BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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10.8.03
 
ALGUMAS PERGUNTAS MUITO SIMPLES. Depois de tudo o que se disse e escreveu sobre os incêndios, eu só tenho uma questão a colocar à ministra Ferreira Leite: quanto é que o Estado poupou com os cortes nas verbas destinadas à prevenção de incêndios (nomeadamente com a redução de 24 para seis horas diárias de vigilância nas florestas)? Um milhão de euros? Dois? Pois é, só em recursos imediatos para fazer frente à catástrofe, o Estado vai ter que disponibilizar, com carácter de urgência, 50 milhões de euros (mas os prejuízos elevam-se a mil milhões de euros!). Consegue explicar-me agora a espantosa lógica da sua política? Será que nunca ouviu aquela velha expressão popular segundo a qual "o barato sai caro"? O problema, caso ainda não tenha reparado, é que os erros são cometidos por si mas a factura é paga por todos nós. Se houvesse vergonha neste país, talvez já não estivesse a dirigir-lhe estas perguntas, mas ao seu substituto. Como não há vergonha, fica tudo na mesma. E nem os ministros da Administração Interna e do Ambiente vacilam nas suas inabaláveis certezas e na convicção com que sacodem, sem pudor, a água do capote.

9.8.03
 
E SE FIZESSEM O FAVOR DE O DEIXAR EM PAZ? Afirma o DN que Mário Cesariny «completa» hoje 80 anos, embora o poeta recuse «oficialmente» tão redonda e respeitosa idade. Mas alguém se espanta com esta recusa? De que é que estavam à espera? Do bolo de aniversário com muitas velas? Dos discursos comovidos e dos aplausos de pé? De uma estátua no Parque dos Poetas (como aquela que o putativo «homenageado» ameaçou derrubar com um bulldozer)? Mário Cesariny, como qualquer surrealista que se preze, sabe que o tempo é um artifício inútil, uma convenção burguesa inventada para termos a ilusão de que existimos. O tempo não interessa para nada. O que interessa são as palavras e as imagens que ardem dentro da cabeça, à boca de um verso ou na ponta áspera de um pincel.
Hoje, como sempre, aposto que Cesariny vai levantar-se às três da tarde e deambular pela casa, de cuecas, fumando um cigarro ou discutindo trivialidades com a irmã. E depois, se estiver para aí virado, vai dedicar-se ao único ofício que aprendeu na vida: ser genial.

 
VERSOS QUE NOS SALVAM. Na passada terça-feira, escrevi no DN um texto sobre Juan Luis Panero, um dos poetas espanhóis contemporâneos com quem sinto mais afinidades, sobretudo em termos de linguagem. No espaço curto de uma prosa jornalística, é impossível abordar com o necessário detalhe um universo poético tão coerente como este. Ainda assim, fica a chamada de atenção para alguns dos mais belos e desesperados poemas que pude ler nos últimos anos. Quando tiver algum tempo, voltarei a pegar no livro de capa violeta da Relógio d’Água, minuciosamente organizado e traduzido por Joaquim Manuel Magalhães. Por agora, partilho alguns versos, na esperança de que tenham, sobre os leitores deste blogue, o mesmo avassalador efeito tiveram sobre mim.



MADRUGADA DE NOVE DE MAIO

Das áridas paredes alugadas,
Entre móveis alheios e pesadas cortinas
que a bruma e a chuva pretendem ocultar.
Do hostil refúgio de um copo de gin,
volto, preciso de voltar, àquela tarde.
Àquele pequeno bar, quase sem luz,
à segura posse de umas mãos, de uns lábios
que nunca voltarão já a ser meus.
Foi um dia, tempos depois de nos termos separado para sempre,
ou pelo menos de tê-lo prometido, depois de insultos e gritos,
na pesada cólera do álcool.
Outra vez juntos, sentados face a face,
ouvindo o monótono passar de uma canção
através dos rostos e do fumo quieto sobre as mesas,
em atitude distante repetíamos os gestos do costume,
as banais comédias de defesa ou cansaço.
De súbito, um sorriso, o tocar ao de leve de outra pele,
talvez o doloroso estremecimento das recordações, enfrentou os nossos olhos
e, por um instante, o sopro cálido da ternura
que não encontra palavras, aproximou os nossos corpos,
amparou o seu humilhado mendigar sem descanso.
De seguida tudo acabou definitivamente,
a vida foi mais poderosa do que nós,
mas agora nada importa a não ser aquela tarde,
aquele momento de união irrepetível,
a calidez de uma pele, de uns lábios, cuja simples lembrança
protege esta noite o meu coração, me dá força
para continuar o erro de viver até amanhã.




UM RISCADO SINAL

Este livro assinou-o Borges,
uma tarde, há anos,
conversávamos num hotel de Quito.
Um garatujado sinal, simbólico, ilegível,
viajou comigo por diferentes caminhos,
foi refúgio em noites de derrota.
Esta tarde, em Barcelona, ao mostrá-lo a alguém,
um copo entornou-se sobre as páginas,
apagou num segundo a tinta da sua assinatura
e o meu nome escrito com letra trémula.
Agora já não é meu, nem dele, nem de ninguém,
agora é já, por fim, o que foi sempre,
um rasto da vida que se perde,
húmida lápide, sombra de papel,
o tenaz sonho de umas poucas palavras.


 
TERMINATOR. Imaginar Arnold Schwarzenegger como candidato a Governador da Califórnia já era suficientemente assustador, mas o facto do musculoso ogre aparecer desde logo à frente das sondagens, com variados apoios nos meios republicanos, entra directamente na categoria das mais óbvias aberrações políticas. Mesmo que tenha ao seu dispor todo o dinheiro do mundo (ou até os efeitos especiais destes rapazes), ele nunca será capaz de dizer duas frases seguidas em inglês escorreito, quanto mais apresentar um projecto de governação com pés e cabeça. Neste momento, a bem do estado mais liberal dos EUA, só me apetece gritar-lhe: «Ao contrário do que dizes nos filmes, ó Schwarzie, vai e não voltes».

8.8.03
 
LIVRARIA FRANCESA. Leio que a Livraria Francesa vai fechar no próximo dia 14. É pena. Eu gostava de subir as escadas do n.º 38 da Av. Marquês de Tomar, percorrer com os olhos as lombadas nas estantes, deambular entre as mesas com as últimas novidades vindas de Paris, encomendar de vez em quando um volume (com um rosto e um sorriso à minha frente, em vez dos ecrãs cheios de cores da Amazon.fr). Certa vez, Béatrice Montamat, a livreira responsável por aquele pequeno oásis da francofonia (e da francofilia), «arranjou-me» em tempo record um livro de que precisava para um trabalho. Agora apetece-me agradecer o seu empenho e a sua competência, mesmo que todos os louvores cheguem já tarde demais.
A Librairie Française fecha e eu fico triste. Resta sempre a FNAC, dizem-me. Só que o problema talvez seja mesmo esse. A FNAC é grande, é agressiva, é barata e oferece muita coisa. Mas também vai matando estes outros pequenos nichos de mercado. Lamento dizer isto: a FNAC, com a sua sombra dominadora, é como os eucaliptos. Cresce muito depressa e seca tudo à volta. Mesmo o que, como a LF, não merecia definhar.

 
A REABILITAÇÃO. O PCP reabilitou Estaline nas páginas do «Avante», num texto digno de um negacionista de extrema-direita. O PCP chegou ao fundo da demência e do isolacionismo. Nunca pensei dizê-lo: que saudades de Cunhal... Os ultra tomaram conta do partido e nem o pragmatismo de outros tempos sobreviveu. (Daniel Oliveira)

 
FESTIVAL DE CURTAS. Como podem comprovar já de seguida, o Daniel Oliveira continua a enviar-nos as suas colaborações por SMS. Mesmo sem destronar o mestre dos posts curtos, há por aqui uma arte da contenção que se insinua. Quem sabe se não estará a nascer, por força das circunstâncias, um novo estilo de comentário político minimalista...

 
UMA BÍBLIA CONTRA A GUERRA. Apesar das dificuldades económicas e da falta de apoios, o Tiago Gomes continua a editar, com a raiva e a teimosia dos resistentes, a sua «Bíblia» − uma revista de arte alternativa que merecia não estar sempre assim, no fio da navalha (ou dependente de mega-campanhas de assinaturas, como a que está neste momento em curso). Com altos e baixos, a «Bíblia» tem sido um lugar de experimentação para escritores, fotógrafos e ilustradores de todas as tendências. Uma espécie de galeria Zé dos Bois em papel. O seu desaparecimento seria mais um passo para o empobrecimento da diversidade cultural portuguesa.
Mas, enquanto os funestos presságios não se cumprem, o Tiago vai mantendo a nau à tona de água. E a meio de Junho lançou o número 17 da revista, com quatro palavras-chave: «Choque, Horror, Guerra, Ódio». Escusado será dizer que o conflito no Iraque assoma em quase todas as páginas, infelizmente sem escapar, na maioria das colaborações, a um primarismo argumentativo que não ajuda propriamente a causa pacifista. Como sempre, o calcanhar de Aquiles é a poesia (ou muito ingénua ou muito escabrosa), complementada por alguns exercícios pós-modernos de gosto duvidoso. Salvam-se alguns trabalhos gráficos (nomeadamente o brilhante «Worst Nightmare Class», de Paulo Abreu, com uma turma de clones de G. W. Bush) ou o pequeno ensaio de Fernando Guerreiro sobre o conceito de «choque e pavor» («shock and awe»). Mas o melhor desta edição, a meu ver, é o portfolio de Gael Cornier, um artista que fotografou a antiga prisão de Valparaiso, no Chile. Desde que fecharam, em Abril de 1999, as instalações permaneceram na mesma, exactamente como foram deixadas pelos últimos detidos. Cornier captou imagens das paredes das celas, dos seus cartazes rasgados e dos seus grafittis (uma mistura bizarra de posters das equipas de futebol e calendários eróticos, recortes de revistas com a Lady Di e pinturas murais do Che). É uma viagem espantosa pelos cenários da lenta espera e agonia dos proscritos, dos homens que fugiram à lei e ao respeito dos outros homens. Uma visão do cenário em que viviam aqueles que se separaram do mundo, para além da culpa e da inocência. Nem que fosse só por estas imagens, valeria a pena comprar a «Bíblia» (5 euros). Mas há mais trabalhos que merecem atenção (Fernando Aguiar e Pedro Kastro, por exemplo), além do estrito dever da solidariedade para com o esforço, cada vez mais radical, do Tiago.
Para mais imagens, textos e informações, sugiro a consulta do excelente site da revista. Fica aqui.

7.8.03
 
O SUL COMO ELE DEVIA SER. Além de magnífico poeta, o José Carlos Barros é um apaixonado pelo Sul e pelo Algarve, cujos recursos naturais conhece como poucos. Os leitores mais atentos do BdE lembram-se certamente das suas contribuições esporádicas nesta página e dos poemas dele que publicámos na secção «Versos que nos salvam». Agora, o jcb assina posts belíssimos num blogue muito cá de casa (ver aqui) − um dos poucos que sobrevivem, activos, a este verão inclemente.
Só para terem uma ideia da rara qualidade do que por ali se vai escrevendo, atentem nestes versos originais do José Carlos:

UM POEMA PARA O OUTONO

as aves migratórias dos lagos de
lemvig e limfjorden
chegam a castro marim e
ficam horas seguidas
na margem do esteiro da lezíria
a olhar as serras de sal muito brancas
com a memória ainda da neve
como se estivessem a
ver o filme ao contrário


 
OS CORTES. Fechada numa sala fresca lembro-me de imagens pavorosas de um fogo a que assisti há alguns anos na zona da Guarda, labaredas que destruíam pinheiros e semeavam desgraças num verão da minha infância. Os anos passaram e tudo o que sei sobre estes incêndios é que sazonalmente continuam a devastar as florestas de Portugal. Mas hoje, motivada pelas estatísticas da TSF, resolvi visitar a direcção-geral das florestas online e li o relatório final de incêndios florestais de 2002. Mais uma vez confesso que nunca sequer tinha procurado tal coisa, serei como as traças que seguem as luzes que outros foram acendendo, enfim, dizia eu que nesse relatório reparei na frase "O mês de Julho [de 2002] registou o valor mais elevado da área ardida, com 49 % do total. Este valor representa um acréscimo de 273 % (+ 45.101 ha) face ao valor médio verificado para este mês, nos últimos 5 anos [1997-2001].". Descobri depois que em Julho teriam portanto ardido 61.617 ha, quase tudo durante os dias mais quentes do fim do mês. Um panorama semelhante aos 50.000 ha que arderam agora desde 27 de Julho, talvez uns dias mais tarde, mas não podemos exigir à natureza que cumpra um calendário rigoroso... Portanto, o verão de 2002 já foi bastante mau nesta matéria e significativamente diferente dos outros cinco anteriores.
Mais ou menos por esta altura acudiu-me ao espírito a malvada questão: será que os cortes orçamentais que se começaram a sentir em Maio de 2002 têm alguma coisa a ver com isto? Acreditem que não sofro de sinestesia, quando leio o jornal em cima das desgraças quotidianas não vejo nenhuma mancha laranja, mas à cautela já comprei mais um boião de doce de morango...
(Simone de B.)



 
FORÇA SPORTING ALÉ. Falei mal do estádio de Alvalade. Falei mal do Euro 2004. Agora que já está, força Sporting alé. Grande estádio. Grande jogo. Grande vitória. Áté os cegos vibraram, por trás do placard. Quatro golos nossos. Um na baliza errada. Mas, mesmo assim, grande jogo. O campeonato é nosso. (Daniel Oliveira)

 
A PALAVRA NUNCA. Não sei se isto já vos aconteceu. A mim, acontece-me muitas vezes. Estou a meio de um texto e de repente há uma palavra comum da língua portuguesa que se torna “estranha”. Repito-a em voz alta e não a reconheço. É um OVNI (Objecto Verbal Não Identificado), uma palavra que nunca ouvi antes, vocábulo esquisito de um qualquer remoto idioma estrangeiro. «Nunca», por exemplo. No outro dia escrevi «nunca» num e-mail e a palavra pareceu-me improvável: um som surdo, seco, violento, agressivo, giz gritando na ardósia de um quadro negro. A palavra «nunca» como se nunca (hélas) a tivesse dito, escrito, pensado.
Para quebrar o enguiço, enviei a mensagem, desliguei o computador e fui dar uma volta. Quando voltei, «nunca» voltara a ser «nunca». Algures, no confuso labirinto dos meus neurónios, o desfasamento foi corrigido. Mas não me perguntem como. Sobretudo não me perguntem porquê. Há coisas que mais vale não saber.

6.8.03
 
AGOSTO EM LISBOA. Eu sempre defendi, junto de amigos e companheiros de trabalho, que o melhor mês para estar em Lisboa é Agosto. A cidade esvazia-se, há sempre lugares para o carrinho, não faltam esplanadas e salas de cinema com ar condicionado, uma maravilha. Lisboa, quando toda a gente migra para as praias do Algarve, é o Paraíso. Mas, claro está, não neste ano de calor absurdo e cruel.

 
HIROXIMA. Há 58 anos, os EUA lançaram bombas nucleares sobre duas cidades japonesas. Para assinalar o dia, o Japão pediu explicações à Coreia do Norte. Definitivamente, a história das relações internacionais desafia as leis da lógica. Também me preocupa o facto do querido líder ter armas nucleares. Mas a verdade é que há mais de meio século que o mundo espera pelo “mea culpa” americano. (Daniel Oliveira)

 
TELE-POSTS. De férias, longe dos computadores e da internet, o Daniel Oliveira enviou-nos quatro textos curtos, através de mensagens escritas no telemóvel. Não, não é tecnologia de ponta; é mesmo improviso. Não é SOS, é SMS.

 
5 À SEC (PEQUENO DELÍRIO NA FILA DE ESPERA). Pergunta: e se um dia alguém inventasse estabelecimentos comerciais, tipo lavandaria, nos quais entregaríamos ideias em bruto (sujas, amarrotadas, cheias de vincos) que mais tarde recuperaríamos, passadas a ferro com esmero, já na forma de posts prontinhos a arrumar (e devidamente embrulhados em plástico transparente) nos guarda-factos a que chamamos blogues?

 
MORAIS SARMENTO. A revista «Focus» diz que sou conhecido como o Morais Sarmento da blogosfera. A auto-ironia foi transmitida por mim ao jornalista. Mas esclareço aqui que não estou a preparar nenhum blogue Sociedade e que até já vi alguns programas de divulgação cultural. A «Focus» cita como polémico o post em que disse que Jardim é um palhaço. Polémico? E eu que achava que esta era matéria de consenso nacional. (Daniel Oliveira)

 
FOGOS. Estive na zona dos fogos com bombeiros e autarcas. É esmagador. E a confusão, a falta de meios e o desespero tornam insultuoso o apelo para não politizar a catástrofe. Sobretudo depois da sucessão de disparates que saem da boca de ministros. Se a política se calar nestes momentos, para que serve a política? (Daniel Oliveira)

 
JOÃO PULIDO VALENTE. Morreu João Pulido Valente, um herói. Terá, como queria, «uma fita amarela, gravada com o nome dela: Liberdade». Foi do partido que eu fui. Era do partido que eu sou. Tudo o resto era demasiado grande para eu saber. (Daniel Oliveira)

 
AINDA OS INCÊNDIOS. Cheguei mesmo agora a casa, acabado de fazer a 2.ª Circular e o IC-19, e, ainda mal pousada a tralha, agarrei-me ao teclado com medo que a inspiração desapareça. Meus amigos, ora digam-me lá, mas sinceramente por favor, se eu estou certo ou errado. Os incêndios são um processo de combustão viva que, como qualquer outro, precisa de duas coisas essenciais: energia (calor) e combustível. A energia, podendo ser de diversos tipos, actua como fonte de ignição, o combustível actua como alimentador do processo. Certo? Ora, todos sabemos que qualquer que seja o tipo de fonte de ignição, não é com toda a certeza um fenómeno de geração espontânea! Assim, podemos considerar ignições resultantes de situações intencionais, boas (?) e más, e as que são resultantes de situações naturais. Quanto às primeiras, a prevenção, a educação e a punição, em princípio, darão os seus resultados. Quanto às segundas, nada a fazer. A Mãe Natureza tudo pode!
Vamos agora pensar um pouco no material combustível. Se ele existir, é possível encontrar mil e uma maneiras de o fazer arder. Já o contrário não se verifica. Se tivermos uma qualquer fonte de ignição, mas não tivermos nada para arder, tá-se mesmo a ver que... exactamente, não há combustão. Poderão os meus Amigos perguntar: o que é que esta treta toda tem a ver com a 2.ª Circular e o IC-19? TUDO, DIGO EU. Sendo vias de comunicação principais, verdadeiras espinhas dorsais rodoviárias desta cidade, podem muito bem servir de exemplo para nos recordar aquele velho ditado: «Olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço». Independentemente das causas (as fontes de ignição) dos incêndios, é frequente ouvir-se dizer que os proprietários e industriais florestais não limpam as matas. E ESTA? ENTÃO E A 2.ª CIRCULAR E O IC 19? Mas se não gostarem do exemplo, escolham qualquer outro. Então, estou certo ou estou errado? O que me parece, é que em tudo isto ninguém, mas mesmo ninguém, está isento de culpas. Até posso, inocentemente, dar o benefício da dúvida ao actual Governo. Mas, por favor, não preguem o Sermão do Deserto, nem o de St.º António aos peixes, e troquem muito rapidamente todas as telhas de vidro do vosso telhado. Pior que um Pregador mau, é um mau Pregador.
(PP)

5.8.03
 
CORREIO EM ATRASO. À nossa caixa postal electrónica chegam todos os dias cerca de 10 e-mails, com os assuntos mais variados: elogios, correcções, ideias, contributos, críticas, spam erótico (não perguntem porquê), sugestões e alguns, felizmente raros, insultos. Não vamos negar que um tal volume de correspondência é muito gratificante, quanto mais não seja porque significa que alguém nos lê e se dá ao trabalho de abrir o Hotmail (ou o Yahoo, ou o Outlook, etc) para replicar ao que aqui vamos deixando. Infelizmente, como o tempo não é elástico, a nossa capacidade de resposta fica a anos-luz do que seria desejável. Além da manutenção do blogue e da leitura (cada vez mais difícil) de tudo o que nos interessa na blogosfera, o nosso tempo ainda se divide pelo trabalho "oficial" e por uma vida privada bastante activa. Quer isto dizer que muitos e-mails, nomeadamente os convites para conhecer novos blogues, nem sempre recebem o "feed-back" merecido. A todos os leitores que se sentem injustiçados, o nosso sincero pedido de desculpas. Durante o mês de Agosto, em princípio mais tranquilo, vamos tentar pôr o correio em dia. Isto se o calor não derreter, entretanto, os poucos neurónios que sobreviveram à canícula estival.

 
FECHANDO AS CORTINAS. Esta manhã, como tantas outras, estava a ver televisão enquanto comia o pequeno-almoço e às tantas apareceu o presidente da câmara do Gavião, onde os fogos dos últimos dias se têm feito sentir com grande intensidade, a queixar-se da falta de meios técnicos e de que realmente só tinham tido mais apoio durante a curta visita de um qualquer elemento do governo e por aí adiante. O costume, pensei eu, enquanto enfiava o último pedaço de doce de morango na boca, mas ainda não tinha engolido as últimas graínhas e já me estavam a vir à memória as palavras de ontem à noite do presidente da câmara de Portalegre, que se sentiu muito apoiado pelo governo e para quem os meios são os adequados.
Claro pensei eu, o Jorge Martins de Jesus é socialista daí não estar satisfeito, enquanto o José Mata Cáceres... e depois parei e perguntei-me: serei só eu que vejo assim as coisas, é que para mim a vida divide-se sempre entre direita e esquerda, é assim, sempre. E não estou a tirar partido de uma tragédia para fazer política, porque as tragédias não são só calamidades "per se", são o resultado de injustiças, incúrias e ignorâncias. E falar disto não é fazer política, é só um exercício de razão. Continuei a fechar as cortinas, numa tentativa vã de abacinar a sala, tal como tantos tentam fazer com as nossas mentes, espero que também em vão.
(Simone de B.)

 
DORES DE ESTÔMAGO. Ontem, sem que tenha percebido porquê (talvez das muitas horas sem comer nada, talvez do frango pós-nitrofuranos, talvez do cansaço), o jantar caiu-me mal e arruinou-me parte da noite. Pois bem, meus amigos: como é que resolvi o problema, à falta de Alka Seltzer? Não foi a ler blogues, não senhor. Foi, pura e simplesmente, com duas canecas de chá verde. O Prado Coelho é que sabe.

 
INCÊNDIOS. Estou triste, preocupado, revoltado, angustiado, cheio de ira, por causa da actual situação de "incêndio generalizado" que o nosso país está a viver. Tenho seguido atenta e avidamente as notícias de todos os canais televisivos, na expectativa de ouvir duas coisas: a situação está a inverter-se e ainda as medidas que irão de imediato ser tomadas. Porém, nada do que até agora ouvi se sobrepõe ao depoimento de um agricultor transmontano: "o que é que a gente pode fazer, de um lado as forças da natureza, do outro as mãos criminosas". Este curto, forte e sentido depoimento traduz bem o que milhares de pessoas estarão neste momento a sentir. É claro que não serei eu sozinho ou qualquer outro "eu" que poderá fazer alguma coisa de concreto. Mas pergunto: será que alguém fica indiferente a tudo isto? Recordo a todos a revolta generalizada, direi mesmo global, que as imagens de destruição do Iraque provocaram há bem pouco tempo. Será que esta destruição, dentro da nossa própria "casa", é menos dolorosa? Será que amanhã, ao viajarmos por este país e olharmos as deslumbrantes paisagens antes verdes, agora negras e mortas, ficaremos em paz connosco? Quero acreditar que a justiça, uma vez mais a nossa justiça, vai ter mão de ferro para todos aqueles que destroem o que a todos pertence. Quero acreditar que o poder político, qualquer que seja a sua cor, tranque a casa apesar de já roubada. Mas por favor, tranque de uma vez por todas, eficaz e definitivamente, pois seguramente todos ficaremos eternamente gratos. (PP)

 
MEMÓRIAS DO CÁRCERE. Mas é preciso dizer que José Bové saiu diferente de Villeneuve-lès-Maguelonne; saiu marcado por estas seis semanas de prisão. Falou dos que lá ficaram amontoados em instalações degradadas e sobrelotadas, numa vida de violência, ostracismo e ignomínia. E anunciou que os direitos dos presos passariam a constar das suas campanhas. É pena que estes assuntos, mesmo à esquerda, só venham à baila quando uma figura com alguma projecção pública passa pela prisão. Em Portugal, então, um dos país europeus com mais presos, e com piores condições, o debate é mais que esporádico. Será que vamos ter de esperar que rebentem uns quantos motins desesperados para que haja uma verdadeira reflexão sobre as prisões?

 
BOAS NOTÍCIAS. José Bové, aparatosamente detido pela polícia francesa há seis semanas, foi libertado no sábado passado pela juíza encarregada da sua pena. O presidente Chirac, que podia ter agraciado o líder sindical, ficou tão baralhado com a amplitude do movimento de solidariedade para com Bové, que decidiu não decidir. Sem assumir um qualquer posicionamento, limitou-se a reduzir-lhe a pena em dois meses, por ocasião do 14 de Julho. Mas a justiça acabou por funcionar sozinha e, dispensando qualquer chiraquiana intervenção, ficámos enfim a saber que José Bové não é propriamente um perigo público (e nós que pensávamos que ele era um perigoso terrorista...). O bravo camponês já prometeu voltar à luta e anunciou que, se o deixarem, irá chatear os grandes deste mundo já em Setembro, quando a OMC se reunir em Cancun para discutir a liberalização das trocas comerciais internacionais. Só nos resta dizer: Welcome back, José!!

4.8.03
 
PEDIDO DE ESCLARECIMENTO À MESA. Depois do Bruno Peixe, chegou a vez do Daniel, o mais constante dos nossos itálicos, manifestar desacordo com o que aqui escrevi em resposta a uma pergunta de Carlos Vaz Marques: «o mundo seria melhor se houvesse só esquerda?» Em meu entender não seria melhor, porque acredito no confronto de ideias, na oposição construtiva entre modelos de sociedade antagónicos e numa dialéctica que não se deixe entrincheirar em certezas absolutas. Só isso. Sinceramente, acho que reduzir a direita aos esquematismos de uma reaccionarice troglodita é cair no mais ingénuo dos erros, porque existe, hoje em dia, uma direita inteligente e moderna que sabe pensar e nos desafia. É com essa (e não preciso de citar nomes, pois não?) que temos de "dialogar", no campo aberto da luta ideológica. Quanto à outra, a que está no poder e ignora a realidade social, o drama do desemprego e questões complexas como a do RMG, só vem reforçar a necessidade de uma verdadeira política de esquerda. Que fique claro: o facto de não desejar um mundo em que só houvesse esquerda, não significa que tolere este mundo em que a direita nem precisa de governar (porque detém sempre, em última análise, os verdadeiros instrumentos do poder).
E já agora, Daniel, também considero "pornográfica" a obsessão com os subsídios aos pobres (ou aos artistas), quando a fuga generalizada ao pagamento de impostos continua impune em Portugal, para nossa (colectiva) vergonha.

 
RENDIMENTO MÍNIMO GARANTIDO. Sobre a polémica de Pacheco Pereira com o País Relativo, cito Bruto da Costa de cor: a pobreza de longa duração é uma doença, que cria no pobre a impotência, a falta de auto-estima e incapacidade de organizar a sua vida. Dar o mínimo para a sobrevivência não é uma boa intenção, mede-se em refeições diárias e na possibilidade de, resolvido o mínimo da vida, contruir futuro. Conseguir que o filho de um miserável vá à escola não é uma boa intenção, tem (e teve) um impacto de consequências futuras inimagináveis. Quanto ao mau estar causado pelo subsídio, ele é velho de séculos: entre o empregado e o desempregado, o imigrante e o nacional. Mas começar por algum lado é começar por garantir a sobrevivência para que o futuro de uma família se construa e o ciclo infernal da decadência, de que fala Bruto da Costa, seja quebrado. Um Estado que recusa isto, não é um Estado democrático. Uma direita que ainda sofre com este mínimo dos mínimos é aquela que me faz não dar razão ao Zé Mário: viveríamos melhor sem a direita que realmente existe (não me refiro às pessoas, obviamente), porque a direita então seria outra e o ponto do debate estaria num outro lugar. Porque para esta, para Pacheco Pereira, a resposta para a pobreza está na riqueza e, assim, pobre só será quem o merecer ser.
Por fim, deixem-me desabafar: num país onde a maioria das empresas roubam o Estado não pagando impostos, num país onde umas dezenas de agricultores recebem quantias milionárias para não produzir, num país onde construtores civis enriquecem através da corrupção, esta obsessão com o subsídio dos pobres é pura e simplesmente pornográfica.
(Daniel Oliveira)

 
POEMA ESCRITO HÁ MUITO TEMPO (MAS PODIA TER SIDO HOJE). Ainda a propósito destes dias de inferno, destruição e morte, recupero alguns versos escritos a pensar noutros incêndios:


ALEXANDRIA E O RESTO

Nenhum fogo
é igual a outro fogo;
só as cinzas são as
mesmas.

 
TRADITORI. Para evitar equívocos e suspeitas, todas as traduções de poesia deviam ser bilingues.

 
MAÇÃO. Eu lembro-me de Mação. Terra pequena, muito descaracterizada, aldeia com demasiado betão, vivendas de emigrantes, cafés com fitas de plástico na porta aberta, ruas devoradas por uma falsa ideia de progresso e música electrónica (em vez de sinos verdadeiros) na torre da igreja. Lembro-me de pensar que há centenas de aldeias iguais, pelo país fora, com os mesmos atentados urbanísticos, os mesmos Mercedes com um K na matrícula, os mesmos cartazes colados na montra das mercearias, anunciando Andreias Carinas pestanudas agarradas a um acordeão. Lembro-me também do resto: dos renques de pinheiros que escondiam o horizonte, dos pomares estendendo-se a perder de vista, das encostas que o fogo já devorara noutros verões menos violentos. São estas imagens do passado que morrem agora um pouco, asfixiadas pelo fumo negro que vai deixando, atrás de si, um rasto de cinzas e tristeza.
À distância, eu imagino o fogo a ultrapassar a débil muralha de pinheiros, a consumir os pomares carregados de fruta, a ameaçar, como um inferno ávido de tudo o que é humano, casas e pessoas. Imagino o pânico, o pavor, o medo, as mãos impotentes dianto do cerco das chamas. E imagino também, sem cinismo, aqueles tenebrosos sinos electrónicos, agora calados e inúteis, ou debitando ainda, em vão, uma estridente Avé Maria, no tom fanhoso de um sintetizador. Aqueles tenebrosos sinos electrónicos. Incapazes, perante a tragédia, de tocar a rebate.

 
SEGUNDA-FEIRA DE CINZAS. A «catástrofe», a «desgraça», a «calamidade» – chamem-lhe como quiserem – está consumada. E agora? Quem é que assume a imprudência, a incúria, o desleixo, a espiral dos erros?

 
MAGNUM 7 PECADOS. À tarde, numa esplanada de Lisboa, junto a um lago:

− Queria Vingança, por favor.
− Desculpe, mas não temos.
− E Luxúria?
− Também não. Só Vaidade, Inveja ou Avareza.



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