BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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21.9.03
 
AGENDA. Eu nunca tive agenda na minha vida. Não sei bem porquê, todas as tentativas fracassaram − a maior parte delas antes do fim de Janeiro. Acho que perco o fio à meada, aborreço-me e abandono. O certo é que nunca me ajeitei à coisa, para grande desgosto das pessoas que insistem em oferecer-me filofaxes que morrem virgens.
A bem dizer, do que eu tinha mesmo pena era de não poder olhar para o calendário, como outras pessoas, e dizer: «Olha, a 17 de Maio fui ver o filme X» ou «no primeiro dia de Julho almocei com o Y, um amigo que já não via há cinco anos». Agora posso. Venho aqui. Mas isto não é necessariamente bom.

 
DE MAL A PIOR. Não escapa ao observador minimamente atento que Portugal é hoje um país em profunda crise, onde ao desmoronar (tantas vezes programado) das instituições mais emblemáticas e necessárias ao bom funcionamento da sociedade, não se sucede a criação de outras instituições alternativas àquelas, já não digo melhores em substância, funcionamento e resultados, mas tão somente susceptíveis de ao menos manterem os mesmos padrões mínimos de eficácia, credibilidade, seriedade, e perseguir pelo menos os mesmos objectivos e resultados.
Desde os hospitais às escolas, da justiça às polícias, da agricultura à indústria e ao comércio, da comunicação social ao desporto, das autarquias à tutela da cultura, verifica-se uma crescente demissão dos responsáveis que agem como se de comissões liquidatárias se tratassem, liquidando o Estado em favor dos privados, desresponsabilizando-se de promover o bem comum, deixando essa tarefa ao sabor do acaso e da iniciativa privada (esta sem fiscalização e controlo efectivo).
Pior que não ser capaz de cobrar impostos é abandonar o cidadão a si próprio nesta imensa selva urbana onde a cada esquina se esconde um rapinador (banco, instituição de crédito, vendedores de sonhos) do pouco que cada um ainda tem de seu, da pequena parte que ainda resta do salário de quem ainda não se sobreendividou; rapinadores que vão acabar por sequestrar a sociedade, escravizando os seus membros e construindo uma imensa fazenda onde todos trabalham e produzem para pagar dívidas e obter apenas o sustento próprio. Porque os que governam se demitem das suas funções.
Frei Bento Domingues, um homem lúcido e comprometido com os que sofrem, aborda hoje, no Público, em parte, a desventura que é viver actualmente em Portugal e ser governado como temos sido ao longo destes últimos anos: com passes de mágica, malabarismos de circo e desprezo quase total pelo cidadão. Leia aqui.

(Agnelo S. Monteiro, do blogue Salmoura)

 
SOBRE O CONCERTO DO TIAGO E DO SAMUEL ÚRIA (ONTEM À NOITE, NA SOCIEDADE GUILHERME COSSOUL). Ninguém quis evangelizar ninguém, acho. Mas havia, tanto no palco como na assistência, muitos evangélicos e convertidos.

20.9.03
 
IDE EM PAZ. Pois é. Agora foi o Filipe. Aos poucos, os primeiros itálicos do BdE começam a espalhar-se pela blogosfera, criando e animando os seus próprios projectos. Nada que não tivessemos previsto. É a ordem natural das coisas: há ciclos que se fecham para que outros ciclos se abram. E há sobretudo a memória de uma participação activa, guardada nos arquivos. Tal como em relação ao Daniel, que "migrou" para o Barnabé, desejamos toda a sorte do mundo ao Filipe e aos seus compagnons de route. Ele próprio o disse: vamos continuar vizinhos, no mesmo lado (esquerdo) do prédio. O combate, esse, é o de sempre. E quanto mais combatentes tivermos do nosso lado da barricada, melhor.

 
ATÉ JÁ E OBRIGADO. Desde o dia 11 de Setembro, comecei com mais dois amigos o blogue Estrangeiros no Momento. Queria comunicar oficialmente a minha nova morada aos organizadores e leitores do Blog de Esquerda, e acrescentar que não julguem que eu estou longe: sou um vizinho do lado. Se me mudei foi porque estar em casa própria é sempre melhor do que estar em casa alugada, por muito bom que o senhorio seja (e que bem que o "senhorio" Zé Mário me tratou!). A quem me costumava ler, eu estou só a um cliquezinho de distância, mesmo aqui ao lado. Se precisarem de café e simpatia, estarei sempre pronto com todo o gosto.
Esta recente "debandada" de itálicos, a formarem blogues novos, vem confirmar o Blog de Esquerda como um blogue de referência e "formação". Atrás de nós, outros (e melhores) itálicos virão. Entretanto, agradeço e desejo as melhores felicidades ao Blog de Esquerda e aos seus leitores (especialmente o Tchernignobyl). Garanto que não vos esquecerei e deixo um abraço muito especial ao Zé Mário. Até já e a luta continua!
(Filipe Moura)

 
OS DESMANDOS DE HELENA. Quando lemos Helena Matos ao sábado, no Público, já sabemos ao que vamos: textos cheios de som e de fúria contra os "pacifistas", os "cúmplices" do terrorismo, os adversários da globalização, as esquerdas em geral ou qualquer voz que se afaste do doce consenso da doutrina neoconservadora. Helena Matos é uma mulher à antiga: dura, irónica, ácida, contundente, uma "padeira de Aljubarrota" capaz de nos pôr a todos na ordem. Com os seus jeitos mansos e pinta de tímida com uma dominatrix lá dentro, a doce Helena consegue encantar a rapaziada de direita, sobretudo a que gosta de ler textos em bom português e sente a falta das prosas, infinitamente mais pertinentes e buriladas, de Vasco Pulido Valente.
Como sucedâneo, diga-se, Helena funciona. O pior é quando se deixa levar pelo entusiasmo e se espalha ao comprido, resvalando sem remissão para o lodo da ignomínia. Como hoje. A crónica «Saudades de Esquerda» é o mais vil e nojento golpe baixo que vi publicado na imprensa portuguesa desde há muito tempo. Um excerto: «Agora que não só está na oposição como a sofrer o imenso desgaste do caso Casa Pia, o PS irmanou-se aos saudosos do PREC e outros vencidos da vida e, todos a uma só voz, choram de saudades dos bons velhos tempos. Exactamente esses em que Portugal foi uma ditadura. Ter-se-ão tornado fascistas? De modo algum, mas têm saudades desse tempo em que dividiam o mundo em bons e maus. Sendo que eles eram sempre bons fizessem o que fizessem. Durante a ditadura, a censura e a própria repressão policial permitiram a muitos iludirem a sua mediocridade imaginando sucessos e reconhecimento público que efectivamente não mereciam. Por isso, quando chegou a democracia e já não tinham o censor a dar-lhes importância nem a polícia a impedir-lhes as actividades e ficaram sós perante o público, o povo e, sobretudo, perante si mesmos, começaram por amaldiçoar o mercado, a competitividade e a concorrência. Em seguida, fizeram discursos sobre esse tempo em que todos se conheciam. Em que havia valores e ideais. Em que se faziam espectáculos de qualidade...» E mais à frente: «Caso um qualquer dirigente da oposição, durante a ditadura, tivesse sido acusado de abuso sexual de menores nunca ninguém acreditaria porque se tratava duma invenção da PIDE. Caso durante a ditadura um qualquer oposicionista fosse acusado de ter desviado dinheiro, isso seria sempre uma calúnia. Caso durante a ditadura um militante comunista ou de extrema-esquerda fosse acusado de ter assassinado alguém que consideravam dissidente, traidor ou informador da polícia, restava sempre a possibilidade de ter sido a PIDE... Por isso têm saudades desse tempo em que, como nas histórias infantis, os maus eram sempre maus e os bons sempre bons. Têm saudades desse tempo em que eles que agora assim falam, artistas, profissionais liberais e jornalistas de oposição, se sentiam investidos duma superioridade quase aristocrática». Para concluir desta forma inacreditável: «É desse mundo em que tudo era perversamente familiar, em que a cunha da União Nacional coexistia, do outro lado, com o apoio cego e incondicional a quem se declarasse correlegionário, é desse mundo em que cada um sabia que o seu estatuto não seria beliscado, antes reforçado pela outra parte, de que a esquerda hoje tem saudades. É desse mundo em que a vida de cada um era condicionada e julgada pelo que se dizia ser e não pelo que de facto se era e fazia que a esquerda quer de volta. Tudo isto é muito triste e não creio que a culpa seja do fado».
Helena Matos baralha tudo, comete injustiças grosseiras e faz deduções que nunca poderá provar porque são falsas. A esquerda tem saudades do Salazarismo? A esquerda que viveu na clandestinidade e sofreu as torturas da PIDE tem saudades da ditadura? Quem é Helena Matos para falar em nome da esquerda, ou para nos vir dizer o que a esquerda quer de volta ou deixa de querer? Por respeito pela memória de milhares de pessoas que sofreram na pele o que foi a repressão e a censura neste país, durante 48 anos, a cronista devia pedir desculpas, em público (e no Público, já agora), pela barbaridade que escreveu. Não é só a "esquerda anti-fascista" que se deve sentir ofendida com este exercício retórico maldoso, que mete no mesmo plano os carrascos e as vítimas, os opressores e os oprimidos. Somos todos nós. Incluindo aqueles que escrevem e tiveram a sorte de não saber, na prática, o que é um lápis azul.

19.9.03
 
BERLUSCONI (MAIS UMA VEZ). Quem consiga ultrapassar o limiar da repulsa deve ler, com atenção, a entrevista a Silvio Berlusconi que o DN publica hoje (um exclusivo The Spectator). Realizada no seu "retiro" da Sardenha, com o Cavalieri de pijama branco e «os mamilos a verem-se» (sic), numa sala cheia de bibelots em vidro, a conversa mostra-nos o Berlusconi do costume: arrogante, extremista e com um discurso que diaboliza permanentemente a esquerda, acusada de manipular a Justiça italiana (a mesma Justiça a que tem escapado pelos meios mais retorcidos, entre os quais se contam alterações legislativas à la carte). Mesmo sem frases bombásticas ou piadas revisionistas, o actual presidente da União Europeia ainda encontrou inspiração para vituperar desta forma os juízes do seu país: «São completamente loucos! Para fazer esse trabalho é preciso ser-se mentalmente perturbado, tem que se ter distúrbios psíquicos. Se eles fazem esse trabalho é porque são antropologicamente diferentes!»
Fui ver o Abrupto (que tentou justificar as atoardas de Berlusconi no Parlamento Europeu), o Dicionário e os principais blogues de direita, à espera de comentários a mais este chorrilho de disparates do homem que dirige a Itália como quer. Nada. Silêncio absoluto. E depois somos nós que assobiamos para o ar.

 
AS DESVENTURAS DE GASTÃO. Eu até gosto da Rita Ferro Rodrigues, com quem tive o prazer de trabalhar, mas quando o país fica suspenso porque um cão fugiu de casa (com direito a notícias de primeira página e destaques nos telejornais) é caso para dizer que estamos mesmo muito mal.

 
VENHA O DIABO E ESCOLHA. Não sei o que será pior: um treinador inseguro sempre agarrado ao bloco de notas (Bölöni) ou um treinador beato sempre agarrado ao crucifixo (Fernando Santos).

 
ADENDA AO POST ANTERIOR. Como seria de esperar, a nossa abordagem zoológica da blogosfera pecou por defeito. Há certamente muitos mais blogues "animais" à espera de uma menção e pelo menos um deles teve o bom-senso de enviar um e-mail, acusando-nos do «lamentável esquecimento». Falamos do muito ecléctico The Amazing Trout Blog, mantido pela Truta Azul, pela Truta Vermelha, pela Truta Laranja e pelo Manel da Truta. Curiosamente, o estatuto editorial está em inglês: «The exquisite environment of this socialite blog invites you in the discussion of the latest news, especially the ones concerning performing arts, cultural and political events, religious and spiritual beliefs, photography, the simbolic power of South Park, gastronomy, the psycological importance of Cabaret da Coxa and many more! For Trouts only!» A coisa promete, ou não falasse um dos últimos posts das Quatro Últimas Canções do Richard Strauss, na versão cantada por Gundula Janowitz (possante) e Elizabeth Schwarzkopf (divina), precisamente a que mora lá em casa. Sejam então benvindas, caríssimas trutas, e tratem de nadar como convém: rio acima e longe dos "campos de concentração" da aquacultura.
(Fica assim reposta a justiça. Até ver.)

 
ZOOFILIA. Depois do baterista felpudo dos Marretas e do ambíguo Bicho Escala Estantes, começam a aparecer outros animais na blogosfera. Há, por exemplo, um genial pintainho monossilábico e pós-moderno. E até um cão a sério, com direito a fotografia, que trata os donos por «as minhas pessoas». Onde é que isto irá parar? Ainda teremos blogues escritos por orangotangos, baleias azuis, moscardos, paramécias ou até, sei lá eu, pelo dr. Pedro Santana Lopes?

(Errata - o nome de Santana Lopes não devia obviamente aparecer nesta lista: pedimos desculpa, sobretudo aos restantes animais irracionais, pelo lapso)

18.9.03
 
A PRAIA DO DIABO. Ontem, a conferência de Pedro Mexia na Casa Fernando Pessoa, sobre a "sua" leitura da obra do poeta, correspondeu às expectativas: foi brilhante, muitíssimo bem informada e provocatória q. b. (apesar do tom excessivamente "escolar" da primeira parte). Em jeito de sinopse, diga-se que o blogger/cronista/crítico literário assumiu uma clara preferência pelo «segundo Álvaro de Campos» e por Bernardo Soares, ao mesmo tempo que revelava, justificando-a, uma certa frieza (nalguns casos, absoluto desdém) em relação ao resto: os poemas ingleses, a «metafísica sem metafísica» do Alberto Caeiro, as bizantinices de Ricardo Reis, os misticismos ortónimos e as sofríveis cartas a Ofélia.
Mas o grande momento da noite estava guardado para a ceia, num restaurante perto do Jardim da Estrela, durante a qual o Pedro se encontrou finalmente, cara a cara, com o seu fã número 1: Ivan Nunes. Mesmo sem troca de autógrafos, foi bonito de se ver. E agora o Prof. Bragança de Miranda já pode dormir descansado.

 
O POST DA SEMANA. Que o J do Cruzes Canhoto era uma espécie de super-blogger − esquerdista militante e espirituoso, formidável compilador de links, além de caça-fantasmas capaz de rebater as muitas cortinas de fumo dos "fachoblogues" − já nós sabíamos. Mas que era também homem para desmontar, ponto por ponto, com uma clareza meridiana, a argumentação falaciosa de um fascistóide pró-Pinochet (ou irracionalmente anti-Allende, se preferirem), não podíamos supor. Leiam o memorável post AVISO À SAÚDE PÚBLICA e apreciem. Não é todos os dias que se assiste a uma desmistificação tão bem feita. Cinco estrelas. Parabéns, J.

 
ENCONTRO DE BLOGS. Começou hoje, em Braga, nas instalações da Universidade do Minho, o primeiro encontro da blogosfera portuguesa. Organizado por alguns professores daquela escola (nomeadamente o também blogger Manuel Pinto), o encontro pode ser acompanhado online no respectivo blogue.
A programação prevista é a seguinte:


Hoje

17.30 h Abertura do secretariado e recepção dos participantes
18.00 h Abertura e sessão de boas-vindas
18.15 h Intervenções:

*Panorama da blogosfera em Portugal, por António Granado (Ponto Media)
*Panorama espanhol e europeu da blogosfera, por Jose Luis Orihuela (e-Cuaderno).

19.45 h Suspensão dos trabalhos


Amanhã

09.30 h 1º Painel - Weblogs, cidadania e participação

*Abrupto
*Blog de Esquerda
*Socioblogue

11.00 h Intervalo
11.30 h 2º Painel - Weblogs, ensino, aprendizagem e investigação

*Aula de Jornalismo
*Gente Jovem
*JornalismoPortoNet
*Teoria da Comunicação

13.00 h Intervalo para almoço
14.30 h 3º Painel - Weblogs, jornalismo e comunicação

*Contrafactos e Argumentos
*Íntima Fracção
*Jornalismo Digital

16.30h Intervalo
16.45 h Sessão final: Weblogs e sociedade - Horizontes da blogosfera

*Todos os participantes

18.00 h Encerramento dos trabalhos.


Infelizmente, por razões de saúde (a malfadada otite), foi-me impossível viajar até Braga e por isso não debaterei, amanhã, com o João Nogueira e o Pacheco Pereira. Fica para outra altura - ou para outros Encontros.
Mesmo não estando presente in loco, é claro que vou acompanhar o resultado das sessões pela internet. Aproveito também para enviar uma saudação a todos os participantes, esperando que a qualidade das intervenções corresponda, no mínimo, às (altas) expectativas criadas.
Bom Encontro!

 
ERA BOM QUE NÃO ESQUECÊSSEMOS... O fuel do Prestige, afundado em Novembro ao largo da Galiza, continua a ser libertado para o oceano. No fundo do mar, os tanques do petroleiro guardam ainda 13.800 toneladas de fuel, para além das 16.000 toneladas que andam dispersas pelo mar, navegando ao sabor de correntes que as podem fazer encontrar destinos inesperados, sejam eles as praias galegas, as do norte de Espanha, as portuguesas ou as francesas. É como uma “praga”, este fuel. Acima de tudo, era bom que nos lembrássemos da origem da “praga”, da origem de todas as “pragas” como esta. Todos os dias continuam a sair para o mar inúmeros navios carregados com matérias perigosas, nocivas ao ambiente, capazes de causar catástrofes ecológicas de dimensão impensável. Todos os dias os (des)Governos do mundo permitem que barcos sem as mínimas condições de segurança transportem essas mercadorias (tantas vezes fazendo parte de negócios com esses mesmos Governos…), transformando os mares em autênticas bombas-relógio. Cada dia que passa, cada novo barco que se faz ao alto-mar carregado de veneno, faz do lema “Nunca Mais” uma mensagem de socorro que os donos do mundo parecem querer ignorar. É preciso, por isso, aumentar o “volume” do grito, para que continue a haver mares com águas aceitáveis (as limpas há muito que são uma ilusão) que garantam o futuro do planeta. (Sara Figueiredo Costa)

 
RECLAMAÇÃO. Na loja de fotografias tipo passe, a mulher − muito triste − protestava: «Desculpe lá, mas a máquina deve estar avariada. Eu sei que não sou assim tão feia».

17.9.03
 
SALVAR A ESCOLA DA PONTE. A leitora Maria do Céu Tostão fez-nos chegar um excerto do Manifesto de Apoio à Escola da Ponte: «Ao longo dos últimos 25 anos, apesar das sucessivas (e falhadas) reformas, um colectivo de professores, com os alunos e os pais, desenvolveu, na Escola Primária nº1 da Ponte − Vila das Aves, um projecto educativo ímpar, reconhecido a nível nacional e internacional. Esse reconhecimento traduziu-se, a nível institucional, pela conversão da Escola da Ponte, em Agosto de 2001, numa Escola Básica Integrada, alargando-se o âmbito do projecto a um percurso escolar, integrado e coerente, de nove anos. A sobrevivência deste projecto, por acção e por omissão do Ministério da Educação, está ameaçada. A sua extinção representaria um empobrecimento inaceitável do nosso património educativo, sem que haja, da parte do Ministério, qualquer razão plausível dos pontos de vista científico, pedagógico ou de política educativa. (...)» O documento completo pode ser lido aqui. E já agora, se concordarem com as razões desta luta, deixem também o vosso nome.

 
PERFIL EMPÍRICO. Um dia, alguém fará um levantamento sério da blogosfera nacional e definirá, com um mínimo de rigor, o "perfil" do blogger português. Mas eu arrisco, desde já, um prognóstico: 30 anos, solteiro (ou divorciado), classe média urbana, com acesso fácil à internet (cabo; ADSL) e uma profissão que exige hábitos de escrita diária (jornalista ou doutorando em vias de terminar a tese).

 
NO CHIADO, À TARDINHA. Alguém já me tinha falado da barulheira que invadiu o Chiado, desde que a CML decidiu instalar, sem critério, 100 altifalantes que debitam música 12 horas por dia. Ontem percebi que se trata, na verdadeira acepção da palavra, de um massacre sonoro. E fui logo juntar o meu nome a este abaixo-assinado promovido pelos «vizinhos do centro da cidade de Lisboa», um grupo que afirma gostar «dos sons próprios de cada rua, de cada esquina e de cada momento» e que se insurge contra «o ensombramento destes sons pela massa sonora contínua que escorre pelos altifalantes, sobrepondo-se às conversas das pessoas na rua». Já lá estão cerca de 600 nomes. Era bom que ficassem muitos mais.

 
A MEIO GÁS. Com o Manel embrenhado nas últimas pesquisas em arquivos lisboetas (amanhã regressa a Paris) e eu quase KO devido à infecção no ouvido esquerdo, o BdE abranda o ritmo. Não se faz o que se quer, faz-se o que se pode. Lá mais para o fim da semana, recuperaremos o atraso (espero). E avançaremos, at last, com as prometidas mudanças e novidades.

 
MEXIA PESSOANO. Este nosso amigo, e emérito blogger, vai falar hoje à noite, na Casa Fernando Pessoa, pelas 21 horas, sobre a influência que o autor dos heterónimos teve e tem − mas será que teve? será que tem? − na geração dos poetas novíssimos (a que Mexia pertence). Há uma palavra para "momentos culturais" como este: imperdível.

16.9.03
 
CANSAÇO. As dores no ouvido, em vez de desaparecerem, agudizaram-se. Tenho à minha frente as minhas notas para posts e uma caixa de Panasorbe. Sem surpresa, ganha o Panasorbe. Apelo à vossa compreensão: depois de um dia inteiro a escrever, não quero ver nada que se assemelhe a um teclado de computador. O melhor é fechar a loja, recolher às boxes, dormir. Passem bem, os que puderem. Até amanhã.

 
FILOSOFIA DO FUTEBOL. Eu gosto muito de filosofia. Eu gosto muito de futebol. E eu gosto muito de blogues. LOGO, eu gosto muitíssimo do Nietzsche & Schopenhauer − um soberbo espaço de reflexão contraditória (ou não se tratasse de «um blog optimista sobre o Benfica» que evoca, no próprio endereço, os famosos 7-0 de Vigo). O tom, já se vê, é de lamento e decepção (com a equipa, com os jogadores, com os dirigentes, com os resultados dos jogos), mas mantendo sempre uma elegância sofredora que me recorda os tempos áureos de sportinguismo à míngua de títulos. Depois, há citações recorrentes de Javier Marías (esse génio) e posts fabulosos, num estilo minimalista/aforístico que pede meças ao grande mestre do género. Em suma: é um blogue cinco estrelas, a merecer visitas diárias. E como o Frederico garante que esta aventura só acabará «quando o Benfica voltar a envergar a faixa de campeão», podemos ficar descansados. Temos muitos anos de gozo (metafísico) pela frente.

 
GENIAL MARCELO. Durante duas ou três semanas, o Prof. Marcelo anunciou no seu comentário da TVI que, na semana seguinte, falaria da remodelação do Governo. Há uma semana, domingo, 7 de Setembro, repetiu o anúncio e fê-lo ao som de trombetas, como quem diz «desta vez é que não falha».
Inopinadamente, a meio da semana que se seguiu, Durão Barroso fez saltar para as primeiras páginas a figura de Teresa Caeiro, recusou implicitamente a remodelação do Governo e matou – pensaria – o comentário do mestre. Mas Marcelo Rebelo de Sousa é mesmo de outro campeonato e numa pirueta só ao alcance dos eleitos, manteve o comentário sobre a remodelação justificando brilhantemente, com quatro argumentos, que, se fosse Durão Barroso, só a faria lá para meados de 2004; de todos os argumentos, basta o quarto: nessa altura já se saberá qual o candidato do PSD às presidenciais, se o Prof. Cavaco Silva se o Dr. Lopes (sic!!!).
Só que eu sei que você sabe que eu sei que o Prof. Marcelo sabe: a remodelação está na ordem do dia. Ele é o Ministro da Administração Interna, transformado num tição, a rezar todos os dias por uma humidade relativa de 85%; ele é a Ministra da Justiça que, para além de doente, mostrou não estar à altura da justiça em tempo de paz, o que não augura grandes perspectivas quando já corre a guerra das corporações, ainda que nos preliminares; ele é o Ministro da Defesa, sem defesa que lhe valha, salvo ser o líder do PP; ele é o Ministro da Saúde, esgotado, e a quem nem sequer ajuda uma liderança; ele é o Ministro da Cultura, do Ambiente, das Obras Públicas. (...)
A Durão Barroso conviria que o assunto ficasse esquecido. Mas a síndrome da "vichyssoise" falou mais alto.
Esta troca de golpes trouxe-me à memória a imagem de Vasco Santana na “Canção de Lisboa”, em cima de uma cadeira, a gritar “Todos contra o fado” e a repelir com uma guitarra portuguesa os objectos que lhe arremessavam; e ia dizendo “vantagem de cá”, “vantagem de lá”.
Como é conhecedor de ténis, o Prof. Marcelo respondeu ao ataque à rede de Durão Barroso e respondeu muito cruzado, sem defesa. Fez o ponto que vale jogo, partida e encontro. Estes domingos são mesmo uma festa.
(J. Campos)

 
A SENHORA DOS BEST-SELLERS. O DN propõe hoje aos seus leitores, na colecção Prémios Nobel, o livro Histórias Maravilhosas do Oriente, 14 «contos de encantar» de Pearl S. Buck (escritora americana distinguida com o Nobel de Literatura em 1938). Ao ver a notícia, recordei o espanto que em mim produziu, na infância, a visão das dezenas de romances que a senhora escreveu, quase todos best-sellers volumosos, publicados em português pela Livros do Brasil. Muito dado aos trocadilhos, lembro-me de pensar que o seu nome aparecia mal escrito nas capas das intermináveis sagas "chinesas": não devia ser Pearl S. Buck, mas sim Pearl S. Book.

15.9.03
 
DOR DE OUVIDOS. Quem já passou por isto − dias a fio de moinha e analgésicos − sabe do que falo. O pior não é a dor. É o medo de que ela nunca mais passe.

 
DESCOBERTA. Acontece às vezes. Perguntam-nos «conheces isto?» e põem o disco a tocar, murmurando baixinho uma letra que sabem de cor há muitos anos. «Ouve esta parte», dizem-nos. E depois revelam aquela canção triste, aquele lamento à beira do grito, como quem abre uma porta escondida nos fundos da casa (a porta que dá para o secreto jardim de inverno). Aconteceu hoje. O disco: «Grace», de Jeff Buckley.

 
KUMBA IALÁ. Ao ser derrubado do poder na Guiné-Bissau, que aforismos terão ocorrido ao inspiradíssimo autor da frase «A beleza de uma mulher elegante é a atrapalhação do cabrão do macaco da Indochina»? Assim de repente, lembro-me deste: «o vazio é a substância mais consistente do nada».

 
EQUIVALÊNCIAS MORAIS. A Juventude Popular (JP), aquela reserva patriarcal de carreirismo e formatação tecnocrática dos conservadores portugueses, fez-se notar na rentrée política do CDS. Segundo escreve o «Público» de hoje, os rebentos cristãos de Paulo Portas venderam algumas t-shirts com os ditos «Cuba Livre». Desengane-se, porém, quem nelas reveja algum financiamento público da Bacardi aos devaneios proto-políticos destes ditosos filhos da nação. Não: agora, a JP decidiu empenhar-se numa luta de libertação contra «a ditadura atroz que se vive em Cuba». E eu, concordante, regozijo-me com a nova bandeira enquanto aguardo pela minha t-shirt. Por fim, a nossa direita condena os abusos e os atropelos civilizacionais, tão ditatoriais quando atrozes, cometidos pelos EUA na obscura base militar de Guantanamo. As equivalências morais são uma heresia, não são? (Tiago Barbosa Ribeiro)

 
PEDRO E O LOBO? Já lá vão uns anitos desde que o Governo, na altura do PSD, avançou com uma lei que aumentava as propinas no Ensino Superior. Desde essa altura, muitas manifestações, discussões e outras confusões passadas, uma realidade se tornou visível nas Faculdades e no seu dia-a-dia: nunca as propinas (do PSD ou do PS) contribuíram para a qualidade do ensino. Nunca o pagamento das propinas por parte dos estudantes garantiu qualquer melhoria nos recursos materiais e
humanos das Faculdades, qualquer incentivo ao desenvolvimento de projectos de investigação, qualquer outro facto positivo que aqui se pudesse destacar. Pelo contrário, o normal é verificarmos que, em cada ano, os cortes orçamentais aumentam, sendo muitas vezes directamente proporcionais às verbas procedentes das propinas.
Reparem os mais acérrimos defensores das propinas que, passados tantos anos sobre os debates e as lutas, já não estou a discutir a questão de princípio (embora mantenha a que sempre tive). Estou, apenas, a tentar mostrar que sempre que há uma lei de financiamento que prevê o aumento da contribuição directa dos estudantes (lembremos que a indirecta já se faz nos impostos), há também um discursozinho sobre a qualidade que aí vem. Para depois haver não sei quantos anos (os que medeiam
entre essa lei e a substituição do Governo por outro, que apresentará uma nova lei elaborada segundo os mesmos princípios!) de cortes orçamentais e de situações de asfixia financeira que resultam no facto de o dinheiro das propinas servir para pagar a luz, a água, o papel higiénico, as fotocópias e, tantas vezes, os salários dos professores e funcionários.
E a pergunta é: porque raio ainda há quem acredite nos benefícios de responsabilização cidadã das propinas? Será porque continuam a achar que andar numa faculdade com a certeza de não encontrar emprego no fim do curso e tendo que conviver com a Tuna e outras alarvidades é um privilégio?
(Sara Figueiredo Costa, num intervalo dos seus belíssimos quadradinhos)

 
FECHO. Acaba-se de escrever o texto em cima da dead-line. No ecrã, as áreas da página que nos cabem vão passando de verde-água para azul-bebé. O texto desaparece da nossa vista para só reaparecer amanhã, na página impressa do jornal. Todas as imperfeições, fragilidades e fraquezas ocultas (as que não vimos a tempo; mais as gralhas) aparecerão à luz do dia, terríveis fantasmas capazes de envenenar muitas manhãs e algumas noites de sono. Escrever é também isto: confrontarmo-nos com os erros que poderíamos ter evitado, se nos dessem mais cinco minutos (hão-de faltar sempre cinco minutos) ou se o nosso olhar não estivesse, ao fim de tantas horas, "cego" pela falta de distância e pelo cansaço. Escrever é também isto: o prazer que se transforma em fumo na manhã seguinte, a exaltação que tem consciência do seu próprio aniquilamento.

 
AMNÉSIA. «Fomos injustos com o Fukuyama. Agora sabemos o que ele quis dizer quando escreveu sobre "o fim da História". Não era que depois da conquista mundial do liberalismo não haveria mais História. Era que o passado estava desaparecendo, como um texto que some no computador e deixa você maluco. A História foi apagada. Relaxe, ela é dispensável − é disso que nos querem convencer. O passado não serve para mais nada. A amnésia programada é condição para você aceitar a admirável nova ordem mundial. Tudo o que se soube até hoje sobre o capital entregue à sua própria moral deixou de valer ou virou folclore, que é a História sem os dentes. A boa memória tornou-se um estorvo que só os anacrônicos conservam. Quanto mais longe ela alcançou, maior a ameaça para a verdade do dia.
O capitalismo vive de repetidas crises voluntárias de memória. O crash de 29 aconteceu porque esqueceram o período anterior à Primeira Guerra, quando convicções sobre como deveria ser a economia mundial, quase tão indiscutíveis quanto a dos monetaristas de hoje, levaram ao desastre. A atual geração de donos da verdade, por sua vez, já nasceu em plena amnésia do desastre de 29. A História deve ser periodicamente extraviada porque suas lições são inconvenientes e os criminosos precisam de prontuários limpos. No Brasil, apagar o passado significa apagar uma verdadeira saga de calhordices, nacionais e internacionais, na guerra pelo que era nosso. Não conviria lembrá-la, agora que estão nos entregando tão docemente. Toda a pregação neoliberal depende, para não ser denunciada como o bullshit que é, dessa amnésia induzida.
Da amnésia ou então de uma fé religiosa na regeneração. Teria havido um milagre e o capital encontrou a virtude que não tinha, um equilíbrio perfeito entre ganância e altruísmo que dispensa qualquer controle ou contrição. Mas é melhor não deixá-lo a sós com as crianças.» [in «A Versão dos Afogados», de Luis Fernando Verissimo, L & PM Editores, 1997]

 
SEPÚLVEDA EM ÉVORA. O convite chega de uma livraria eborense: a Som das Letras. Hoje, às 18h30, no Teatro Garcia de Resende, será lançado o livro «O General e o Juíz», de Luis Sepúlveda (uma evocação do golpe de estado levado a cabo por Pinochet, no Chile, há 30 anos), com apresentação do Prof. Antonio Sáez Delgado (Universidade de Évora) e a presença do autor. A entrada é livre.



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