BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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14.9.03
 
ADORNO. O Manel prometeu alguns posts sobre T. W. Adorno, a propósito do centenário do seu nascimento (11 de Setembro), e vai decerto cumprir a promessa, nalgum intervalo das pesquisas que está a fazer em Lisboa até ao fim desta semana. Entretanto propomos, aos leitores mais interessados no tema, uma entrevista com Jean Jourdheuil publicada no Libération e sugerida, via e-mail, pelo nosso itálico Francisco Frazão. Está aqui.

 
BERLUSCONI. Desta vez, Berlusconi disse que «Mussolini nunca matou ninguém», antes «costumava mandar as pessoas de férias para as fronteiras». Francamente, o triste "humor" do líder italiano (e neste momento, o que é mais grave, também líder europeu) já ultrapassou todos os limites do razoável. Não há atenuantes possíveis para tanta grosseria, tanta barbaridade, tanto desprezo pelos princípios democráticos e pela memória de quem sofreu na pele a máquina trituradora do fascismo. Quando é que alguém se decide a pôr na ordem Il Cavalieri, não me dizem? Se calhar é preciso que ele apareça de camisa castanha e braço estendido...

 
A NUVEM. Da praia de Santo António, na Caparica, a visão era impressionante. Sobre Lisboa, sobre a serra de Sintra, entrando mar adentro, uma imensa nuvem castanha cobria grande parte do céu. A pouca luz do crepúsculo tornou-se quase nenhuma, finíssimas partículas de cinza caíam sobre a areia e sobre os nossos corpos, havia em tudo aquilo qualquer coisa de maligno e terminal. Alguém falou em imitação do fim do mundo. Vozes temiam que Lisboa estivesse, de novo, a arder. Mais tarde soubemos tudo pelos telejornais: Loures, Mafra, o galope dos incêndios. Na praia, porém, a ausência de informações abria campo aos lamentos e às conjecturas. A nuvem encaminhava agora a sua cor nociva para sul, servindo de filtro involuntário para o sol que mergulhava no horizonte, tornando-o ainda mais alaranjado e doentio.

12.9.03
 
A BOCA ESCANCARADA. Regresso ao dentista e aos tormentos da broca que zune, dos chumbos que é preciso refazer, da radiografia na sala ao lado, do «bocheche e cuspa», do «fique meia hora sem comer». Por muito que encham os consultórios de quadros amenos e revistas de viagens a lugares paradisíacos, estas são consultas que deixam sempre um travo de desconforto, tão intenso como o travo daquela coisa meio amarga que fica a pairar na boca durante o resto do dia (e por vezes, ainda, na manhã seguinte).

 
CLOSED. Amanhã é dia de folga, aqui no BdE. Praia, leituras, conversa na esplanada, talvez uma partida de ténis. Os irmãos Silva, aproveitando a rara circunstância de estarem juntos (fisicamente), vão à procura do famigerado quality time.

 
PÃO E GURONSAN. Corolário lógico do post anterior: quando fui comprar carcaças, hoje de manhã, dei também um pulo à farmácia.

 
NOITE DENTRO. Ontem estive num jantar de amigos que se transformou numa festa pela noite dentro, com copos, duelos retóricos, conversas sobre tudo e sobre nada, desabafos, uma viagem ao Extra mais próximo para reforço alcoólico e karaokes improvisados com vinis foleiros de meados dos anos 80 (lembram-se do «I should have known better», do Jim Diamond?). Descansem, amigos da direita: não estávamos a comemorar nada. A única efeméride assinalada foi o centenário do Adorno. Garanto-vos: nem Nova Iorque, nem Chile. Só o ar angustiado do autor de «Minima Moralia», na fotografia que dele publicou a última revista do Expresso.

 
NO METRO. A rapariga que lia Deleuze entrou na carruagem, com o livro à frente dos olhos, e sentou-se no primeiro banco que encontrou. À sua frente, dois cabo-verdianos nostálgicos lembravam as cores do Mindelo, a forma suave como o sol desce sobre a Baía das Gatas e o cheiro raríssimo da terra depois da chuva, lá longe, na sua pátria tão seca. Mas a rapariga que lia Deleuze nada ouviu, absorvida que estava pelos densos parágrafos do seu provisório maïtre à penser.

 
REGRESSO À NORMALIDADE. Nos últimos dias, a actualização deste blogue tem sofrido alguns atrasos, devidos sobretudo à minha complexa gestão do tempo (manter o blogue é um hobby muito exigente e às vezes não é fácil conjugá-lo com as obrigações da vida quotidiana). As mais sinceras desculpas aos leitores desta página, seres de infinita paciência que continuam a visitar-nos com uma regularidade (e um sentido crítico nos comentários) que nos surpreende e comove. Prometemos ser mais regulares. Ou, se preferirem, menos irregulares.

11.9.03
 
EPÍLOGO PROVISÓRIO PARA UMA QUESTÃO INESGOTÁVEL. Outros terão reflectido sobre isto melhor do que eu, mas parece-me evidente que na origem do impacto colectivo provocado pelo 11 de Setembro esteve, acima de tudo, o facto de o termos visto em directo, pela TV. O horror do Ruanda (onde uma etnia dizimou 800.000 pessoas de outra etnia) não nos chocou – pelo menos colectivamente – da mesma maneira porque surgiu como um horror abstracto, silencioso, distante, reduzido à frieza branda da estatística (e, só muito mais tarde, aos enquadramentos a preto e branco dos repórteres fotográficos, como James Nachtwey). Pelo contrário, o horror de Nova Iorque destroçou-nos porque foi real; isto é, imediato e concreto. Vimo-lo com os nossos olhos, ouvimos as sirenes dos bombeiros e alguém nos trouxe as lágrimas, os corpos em queda livre, o colapso dos monstros de cimento e vidro, a visão da cinza engolindo a cidade.
Não sei se o 11 de Setembro "inaugurou" o séc. XXI (é muito cedo para frases definitivas), mas devíamos ter em mente que se tratou, claramente, da primeira tragédia global. Global no sentido de ter chegado, em simultâneo, ao mundo todo. A grande inteligência dos terroristas consistiu nisto: encenar a morte com uma (assustadora) lógica de espectáculo, pronto a consumir por um planeta ávido de imagens. Não nos iludamos. A principal violência do 9/11 foi, e continua a ser, simbólica.

 
CONSTATAÇÃO AMARGA. As pessoas de esquerda que se congratularam com a desgraça americana de há dois anos (por acaso não conheço nenhuma) só me merecem um sentimento: asco. O mesmo asco que sinto quando a direita, quase em bloco, utiliza o 11 de Setembro como inadmissível elemento de chantagem: «quem aponta o dedo a Bush tolera Bin Laden», «quem critica os americanos está com os terroristas», «quem põe em causa a guerra no Iraque defende Saddam», etc. O primarismo é um cancro em todos os quadrantes e a direita, sobretudo a direita, não pode dar lições de moral a ninguém.

 
CONTRA O FOGO, O FOGO. Vale a pena ler o artigo de Pedro Mexia sobre o 11 de Setembro, no DN, para compreender como a blogodireita inteligente é permeável à retórica dos think tanks neo-conservadores americanos. No fundo, o Pedro defende que a violência faz sentido como punição (um eufemismo para vingança), sem compreender que esta resposta ao terrorismo nunca eliminará o monstro – pelo contrário, vai alimentá-lo. E se há quem «perceba a trágica necessidade de um dia 12» [de Setembro], talvez não fosse mau entender as fracturas que já existiam no dia 10. (Confissão: já tinha saudades de discordar, tão clara e objectivamente, de um amigo)


 
O IMPRONUNCIÁVEL. Recordo mais uma vez o ataque às torres e apercebo-me de que há um muro de silêncio entre mim e aquele horror. Um muro que torna inúteis (e por isso quase obscenas) todas as palavras. Penso: o que há de indizível nesta matéria que eu queria dizer? Ocorre-me uma frase do Ivan Nunes (volto a ele, outra vez): «O impronunciável, penso agora, era a estética». É como com os grandes incêndios. Na explosão dos aviões contra o World Trade Center, amplificada pelas imagens repetidas de todos os ângulos possíveis, há uma espécie de beleza tenebrosa. Nós sabemos que se trata de um apocalipse, de uma abominável figuração da morte, mas ainda assim o impulso estético sussurra-nos, por detrás dos filtros morais, como um fantasma perturbador. Quando revemos as imagens de há dois anos, não é apenas com a memória que ajustamos contas. É também com esse fantasma, sejamos ou não capazes de o admitir.

 
DANCE THIS WALTZ. Não me sentindo habilitado, por défice de leituras e informação, a assinar análises e conjecturas válidas sobre a forma como o mundo mudou (ou nem por isso) depois do 11 de Setembro, socorro-me de um pequeno ensaio que o Ivan Nunes teve a suprema generosidade de traduzir e publicar no seu excelente blogue, A Praia, cada vez mais político e menos umbiguista ? além de mais à esquerda, o que se saúda. Trata-se de um texto publicado em Março de 2002 (atenção: depois do ataque aos talibãs, mas muito antes do Iraque), por Kenneth Waltz, um dos mais reputados investigadores de Política Internacional, conhecido pela sua abordagem «Realista» das tensões geoestratégicas. Tudo o que poderia esboçar aqui, de forma aérea e imprecisa, é dito por Waltz num estilo exacto e cristalino. Vão lá todos, por favor, e leiam.
Permito-me apenas "roubar" as seguintes passagens, com a devida vénia ao Ivan:

«Proclamando uma "guerra contra o terrorismo", Bush conferiu aos terroristas a dignidade de soldados e, de forma quase acidental, atribuiu às forças americanas a missão impossível de derrotarem militarmente um "ismo". O presidente Bush alegou, no entanto, que os prisioneiros de Guantanamo são criminosos e não soldados, e que por isso não estão ao abrigo da Convenção de Genebra. A tentativa americana de fazer as suas próprias regras internacionais ? ignorando o bem-estar dos americanos que combatem no estrangeiro e que podem vir a ser capturados por países que se recusem a chamar-lhes soldados ? é um exemplo extremo de unilateralismo.» (É impressão minha, caros leitores, ou são os blogues de direita portugueses que passam a vida a "assobiar para o ar", fazendo-se desentendidos, em relação a tudo o que acontece de sórdido em Guantanamo?)

«No início da administração Bush, consultar outros países queria dizer que nós lhes diríamos o que tencionávamos fazer e depois o faríamos, quer lhes agradasse quer não. Exceptuando em assuntos específicos e limitados, essa prática não mudou. Há, no entanto, algumas mudanças que são mais acentuadas. O 11 de Setembro elevou o Secretário de Estado [Colin Powell] da quase invisibilidade à notoriedade ? embora faça sentido perguntarmo-nos em que medida é que a notoriedade diplomática se traduzirá em influência sobre as opções políticas. Depois de ter feito campanha contra a reconstrução de nações [nation-building], o presidente Bush acolhe-a agora como a orientação política americana para o Afeganistão ? embora se justifique que nos perguntemos se ele virá a mostrar tanto zelo na reconstrução como mostrou em fazer a guerra(Pensem no Iraque...)

«O combate aos terroristas forneceu à administração Bush um pretexto para fazer aquilo que de qualquer maneira ela queria fazer. A administração obteve do Congresso todo o dinheiro que procurava para a defesa nacional antimíssil. Os actos terroristas minaram o anterior acordo inter-partidário para reduções. A administração liquidou o tratado ABM sem protestos significativos internos ou externos. Ela obteve aumentos brutais nos orçamentos das forças armadas a fim de combater as fracas forças que os terroristas conseguem reunir. Embora os terroristas possam ser terrivelmente incomodativos, eles dificilmente ameaçam a estrutura de uma sociedade ou a segurança do Estado(Só não vê e não entende isto, meus amigos, quem não quer ver e ainda menos entender)

«Os terroristas não alteram o terceiro facto essencial da política internacional: a persistência e acumulação de crises. Na verdade, ao perseguirem os terroristas e ameaçarem atacar Estados que os acolham, os Estados Unidos acrescentarão novas crises a uma lista já longa.
Muito mais do que interromper a continuidade da política internacional, o aumento da actividade terrorista é uma resposta a mudanças que ocorreram nas últimas duas décadas.
Antes do declínio e desaparecimento da União Soviética, os Estados fracos e os descontentes podiam esperar ganhar alguma coisa lançando uma superpotência contra a outra. Agora os fracos e os descontentes estão sozinhos. Sem surpresa, atiram-se aos Estados Unidos como o agente ou símbolo do seu sofrimento. Os actos terroristas de 11 de Setembro impeliram os Estados Unidos a alargar as suas já insufladas forças militares e a estender a sua influência a partes do mundo que os seus tentáculos não tinham ainda alcançado.» (Waltz não possui, creio eu, um dedo que adivinha. Limitou-se a usar, com mestria, essa antiga arma de precisão: a lucidez)

 
CONTRIBUTOS. Vários dos nossos leitores fizeram questão de dizer o que pensam sobre este dia tão pródigo em efemérides. Aqui fica um resumo dos contributos enviados:

Se o dia 11 de Setembro de 2001 foi um dia dramático para os Estados Unidos da América, foi no entanto muito mais dramático o dia 11 de Setembro de 1973 para o Chile, quando Augusto Pinochet derrubou o Presidente Salvador Allende, instalando uma das ditaduras mais sanguinárias de que há memória.
Quando, recentemente, o Juiz espanhol Garzón emitiu um mandado de captura contra Pinochet, o escritor chileno Luís Sepúlveda, que chegou a exercer funções na guarda pessoal de Allende, começou a redigir um conjunto de textos que foram divulgados em vários jornais e através da internet. Trinta anos passados sobre o golpe de estado, esses mesmos textos deram origem ao livro “O General e o Juiz” onde sob o lema do Conde de Monte Cristo “nem esquecimento nem perdão”, Sepúlveda invoca as memórias das vítimas para que não sejam esquecidas e aponta um dedo firme aos responsáveis.
Nesta obra bastante politizada mas igualmente literária de Luís Sepúlveda, também não é esquecido o outro 11 de Setembro, o que encheu os écrans da CNN. – “Disseram que, depois do 11 de Setembro, nada seria igual no mundo. Tudo mudou para as vítimas dos atentados terroristas. Tudo mudou para as vítimas civis de uma operação de vingança – e não há maior perversão das palavras que a de dizer que vingança é sinónimo de justiça -, tudo mudou a favor dos senhores da guerra, chamem-se militares do Hamas ou Rumsfeld, Sharon ou fanáticos da Yihad.”
(Pedro Farinha)

Porque também houve outro 11 de Setembro - violento, cruel, torrencial. O último discurso de Allende na rádio, momentos antes da junta fascista de Pinochet usurpar o poder no Chile, com o apoio e cobertura dos EUA (ditadura que durou quase duas longas décadas). No momento definitivo, Allende registou: «La historia no se detiene ni con la represión ni con el crimen. [...] Colocado en un trance histórico pagaré con mi vida la lealtad del pueblo. [...] Es posible que nos aplasten, pero el mañana será del pueblo.» (Tiago B. Ribeiro)

Ilustre Dr. Pacheco Pereira: então no 11 de Setembro havia um lado bom e um lado mau? Falamos de 2001 ou de 1973? Por favor, poupe-me à resposta, ia alagar-me de retórica. A pergunta era apenas um desabafo e, francamente, até votaria em si para o Parlamento Europeu – o que nunca fiz! – na condição de só voltar aos fins-de-semana, com residência fixa na Marmeleira e voto de silêncio. (J. Campos)

 
11/09/1973. A imagem que tenho presente, vinda dos arquivos (a preto e branco), é a de um caça da Força Aérea Chilena, disparando contra o palácio presidencial de La Moneda. Lá dentro, estava Salvador Allende e uma ideia quase a morrer: a de um Chile socialista por via democrática. Quando tudo aconteceu, eu tinha 18 meses de vida e mal sabia balbuciar meia dúzia de palavras. Mas a memória dos outros, essa, não a esqueço (vejam as histórias terríveis que o indispensável Cruzes Canhoto compilou). Os mais de 3000 mortos e desaparecidos, na sequência do golpe perpetrado por Pinochet (com o apoio explícito da CIA e da Administração Americana), não valem mais nem menos do que os 3000 mortos de Nova Iorque, há dois anos. Com uma subtil diferença: as pessoas que morreram nas torres do World Trade Center foram vítimas tragicamente aleatórias da demência terrorista –não perderam a vida por serem "americanas" (de resto, muitas delas nem sequer o eram), mas porque estavam no lugar errado na hora errada –, enquanto as vítimas do general Pinochet foram assassinadas por serem comunistas ou simpatizantes da União Popular. É uma subtil diferença, mas nesta subtileza está talvez o antídoto para todos os relativismos.

 
11/09/2001. Eu vi o que as televisões mostraram, como toda a gente. As torres em chamas, os corpos lançando-se no vazio, as cabeças dos transeuntes voltando-se para o alto, para as labaredas alaranjadas, sem perceberem porquê. Antes das discussões e das polémicas e das picardias esquerda/direita (com assobios ou sem assobios), quero dizer que não me esqueço das torres a ruir, não me esqueço do manto de cinza e morte que caiu sobre Nova Iorque naquela manhã, não me esqueço das 3000 vítimas, não me esqueço do som mais terrível que ouvi em toda a minha vida (o som dos corpos a esmagarem-se contra o chão). Não me esqueço. Ponto final. Silêncio.

10.9.03
 
11 DE SETEMBRO. Amanhã, escreverei sobre o Chile e sobre o que se passou há dois anos em Nova Iorque. Confesso: não tenho lá muito jeito para assobiar.

 
ASSOBIOS. Escreveu Pedro Mexia, no Dicionário do Diabo: «Aqui fica a previsão: na quinta-feira, 11 de Setembro, a esquerda vai assobiar para o ar e evocar o Chile». Eu sou amigo do Pedro e gosto (quase sempre muito) do que ele escreve, mesmo quando discordo das suas ideias. Às vezes, o Pedro deixa-se levar pelas palavras, pela retórica, pelo efeito sonoro de uma atoarda ou pelo secreto prazer, já tão glosado, do upgrade/downgrade. Trocado por miúdos, o Pedro às vezes excede-se e consegue ser tremendamente injusto. Foi o caso deste post infeliz, merecedor (ele sim) de sonoras assobiadelas.

 
SOBRE RIEFENSTHAL. Morreu Leni Riefensthal, um dos artistas mais sobrevalorizados de todos os tempos. É verdade que a senhora que privou de perto com Hitler (embora se escandalizasse quando a confrontavam com o seu passado nazi) sabia filmar, compor planos, respeitar a geometria. Mas daí a considerá-la um «génio maldito» vai um grande passo. «A Luz Azul» é um filme menor, «O Triunfo da Vontade» uma seca interminável (sem deixar de ser solene e imponente), fotos como as dos Nuba existem às pazadas nos arquivos da National Geographic e a última obra («Impressões Debaixo de Água») é uma intragável pepineira sub-Cousteau, com música de elevador do Giorgio Moroder. Salva-se «Olympia - Os Deuses do Estádio», se despido da retórica racista e enquanto precursor da linguagem televisiva utilizada na cobertura de grandes eventos desportivos. Os planos dos saltadores para a água são magníficos, admito, mas nunca chegariam para conferir, fosse a quem fosse, um lugar na História do Cinema. O «Leninismo» exacerbado de grande parte dos críticos de cinema, mesmo quando o temperam com as ambiguidades do binómio estética/ética, é daqueles mistérios que não arranjo forma de compreender. Objectivamente, Riefensthal foi uma artista mediana, com muito mais panache do que talento. Foi alguém que soube fazer da sua vida uma ficção, uma falsa ingénua de ego descomunal e frieza clínica, a arquitecta laboriosa de uma mistificação, de um logro. Abram os olhos, por favor. E guardem os elogios póstumos para quem os merece.

 
SIMÉTRICOS COMO ÁGUA E AZEITE. Eis um forte candidato a disparate do mês: «Riefensthal e Eisenstein são apenas dois exemplos cimeiros, e simétricos, da relação conflitual entre o génio criativo e o totalitarismo» (José Manuel Fernandes, in Público).

 
UM POST ALHEIO. Na caixa de correio electrónico, recebemos a seguinte mensagem: «O SALMOURA é um blogue pouco visitado onde cabem protestos que ficam limitadíssimos na sua pretensão de "gritar alto". É por isso que recorro mais uma vez aos meus amigos do Blog de Esquerda, pedindo-vos que me arranjem um espacito onde eu possa clamar contra esta injúria que a comissão de inquérito à queda da ponte pedonal do IC19 nos fez a todos, cidadãos responsáveis deste país».
Aqui fica o «espacito», cedido com todo o prazer:

A TOTAL DESVERGONHA. Ontem os crânios da comissão encarregada de fazer o inquérito à queda da ponte pedonal do IC19 veio apresentar ao público o seu relatório final. Para concluir que:

a) Só depois de a estrutura ter caído é que foi possível detectar as suas fragilidades.

b) Só depois da queda de outras estruturas semelhantes (ainda de pé) é que saberemos se são frágeis ou não.

É o mesmo que um médico dizer a um doente: você sente-se doente? olhe, meu amigo, deixe-se estar porque só depois da sua morte, depois da sua autópsia, é que saberemos o que é que o senhor tem e concluiremos que tratamento deveríamos fazer-lhe agora.
É a demissão total dos técnicos no que diz respeito à sua capacidade diagnóstica. Que devem ter. Que são obrigados a ter. Que têm certamente. Mas que recusam usar para não apontarem QUEM são os responsáveis pela tragédia.
Até parece que quando são nomeados os inquiridores a primeira coisa que lhes dizem é: vejam lá como é que fazem isso de forma a que não existam culpados.
Este é mais um inquérito à portuguesa, que descredibiliza os engenheiros civis portugueses, envergonha a nação e nos garante, preto no branco, que estamos na república das bananas, onde uma minoria de gestores (certamente não laranjas e competentíssimos), escolhida a dedo, põe e dispõe do poder que lhe confere o governo, num regabofe de gestão tão intolerável quanto obsceno, impune e achincalhador da inteligência dos cidadãos.
Infelizmente, este ainda não deve ser o grau mais baixo da desresponsabilização em Portugal. Estejamos atentos. É que há mais vinte e tal estruturas semelhantes espalhadas pelo país fora.
(Agnelo S. Monteiro)

 
BARNABÉ. Como prometi, uso aqui a casa que me viu nascer para fazer publicidade ao blogue que eu e cinco amigos – o André Belo, o Rui Tavares, o Celso Martins, o Pedro Oliveira e a Rosa Pomar – demos à luz. Chama-se Barnabé, já está no ar e inspira-se naquele que, em 1972, quando chegava toda agente arribava, quem tinha ouvidos ouvia, quem tinha pernas dançava. Publicidade enganosa? Talvez. Mas a publicidade não é sempre enganosa?
Por fim, agradeço ao Zé Mário o seu post. Imerecido. É mesmo. Digo eu que não sou o rei da modéstia. Prometo uma coisa: se faltar o dinheiro, se o divórcio for inevitável, faço como todos os abandonados: volto a casa dos pais, para jantar e ter companhia.
(Daniel Oliveira)

9.9.03
 
SÍNDROME DO NINHO VAZIO. Aqui no BdE, como já terão reparado, somos uma família. O Daniel explicou-o exemplarmente no post anterior e a emoção da despedida (mesmo tratando-se, na prática, de um «até já») impede-me de entrar em mais considerações, até porque poderiam resvalar – sei-o bem – do lirismo para a lamechice. Somos uma família (às vezes no sentido literal do termo) e isso é que importa. Fazemos, cada um à sua maneira, com estilos e ritmos diferentes, em escrita normal ou em itálico, esta coisa multiforme (às vezes amena, às vezes agressiva; às vezes cultural e contemplativa, às vezes ideológica e questionadora) que é o Blog de Esquerda.
Colaborador quase desde a primeira hora, o Daniel Oliveira foi talvez o mais regular, interventivo e polémico dos itálicos. Nós gostávamos disso. De sentir as ondas de choque provocadas pelos seus textos, pelas suas diatribes, pelas suas provocações. Ele também. Conversador incansável, o Daniel exerceu neste blogue aquela que é sem dúvida uma das suas actividades preferidas: discutir. Isto é, trocar ideias, esgrimir argumentos e pôr tudo em causa, com desassombro, com empenhamento total, com aquela determinação que nos move quando pensamos ter razão. Esta atitude valeu-lhe uns quantos ódios pessoais, várias querelas com outros blogues e uma incómoda "coroa de glória": ter precipitado o fim da Coluna Infame. Se um dia se escrever a História da Blogosfera em Portugal, o seu nome estará lá também por isso. Mas sobretudo, esperamos nós, por ter sido um blogger honesto e brilhante. Primeiro, no BdE. A partir de agora, noutro blogue que promete tornar-se um lugar de referência para o pensamento da esquerda na internet.
Como todos os "pais" que amam os seus "filhos", vamos sentir a falta do Daniel. A casa vai ficar mais vazia. Mas outros itálicos hão-de surgir, para preencher (de maneira diferente) o seu lugar. O Daniel não se afasta, muda só de paisagem. E ele sabe que pode sempre voltar, que nunca será uma visita. Tem talher à mesa e o quarto nas traseiras, mantido tal e qual.

 
SAÍDA DE CASA. É sempre assim: dão-nos casa, comida e roupa lavada e um dia, sem mais, abandonamos a casa dos pais. Ingratos, é o que somos todos. É assim que me sinto com o Zé Mário e o Manel. Impecáveis, foi o que foram sempre. Leais, amigos, disponíveis, pacientes. Andei aqui pela casa deles, parti a louça, fiz estragos, e cá estavam eles para pagar a conta e dizer bem do seu filho. E como pago eu? Monto casa nova. Isto dos blogues meteu-se-me nas veias e agora não quero parar. Juntámo-nos seis amigos e vamos fazer um blogue novo. Parto como parte um filho: com boas recordações, vontade de montar casa própria, muito agradecido e esperando que, de vez em vez, me deixem fazer uma visita a casa dos pais. O primeiro blogue continuará sempre a ser este, o meu blogue-mãe, o meu blogue-pai. Quanto à nova casa, darei notícias daqui a nada. Mais um canhoto. Heterodoxo e plural, mas canhoto. Serei lá, como aqui, o radical de serviço. Que a minha partida seja saudada por muitos dos comentadores que sempre me brindaram com atenção, mesmo que nem sempre a mais carinhosa. Gosto deles. E como a blogosfera é uma grande casa, provavelmente só mudo de divisão. Obrigado Zé Mário, Manel e camaradas itálicos. Até já. (Daniel Oliveira)

 
O FIM DEFINITIVO DO AMOR À CAMISOLA. Confesso: a notícia deixou-me triste. O F. C. Barcelona e o Athletic Bilbao, únicos clubes da Liga espanhola que não exibiam publicidade nas camisolas das respectivas equipas de futebol, cederam à pressão económica e ao som dos euros a tilintar na máquina registadora. A partir desta época, também os bascos e catalães anunciarão marcas de electrodomésticos, de cerveja ou de telemóveis, ou do que o patrocinador mais endinheirado quiser promover. Isto é, deixarão de ser, uns e outros, «mais do que um clube». Tenho pena. O romantismo, no mundo do pontapé na bola, já andava pelas ruas da amargura. Agora morreu de vez.

 
EU GOOGLO, TU GOOGLAS, ELE GOOGLA. Nasceu há precisamente cinco anos, impôs-se em menos de nada. Sim, hoje já não conseguimos procurar agulhas no palheiro sem passar por aqui.

 
RER, LINHA B. Antes da bifurcação que nos levaria a Antony (e ao Orlyval: última etapa a caminho do aeroporto), o comboio acelerou. Sem parar nas estações, endiabrado sobre os carris (como se fosse TGV e não RER), ganhou alento e velocidade, transformando a paisagem suburbana, de árvores junto à linha, prédios, viadutos e outdoors, numa espécie de borrão indecifrável. Foram cinco minutos de correria à solta, talvez menos. Mas dentro do avião, duas horas depois, ainda era naquele ímpeto que pensava.

 
PÈRE LACHAISE (2). Junto ao túmulo de Jim Morrison, uma pequena multidão acendia velas, riscava mensagens no jazigo do lado («Jim is not dead») e fumava charros, como se o líder dos Doors estivesse ali: vivo, rouco, bêbedo e capaz de prolongar, décadas após a morte, a frágil substância do seu mito. Mais acima, no talhão do PCF (a dois passos dos memoriais dedicados às vítimas dos campos de extermínio nazis), sem vivalma por perto, a campa de Paul Eluard. Campa discreta, em granito, sem epitáfio. Na terra onde o corpo do poeta se transformou em pó, um arbusto, flores precárias. E um papel rasgado, ilegível, preso com uma pedra. Ainda agora recordo o vago contorno daquelas letras perdidas, letras incompletas (uma carta? um poema?) que a chuva desbotou.

 
PÈRE LACHAISE (1). Tarde cinzenta, chuva miudinha, asfalto a reflectir fachadas. Entramos no cemitério das celebridades, em silêncio, sem mapa. À deriva por entre campas, mausoléus, jazigos. Estranha sensação esta, a de subir e descer veredas, contemplando nomes que o tempo devorou, vaidades e sonhos de grandeza enegrecidos pela pátina, lápides com apelidos sonantes jazendo na terra húmida, partidas. Cidade dos mortos, cidade morta, ilusão de pedra.

8.9.03
 
DEBATE PROUSTIANO. Na próxima sexta-feira, dia 12, pelas 21 horas, a FNAC de Almada acolhe um debate, moderado pela escritora Dóris Graça Dias, sobre a recente edição dos dois primeiros volumes de «Em Busca do Tempo Perdido» (Relógio d'Água), o fabuloso roman-fleuve de Marcel Proust. O convidado principal é Pedro Tamen, poeta e responsável pela tradução da obra, além de magnífico conversador. Fica a informação para os nossos leitores mais literatos, com uma vénia à sempre atenta e prestimosa Helena Ayala Botto.

 
CANAL 18, UMA CONQUISTA DE ABRIL. O JPH, da Glória Fácil, deu o mote e fez-me ganhar coragem. Já tinha ouvido, há muito, o Eduardo Cintra Torres bramar contra o facto de haver pornografia em sinal aberto na TV Cabo. Foi a sua cedência à Irmã Barroso. Os filmes porno do mítico canal 18 davam depois da meia-noite, sem que as criancinhas pudessem alcançar cedo demais o conhecimento, não digo emocional, mas anatómico indispensável para o começo das suas vidas. O governo fechou-lhe o sinal.
O canal 18 era quase uma conquista de Abril chegada tardiamente. Era a pornografia para o povo. As mulheres tinham cores mais berrantes, unhas pintadas com menos aprumo, cabelos menos sedosos, será tudo verdade. Os homens eram mais anafadinhos, está certo. Mas era um serviço público que se prestava àqueles que, não sendo pornodependentes – esses compram uma box para descodificar os mistérios do sexo –, podiam, de vez em vez, ter algum contacto com os últimos gritos (espanhóis) do sexo anti-tântrico. A globalização capitalista, que tudo privatiza e é incapaz de compreender o papel social da televisão, acabou com essa possibilidade. Restam-nos os fugidios anúncios da RTL, uns minutos diários de SIC Radical e, como bem notou o Mexia, a imagem dantesca de Reinaldo Serrano e João Jardim em tronco nu. É sempre assim: no fim, os pobres é que se lixam.
(Daniel Oliveira)

 
BACK ON THE ROAD. Nos últimos 10 dias, como terão reparado os leitores mais fiéis, o ritmo de publicação deste blogue afrouxou um pouco. Duas razões concorreram para este facto: as minhas férias em Paris, em repouso (quase) absoluto no que à internet diz respeito, e o trabalho árduo do meu irmão em Lisboa, pesquisando nos arquivos materiais para a sua tese. Por uma vez, houve dias de interregno, pausas, silêncios prolongados. Não foi de propósito. Aconteceu. Agora que estou de volta à cidade e à minha vida de todos os dias, o blogue regressa ao "modo normal". Quanto às novidades que o Manel anunciou, essas estão cada vez mais próximas (sim, J, lá estamos nós outra vez a recorrer às técnicas de teasing...).

 
A MÁ-FÉ DE JPP. Pacheco Pereira tem três coisas que realmente me irritam: é, do ponto de vista argumentativo, estruturalmente desonesto, tem dificuldade em ser interactivo no debate e não tem, aparentemente, passado. Vamos por partes.
É estruturalmente desonesto porque monta uma argumentação baseada em fragmentos de factos sem nenhuma preocupação que seja externa à sua própria argumentação. Usa o mesmo tipo de estratégia de Marcelo Rebelo de Sousa na TVI: escolhe, à medida, a “realidade” que lhe interessa para a argumentação que se segue. Todos nós fazemos de alguma forma este exercício. A diferença é que, se somos intelectualmente honestos, abrimos portas no corredor que desenhamos. Contamos com a possibilidade do erro e estruturamos argumentações paralelas. Nelas contamos com as contradições a que todos ou quase todos os factos nos podem levar. Contamos com o contraditório do debate e preparamos respostas para as dúvidas que saiam do nosso estrito desenho argumentativo. Pacheco Pereira não faz nada disto: debate sozinho e constrói arranha-céus sobre premissas de papel.
Esta estrutura argumentativa fechada – curiosamente, muito comum na tradição da extrema-esquerda – leva-o a um autismo argumentativo. Apesar de ter explanado enormes elogios a este meio – a blogosfera – é incapaz de viver com a sua maior riqueza: a interactividade no debate. Escolhe os argumentos dos seus interlocutores como cábula para o seu discurso. Não debate realmente com os outros.
No meio do seus “debates” sobre a esquerda, o factor memória está completamente ausente. Num exercício que só a psicanálise poderia explicar, JPP nunca se questiona a si próprio: nunca faz um balanço sobre o seu percurso e sobre o papel que esse percurso tem nas suas actuais posições. Por mim, desconfio de quem se apaga das fotografias.
Diz JPP num post recente que «o PSR é um partido fundamental do BE não só pela figura mediática do seu dirigente Louçã, como pela influência dos seus temas alternativos na conquista de influência junto dos intelectuais e dos jovens».
No seu post, JPP não diz tudo. Não diz que deram origem ao BE quatro organizações e não duas e que elas têm histórias diferentes. Não diz que a maioria dos militantes do BE não são oriundos de nenhuma destas organizações. Se é verdade que algumas causas vêm directamente da tradição PSR – sobretudo das suas especificidades menos trotsquistas – não é menos verdade que o BE construiu um discurso próprio que só muito dificilmente pode ser enquadrada na tradição da extrema-esquerda portuguesa. Como é que JPP resolve este facto indiscutível? Com processos de intenção. Trata-se de «um enorme esforço para criar um ecrã interpretativo e para esconder todo um aspecto da actividade dos seus amáveis e simpáticos líderes, que é sistematicamente deixada fora da atenção pública porque não dá jeito». Ou seja, JPP faz aquilo que acusa o BE de fazer: atira para o lixo parte das características programáticas do BE – considerando que são apenas uma máscara – e decide quais são as fundamentais para não ter que tirar daí as devidas ilações. Porque lhe dá jeito. Porquê? Porque isso o obrigaria a aceitar o inaceitável: que o seu percurso político não é o único possível para quem vem da extrema-esquerda.
Depois vem um fastidioso enumerar de trechos dos Estatutos e do Manifesto do PSR que pouco mais do que evidenciam que um razoável amadorismo de JPP sobre a matéria, que mesmo no bê-á-bá vai escondendo o fundamental. Ivan Nunes teve a paciência, e bem, de responder a JPP sobre esta matéria.
Não sou nem nunca fui trotskista. Mas acho extraordinário que um ex-maoista e ex-estalinista faça o perfil histórico dos trotskistas, passando ao lado do seu papel fundamental no combate à violência ditatorial e aos crimes estalinistas que o próprio JPP defendeu.
Ficamos a saber que JPP tem especial conhecimento da fase muito jovem de Trotsky. Diz JPP que o «pensamento de Trotsky» é «uma das variantes mais radicais da história do comunismo no século XIX». Trostky ganhou alguma relevância política a partir de 1905. Mas é normal que JPP não saiba. Quando e onde se introduziu no comunismo, Trotsky não aparecia nas fotografias.
(Daniel Oliveira)

 
RENTRÉE. No regresso das férias, os leitores franceses depararam-se com uma avalanche editorial: 691 novos títulos de ficção (e outros tantos de outros géneros, como o ensaio). Sim, eu sei. Muitos destes romances, novelas e narrativas (de todas as formas e feitios) não terão o mínimo interesse. Muitos serão simples variações, mais ou menos sofisticadas, do que por cá se chama literatura light. E mesmo os outros, os sérios e bem urdidos, suspeito que não resistirão sequer até à próxima rentrée, quanto mais à famosa prova do tempo (e a essa quimera: a posteridade). Ainda assim, caramba, são 691 livros acabadinhos de sair das gráficas; 691 volumes com capas elegantes, bom papel, milhares de palavras negras em fundo branco; 691 hipóteses de fulgor literário, de invenção, de potencial génio; 691 tiros no escuro que podem atingir, quem sabe, lá no coração das trevas, uma qualquer forma de verdade ou de beleza. Como já assinalou JPP, a pujança editorial francesa não vale por si só. É a velha história de que a quantidade não equivale à qualidade. OK, até aí estamos de acordo. Mas, caramba (deixem-me repetir o caramba), são 691 livros. O número pode não querer dizer tudo, mas sempre diz alguma coisa.

 
SAINDO DE CASA. Espreito as primeiras páginas da imprensa (no quiosque), oiço buzinadelas na Praça do Chile, bebo uma bica por 45 cêntimos. Já tinha saudades.



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