BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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24.8.03
 
PRAIA DAS FURNAS (VILA NOVA DE MILFONTES). A luz declina como uma flor cansada, o poente sobre o mar é puro Turner (nuvens abstractas, sol vermelho), as pessoas voltam aos carros com toalhas ao ombro e lancheiras vazias, um vento frio insinua-se sobre as dunas, chegam gaivotas em voos planados rente à areia, a escuridão ganha forma sobre o Mira, ouve-se ao longe o motor de um barco, piscam neóns de feira do outro lado do rio, as ondas prolongam ainda o ímpeto da maré, no céu bandos de aves em forma de V, a noite pousando as suas sombras sobre todas as coisas. A praia está agora deserta e nós espantados com a beleza evidente de tudo isto.

 
INCÊNDIOS E PROPAGANDA. Consigo já distanciar-me um pouco. Mas não deixo de ficar indignada. Sobretudo quando alguns meios de comunicação reduzem a questão dos incêndios aos pirómanos (também chamados de incendiários). Nas últimas semanas, parece-me que a "perseguição às bruxas" caiu bem demais às mentes prodigiosas que tentam ditar o "nosso destino" como sociedade. Senhores de colarinho branco aparecem na televisão, com o seu ar inquisidor, esfregando as mãos e dizendo: "já prendemos mais seis". Alguns jornalistas foram à cadeia entrevistar um pirómano e mostrar como ele é afectado psicologicamente. Alguém lá se lembrou de dizer que alguns pirómanos chamam os bombeiros nos minutos que se seguem ao atear da mata, pois o que desejam verdadeiramente é ouvir as sirenes. Que chocante. Tantos hectares por uns momentos de puro prazer. Outros lá se lembraram de provar que há bombeiros pirómanos e que montam empresas de apagar fogos. Mas quando eu já julgava a questão perdida, algo aconteceu e foi surpreendente. Um programa sobre as florestas que passou na rubrica «Planeta Azul», da RTP1. É grande a minha admiração e respeito pelos responsáveis de tal programa, pois penso que foi de grande isenção jornalística e de salutar rigor científico. As verdadeiras questões que devem ser colocadas e debatidas foram finalmente difundidas para a audiência da estação pública de televisão através deste programa.
Em primeiro lugar, a ausência de ordenamento territorial que resulta numa reflorestação apoiada em monoculturas, nomeadamente Eucalipto ou Pinheiro Bravo, ao sabor da vontade de cada proprietário-fantasma e sem fiscalização do estado.
Em segundo, a falta de regulamentação para a negociação de madeira queimada e que permite que a especulação desta dê mais lucro do que a especulação da madeira não queimada.
Em terceiro, a falta de meios de prevenção e combate de incêndios por parte do Estado, o que permite que empresas privadas ganhem muito dinheiro no combate aos incêndios.
Claro que há pirómanos, como sempre houve e haverá. Claro que houve um aumento da temperatura média e uma diminuição da humidade relativa no ar, tal como já houve em outros anos. E também é claro que há oportunistas com interesses em torno dos fogos. Mas pirómanos, alterações climáticas e oportunistas é algo que dificilmente poderemos evitar.
Oxalá a vida em estações espaciais ou a manipulação genética nos previnam do infortúnio que se afigura à nossa volta. Não. Não me parece que tais tecnologias nos tragam vantagens relativamente à preservação da biodiversidade e da liberdade que nos deve assistir para disfrutar da mesma! Agora, as questões referidas neste importante programa sobre as florestas e que urge serem resolvidas a curto prazo pela sociedade, essas sim podem inverter este triste rumo. Mas infelizmente essas continuam a ser adiadas na agenda política. Pela vontade de uns poucos. E pela preguiça crónica e falta de cidadania de uns tantos.
Antes de terminar, acho importante alertar para a questão da propaganda e de como ela é cada vez mais bem estudada e manipulada, de modo a que baste prenderem uns pirómanos para nos sentirmos logo mais seguros e serenos.
Tal como o Sérgio Godinho cantou em «Os sobreviventes» (1971; 1990):

«...A-A-E-I-O , vai para a neta o que foi da avó...»

«...A-A-E-I-O , bate na neta quem bateu na avó...»

Vivemos muito depressa, mas fazemos pouco por todos nós, não acham?
Ainda a propósito, comprei um livro do Noam Chomsky que se chama «Propaganda e Opinião Pública», onde ele é entrevistado por David Barsamian («... uma perspectiva sobre as instituições que condicionam a opinião pública ao serviço do poder e do lucro...»). Foi editado pela Campo da Comunicação, em 2001. Porque continuo a viver demasiado depressa, só ainda li partes curtas deste livro. Mas dá para vos dizer: caso o encontrem, comprem e leiam.
(Paula Tavares)

 
FAZ SENTIDO. Este verão, só encontrei todos os Magnum Pecados reunidos, da Preguiça à Luxúria, num único sítio: o quiosque da Olá na Boca do Inferno.

22.8.03
 
ALÉM-ATLÂNTICO. Nós já sabíamos, pelos registos das visitas, que uma parte considerável dos nossos leitores são brasileiros. Por vezes, alguns desses leitores escrevem-nos. E nós, na medida da nossa disponibilidade e da relevância dos temas, tencionamos publicar parte dessas contribuições. Como a do Jusoé Brito, já a seguir.

 
POLÍTICOS: A DESGRAÇA DO BRASIL. A redução do fundo de participação dos municípios tem levado prefeitos a reivindicarem esse repasse pois a arrecadação própria é insuficiente. A crise, segundo eles, acarretará demissões para reduzir custos, mas é importante observar que um grande percentual de custos está na falta de uma gestão responsável que não empregue parentes e apadrinhados com salários elevados, que as câmaras de vereadores e deputados não sejam privilegiados com mordomias como carros de luxo, auxílio para o paletó, auxílio para moradias, verbas para gabinete, tudo pago com dinheiro público a parlamentares que nem trabalham e têm direito a duas férias por ano ganhando um dinheiro extra numa convocação extraordinária, além do salário, enquanto um trabalhador comum tem direito a um só período de férias.
Não posso generalizar, porque há políticos conscientes e correctos, mas a grande maioria são mercenários, usurpadores, gananciosos, são eles que causam essa concentração de renda no Brasil. Enfim, esses prefeitos precisam olhar para suas cidades primeiro e acabar com essa disparidade, antes de só acusar o governo federal pelo não repasse das verbas como motivo para a pobreza nos municípios. Mas, também, a grande maioria dos prefeitos não são comprometidos com o bem-estar do povo e desviam dinheiro, muitos no Brasil são acusados de impropriedade administrativa. Esses políticos fazem as leis em benefício próprio. Eles são a desgraça do Brasil. Na verdade este país continua sendo uma capitania hereditária, comandada por oligarquias.
(Jusoé Brito)

 
AVISO. Na próxima quinta-feira, entro novamente de férias: 11 dias em Paris, para continuar os périplos de que fui dando conta, aqui, no princípio de Julho. Como sempre, tenho vários assuntos para resolver e trabalhos para concluir, mesmo até ao instante de entrar para o avião. Por isso, é provável que o ritmo dos meus posts se ressinta um pouco. Vou tentar manter o "débito" (como diz o Mexia), mas não prometo nada. A minha esperança é que os nossos vários itálicos saiam, finalmente, da sua mui prolongada e estival letargia.

21.8.03
 
OUTRO FESTIVAL. Entre Paredes de Coura ao vivo e Carlos Paredes em CD, opto por Carlos Paredes.

 
E NÃO SE PODE EXTERMINÁ-LA? Quando percebi que Paula Bobone respondia hoje, no DN, ao questionário de Proust, temi o pior. E os receios, claro, confirmaram-se. Esta senhora supostamente fina não é apenas oca e superficial, é também ostensivamente imbecil. Entre outras pérolas, a autora de Socialmente Correcto afirma que a sua maior desgraça seria «perder a agenda», que o seu pássaro preferido é a «borboleta» (sic), que a música de Sibelius lhe desperta «bons sentimentos» e que gostaria de morrer «num trono doirado com anjinhos à volta, ouvindo canto gregoriano, vestida de Chanel, bebendo Coca-Cola» (OK, esta deve ser irónica). Além disso, ainda admite duas ou três coisas prodigiosas: que o seu sonho de felicidade era «ver Lisboa limpinha e arranjadinha» (como no tempo de Salazar, não é, Paulinha?), que o que mais aprecia nos seus amigos é que lhe telefonem (!!!) e que tem «pena dos inferiores». Assim mesmo: «pena dos inferiores». Quem é que se oferece para juntar um pouco de estricnina à próxima flûte de champanhe da madame?

 
REGRESSO A VGM. Vasco Graça Moura, numa das suas crónicas do DN (13 de Agosto), tem a meu ver só metade da razão. Ele só fala a jusante, a geração que tinha 10 anos no 25 de Abril de 74. Esqueceu-se de falar da que está a montante, a que tinha a sua idade na mesma altura, a meu ver a que tem a responsabilidade da situação actual. O "elevador social" antes do 25 de Abril era elitista, depois democratizou-se, massificou-se. E bem, afinal foi para isso que se fez a revolução. O problema foi a falta de avaliação, de estudo, de competência, para seriar os melhores. Em vez disso, usou-se o canudo, obtido sabe-se lá como, e o cartão do partido no poder. Assim nunca houve uma selecção justa, transparente, democrática, antes imperou a cunha, o compadrio, os favores, exactamente como antes do 25 de Abril, mas agora de forma "democratizada". Como podem professores que não sabem reflectir, ensinar os seus alunos a pensar? Como podem fazer boas leis os deputados que sabem mais de futebol do que dos dossiers importantes e vitais para o país? E os políticos que chegam à governação, que provas deram? Onde estão as escolas sérias e a sério de Ciências Políticas e de Administração Pública, com forte exigência humanista e técnica? Apesar destes educadores que tiveram a desGRAÇA de ter, na geração que tinha 10 anos no 25 de Abril ainda há muitos que com trabalho e estudo, lutando contra as dificuldades geradas por esta sociedade iletrada, são excelentes. (Vítor Dinis Silva, aka Pai Itálico)

 
GLÓRIA (AINDA MAIS) FÁCIL. Se o Glória Fácil já era o blogue do momento - uma espécie de improvável joint-venture, capaz de unir alguns dos mais brilhantes jornalistas do DN e do Público (união impossível no mundo "real") -, agora arrisca-se a rasgar os céus da blogosfera. Desculpem lá, mas "contratar" Ana Sá Lopes, talvez a melhor cronista do diário onde também escrevem Maria José Oliveira e João Pedro Henriques, parece-me um exagero, uma provocação, uma crueldade. É como se o Sporting fosse buscar o Zidane. Não é justo para os outros. Não é justo para nós. Agora percebo a escolha do nome. Assim, chegar à Glória não é fácil. É facílimo.

PS: O JPH respondeu exemplarmente às acusações (previsíveis) dos blogues de direita, no rescaldo do atentado à sede da ONU, em Bagdad. O post intitula-se «Luso-papagaios». Só para que conste, eu assino por baixo.

20.8.03
 
UMA EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA PARA UM DEBATE NECESSÁRIO. Contextualizando os debates sobre cultura que vai organizar no próximo fim-de-semana, a Abril em Maio resumiu as questões em aberto num texto que a seguir reproduzimos, com a devida vénia e o apelo à participação dos nossos leitores:

1. A vida cultural portuguesa (e o valor dos seus artistas) é medida pela "saída" que coisas feitas e pessoas nascidas e criadas aqui têm além fronteiras.
A participação num colóquio ou num festival numa qualquer cidade da Europa ou uma tradução, por exemplo em francês, vale sempre mais do que um grande romance, um livro de poemas, uma interpretação, uma encenação ou uma coreografia...
Mas não parece haver grande curiosidade de saber como vivem, nesses países de êxito e de vitória, os "pares" dos convidados e traduzidos. Saber o que fazem e o que não fazem, o que pensam, o que os faz mexer como agora, o que discutem às vezes, pelo menos alguns.

2. A vida cultural portuguesa é também medida actualmente pelo volume dos festivais seja do que for (e que podem ter outros nomes...) e, evidentemente, dos investimentos a que obrigam.
Um filme acabado só "existe" se algum festival internacional o aceitar numa secção qualquer...
A "cultura" tem calendário e horário, tem alguns lugares – cativos ou conquistados – mas não mora nas pessoas.

3. De há uns meses para cá, num país que não é longe – e onde acabam por trabalhar às vezes alguns dos poucos que por cá se esmifram a inventar, e inventam, e fazem, e descobrem, e também muitos filhos de emigrantes que pouco regressam à "pátria" dos pais -, na aparentemente acomodada França, que deixou de ser a das vanguardas, com uma língua que já não é "a língua da cultura", tomou forma um movimento que abarca muitos milhares de seres que vivem das artes – artistas uns, técnicos outros e outros ainda as duas coisas ao mesmo tempo.
Foram estes que destruiram este ano os mais famosos festivais – de dança e de teatro sobretudo – sem receio de beliscarem o "prestígio da sua pátria"...
Não servirá mesmo para nada saber quem são essas gentes, de repente activas, o que fazem, o que pensam, o que aceitam e rejeitam, o que querem, o que não querem?
E perceber o que as junta a outras gentes que não fabricam artes mas necessariamente fabricam "vida" e também se manifestam?
E perceber como é que esses muitos milhares de pessoas, até há pouco quietas e provavelmente contentes com o que o Estado lhes tinha dado, se puseram a mexer e a encontrar-se, através do seu estatuto de "intermitente" até há pouco garantido e de repente em perigo, não poderá alargar um pouco as nossas geralmente curtas vistas?
Sobretudo se procurarmos entender o que se vai discutindo ao mesmo tempo e o que directa ou indirectamente "suporta" esse imenso mal-estar?

4. Provavelmente iremos ter à própria concepção de "cultura" que quase todos consideramos "normal" quando as "coisas" vão correndo ou "desejável" quando correm mal e que alguns dos grevistas e combatentes desta hora francesa dividem em "indústria cultural", "cultura de Estado" e um sector sem nome que dizem "heteróclito, cada vez mais largo, de auto-produção, de produção subsidiada, de amadorismo".
Não será este um tema de discussão, mesmo sem estarmos em greve e sem nos passar pela cabeça fazer "perigar" os milhões investidos nos festivais que por cá também enchem de "cultura" as páginas dos jornais que restam?
E como é que estas gentes se puseram a funcionar? Tiveram de sair das suas casas, das suas companhias, dos seus teatros, dos seus bares. Lá isso tiveram...
Como se reuniram? Quem os juntou? Os sindicatos – de várias cores e profissões? As centrais sindicais? Ou criaram para o efeito organizações com outros nomes? Corporativas? Empresariais?

5. Não era bom sabermos destas coisas "poucas" que, precárias ou não, intermitentes ou não, são a vida de tanta gente e existem na vida dum país aqui tão perto e que pertence àquela Europa de que tanto se fala?...
Deve haver quem queira deixar de ser aqueles três sábios e felizes macacos – nossos "bibelots" e nossos avós – um que tapa com as próprias mãos os ouvidos, outro os olhos e outro a boca...
Em pleno Agosto, mês de férias e não-férias, fizemos os possíveis e os não-possíveis para reunir pessoas diferentes que não estão ainda desabituadas de pensar e de falar: uns que tiveram, de uma maneira ou de outra, a experiência de uma "agitação" recente que por cá se desconhece; outros que não passaram por isso mas a quem a cultura de "promoção" e "festival" pelo menos assusta ou faz perigar; outros que conhecem por dentro as virtudes e os vícios das estruturas sindicais (ou outras) e que combatem pelos direitos dos que não são patrões, a não ser de si próprios.


 
EPIDURAL. O problema é que não há (nunca houve) anestesia que nos aliviasse das dores do mundo.

 
COISAS DESTE MUNDO. Nos próximos dias 22, 23 e 24, a Abril em Maio organiza um encontro a que chamou «Coisas Deste Mundo»: um conjunto de três debates que partem de um facto concreto - a luta dos trabalhadores "intermitentes" em França - para reflectir sobre a situação actual da cultura.
O primeiro debate é sexta-feira, às 18h, sobre os "intermitentes". O segundo (sábado, às 17h) abordará o tema: «Que cultura temos? Que cultura queremos?». E o último (domingo, 16h) pergunta-se: «Que sindicatos há? Que lutas pode haver?». Da lista de participantes constam Catherine Steigert (professora), Daniel Fatous (encenador), Emanuelle Huyndt (coreógrafa), João Fiadeiro, Jorge Silva Melo, Pierre Delye (contador de histórias), Seixas Santos (não confirmado), um elemento dos Précaires Associés de Paris, entre outros.
A Abril em Maio fica no Regueirão dos Anjos, n.º 68 (Lisboa). A entrada é livre.

 
TERÇAS-FEIRAS. Por motivos profissionais, à terça-feira desligo-me da realidade. Atendo poucos telefonemas (só os urgentes), não espreito a televisão, mal leio os jornais, abdico da blogosfera e só faço posts em intervalos de cinco minutos. Quando estou sozinho no fecho do suplemento, o regime de trabalho torna-se ainda mais espartano. E sim, eu estava sozinho no fecho quando cairam as torres, em Nova Iorque. Tal como estava sozinho no fecho ontem, quando um camião rebentou com a sede da ONU, em Bagdad. A redacção em polvorosa, chuva de telexes das agências noticiosas, directos nas televisões. E eu a conferir títulos, a caçar gralhas, a diminuir o número das páginas em falta.

 
ESTA MANHÃ. Apesar de nunca termos sido apresentados, eu reconheci-o e ele reconheceu-me. Passámos um pelo outro, silenciosos, conjugando o mesmo verbo em tempos diferentes.

19.8.03
 
E AGORA? Com o ataque desta tarde às instalações da ONU e aos seus representantes, o pós-guerra no Iraque deixa de ser "pós-", volta a ser guerra. As implicações de tudo isto são muito graves e difíceis de analisar. Eu, pelo menos, não me sinto capaz de reflectir sobre o que se passa, enquanto as TV's ainda transmitem imagens do edifício colapsado e depoimentos de louvor e luto por Sérgio Vieira de Mello. Voltarei a este assunto quando a poeira assentar um pouco mais. E abstenho-me de exercícios gratuitos (mesmo se desculpáveis pela adrenalina do choque e da emoção), como o de sugerir que a "culpa" directa de tudo isto cabe aos americanos - ainda assim um disparate menos grave do que dar a entender que as pessoas que assumiram posições contra a guerra se comprazem, talvez secretamente, com desgraças como esta.

 
SÉRGIO VIEIRA DE MELLO. Recordo o seu perfil austero, o rosto bonito, a cabeça branca no meio dos capacetes azuis. Em Timor, ajudou um povo a reencontrar a sua identidade e a sua História. No Iraque, tentava encaixar as peças de um puzzle impossível. Foi íntegro, honesto e corajoso - tudo qualidades em vias de extinção. Nunca temeu os cenários mais complexos, as missões mais difíceis. Dentro de um mês ou dois, voltaria a uma vida mais calma. Dizer que não merecia este destino cruel, a morte lenta sob os escombros, é obviamente um understatement.

 
DESABAFO. Da rua, o Pedro Mexia telefona-me a perguntar o que se passa em Bagdad. «Houve um atentado contra a ONU? É verdade que o Vieira de Mello morreu?» Eu deambulo pela redacção, vejo os televisores sintonizados nas televisões de todo o mundo e confirmo a triste notícia. Respondo por SMS: «O Sérgio Vieira de Mello morreu mesmo. Este mundo é uma merda».

 
CRIME, DIGO EU. Quando acontece algo tão brutal como o atentado que vitimou Sérgio Veira de Mello, e após o habitual cortejo de discursos de circunstância, aproveitamentos políticos e hipocrisias mal dissimuladas, fica sempre a pairar no ar a eterna pergunta: e agora, o que fazer?
É preciso ter a estatura moral de Sérgio Vieira de Mello para responder a essa pergunta. É preciso perguntarmo-nos o que faria Sérgio Vieira de Mello perante acto tão horrendo. Não sei o que ele faria, mas sei o que não faria. Não defenderia um ataque a todos os países onde pudessem existir terroristas, não desistiria do programa mundial para a fome no Iraque, nem faria concessões a terroristas.
É justamente nestes momentos em que a raiva nos assola a cara que é preciso mostrar a coerência e perceber que o combate ao terrorismo não passa, nem pode passar, por uma outra qualquer violência. Ter esta atitude, penso, é a melhor forma de respeitar o grande homem que foi Sérgio Vieira de Mello.
(Pedro Farinha)

 
ATENTADO. No meio das ruínas da sede da ONU, em Bagdad, não jazem apenas 20 pessoas, entre as quais um diplomata excepcional: Sérgio Vieira de Mello. Jaz também a última ilusão de que a guerra no Iraque, da forma como foi (e está a ser) conduzida pela Administração Bush, alguma vez teria um fim feliz.

 
OLHA O MESMO LIVRO! Ele há coincidências do arco da velha. Lá da distante Amesterdão, Fernando Venâncio escreveu uma notinha de leitura do livro «Personagens para um lugar memorável», de Ana Francisco (ver post anterior). Então não é que eu refiro precisamente a mesma obra, bela estreia de uma escritora (ainda) desconhecida, num texto publicado hoje no DN, sobre a editora Black Sun? Em itálico ou em escrita normal, há afinidades electivas que acabam sempre por vir à superfície.

 
OLHA UM LIVRO! Às vezes há livros assim. Surgem do nada, do nada absoluto, quero eu dizer. Um é este, acabado de aparecer. Chama-se PERSONAGENS PARA UM LUGAR MEMORÁVEL, escreveu-o Ana Francisco e editou-o a Black Sun. A autora não tem currículo literário conhecido, mas tem estudos, supõe-se que bem superiores, e, sobretudo, não anda de olhos baixos por este mundo.
Sorte a dela, e agora nossa, ter-se tornado a observadora de certa subespécie humana, aquela que, há algum tempo, parava pelo bar «Expresso» do lisboeta Largo da Misericórdia (os nomes do largo variam, o poiso dos subespécimes afinal também), e uma observadora inenarrável de finura e de maldade. Vá um textozinho, ao nível (alto nível, claro) de O Meu Pipi:

«O Cesariny é famoso e dantes também lá ia. O Cesariny é apaixonado pelo modernismo e surrealismo português porque foi ele que os inventou e alimentou.
Um dia, ainda eu desconhecia o lugar memorável, quando ele disse a uma fina joalheira intrometida:
"– Sabe, eu também já fui ourives joalheiro. Já fiz muito broche de joelhos."
Ninguém deverá nunca negar a genialidade de um homem que diz isto, assim.»

Confidências? Inconfidências? Quem saberá dizê-lo. O livro é feito, idealmente, para quem tirar pela pinta a cada um dos, muitos, retratados. Mas até fulanos (com que felicidade, talvez) alheios a esse meio, onde génios tomam capilés e perdem tardes, até nós conseguimos sacar alguns. O resto é pura instrução. Três estrelinhas.
(Fernando Venâncio)

 
A MAGIA DAS PALAVRAS. É sabido que há momentos em que as palavras parecem não conseguir traduzir o que se vive, em que são meros reflexos pálidos do que sentimos. Foi o aconteceu em França durante a vaga de calor que se abateu nas últimas semanas, com os resultados dramáticos que se conhecem. «Calor» é uma palavra gasta, repetida vezes sem conta em todas as reportagens de Verão, para mais designando aquilo que habitualmente mais se deseja nesta época. O que o termómetro apontou neste terrível Agosto, não podia portanto ser apenas «calor». Tinha que ser algo mais, qualquer coisa que traduzisse a ansiedade que se ia, a pouco e pouco, apoderando dos franceses. Aflitos, os jornalistas deitaram mão de uma palavra relativamente pouco usada, “canicule”, o exacto equivalente da nossa “canícula”. E de repente, milagre!, o mal-estar que se vivia cristalizou-se nessas quatro sílabas malditas, de sonoridade algo mágica [canícula vem do latim canicula, cadelinha, antiga designação da estrela Sírio]. Tinha enfim um nome, a «bête noire» que aterrorizava toda a gente. E não havia diário, semanário, telejornal ou boletim radiofónico que não nos prevenisse, em tom ameaçador, que «la canicule va continuer!!». Mapas por satélite, meteorologistas e autoridades procuraram justificações para o extraordinário acontecimento. A palavra ganhou vida própria. Já não era apenas um sinónimo de «grande calor», mas a totalidade da experiência que se vivia. Um ser autónomo que ora se expandia, ora encolhia, como se possuísse uma vontade orgânica. Falava-se de «vagas de canícula» e de «luta contra a canícula», com as consequentes «vítimas da canícula», como se o país tivesse declarado guerra a essa entidade estranha e obstinada.
A construção do sentido, já diria o Foucault, passa pela classificação. E classificar é nomear, discriminar. Neste caso, a invenção de uma nova categoria permitiu não só dar conta de uma situação excepcional, como "objectivar" o perigo e permitir a concentração de todos os esforços para minorar os efeitos do calor. Mas ao isolar o «mal», e ao recuperar um termo de sonoridade misteriosa e evocadora, a comunicação social concentrou igualmente os medos e angústias de toda uma população desamparada. Num dos dias com temperaturas mais elevadas, recebi em casa um canalizador encarregado de resolver um problema de infiltrações. Esbaforido, confessou-me que andava preocupado com o que tinha ouvido na televisão. «Ao que parece, aquela coisa, a cana..., a cani..., a ca... não sei o quê, vai repetir-se todos os anos». E ali estava ele, indefeso ante o poder mágico, aterrador, das palavras.

 
STAY TUNED. Em breve voltaremos às questões da agricultura e da globalização, levantadas pela polémica em torno de José Bové. Procuraremos responder a todos os comentários, ou pelo menos àqueles que merecem resposta. Falaremos também de soluções que existem, sem deixar de apontar os limites da postura de Bové. Ele é sem dúvida um símbolo, mas não é, pelo menos para nós, um ídolo. Aceitam-se contribuições para o debate, o mail é o do costume (blog_de_esquerda@hotmail.com).

 
BAIRRO ALTO (2). Estou na esquina do Mahjong. Olho para cima. Vejo o céu escuro, a fachada decrépita de um prédio. No terceiro andar, pendurado nas cordas da roupa, solitário, balançando suavemente com a brisa nocturna, um urso de pelúcia azul. (São coisas destas que me fazem gostar de Lisboa.)

 
BAIRRO ALTO (1). Perguntaram-me por eles em todas as esquinas. Devem ser irmãos. Devem andar perdidos. Devem andar fugidos. O Haxixe e o Chamon.

18.8.03
 
A BIBLIOTECA PESSOANA. Um dia, meio às escondidas, a Clara Ferreira Alves levou-me à cave da Casa Fernando Pessoa e disse: «Eis a biblioteca do poeta». Por baixo de uns plásticos transparentes, aguardando o trabalho de conservação agora em curso, estavam os livros que as mãos de Pessoa folhearam, tocaram, anotaram. Não sendo fetichista, confesso que a visão me perturbou. Estavam ali, fechadas em 1200 volumes de páginas amarelecidas pelo tempo, as palavras dos clássicos (e dos místicos, e dos poetas menores, e dos cientistas...) que o maior escritor português do séc. XX usara como mapa intelectual da sua escrita. Com mil cuidados, a Clara abriu um livro ao acaso e mostrou-me as notas manuscritas de Pessoa, a lápis, numa caligrafia já muito sumida e a exigir um resgate urgente. A mera presença humana, a nossa respiração, a humidade dos dedos, o calor dos corpos, tudo era uma ameaça para o delicado espólio. E por isso nos retirámos ao fim de cinco minutos, como quem sai de uma catedral prestes a ruir.
Lembrei-me dessa visita-relâmpago ao ler, ontem, no Público, um dossier originalíssimo preparado pela Alexandra Lucas Coelho. «O que liam os heterónimos de Fernando Pessoa?», perguntava-se em título. E seis investigadores pessoanos tentaram responder, com base nos livros da biblioteca do ortónimo. Richard Zenith imaginou as leituras de Bernardo Soares, Fernando Cabral Martins as de Alberto Caeiro, Manuela Parreira da Silva foi reler Ricardo Reis e António Mora, Luísa Freire "procurou" Alexander Search, Teresa Rita Lopes construiu um diálogo com o engenheiro Álvaro de Campos e Paula Costa "decifrou" Raphael Baldaya.
Meros exercícios de estilo? Talvez. Mas exercícios de estilo muito bem feitos, réplicas argutas a uma ideia brilhante.

 
METROPOLITANO (2). O rapaz tinha a morte tatuada no ombro. A imagem vulgar da Morte: esqueleto com túnica e gadanha na mão (mais o nome de uma banda de heavy metal por baixo, escrito em letras góticas). Indiferente à ameaça verde do desenho na pele, a namorada beijava-o com fervor. Lembrei-me de Freud. Eros e Tanatos.

 
METROPOLITANO (1). Ao ver que as pessoas se afastavam à sua passagem, abrindo um círculo com dois metros de diâmetro no meio da multidão, o sem-abrigo sorriu. Entre dezenas de pessoas acotoveladas, ele passeava-se tranquilo, à larga, mantendo sem dificuldade as fronteiras do seu espaço vital. O mau cheiro que exalavam as roupas e a pele suja de muitos dias, talvez semanas, podia ser intenso para as outras pessoas, podia provocar repulsa (ou mesmo náusea) nos passageiros lavadinhos e engomadinhos, mas não o afectava. Já não o afectava. As narinas habituam-se a tudo, como o corpo se habitua às noites de fome e relento. E ao resto.
Na plataforma da estação Baixa-Chiado, durante uns minutos (até chegar o comboio seguinte), o sem-abrigo foi rei. Andava para cá e para lá, a perceber como o círculo (dois metros de diâmetro) se mantinha aberto e constante. Ao protegê-lo daqueles rostos incomodados, o mau cheiro era uma arma. E ao fazer uso dela, o sem-abrigo não se encolhia na sombra de uma vergonha humilhada, antes exibia os sinais de um secreto orgulho.

 
VIAGENS NA MINHA TERRA. Tal como milhares de outros portugueses, no passado fim-de-semana fui até ao Algarve. Apesar de conhecer uma parte significativa deste nosso planeta, território nacional incluído, confesso que em 30 anos fui apenas três vezes ao Algarve, sempre por motivos diferentes. Desta vez, por visita aos meus pais, decidi abordar a viagem com um espírito mais construtivo, mais aberto. Que frustração!!! Por hábito, não formo opinião com base no que oiço de quem quer que seja, mas antes e muito mais no que eu próprio vejo.
Vamos por partes.

1. Antes (a viagem de ida)
Muito trânsito na A2, todo circulando a muito mais de 120Km/h. Talvez a pressa, talvez a ansiedade, talvez a loucura antecipada, talvez a loucura crónica, talvez a incivilidade habitual, talvez a falta de respeito e educação que nos caracteriza. Como sou um dos "parolos" que não vai habitualmente ao Algarve, confesso que tive alguma dificuldade em chegar direitinho ao destino, não tanto por falta de sinalética viária, mas antes pelo seu reduzido tamanho e deficiente colocação. Um hábito generalizado neste país, o exemplo acabado da falta de antecipação. No trânsito, tal como em tudo no nosso querido Portugal, nada se prevê, nada se prepara antes, tudo se "desenrasca", tudo se improvisa no momento. Atitude no
mínimo perigosa, para todos e cada um de nós.

2. Durante (a estadia em Armação de Pêra)
Desolador, triste, pobre, lamentável, caótico, anárquico, sujo, desarrumado.
Que triste imagem! Que triste cartão de visita! Que triste povo! Que triste estadia!
As casas, as ruas, os estabelecimentos comerciais, o trânsito, a praia, as pessoas, tudo! Todos os dias e a todas as horas, parece a Malveira em fim de feira. Amigos, quando forem à praia em Armação de Pêra, cuidado com aqueles senhores que andam de tractor agrícola na areia, a apitar como loucos, num corrupio de traz e leva barcos, barquinhos e barcões para a água. Aquilo não é praia, aquilo é um rallye nas areias de Dakar. Amigos, quando forem a Armação de Pêra, façam um seguro de vida. Os automóveis param nos passeios, as pessoas andam no alcatrão, os dejectos dos cães são mais que muitos.

3. Depois (a viagem de regresso - finalmente)
Muito trânsito na A2, todo circulando a muitíssimo mais de 120Km/h. Talvez a pressa, talvez a ansiedade, talvez a loucura antecipada, talvez a loucura crónica, talvez a incivilidade habitual, talvez a falta de respeito e educação que nos caracteriza. Déjà vu? De novo o problema da sinalética, agravado pelo facto de ser de noite. Mas esta gente é doida, inconsciente ou, mais grave ainda, homicida qualificada?

CONCLUSÃO - Dificilmente voltarei ao Algarve. Atenção que não é tudo igual, dirão uns. Pois não, onde? Nos locais de maiorias ou nos de minorias? É assim que nos queremos projectar? É assim que nos queremos vender? É assim que queremos ser recordados por quem parte? Enquanto não existir uma preocupação generalizada com a QUALIDADE, digo qualidade e não riqueza, não passaremos da mediania. A qualidade de vida, a qualidade das coisas em geral, pode e deve ser um estado de alma. Pode e deve ser algo natural e óbvio. Podemos e devemos ser todos e cada um, agentes da qualidade que a todos e cada um beneficará.
(PP)

 
SÓCRATES REVISITED. Conhece-te a ti mesmo, dizia o grego. E eu tento seguir o sábio conselho. Ontem, por exemplo, aprendi mais uma coisa. Inesperada. Secreta. Intensa. Só vos digo uma coisa: se acreditasse em Deus, diria Deo Gratias.

 
MAMMA MIA. Neste blogue familiar, depois dos filhos e do pai, só faltava mesmo a progenitora. Pois bem, agora já não falta. Minhas senhoras e meus senhores, é com infinita honra que vos apresento... A Mãe Itálica (já a seguir, ela evocará um dos maiores poetas do séc. XX, naturalmente muito lá de casa).

 
VERSOS QUE NOS SALVAM. Faz hoje 67 anos, em Granada, foi cobarde e ignobilmente assassinado Federico Garcia Lorca. Os seus carrascos franquistas gritavam «Viva la muerte». O poeta-músico, um dos maiores génios artísticos espanhóis, com 38 anos, gritava «VIVA A VIDA».

LA SOLEA

Vestida con mantos negros,
piensa que el mundo es chiquito
y el corazón es inmenso.
Vestida con mantos negros
Piensa que el suspiro tierno
y el grito, desaparecen
en la corriente del viento.
Vestida con mantos negros
Se dejó el balcón abierto
y al alba por el balcón
desembocó todo el cielo.
!Ay ayayayay,
que vestida con mantos negros!


(Aida Silva, aka Mãe Itálica)



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