BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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7.9.03
 
CASA. Não sei exactamente quando é que temos a certeza absoluta de que regressámos. Se é quando pomos os pés em terra e vemos outdoors da Sagres; se é quando telefonamos à família para dizer que está tudo bem; se é quando ouvimos uma música pimba no táxi (conduzido por um homem que nos garante ser polícia na reserva e que ainda traz por baixo do banco − «isto nunca se sabe, amigo» − um cassetete). Talvez seja em cada um desses momentos. Ou então apenas quando metemos a chave à porta, pousamos as malas, acendemos as luzes e olhamos para as coisas que ficaram, suspensas, à nossa espera: os livros, os jornais de há 15 dias, os panos da loiça, as cartas do banco, a flor um pouco mais seca do que da última vez. Despimos o casaco, ouvimos as mensagens no atendedor de chamadas, espreitamos o pátio onde os vizinhos ucranianos costumam estender a roupa e jogar às cartas noite dentro. Há, não consigo dizê-lo de outra maneira, uma espécie de silêncio sobre as coisas. Um pudor de redescobrir o mundo que sabemos nosso. Mas depois, aos poucos, voltam os sons habituais: o esquentador, a água nos canos, o rádio em FM. E sentimos que a casa acorda para nos receber. Talvez seja esse, afinal, o momento em que temos a certeza absoluta de que regressámos.

 
INVENTÁRIO. Eis algumas das coisas materiais que trago de Paris (das outras falarei nos próximos dias):

- revistas e jornais franceses
- os oito livros que levei de Portugal (só li dois e 1/2)
- roupa suja
- dois DVD's («Kagemusha», de Akira Kurosawa; «Rio Bravo», de Howard Hawks)
- menos pasta de dentes, menos espuma da barba, menos perfume
- algumas migalhas de proveniência incerta (talvez daquelas sandes de Roquefort, para o piquenique no Parque de Bagatelle)
- um chapéu de chuva comprado a um homem oriental, junto à Ponte de Tolbiac, num dia de súbita borrasca
- dois CD's (as cantatas «Membra Jesu Nostri», de Buxtehude, por René Jacobs; mais o quinteto de cordas de Bruckner, pelo Melos Quartett e Enrique Santiago, violetista)
- Algumas prendas para os amigos
- 14 volumes das «obras-primas para o tempo de uma espera, de uma viagem, de uma insónia...» da editora Mille et Une Nuits
- um plano do Musée de Orsay
- vários postais cinéfilos (nomeadamente aquele em que a Jean Seberg aparece, a sorrir, sentada ao pé de um Jean-Luc Godard muito novo e de óculos escuros − a fotografia é de Raymond Depardon)
- uma Carte Orange com um selo cuja validade só termina amanhã
- um cartaz do «Jules et Jim» e outro do «À Bout de Souffle»
- a certeza de que a felicidade é possível

 
MADRID/LISBOA. Vou resumir outra vez tudo numa frase. Digam o que disserem, a TAP ainda é uma companhia aérea digna desse nome.

 
«SENHORES PASSAGEIROS, DENTRO DE CINCO MINUTOS INICIAREMOS A DESCIDA PARA LISBOA». Lá em cima havia uma luz irreal (dourada e vermelha, primeiro; quase lilás, depois), havia cúmulos-nimbos com formas perfeitas, o céu com a transparência escura que antecede a noite, o ruído dos motores a garantir o incrível milagre do voo. Eu sentia, na palma suada das tuas mãos, nos olhos muito abertos, nos gestos tensos, o medo − essa coisa inexplicável, irracional, mais forte do que a lógica e do que a vontade. O medo. Ou o pânico de ter pânico, chama-lhe o que quiseres. Disse-te: «já passa». Tu encostaste a cabeça ao meu ombro, fechaste os olhos e o avião mergulhou nas nuvens (cá em baixo: o rio, a Ponte Vasco da Gama, as primeiras luzes acesas na cidade). «Já passa», disse-te. E passou.

 
PARIS/MADRID. Vou resumir tudo numa frase. Overbooking, mau atendimento dos passageiros, sandes manhosas, jornais só para a classe executiva, check in a dois tempos, falta de indicações no labirinto de Barajas: a Iberia arrasta-se e arrasta-nos (como se fôssemos gado).

6.9.03
 
DIRECTAMENTE DA HORTA. Além de ser um lugar para a cultura, para os livros, para as conversas noite fora, para as músicas que não se ouvem em mais lado nenhum, para as discussões políticas e ideológicas (cada vez mais raras, logo mais necessárias), para os ciclos de cinema que "não são cinema" e para as reuniões de pessoas com vontade de fazer coisas que fujam à lógica economicista dominante, a Abril em Maio também já foi um lugar onde se podiam comprar, em certos dias, todo o tipo de produtos naturais. Agora, esse costume está de volta ao Regueirão dos Anjos, com as "vendas de biológicos & caseiros" no primeiro sábado de cada mês (15 horas). Esta tarde já houve "exposição" de legumes, ervas, frutas, doces, azeites, vinagres e aguardentes, entre outras iguarias. Estejam atentos, amigos. E aproveitem.

5.9.03
 
JPP, MEDIA, BE E NEO-NAZIS? Instalou-se na blogosfera um debate sobre uma suposta simpatia da imprensa por uma suposta extrema-esquerda chique. O debate faz-me lembrar um outro, nos EUA, em que os ideólogos da direita americana desfizeram-se em prosa para combater um suposto domínio dos liberais nos media. Para desmontar essa ideia peregrina, aconselho “What Liberal Media? The Truth About Bias and the News”, de Eric Alterman.
Em Portugal, não podemos ignorar as tendências esquerdistas de António Ribeiro Ferreira, José Manuel Fernandes, José António Saraiva, Luís Delgado e Inês Serra Lopes. Dirá José Pacheco Pereira que todos os directores de quase todos órgãos de informação serão a excepção que confirma a regra. Imaginemos que sim. Mas que facto extraordinário terá levado a que a excepção fosse sempre promovida a director e a regra se ficasse pela redacção?
“Fica de fora desta controvérsia a questão de fundo sobre se é comparável a extrema esquerda e a extrema direita, suscitada em perguntas como esta do Terras do Nunca - "se se podem fazer equivaler, por exemplo, as posições neo-nazis às de partidos parlamentares como o BE"?.-, porque a resposta implica todo um outro debate , a que voltarei noutra altura. Devo desde já dizer que, formulada a questão doutra maneira, a minha resposta é sim.”
Quem o escreveu foi também JPP. E há coisas que não se dizem sem se explicar. Ser de extrema-direita ou de extrema-esquerda, já o disse aqui, é um tipo de definição ideológica não operativa. Depende do lado de que se está. É extremo o que está longe de nós. Para mim o PP é de extrema-direita. Para Pacheco Pereira ou Paulo Portas o BE será de extrema-esquerda. Para Francisco Martins Rodrigues será de centro. Outra coisa bem diferente é falar de neo-nazis. A comparação ultrapassa os limites do insulto e é uma acusação que se explica logo, não se deixa para melhor oportunidade.
O nazismo tem poucos paralelos na história da humanidade: o extermínio metódico por razão de raça ou religião, a violência enquanto discurso ideológico e a negação dos mais básicos princípios que moldaram a cultura Ocidental atingiram nesse fenómeno um tal grau de abjecção que comparar seja quem for a esse movimento ideológico é o mais grave dos insultos políticos.
Nem a comparação entre estalinistas e nazis faz sentido, quanto mais a comparação com o Bloco. Sendo um anti-estalinista convicto e revoltando-me com todas as teorias negacionistas ou desculpabilizantes dos crimes estalinistas, não preciso de recordar Pacheco Pereira que há diferenças impossíveis de negligenciar entre o estalinismo e o nazismo. Mas não vale a pena ensinar o “Pai Nosso” ao vigário. Sobre essa matéria, JPP é catedrático.
Aguardo, por isso – não é segredo que sou dirigente e militante da “extrema-esquerda chique” – explicações sobre a comparação entre os nazis e a esquerda radical. Não para debater. Há debates que são só por si um insulto. Só para perceber se Pacheco Pereira se considera a si mesmo comparável a um ex-nazi.
(Daniel Oliveira)

 
CHIEN DE GARDE. O simpático Cão de Guarda "cedeu-nos" este post, sobre um filme ainda pouco acessível em Portugal, mas que o Zé Mário já viu e de que, se bem me lembro, gostou. Nós aproveitamos para recomendar a todos uma visita ao cachorrinho, que nos escreve do outro lado do atlântico e que pôs a pata na blogosfera, discretamente, em plena "canícula" de Agosto. Que seja muito bem-vindo e que ladre (e morda!) à vontade.

11'09''11 - SEPTEMBER 11.
11'09''01 é uma manta de retalhos cinematográfica. São 11 produções independentes, cada uma com a duração exacta de 11 minutos e 09 segundos. Relata-nos 11 visões diferentes sobre o mesmo acontecimento: o 11 de Setembro. Mostra-nos a sua relativa importância junto de um grupo de crianças afegãs refugiadas no Irão; ou ainda, o impacto que teve junto de membros da liga das mulheres de Sebrenica, na Bósnia-Herzegovina.
É cómico - e trágico - quando retrata a aventura de cinco rapazes à procura de Bin Laden, que julgam ter visto a passear-se pelas ruas da sua cidade natal, no Burkina-Faso.
Dá-nos a conhecer um manifesto político sobre liberdade e justiça, através de uma carta escrita por um chileno - refugiado em Londres - ao povo americano, relatando os acontecimentos de terça-feira, 11 de Setembro, ... de 1973, no Chile.
É intensamente gráfico, no caso da produção mexicana.
Tem o seu expoente máximo através de Sean Penn: uma extraordinária metáfora sobre percepção e realidade. Sobre os mundos revelados pela luz projectada - com a queda das torres do World Trade Center - em sítios onde antes havia sombra.
Penso que em Portugal ainda só é possível vê-lo em festivais de cinema e vídeo. Mas vale a pena estar atento.


 
EX-SOREFAME (AINDA). Quem ainda se lembra de uns textos recentemente "blogados" sobre a problemática da Ex-Sorefame? Alguém? Ninguém? Para aqueles que leram e se lembram, aqui vai mais uma pequena achega que só vem comprovar tudo o anteriormente dito. Em Portugal, a Bombardier (Ex-Sorefame) vai reduzir o seu actual efectivo de cerca de 500 pessoas para 100. O actual Administrador vai ser substituído por outro da confiança da administração central - já não era sem tempo, até que enfim. Mais vale tarde do que nunca! (PP)


 
PORTAS. Novo, novo, só mesmo a Glória Fácil. Regressei de um mês de férias e tudo está na mesma. A Casa Pia continua a dominar a política nacional, o juiz Rui Teixeira continua a obedecer ao Procurador João Guerra e Paulo Portas continua a dedicar-se a performances retro. A propósito desta figura, escrevi um texto em “A Capital” que, como aqui já lamentei, é uma info-excluída. Aqui está:

Um homem predestinado
Não é um carreirista. Nunca se contentou com a busca de um lugar ao sol. Corre os riscos que correm os homens que se julgam predestinados. Acredita ter um encontro marcado com a história. E o seu destino, foi-o traçando sem olhar a meios, com tempo e sabendo sempre que na política só o medo é fatal.
Quando Paulo Portas fundou o “Independente” sabia ao que ia: desprestigiar uma direita de meias-tintas e derrubar o homem que se preparava para ocupar o lugar deixado vago por Sá Carneiro. Conseguiu. Portas foi mais eficaz que toda a oposição e Mário Soares juntos. Não poupou ninguém. Os homens predestinados não poupam. Mas o jornalismo não chegava para o destino que tinha marcado para si. Na finança, na comunicação social, fez os contactos certos. Não foram amizades. Os homens predestinados não têm amigos. Foram acordos. Teve quem o financiasse. Teve quem o promovesse. E foi calando sempre quem teve de calar.
Criou Manuel Monteiro, um vaidoso vendável e pouco sofisticado. Matou a criatura com a mesma facilidade com que a criou.
Portas morreu vinte vezes e a todas as mortes sobreviveu. Matou milhares de vezes e nenhuma das suas vítimas ficou para contar: Duarte Lima, Leonor Beleza, Manuel Monteiro, Maria José Nogueira Pinto, Jorge Ferreira. O cemitério de Portas é infindável. Paulo Portas alimenta-se dos pecados dos outros e como todos os homens predestinados, não tem medo da culpa, não cede ao remorso.
Politicamente, Paulo Portas sabe o que a mediocridade do centrão desconhece: que a esquerda ou a direita para conquistarem o centro têm de ter raízes fortes no lugar de onde vêm. Paulo Portas conhece a massa de que é feita a direita portuguesa e ressuscitou todos os seus fantasmas: a descolonização, a guerra colonial, a família tradicional, o aborto, a Igreja, a autoridade. Acredita no que diz? Pouco interessa. Como todos os homens predestinados, uma convicção está acima de todas as outras: o encontro que o espera com a história.
Na sua caminhada Paulo Portas deixou atrás de si um rasto aparentemente impossível de apagar. Na Moderna, no jornalismo, no CDS/PP. Mas não há missões impossíveis para os homens predestinados. Quem o subestimou, rapidamente aprendeu que Paulo Portas não é um aliado, é Paulo Portas. Chegado ao governo, esqueceu o que tinha de esquecer: os velhinhos reformados, os espoliados do ultramar, o nacionalismo anti-europeu. De vez enquanto faz um espectáculo revivalista: festeja Aljubarrota, inventa heróis para a direita. Mas são foguetes sem relevância.
No governo, Portas tem duas missões bem mais importantes. Uma é marcada pela necessidade: apagar o rasto que o incomoda. Controlar a justiça foi, para tanto, uma conquista imprescindível. Não sobra vestígio de mácula e até dá para salpicar de lama uns tantos, fazendo o trabalho sujo que o seu aliado, mais pudico, agradece.
Outra missão, é marcada pelo destino: desmantelar, uma a uma, todas as conquistas históricas da esquerda: a segurança social, os direitos laborais, o sindicalismo, o Rendimento Mínimo Garantido. Bagão Félix, uma piranha em água benta, é o homem ideal para o serviço. E, mais uma vez, também ele não está distraído com o escândalo que esfrangalha o maior partido da oposição e que tem o epicentro no seu ministério. Bagão Félix é mesmo dos pouco homens que Portas deve temer: é demasiado parecido com ele para ser seu subordinado.
Paulo Portas é um homem predestinado e o seu destino cruza-se com o destino da democracia portuguesa. Ela não será a mesma depois de Portas ter tido um governo como seu refém. A democracia portuguesa é frágil. Não está preparada para homens como Paulo Portas. Ele destruiu todos os acordos tácitos, as tácticas mansas, os códigos de conduta. Tem razão Mário Soares: extirpar este tumor que aos poucos vai matando a dignidade da política é um combate urgente.
(Daniel Oliveira)

 
NOTA DA REDACÇÃO. O BdE esteve parado dois dias, por razões várias que não vêm agora ao caso. Mas os nossos itálicos não ficaram à espera e temos alguns textos em atraso para postar. Entretanto, muito em breve, esta página vai registar mudanças consideráveis. Mantenham-se atentos.


 
L'AMOUR. Há coisas mais importantes (muito mais importantes) do que um blogue.

 
GREVES. A Vírgula está em greve há vários dias. O Manel, pelos vistos, também.

 
O SILÊNCIO. Por estes dias, o cibercafé da esquina está fechado. E isso nota-se.

2.9.03
 
PONT NEUF. Há pontes assim. Que merecem ser amadas pelos amantes.

 
DOIS ARCOS. Do Triunfo à Defesa, uma linha recta. E os arcos, um dentro do outro, à distância (se os olharmos a partir da Place de la Concorde). Como se a cidade pudesse resumir-se a um efeito óptico, um exercício de rigor geométrico e perspectiva.

 
MAPA. Olho para o mapa do Metro, para as linhas coloridas, e só consigo pensar em veias, em artérias. Lá no meio, secreto, um coração que bate.

 
JARDIN DES TUILERIES. Os jardineiros faziam corridas com os corta-relvas, namorados namoravam em cadeiras metálicas, uma menina de cinco anos colocava delicadamente o lixo no lixo, as estátuas encenavam terríveis sacrifícios mitológicos, o vento levantava-se fresco arrepiando a pele, as sandes de queijo Emmental souberam-nos a caviar, foquei-te antes do disparo da Nikon, o teu rosto tão perfeito e definido por baixo das nuvens prodigiosas.

 
SARTRE TINHA RAZÃO. Subimos as ruelas de Montmartre para comprovar o que eu já sabia. Junto ao Sacré-Coeur, centenas de pessoas. Na praça dos pintores (artistas medíocres à caça de euros), uma multidão. Circulam as gentes seduzidas pelo apogeu do turismo industrial e do mau gosto. «Oh! So tipical! Michael, take me a photo, honey.»
Sim, o inferno são os outros. Mas quando os outros mais parecem carneiros com máquinas fotográficas a tiracolo, a palavra inferno torna-se um eufemismo.

 
CINCO MINUTOS. Tenho cinco minutos para escrever aqui, no BdE. Uma coisa de fugida. Uma escapadela no ritmo lânguido das férias (passeios, exposições, livrarias, pontes, restaurantes, Metro e RER). Cinco minutos. E eu pergunto-me: quantos posts serei capaz de escrever em tão pouco tempo?

1.9.03
 
«RENTRÉE». Com o fim do mês de Agosto, chegam os comícios e a festa do «Avante!». Aqui no BdE, é o momento em que começam a voltar os itálicos "residentes". O Fernando Venâncio, o nosso cronista literário (do «Olha um livro!»), é o primeiro. E começa por nos oferecer mais um poema, acabadinho de fazer e em exclusivo.

O ARTISTA SECUNDÁRIO

Ele estava tranquilo, teclando.
A coisa até se pusera a sair bem.
Dvorčak passeava pelos cantos.
Lá em baixo, a toda a largura da vidraça,
como nos filmes, Nova Iorque apressava-se.
Era aquilo um poema? Os outros que dissessem.
Saga também servia. E, a insistirem,
prontos tá bem, romance. Contentes?
E, de repente, aquilo. O ecrã a negro,
silenciado ‘O Novo Mundo’, mais o ar condicionado.
Fizera ‘save’? Fizera? Não fizera.
Isto é um sonho. Tch, desta vez não tinha sorte.
Ai a minha vida. Cito também literalmente.
Vá, depressa, reconstituir isto, enquanto...
Mas, ai, agora no papel perdeu a graça.
Ai a minha vida. Já nem comento.
Pois, perdera-se tudo. Apagara-se
o grande texto fundador do século,
Como teriam dito, alvoroçados.
E dirão, por Zeus. Dirão. Mas de outro.
Que, nesse dia, andará feliz de enlouquecer.
Um artista secundário. Gandulos.
Acabam sempre por arranjá-lo.


(Fernando Venâncio, 31.8.2003)

 
A MENINA MEXILHÃO. Graças ao Pedro Vieira, continuamos a acompanhar neste blogue a vergonhosa saga do clientelismo camarário de Pedro Santana Lopes. Ora leiam.

Diário de Notícias - "Santana despede 'laranjinhas' da Câmara" - 14 Maio 2003

A Capital - "Santana Lopes admite afastar funcionários com ligação à JSD" - 14 Maio 2003

Público - "Santana Lopes despede contratados da JSD" - 15 Maio 2003

Expresso - "Santana demite jovens boys" - 17 Maio 2003

Por vezes, em sociedade e em política nem tudo é o que parece. Os títulos de periódicos que aqui transcrevi dizem respeito às convulsões que grassam desde o início do ano no Pelouro da Juventude da CML. Após o saneamento efectuado aos trabalhadores deste serviço em Janeiro último (alegadamente pela sua falta de perfil), foram colocados nos seus lugares destacados dirigentes da JSD-Lisboa, facto denunciado atempadamente por vários orgãos de comunicação social. Sob pressão pública, o presidente da edilidade Dr Pedro Santana Lopes (PSL) comprometeu-se publicamente em sessão de Assembleia Municipal a corrigir aquilo que se provou ser mais um caso de clientelismo político. E aqui chegamos aos títulos de jornal acima transcritos, alguém se lembra deles, ainda? Três meses passados sobre este compromisso, vem O Independente revelar que a vereadora-mexilhão - tal o seu apego ao cargo - Ana Sofia Bettencourt (ASB) não acatou as indicações do presidente da edilidade, mantendo os seus "boys" em funções. O clientelismo agradece, a Cidade de Lisboa deplora. Para quando um outdoor com a informação "Espero que tenha reparado. O compadrio e os favorecimentos políticos continuam na gestão camarária. Custo da obra - meia dúzia de cargos para rapaziada esforçada".

Diz também este semanário que ASB ameaça passar a vereadora independente e não aceita sair da CML, senão para um cargo que lhe interesse verdadeiramente. Gorada a saída para a CCR de Lisboa e Vale do Tejo por falta de "curriculum" (foi você que falou em falta de Perfil??), optou por continuar agarrada ao poder municipal. Nesta linha de ideias a sua formação em Turismo deve chegar e sobrar para tratar dos pelouros da Juventude e da Administração Geral, que trata apenas de todos os abastecimentos e aprovisionamentos da CML, assim como de todos os concursos públicos, toponímia, gestão de armazéns, etc, etc...quem foi o ingrato que retirou o pelouro dos recursos humanos a alguém tão qualificado?? Ao que parece, nem o enfant-terrible PSL tem mão nesta jovem promissora.

Como cereja no topo do bolo, é apresentado o projecto do novo gabinete de ASB na rua dos Fanqueiros. Neste assunto dou a mão à palmatória, pois não foi prometido em campanha eleitoral de os jovens de Lisboa teriam casa no Centro? A vereadora responsável pela área da Juventude deu o exemplo e, sob grande sacrifício pessoal, será a primeira a instalar-se no coração da Baixa Pombalina...Lisboa Feliz??
(Pedro Vieira - ex-funcionário da Câmara Municipal de Lisboa)



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