BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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28.9.03
 
UM LEITOR + UM E-MAIL + UM POEMA (EM 10 PARTES). À caixa de correio electrónico do BdE chega de tudo: colaborações de itálicos, elogios, protestos, spam avulso, publicidade a outros blogues, press-releases, mensagens pessoais, piscadelas de olho, correcções ortográficas, etc, etc, etc. Depois, lá no meio do fluxo de bits mais ou menos previsíveis, também aparecem cartas invulgares e gestos que nos surpreendem.
Como esta missiva:

«Apenas hoje conheci o blog de esquerda, quando saltava de link em link, et voilà! Li o poema de um outro José, o Miguel Silva. E alguém que tem uma "utópica torre de papel"; e pensei: porque não?
Ao descobrir este blog, já vês, cobrei o impulso certo de irromper-me pelo teu blog, através de ti: um impulso filtrado, uma faísca eléctrica vista ao espelho. É assim de impulso, à primeira. Sem pensar muito no assunto, envio-te poemas e apresento-me, ou melhor, vou dizendo:
na verdade, não tenho grande biografia, além de umas quantas viagens, algumas notas de currículo, pessoas que por mim passaram e vice-versa, alguns livros e eu próprio: Eduardo César, um dos que, como Leo Ferré disse, pensam que "...a poesia contemporânea já não canta, a poesia contemporânea irrompe".
"...and I?ve been known to be quite handsome, from a certain angle and a certain light." Deus deu-me uma namorada, deu-me luz às vezes, e, claro está, sombras do outro lado da luz. Deus poderia ter-me dado tanta coisa, mas lá está: Deus é tanta coisa...
Vejo muita televisão. Como se estivera doente, sabes? Mas já não vejo tanta televisão como antes. É que fiz-me jardineiro, ou melhor, auxiliar de criação e manutenção de jardins, como diz o meu patrão quando sei que está a bajular-me e vai pedir-me alguma coisa, a troco do salário de fome que me paga. Mas já não vejo tanta televisão como antes...
Às vezes, não tenho muito jeito para estar sozinho, embora a poesia aconteça mais por dentro da cabeça. Como se fora um gajo qualquer que não conheço e que me chama do final da rua ? eu escrevo cartas na minha cabeça, e algumas chegam, como esta, ao destino...
"...sou uma devastação inteligente". ? às vezes
e a paixão é a embriaguez mais bonita que os sentidos experimentam, não achas? (...)
Um abraço, José Mário
um abraço blog e outro de esquerda. Até à volta. Vai dizendo coisas. Ou falamos um dia destes.»

Enquanto não falamos um dia destes, Eduardo, eu vou dizendo coisas. E partilho com os leitores do BdE, se não te importares (e sei que não te importas), o teu poema em 10 fragmentos, inspirado num dos mais insubmissos escritores americanos do séc. XX. Aqui vai:



(charles bukowsky)

1.
ninguém desinfecta totalmente
o cheiro a cerveja entornada dos bares
por mais manigâncias que inventem
balcões de alumínio ou detergentes mais concentrados e frescos

dos verdadeiros bares, claro está
onde o tempo engorda mais

2.
num certo bar da cidade
debaixo mais ou menos dum 1.º andar que habitei, havia
o costume inusitado de
na porta da retrete por dentro
e no espaço entre cada 2 urinóis
expor 1 cartaz com 1 poema
protegido por 1 acrílico transparente em rectângulo ao alto -

apropriado, pensava eu
nos 4 expositores que havia o mesmo poema
de semana a semana outro poema
qualquer poema

3.
eu já vira exposto em casas de banho outras coisas
no canadá afixam por hábito cartazes de publicidade
(embora eu nunca tenha estado no canadá
mas sim o canadá na tv por cabo)

4.
"behind the balcony, my ex girlfriend
keeps the best pussy in town
and all around"

5.
num certo bar da cidade
igual a muitos bares em tantas outras coisas
no persistente cheiro a cerveja entornada
era contudo usual notar-se 1 certo tom amarelado e ressequido
em forma de manchas irregulares -
if you know what I mean

acontecia no expositor da porta da retrete por dentro
ou 1 riacho vivamente pelos azulejos do chão
ou 1 riacho já estagnado - é
amarela às vezes 1 das muitas vozes originais da nossa natureza
e sabia-o a minha ex-companheira, como também
com a porfia de 1 amador de gaveta
sabia muitas outras coisas

6.
ela, chamava-se Kelly, pôs assim
(nisto era 1 verdadeiro homem)
assim num papel solto em cima da roupa de amanhã

- elevar os cartazes até à altura da horizontal com os olhos
1 palmo acima dos urinóis
- pinta em cada urinol 1 alvo, ou melhor que 1 alvo
1 representação de 1 buraco sugestivo 2 dedos acima do ralo
- fuma menos

7.
(ela realmente gostava das palavras sempre
e gostava de escrever as palavras)

(não limparia os escritos de insulto
e gay meeting e assinaturas parvas
porque os bares decentes não terão nunca disto as portas da retrete limpas)

(1 homem e 1 cão são muito iguais na natureza
ela sabia-o - eu sou 1 verdadeiro cão, e sei
que só consigo mijar quando há algo em que acertar)

8.
cumpriu apenas 1 semana depois
não gostava do poeta exposto
merecia que lhe mijassem nas palavras -
e como era dada a pequenas vinganças
e secretamente terá sorrido

... agora o poeta está em palco, eu
de tão bêbado tenho que suster-me no tripé do microfone
de voz embargada e ainda a língua seca de haxixe -
o poeta enfrenta apupos de cabrão e aplausos de cabrão
e jovens mulheres ainda anteriores ao histerismo
numa plateia de bêbados como eu
arrojando as garrafas de cerveja no chão, e a espaços
a poesia, e assim é que deve ser

9.
não houvera nunca mais manchas amareladas nos cartazes
os alvos na cerâmica dos urinóis com 1 esfregona inteligente a limpeza
e talvez os bêbados lessem o poema semanal
talvez ficassem concentrados no buraco
(sugestivo?!)

como os cães juntos às árvores, os bêbados
com este buraco em determinadas ruas da noite
haveriam de empurrar-se para mijar ali
(os bêbados a mijar uns em cima dos outros
mas apenas ali...)

10.
foi escrito em marcador preto
não nos acrílicos mas ao lado, no azulejo
- 1 mulher
certamente não pode embebedar-se com esta qualidade



© Eduardo César

 
WE WILL ALWAYS HAVE... Em Paris vi a palavra amour escrita no chão. Em Paris vi a palavra amour escrita numa árvore. Em Paris vi o amor em toda a parte.

27.9.03
 
MARCHA BRANCA (2). Em vez da marcha silenciosa, houve gritos. O nome de um juiz na boca da multidão. Eis o perigo: procurar, mais do que a justiça, um justiceiro.

 
MARCHA BRANCA (1). Não fui. Gosto demasiado de manifestações para entrar numa que me levanta, mais do que perplexidades, profundas dúvidas.

 
BREVE NOTA SOBRE OS MARATONISTAS DA BLOGOSFERA. Parece-me que não sou só eu a sentir isto: o cansaço muscular, a súbita falta de fôlego, a exaustão psicológica. Olho à volta e vejo que os bloggers veteranos (exceptuando talvez os incansáveis J e JPP) acusam todo o tipo de mazelas, cãibras, "dores de burro": o Aviz parou mais do que era suposto; o Pedro Mexia aproveitou uma crise informática para dar descanso aos neurónios; e o Lomba entrou, ajuizadamente, num período sabático. É óbvio que os blogues colectivos (sobretudo os que mais parecem equipas de futebol) se aguentam melhor, porque os súbitos eclipses individuais são contrabalançados pela verve dos companheiros. Mas aqueles que andam para aqui sozinhos, ou quase, conhecem bem o sabor amargo do desespero. O pânico do vazio, do post atrasado, do dia em branco. A angústia da escrita enquanto obrigação, enquanto dever que nos impomos, diante da sombra paralisadora dos leitores virtuais - à espera, com uma imaginada avidez, das nossas pobres palavras. No fundo, é como se houvesse uma espécie de canibalismo intelectual a que nos vamos entregando voluntariamente, com a volúpia absurda de quem se deixa devorar pelos monstros que criou. O blogue, esse espaço de maravilhosa liberdade, pode transformar-se, se não tivermos cuidado, numa prisão mental, num cárcere digno de Piranesi. Sim, o blogue é um paraíso que esconde infernos (falo por mim).
Em resumo: às vezes apetece-me apenas não escrever. E não escrevo. Ou então deixo posts abertos que termino noutra altura, uns dias depois (quando regressa o ânimo e a vontade). I would prefer not to, costumava dizer o escrivão Bartleby, genialmente inventado por Melville. E ele, Bartleby, lá sabia.

 
ADENDA AO PENÚLTIMO POST. Se os bloggers veteranos acusam (uns mais do que outros, admita-se) os muitos meses de escrita contínua, é bom constatar que há novos blogues a viver o êxtase da descoberta, aquela euforia transbordante dos primeiros dias. Falaremos aqui, aos poucos, dos que mais nos agradam.

 
REGRESSO DA FLOR EM SETEMBRO. O que as coisas são. Acabo de escrever sobre o período sabático do Pedro Lomba e ele desmente-me. Um mês após o anunciado silêncio, a Flor de Obsessão está de volta. Airosa, maliciosamente irónica e cheia de viço. Ainda bem.

26.9.03
 
PEQUENA PAUSA. Às vezes, é preciso parar. Reflectir. E depois recomeçar.

25.9.03
 
ANTES. O que me atrai na escrita é o momento antes. Antes das frases entrarem na espiral da construção acelerada (e da destruição autofágica), antes das palavras tentarem dizer (com que custo?) alguma coisa. O momento antes. Aquele que permite uma sensação de vertigem. Isto é: não a certeza de estar à beira de um abismo, mas a certeza de haver abismo.

 
TOLBIAC. A memória: máquina prodigiosa. Olhamos para trás e a felicidade ainda lá está, intacta. Não é outra a raiz do júbilo e da melancolia.

 
LONG DISTANCE CALL. Dentro da cabina telefónica, o homem gritava (creio que para o outro lado do mundo). A voz partida, o idioma impenetrável, o peso assustador da distância. Escutados cá fora, os gritos eram uma coisa lancinante, quase urros de animal ferido. As pessoas, perplexas, seguiam em frente, aceleravam o passo, com o vago sobressalto de quem teme o que ignora ou finge desconhecer. O homem, esse, fechava os olhos, punha as mãos na cabeça e calava-se por momentos, só para depois erguer a voz ainda mais alto. Também eu me afastei por fim, sem saber se havia ali fúria, pânico, solidão ou outra forma menos subtil de desespero.

 
NOVIDADES LITERÁRIAS. De uma vez só, a editora Relógio d' Água lança cinco livros preciosos:

- «O Jogo da Liberdade da Alma», de Maria Gabriela Llansol
- «Spoon River - Uma Antologia», de Edgar Lee Masters (tradução e prólogo de José Miguel Silva)
- «Uma Visão do Mar e outras histórias», de Dylan Thomas (tradução e posfácio de Diana Almeida)
- «Verão», de Edith Wharton (tradução e posfácio de Ana de Lourdes Guimarães)
- «A Volta no Parafuso», de Henry James (tradução de Margarida Vale de Gato)

Vão todos, lá em casa, para a cada vez maior pilha dos livros a ler (ou, como também lhe chamo, a utópica torre de papel). De alguns, haja tempo e vontade para isso, falarei aqui mais tarde ou mais cedo.

PS: Quero deixar uma palavra de agradecimento à Helena Ayala Botto, leitora e amiga que termina por estes dias o seu período de estágio na Relógio d' Água. Além do competentíssimo trabalho de divulgação, tanto junto dos media tradicionais como dos blogues, ela nunca deixou de juntar uma palavra pessoal aos press-releases. Na despedida, por exemplo, escreveu-nos uma bela carta manuscrita, com caligrafia impecável, a anunciar os novos rumos da sua vida profissional. Obrigado, Helena. Que tenhas toda a sorte do mundo (porque mereces).

 
DE OLHOS BEM FECHADOS. Esta noite obtive a confirmação de uma suspeita. Sim, é mesmo verdade que os melhores sonhos são sempre inconfessáveis.

24.9.03
 
VERSOS QUE NOS SALVAM. É com muito prazer e muita honra que publicamos mais um poema, inédito (e sarcástico), de José Miguel Silva. Obrigado, JMS.


JANUS


1.

Este Janus, de cabeça às listas
e sorriso dúplice, é dos que ainda pensam
que para ser poeta é suficiente
não ter lido nada. Imita, por isso,
sem o saber, os piores momentos
das vanguardas literárias − esses movimentos
de que se riam, há noventa anos,
os que davam então pelo nome de Janus
e que viviam, como este seu bisneto,
de cauções e rendimentos já certificados
pelo ranço.


2.

Deposita Janus umas verdes caganitas
de hiena surreal sobre branca
folha morta e chama a isso poesia.
Mas não é tudo. O mais cómico
é haver quem faça que sim com a cabeça
ao dependuro. A arte, na gesta
dos mercados, é somente uma questão
de água benta e desfaçatez.
Poeta, ao que parece, é quem afirma sê-lo.
E, por isso, cada vez é mais difícil
encontrar um bom sapateiro.


3.

Fosse Janus um poeta mau, apenas,
seria isso meramente uma questão literária
(e a poesia, como sabe quem lê,
é coisa que não interessa). Mas Janus
é pior do que isso, é um desgraçado,
uma espécie de anti-Midas: transforma em merda
tudo aquilo em que toca. A crítica,
a edição, a versalhada, sai-lhe tudo
porcamente. Pudesse ao menos abdicar
do servilismo e da baixeza moral
que lhe moldam, friamente, o carácter,
e teríamos todo o prazer em lhe chamar
irmão. Mas assim, não sei como vai ser.
Não sei. Teremos, certamente, que inventar
uma nova espécie zoológica, qualquer coisa
entre gorila e chimpanzé, se quisermos
incluir este mamífero na ordem dos primatas.


© José Miguel Silva

 
REGRESSO DE UM QUASE HOMÓNIMO. Os mais fiéis e antigos leitores do BdE lembram-se de certeza: há uns meses, nós publicámos aqui alguns poemas satíricos do José Miguel Silva, um dos melhores poetas surgidos nos últimos anos (e brilhantíssimo exemplo de uma corrente estética que "foge" do sublime e gera ódios de morte, por exemplo, em Vila Nova de Famalicão). Num e-mail que nos permitimos reproduzir, pelo que tem de desabafo literário, ele abre o jogo:

«Caro José Mário

Desculpa a insistência. Envio-te mais um epigramazito, em três fases, acerca de um desses pseudo-poetas ou poetas-quase ou poesinhos que por aí andam agora, como aliens, a tentar semear lixo na cabeça dos demais, para que se não veja (mas vê-se, pois claro, e cheira-se) a dejecção mental de que se alimentam. São figuras assaz insignificantes, mas que se tornam perigosas a partir do momento em que um país, este, parece ter já perdido o que ainda lhe restava de discernimento crítico. E isso sim, é grave. Mas fiquemos por aqui, ou ainda acabamos a noite em Pedras Rubras ou na Portela a forçar a entrada no primeiro avião que nos leve para longe deste, como é que lhe chamava o Eça?, lodaçal.
Um abraço.
Miguel»

Eu não podia concordar mais com este outro JMS, amigo que nunca vi mas que me acompanha, lombada contra lombada, nas prateleiras de algumas livrarias. A esta questão, que já fez correr muita tinta (e ainda fará correr mais no futuro), voltarei noutra altura. Por agora, leiam o epigrama do José Miguel. E deliciem-se.

 
O PROBLEMA DO DESEMPREGO. Se a nova ordem moral do Vaticano for mesmo para a frente, com a proibição de «manifestações corporais» no interior das igrejas, há muito padre que vai ficar sem trabalho. Só assim de repente, estou a lembrar-me de dois grandes entertainers: o brasileiro Padre Marcelo e o "nosso" Padre Borga (o religioso com o apelido mais incoerente que conheço).

 
É SÓ PROGRESSOS. Numa acção de recauchutagem do Velho Testamento, o Vaticano anunciou que vai incrementar a severidade moral nas «casas de Deus». Doravante, os fiéis estão proibidos de bater palmas ou de exteriorizar qualquer outra manifestação corporal nas igrejas. Está correcto: as palmas das mãos, quando próximas, servem apenas para orar ao todo-poderoso. O sexo feminino, grau menor da Criação, estará impedido de participar nos coros das missas e quejandas tarefas acólitas. E todos os textos que não os da bíblia deverão ficar encerrados nos livros profanos, longe dos locais de culto. Falta apenas assumir o restauro da Inquisição para o cristianismo «hard» da boa e velha escola.
Se a estas directivas do Vaticano acrescentarmos o empreendimento israelita de um novo Muro da Vergonha e o ressurgimento do neocolonialismo ocidental personificado pelos Estados Unidos, podemos começar a pensar seriamente que o sentido de evolução histórica segue em contra-mão. É só progressos. Qualquer dia, ainda voltamos à escrita em pergaminho.
(Tiago Barbosa Ribeiro)

23.9.03
 
MUITO MENTIROSO. É verdade que vários leitores chamaram a atenção para o assunto, pedindo a nossa opinião, mas nós decidimos nem sequer mencionar aquele blogue anónimo que lançava todo o tipo de suspeições sobre o andamento do processo Casa Pia. Por uma razão simples: a calúnia é a mais pérfida das armas e não pode (não deve) alimentar-se da nossa ingenuidade ou boa fé. Qualquer menção ao fenómeno, sabíamos bem, iria apenas alimentar o fenómeno. E por isso fizemos silêncio. Porque são coisas destas que podem destruir a ainda frágil credibilidade da blogosfera. Hoje, o supracitado blogue "vigilante" (sem direito a link, como é óbvio) fechou as portas. Não ficamos contentes nem tristes. Aliviados será a palavra correcta. O ar está mais limpo. Respira-se melhor, outra vez.

 
DO BOM MARKETING. Já se sabe que as ideias simples são sempre as melhores. Pelo correio, recebo um envelope pardo com um livro lá dentro. É um envelope igual a muitos outros que me costumam chegar às mãos, a não ser por uma pequena diferença: além do remetente e do destinatário, traz no canto superior direito uma bolinha vermelha e em baixo um pequeno aviso («contém cenas eventualmente chocantes»). Mortinho de curiosidade, abro a embalagem e descubro um volume de «Vénus em Peles», de Leopold Sacher-Masoch (o "pai" do termo masoquismo), publicado por uma editora nova (a Vizzeo). Ignoro se a tradução é boa, mas pelo menos já gostei da abordagem − imaginativa sem se armar aos cucos. Primeira consequência: o livrinho passou directamente para o monte "a ler".

 
UM BLOGUE GRANÍTICO. Nós já conhecíamos o Rui Manuel Amaral de outras lides, sempre relacionadas com a literatura (e, dentro da literatura, com a poesia). Depois, percebemos que ele também espreitava os blogues, sobretudo esse portento que é a Janela Indiscreta, onde começou também, aos poucos, a colaborar (como a "nossa" Zazie). Agora, lançou-se no seu próprio projecto com mais dois amigos: o António Pedro Pombo e o Nuno Corvacho. O resultado é um blogue excelente: Quartzo, Feldspato & Mica, «em homenagem ao granito, donde foram, afinal, retirados os três elementos que nos dão o nome». Para já, pode ler-se muita coisa sobre poetas e versos mais ou menos perdidos, histórias bizarras, crónicas de futebol e declarações de amor à cidade onde se bebem cimbalinos. Como eles dizem: «Às clássicas e irritantes frases "o Porto é o maior", "o Porto é uma Nação" ou "o Porto é um mundo", preferimos a declaração "do Porto para o Mundo"». E o Mundo espera, ávido, o que este Porto tem para dizer.

 
A CRUEL ESMERALDA. O Tiago Barbosa Ribeiro, um dos mais recentes itálicos do BdE, apela a que participemos todos «na campanha da Amnistia Internacional para que a Armada do Chile revele toda a verdade sobre as violações de Direitos Humanos ocorridas durante a ditadura de Pinochet a bordo do navio-escola "Esmeralda"». A morada é esta. Consultem, colaborem, passem palavra.

22.9.03
 
FRAGMENTOS DE PESSOA (COLADOS). A criadora é espanhola, chama-se Sara Huete e gosta de trabalhar na fronteira das artes plásticas com a literatura. As palavras dos escritores de que mais gosta perseguem-na e acabam por encontrar imagens irmãs − ou vice-versa. Agora a alquimia deu-se com Fernando Pessoa. Os versos dos heterónimos (sobretudo Álvaro de Campos) foram o fio de Ariadne que Sara seguiu, enquanto recortava ilustrações de revistas antigas e lhes colava «coisas» por cima: parafusos a fazer de chuva oblíqua, rosas amarelas para um rosto imaginado por Ricardo Reis, carrinhos de linha a simbolizar a loucura que se apodera da cabeça e conchas de lapa, estrelas do mar, alfinetes.
A exposição, de uma coerência estética invulgar, intitula-se «Hup-la, hup-la - Pessoa Visual» e pode ser vista na Galeria ArtFit (R. Teixeira de Pascoaes, 11 B - perto dos cinemas King) até 25 de Outubro, entre as 15h e as 19h30.

 
SOBRE A INESPERADA FAMA DA MINHA OTITE. Abro um jornal aqui, um jornal ali e a referência repete-se: «o Blog de Esquerda esteve ausente, por doença, do Encontro de Weblogs em Braga». É a mais pura das verdades: infelizmente, uma otite aguda impediu-me de viajar até ao Minho. Ainda assim, há qualquer coisa de inquietante e desconfortável em tudo isto. Não sei bem explicar porquê, mas nunca pensei que o facto de estar doente pudesse ser notícia de jornal. Como é óbvio, espero que nunca mais volte a ser.

(Já agora, actualizo o boletim clínico: fui esta tarde ao otorrinolaringologista e posso considerar-me oficialmente curado)

 
A NATUREZA DO MAL. Caso ainda não o tenham descoberto por vocês, eu explico: o Luís é alguém que está «preso» neste blogue e vive rodeado de fantasmas literários (da sombra omnipresente de Vila-Matas à figura imaterial de Ana Paula Inácio). Às vezes indigna-se com os sinais que lhe chegam do mundo. Outras vezes apazigua-se no diálogo cúmplice com a Sofia. Mas é sempre, na minha modesta opinião, um dos melhores bloggers portugueses: um exemplo de honestidade e lucidez. Antes ainda do que escrevi sobre a pérfida crónica da Helena Matos, no Público de sábado, o Luís resumiu em meia dúzia de linhas tudo o que havia para dizer. Reproduzo-as, com a respectiva vénia:

«(...) Ela voltou para ralhar, fazer sofrer, lembrar o pecado aos pecadores. Mesmo que eles estejam velhos, tenham denunciado a opressão quando a opressão tinha bufos nas esquinas e nos jornais, polícias para bater e cárceres e decretos de expulsão e caminhos que eram de liberdade mas sobretudo de exílio. Helena Matos é um rei Midas ao contrário. Transforma tudo em que toca na matéria vil da sua raiva. Mesmo quando tem razão.»

E neste caso nem sequer razão tinha.

 
O DIA EUROPEU SEM CARROS (MAS COM CARROS A CIRCULAR). Solução interessante, não haja dúvida. É assim uma espécie de arroz de pato, sem pato; uma espécie de ministro sem pasta, com pasta; ou, ainda, de ministro com pasta, sem ministro. (J. Campos)

 
O ANTÍDOTO. Na passada sexta-feira, num debate perante uma plateia social-democrata, Manuela Ferreira Leite demonstrou aversão ao diálogo. Mais propriamente, a nossa ministra das Finanças revelou-se «traumatizada» com a palavra «diálogo». É certo que entre a demagogia besta de Paulo Portas ou a mentira fácil de Durão Barroso – onde estão as armas de Saddam?, em Israel? –, o «trauma» de Ferreira Leite não abala a orfandade de seriedade governativa que (não) temos. De resto, a sua enfermidade é uma velha conhecida dos portugueses desde o «não lhes dês Cavaco». Contudo, a contradição está lá. E seria bom que alguém explicasse à ministra que, em democracia, o diálogo não é opcional, antes condição intrínseca à permeabilidade dos agentes sociais e do fiel da oposição, lembrando que a arrogância e a sobranceria têm tectos: um governante é eleito, não se faz eleger.
Desde que, em tempos recentes, António Guterres transformou o tal «diálogo» em sinónimo de governação pastosa e estatizante, frouxa e pífara, o autismo e a inflexibilidade ocuparam a outra face da máscara governativa nacional a que rotativamente chamamos de «centro». No plano internacional, a formulação da ausência de diálogo está na imposição da dúvida: Bush ou Osama? Sem quaisquer contextualizações ou espaço a legítimas reservas intelectuais. O padrão da direita é unidireccional. A democracia é o beco estreito que vigora na intolerância dos seus discursos.
Também Salazar, o outro cantoneiro das contas públicas, via virtudes na abstenção do diálogo. Permitiu-lhe chefiar uma ditadura durante meio século, por exemplo. E constituía ainda o antídoto para a democracia administrativa perfeita: «O Parlamento assusta-me tanto que chego a ter receio», dizia. Homem avisado contra o diálogo, o conservador de Santa Comba Dão invectivava os «discursos ocos, palavrosos, as interpelações vistosas e vazias». Para alguns, lamentavelmente, ainda hoje o ânimo das gentes lusitanas, pequenas e infectas nos seus ninhos de acanhada ignorância e acriticismo, deve prosseguir inabalável nas entrelinhas daquela política de gabinete, resguardada sob o conforto circunspecto do Conselho de Ministros, tímida na aparição pública, frágil no confronto de ideias. A nostalgia é um valor seguro. Pérfido, por vezes. Constante, todavia.
Na referida intervenção, Manuela Ferreira Leite sentenciou ainda que «há serviços que não faz sentido serem prestados pelo Estado». Tal como a verdade e outros géneros nefandos, entendamos. Como o diálogo está também na lista de excluídos, a nossa ministra das Finanças não poderá explicar-nos porque falharam grosseiramente as suas previsões de evolução económica do país, porque cometeu ilusionismos básicos de deturpação económica, porque antecipou para o ano corrente receitas do ano seguinte, ou porque, na sua obstinação férrea para manter o déficit abaixo dos 3%, arremessou pagamentos presentes para o ano que virá. Só dúvidas para um monólogo democrático. É pena. Mas há traumatismos que, em democracia, podem vir a ser mortais. Tal como a aplicação dos seus antídotos, miraculosas fórmulas de nadas esmagadores.
(Tiago Barbosa Ribeiro)



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