas é um blogger ainda assim. E quando menos esperarmos, pode ser que regresse em grande, com um daqueles textos longos e bem fundamentados (sobre a exegese de Brecht ou as nuances do queijo gruyère) que fizeram as delícias de tantos leitores.
Já agora, quero deixar aqui uma nota pessoal. O Manel proferiu hoje as suas duas primeiras aulas enquanto professor universitário. Ou seja, o que os frequentadores do BdE andam a perder, com a sua "licença sabática", ganham os alunos de «Música e Política» e de «Sociologia da Música», lá nos anfiteatros da Universidade de Paris VIII, em Saint Denis.

 
PROFECIA DO SÉCULO XIX SOBRE PORTUGAL EM 2003. «Lisboa é talvez, em todo o vasto Universo, a cidade onde a opinião exerce menos influência. Receia-se um pouco a polícia correccional, despreza-se em absoluto a opinião pública. (...) E no entanto a coligação continua serena, impassível, a espoliar o vício e a arrecadar o ganho.» – in Eça de Queirós, «Uma Campanha Alegre» II, Ed. Europa América, Lisboa, 1987 (José da Silva)

 
SABOTAGEM. O que aconteceu ao blogue da Rita − um acto de puro terrorismo bloguístico (alguém lhe deu cabo do template, dos arquivos, dos textos, de tudo) − só tem um nome: filhadaputice. Uma mistura de sacanice com cobardia. Aqui do BdE, envio um abraço solidário à Rita, desejando que volte a blogar o mais rapidamente possível. E arrepio-me só de pensar nos fantasmas e ameaças que este sórdido caso levanta.



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