BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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3.8.03
 
MAIS UM LINK. A Natureza do Mal é um blogue magnífico. Há o Luís, que está preso (não sabemos se real, se imaginariamente) e a Sofia, uma lírica compulsiva de estilo impecável. A escrita não é apenas estimulante: às vezes inebria e desperta-nos maus pensamentos (como a cobiça). Vão lá ver com os vossos próprios olhos. Depressa. Agora. Já. Depois não digam que eu não avisei.

 
TODOS OS FOGOS, O FOGO. Uma das nossas maiores tragédias é esta: o primeiro-ministro (ou seja, o Governo) não ser capaz de responder, como devia, à pergunta de Sá de Miranda: «que farei quando tudo arde?»

 
O BEBÉ. A minha prima teve um filho há quatro dias. O João Pedro − tão pequenino e de feições já tão perfeitas... Vi-o deitado numa alcofa, vermelho do calor insuportável, dormindo profundamente enquanto não chegava a hora de mamar. Num país em chamas, esta será das poucas visões redentoras: um bebé lindíssimo, esticando as mãos (os dedos compridos), abrindo os olhos espantados, sem um queixume, sem uma ameaça sequer de choro.
Aconteceu ontem à tarde. Por todo o lado, à nossa volta, incêndios. E ali, tão sereno, o bebé. A salvação do mundo.

1.8.03
 
A CONVERSA. Há coisas que precisam de ser ditas para podermos dormir descansados. E, já agora, para olharmos o espelho sem hesitações.

 
EPC. Muita gente se pergunta por que razão desconfia Eduardo Prado Coelho dos blogues, quando a sua escrita se adequa tão bem à "topografia" literária da blogosfera. Simples: ele já tem um blogue há muitos anos. Chama-se «Fio do Horizonte» e só existe em papel, no Público. Se prestarem atenção, a maior parte das crónicas de EPC são posts: histórias de viagens; comentário político com amplas liberdades de estilo; divagações filosóficas; memórias de infância; referências pessoalíssimas a livros, discos ou concertos; além de incontáveis histórias do quotidiano (odisseias burocráticas, conversas telefónicas, a visita do canalizador). Sounds familiar? Pois é: de segunda a sexta, Prado Coelho assina uma coluna que é um espelho onde narra (e transfigura) a sua vida. Por que raio precisaria ele de um blogue?

PS- Se, mesmo assim, o cronista não resistir à tentação, sugerimos que reserve o seguinte endereço: www.cha-verde.blogspot.com.

PS2- Diz EPC, na sua crónica de ontem: «É possível que seja um mero fenómeno de moda e que mais tarde possamos dizer: houve um verão em que só se falava em blogues, lembram-se?» OK, e daí? E se for mesmo um mero fenómeno de moda? E se recordarmos este verão com a nostalgia que guardamos para os amores perdidos? Uma paixão extinta, caro professor, não deixa de ser uma paixão. E talvez ainda arda, nessa memória futura, qualquer coisa que o tempo não será capaz de apagar, qualquer coisa imperecível e gloriosa...

 
ESQUERDA/DIREITA. O Bruno Peixe, nosso itálico ocasional, escreveu-nos a propósito de uma questão levantada durante a mini-polémica com o Carlos Vaz Marques. E o e-mail dizia assim:

«Caro Zé Mário,
Alguns comentários a propósito da tua resposta a uma pergunta retórica colocada pelo Carlos Vaz Marques: em primeiro lugar trata-se de uma pergunta que não faz sentido («o mundo seria melhor se houvesse só esquerda?»), uma vez que esquerda e direita designam posições relativas num dado sistema. Só existe esquerda porque existe direita e vice-versa. Parece-me também uma daquelas perguntas que já pressupõe uma resposta. A confirmação é dada a seguir quando CVM diz que teria sérias dúvidas.
Mas o que mais me espantou foi a tua resposta. Dizes tu que o mundo seria infinitamente mais pobre se houvesse só esquerda. Descontando o facto de a frase não me parecer fazer muito sentido, como acima o disse, vou tentar discutir aquilo que ela me parece querer dizer. Ora o que ela me parece querer dizer é que uma comunidade política que não seja assente na divisão entre esquerda e direita, que é aquela sobre que assenta o parlamentarismo das actuais sociedades capitalistas, é mais “pobre”. Parece-me que a palavra “pobre” neste contexto não se refere à escassez de recursos materiais mas à diversidade ideológica. Ora o jogo de diferenças sobre o qual assenta o sistema parlamentar mais não é do que o disfarce sobre o qual se esconde o que verdadeiramente se joga: a gestão cómoda de interesses que não admite outro horizonte que não a repetição da ordem político-social existente. Ora, como tu disseste, ser de esquerda «Significa desejar um outro mundo, uma outra forma de fazer as coisas, uma outra vida − e lutar por isso.» Significa entender a política como a actividade que tem por princípio a igualdade. E como outra coisa que não a política toda a actividade que defende, por pragmatismo ou por convicção, a necessidade de perpetuação das desigualdades sobre as quais assenta a sociedade. Será possível uma comunidade política justa que seja composta também por indivíduos que não sejam habitados pelo desejo de igualdade e que lhe sejam mesmo hostis? Tenho as minhas sérias dúvidas.»

Caro Bruno: compreendo as tuas dúvidas, mas creio que te equivocas. O "desejo de igualdade" não é, nem pode ser, o único impulso para a actividade política. E olha que é melhor termos adversários de direita que sabem pensar e confrontar-nos (dois exemplos: este e este), do que imaginarmos um mundo só com "companheiros" de esquerda, entre os quais por vezes impera (sabes bem que assim é) a intransigência e o dogmatismo. A propósito, deixo-te algumas linhas de um livro/manifesto/provocação de Julio Cortázar (Fantomas contra os vampiros multinacionais, Teorema): «o narrador pensou que alguém muito querido dissera que o primeiro dever de um revolucionário era fazer a revolução, frase que andava muito na ponta da língua em terras quentes e temperadas, mas não ocorria a ninguém reparar nessa menção quase marginal de "primeiro dever", um dever a que outros se seguiam uma vez que este era o primeiro. E esses outros não tinham sido enumerados porque não era preciso, porque ao dizer essa frase o Che mostrara uma vez mais a sua humildade maravilhosa, dissera "o primeiro dever" enquanto outros teriam dito "o único dever", e nessa pequena mudança de nada, uma palavrinha por outra, estava o grande busílis, a diferença capital não somente nos comportamentos do presente, mas no destino ainda tão distante de qualquer revolução feita ou por fazer».

 
O POVO JÁ TEM O SEU BLOGUE. Um jornalista disse-me e eu fui ver. Era um blogue. Tem só dois posts. Os dois posts são dois artigos de jornal já publicados. Mas quem os escreveu, meu Deus, quem os escreveu... Ele está cá. Ele está entre nós. A voz do povo na esquerda, a voz da esquerda no povo. Agora sim, democratizamo-nos. Já não somos uma causa ultra-minoritária, não somos um espaço marginal. Os estádios são nossos. Os balneários são nossos. O blogue tem um nome original que não permite adivinhar logo a autoria. Mas é ele. Só pode ser ele. Sente-se o pulsar do bom povo português. E ainda há quem diga que ele é troglodita… Bolas. Ele até tem um blogue. (Daniel Oliveira)

 
MILAGRE. É mesmo verdade: ele (i.e., o meu irmão) está de regresso. Aleluia.

 
OS CAVALEIROS NEGROS. O Zé Mário falou, há poucos dias, das novelas de Stephen Crane, recentemente traduzidas para português por David Furtado e publicadas na Antígona e disse-nos do seu “assombro” ao descobrir a prosa magnífica deste autor estranhamente pouco conhecido. Mas menos conhecida ainda é a sua poesia, que o próprio Crane qualificava modestamente de «lines». No entanto ela já por aqui andou, logo no início do BdE, quando as primeiras estrofes de «War Is Kind» inauguraram em Fevereiro os Versos contra a barbárie. Foi, sem dúvida, uma das descobertas literárias mais intensas que fizemos este ano. E continuamos a não entender como é possível que a sua prosa e poesia (e não conhecemos os seus trabalhos de jornalismo de guerra), continuem ainda hoje, cem anos passados, à espera do reconhecimento que merecem neste lado de cá do Atlântico. Por tudo isso, aqui ficam alguns dos poemas do «The Black Riders and Other Lines», um pequeno livro, admirável e profundo, publicado em 1895.


IV

Yes, I have a thousand tongues,
And nine and ninety-nine lie.
Though I strive to use the one,
It will make no melody at my will,
But is dead in my mouth.


VI

God fashioned the ship of the world carefully.
With the infinite skill of an All-Master
Made He the hull and the sails,
Held He the rudder
Ready for adjustment.
Erect stood He, scanning His work proudly.
Then-at fateful time-a wrong called,
And God turned, heeding.
Lo, the ship, at this opportunity,
slipped slyly,
Making cunning noiseless travel down the ways.
So that, forever rudderless, it went upon the seas
Going ridiculous voyages,
Making quaint progress,
Turning as with serious purpose
Before stupid winds.
And there were many in the sky
Who laughed at this thing.


XIV

There was crimson clash of war.
Lands turned black and bare;
Women wept;
Babes ran, wondering.
There came one who understood not these things.
He said, "Why is this?"
Whereupon a million strove to answer him.
There was such intricate clamour of tongues,
That still the reason was not.


XX

A learned man came to me once.
He said, "I know the way, − come."
And I was overjoyed at this.
Together we hastened.
Soon, too soon, were we
Where my eyes were useless,
And I knew not the ways of my feet.
I clung to the hand of my friend;
But at last he cried, "I am lost."


31.7.03
 
DEFESA DE SANTANA. Os intelectuais da nossa praça, muito deles através dos seus blogues umbiguistas, andam mais uma vez a zurzir na deficitária cultura geral de Pedro Santana Lopes, presidente da Câmara Municipal de Lisboa. É pura injustiça! Dizem para aí que o autarca escreveu à Dom Quixote, respondendo ao envio de um livro («Dom Casmurro» de Machado de Assis), com uma carta dirigida ao autor, por acaso falecido há quase um século? E depois, qual é o mal? Antes isso do que a ingratidão e o silêncio, não acham? Para além de que os grandes génios (como Machado) nunca morrem. E mesmo se morrem como todos nós, podem sempre receber a missiva lá no Olimpo, de onde espreitam, satisfeitos, as nossas miseráveis invejas e perfídias. Ou não?
Sabem qual é o grande problema de Santana Lopes? Eu digo-vos: a generosidade. Não tendo tempo para ler os livros que lhe enviam, pelo menos agradece aos respectivos autores a gentileza do envio. Mas será que os intelectuais da praça percebem isto? Claro que não. Prendem-se aos detalhes e picuinhices, sempre à espera de embaraçar alguém com perguntas sobre o número de cantos dos Lusíadas. Um bando de piranhas ávidas do colorido sangue da ignorância, é o que são.
Por acaso, eu até estou em condições de adiantar o verdadeiro motivo que afastou Santana da mera leitura da contra-capa de «Dom Casmurro» (logo um título que lhe dizia tanto...). Pois fiquem a saber, ó abutres enciclopédicos, que o presidente da Câmara não teve tempo para ler porque anda em negociações com um compositor que vai escrever uma sinfonia para a inauguração do Parque Mayer, versão O'Gehry. Uma coisa de categoria feita por um artista de nomeada. Polaco, parece. E com um jeito para o violino que só visto.

 
A ESCUTA. Ela está em todos os jornais e noticiários televisivos (quase sempre com vozes off ridículas, a fazerem lembrar os diálogos Mike/Melga do Herman Enciclopédia). Refiro-me à escuta judicial número 1892, um diálogo entre Ferro Rodrigues e António Costa, que serviu para confirmar a decisão judicial de manter a prisão preventiva de Paulo Pedroso.
Da dita conversa, podem tirar-se as seguintes conclusões:

- António Costa trata Ferro Rodrigues por tu, enquanto Ferro Rodrigues, apesar da sua superioridade hierárquica, trata António Costa por você (hmmm, um comportamento suspeito...)
- Ferro Rodrigues queixa-se do trânsito e da meteorologia (típica manobra de diversão)
- Ferro Rodrigues diz muitos «pá», espalhando-os pela conversa de forma sincopada, num padrão que prenuncia uma forma de comunicação secreta (talvez a partir de uma variante do código Morse)
- Antes do jantar com o Presidente da República, Ferro Rodrigues propõe-se tomar um banho (subliminar referência a uma possível chamada telefónica «limpa»; isto é, sem escuta; obviamente feita a partir de outro telefone)
- A hipótese do ponto anterior confirma-se quando Ferro Rodrigues pede a António Costa que mude de aparelho, no preciso instante em que este se preparava para falar de assuntos delicados

A partir deste revelador fragmento de conversa, ficam provadas três coisas: 1) a existência de risco claro de «perturbação do inquérito» (pelas razões aduzidas entre parêntesis, lá atrás); 2) a péssima expressão oral dos líderes do maior partido da oposição (lacuna linguística que devia constituir um crime em si mesmo); 3) a evidente necessidade de manter a prisão preventiva de Paulo Pedroso (diz-me quem são os teus amigos, dir-te-ei quem és).
Alguma dúvida?

 
AINDA A EX-SOREFAME. Do nosso leitor que assina com iniciais (PP), recebemos uma continuação das histórias de má gestão na ex-Sorefame. A serem verdade (algo que não pudemos evidentemente comprovar), trata-se de uma situação manifestamente grave, a exigir uma rigorosa investigação jornalística. Ficam as pistas de alguém que conhece a empresa por dentro, apresentadas aqui com as reservas óbvias resultantes do facto de não termos ouvido (como ouviríamos numa reportagem sobre o tema), as várias partes implicadas nas denúncias feitas por PP. Pela mesma razão, omitimos as passagens do texto em que se faziam referências concretas a pessoas ou acções por elas tomadas. No BdE não temos receio de chamar a atenção para casos destes, mas não nos queremos substituir, como é óbvio, nem à imprensa nem (muito menos) aos tribunais.

Depois de ler os três comentários ao meu texto inicial, decidi alimentar um pouco mais esta questão. A fim de dar corpo às minhas declarações, que tipo de dados pretendem? Factos? Nomes? Datas? Acham que o risco real de mil pessoas (empregos directos) ficarem sem emprego não é suficiente? Preferem considerar também os indirectos perfazendo um total de cerca de 3000 pessoas? Não acham que só isto é mais do que suficiente? E que tipo de factos serão necessários? Não bastará o estado a que a empresa chegou? Ou será preciso cópias dos relatórios financeiros manipulados que sempre foram enviados para Berlim? Mais factos? Quais foram, como se calcularam e para onde foram os resultados líquidos resultantes das margens dos contratos com o Metropolitano de Lisboa (ML)? Se o ML soubesse o quanto foi roubado não comprava nem mais um comboio. E o contrato dos Pendulares? Qual foi o prejuízo para a empresa? E o Metro do Porto? Uma história de farsas e farsantes ainda a ser escrita e que vai ter um fim triste. E os robots de soldadura que custaram milhões? Qual foi o retorno do investimento? E o contrato do BAAN (software de gestão integrada)? Quem tomou a decisão de compra e quais os critérios? Porquê o BAAN se mais ninguém na empresa o utilizava? Para agora passarem para o SAP? E as obras de construção civil? Sabem quanto, onde e com quem se tem gasto tanto dinheiro? E na área da Qualidade? A competência é directamente proporcional ao seu responsável máximo, mas os vencimentos são inversamente proporcionais. E os gestores? Sabem quantos "não engenheiros" estão no poleiro? Desde 1997 sabem qual foi o índice de crescimento médio anual dos vencimentos do pessoal fabril (chamados colarinhos azuis)? E o mesmo índice para os colarinhos brancos? E agora para os gestores níveis 1, 2 e 3? E quantos envelopes azuis passaram/passam por baixo da mesa? Quantos fornecedores lá existem que pertencem a funcionários (com poder de decisão)? E os automóveis? Sabem qual é o critério de atribuição? (...) Mas por que é que não há uma Felícia Cabrita qualquer que destape aquele escândalo disfarçado? (PP)

 
FADIGA SELECTIVA. A deputada Maria Elisa suspendeu o seu mandato de parlamentar por motivo de doença (fadiga crónica, devido a uma fibromialgia), mas vai conduzir, na RTP, um programa de entrevistas. Lá diz o ditado: «perguntar não custa».

 
O PAÍS REAL. Após uma mini-tournée de três dias pelos distritos de Castelo Branco, Guarda e Leiria, Durão Barroso teceu loas ao mirífico "País Real", o país «que trabalha e que confia», o país puro e verdadeiro, em clara oposição às «pretensas elites» instaladas nos lisboetas círculos do poder. É sempre comovente ver um primeiro-ministro, do cimo de um palanque improvisado, a agradecer tão candidamente ao povo – essa entidade abstracta e castiça – o facto de «entender o esforço que está a ser feito». Lembram-se de Cavaco Silva e do «Portugal Profundo»? A história repete-se, mesmo se o cenário não tem a panache de um Pulo do Lobo. Ainda assim, o esquema não falha: alinda-se o discurso, almoça-se com as "forças vivas" locais, improvisam-se soundbytes para o Telejornal das oito e ala para Lisboa que se faz tarde. O "País Real" fica lá longe, atrás do sol posto, entre nuvens de poeira. E em São Bento não deixou de existir, depois das belas palavras, a mesma torre de marfim.

30.7.03
 
O OUTRO LADO (2). Do nosso leitor e amigo José Vaz Pereira, uma pequena adenda a um post de ontem: «É trágico o balanço da violência doméstica no país vizinho mas há contradições na Espanha (da qual gosto muito) que desafiam o tempo. Recomendo vivamente, para mergulhar na diversidade espanhola, a biografia: Gerald Brenan, El Castillo Interior, de Jonathan Gathorne-Hardy (Aleph). Brenan escreveu e viveu durante imensos anos na Andaluzia. A edição inglesa está out of print. Já agora, os livros que fizeram dele um hispanista foram: The Spanish Labyrinth: the social and political background of the Spanish Civil War (1ª edição em 1943) e South from Granada (1ª edição em 1957). Coisa curiosa, foi Fraga Iribarne que, em 1973, três décadas mais tarde, autorizou a primeira edição espanhola do Labirinto

 
MICRO-COLUNA SOCIAL. Ontem, ao fim da tarde, vi a pintora Graça Morais a conduzir um Mercedes Smart na Avenida Fontes Pereira de Melo, em Lisboa. Hoje à hora do almoço, na FNAC do Chiado, folheei livros de poesia lado a lado com a cineasta Teresa Villaverde (vestida de negro, na foto que não há). Estavam ambas com muito bom aspecto. Seria, suspeitamos, das férias nas Maldivas (hmm, daí talvez não) ou do contacto efusivo com os mistérios da criatividade artística (soa melhor, sim; e é mais provável).

 
EFEITOS DA CANÍCULA. Temperatura: 39º C. Não é preciso dizer mais nada, pois não? Queiram os distintos leitores perdoar os devaneios que tomaram conta deste blogue. A normalidade segue dentro de momentos.

 
LINK. Eu se fosse a vocês, colocava este blogue nos Favoritos, por todas as razões e mais uma.

 
POST PROPOSITADAMENTE CRÍPTICO. Dois meses, 61 dias, 1464 horas, 87840 minutos, 5270400 segundos. E isto ainda é só o princípio.

 
NOVAS TENDÊNCIAS. Esqueçam o S&M. O que está a dar é o H&N (homossexual e nobre).

 
DÚVIDA. À saída do metro, um budista (vestido a preceito, com livros de yoga debaixo do braço, cabeça rapada e carinha de santo) deu-me um encontrão e uma valente cotovelada. Devo presumir, só porque ele passa os dias a cantar «Hare Krishna, Hare Krishna», que a cotovelada foi involuntária?

 
FIM DE POLÉMICA. Tirando a história das «espingardas» contadas, eu até subscrevo o que defende Carlos Vaz Marques: a «discussão permanente» deve ir além das guerrilhas políticas e as «ideias» são mais importantes do que os «rótulos». Acontece que para mim, Carlos, ser de esquerda não é um rótulo.
Quanto ao resto, amigos como dantes. Obrigado pelos textos. E pela música.

 
BachLOG. A música vai chegando aos blogues. No Outro, eu estive a reouvir um excerto das Variações Goldberg, por Glenn Gould e outro, igual (diferente), por Rosalyn Tureck. Ouvi um. Ouvi outra. Apesar de, ao contrário de Carlos Vaz Marques, não hesitar e escolher Glen Gould (sempre me senti mais próximo da “fogosidade” do que do “equilíbrio luminoso”), fiz play nos dois e eles tocaram ao mesmo tempo. Um dueto. Obrigado, Carlos Vaz Marques. Fizeste um analfabeto musical mais feliz. (Daniel Oliveira)

29.7.03
 
O OUTRO LADO. Quero começar por esclarecer uma coisa: eu gosto muito de Espanha. Gosto das paisagens espanholas, das cidades espanholas, das praças espanholas (sobretudo à noite, cheias de espanhóis festivos), dos museus espanhóis, dos pintores espanhóis, da literatura espanhola (e das artes espanholas em geral), do futebol espanhol, das estradas espanholas, da comida espanhola, da movida espanhola; enfim, da Espanha que os espanhóis souberam (e continuam a saber) reinventar. Mas a verdade é esta: quando leio as recorrentes notícias sobre os maus tratos que muitos homens espanhóis infligem a muitas mulheres espanholas (este ano, em seis meses, já morreram 45 esposas, companheiras ou namoradas, às mãos brutais da loucura ou do ciúme) até sinto vergonha de ser ibérico.

 
GOOD-BYE, MR. HOPE. «Morrer é algo a evitar − pode arruinar uma carreira inteira». Não a tua, Bob, não a tua. (Já agora, deixa-me que te diga: chegar aos 100 anos e morrer logo a seguir, isso sim é uma verdadeira punchline).

 
NÃO VI A BOMBA. A Bomba Inteligente apareceu na televisão e eu não vi. Contaram-me tudo. Disseram-me que é gira, muito gira mesmo. E eu não vi. Estou destroçado. Não vi a bomba quando ela explodiu. Pobre de mim. (Daniel Oliveira)

 
CARTA ENTREABERTA. Firmino Mendes escreveu ao itálico DO. Uma carta sem envelope, para todos lerem:

«Daniel Oliveira,
estou a gostar dessas opiniões ardentes, não sobre o Mexia, a TSF ou o Acontece, mas sobre a ETA ou o Fidel. É que já basta de complacências esquerdistas e é necessário chamar as coisas pelos nomes: a ETA é terrorista-fascista e pertence à vergonha da História, com o seu "lumpen" de assassinos, e o regime cubano não terá História possível para o absolver. Para esse peditório já demos! Já agora, vale a pena ler este fragmento de um texto do escritor Mário de Carvalho, publicado no último "JL":

“O regime fulanizou-se, estagnou, corrompeu-se, cobriu-se com patranhas e mentiras. A desculpa do bloqueio americano já não convence ninguém. Nem os julgamentos à la minuta, com penas à soviética. Sobretudo, não se executam pessoas. A razão por que não se matam pessoas é da ordem daquelas que proíbem o canibalismo, os sacrifícios humanos, as mutilações religiosas, a escravatura, a tortura. Questões de civilização. Já nem se discutem. Que ninguém tenha o despudor de, no meu país, nos tempos que correm, vir sustentar que um estado pode assassinar os seus cidadãos.”
Mário de Carvalho, in Jornal de Letras ( JL ), n.º 856, de 23.07.2003

Um abraço do Firmino Mendes»

 
LEIAM SHAKESPEARE E CONFIRMEM. A mais violenta de todas as coisas: o amor.

 
STARING AT YOU. Foi de noite, o tempo suspenso, a rua imóvel, a luz vermelha a piscar no tablier, o silêncio em vez das palavras inúteis. Na escuridão, o teu rosto luminoso. E os teus olhos, afastando as sombras.

 
EX-SOREFAME. De um leitor que assina com iniciais, PP, recebemos este texto:
No passado dia 14 de Julho, foi publicado no jornal «A Capital» um artigo sobre a Ex-Sorefame, assinado pela jornalista Mariana Adam. Não sei se o artigo foi encomendado ou se a jornalista está só a estagiar, mas algo de bizarro se passa! O artigo é demasiado importante, ou melhor, o seu tema, merecendo por isso muito mais do que a forma superficial e incompleta (até com alguns erros crassos) como foi tratado. Ora vou tentar dar uma ajuda porque conheço muitíssimo bem o caso, as pessoas, a situação, não podendo deixar de lamentar a iminência de tal situação de fecho, como é óbvio.
A ex-Sorefame, ex-Adtranz, actual Bombardier, foi e nunca mais voltará a ser uma grande empresa, uma grande escola. Por uma questão de método, vamos separar as questões.

Enquanto escola, sempre foi um enorme banco de ensaio para os que lá trabalham ou trabalharam de forma honesta, empenhada e competente, para os que se iniciam no mundo do trabalho, para os que desenvolveram as suas técnicas de parasitismo e incompetência, para os faz-de-conta, para os gestores corridos de outro lado onde deixaram má memória, para os professores universitários servirem interesses académicos e particulares, para se introduzirem empresas próprias como fornecedores, para se utilizar nome ou amizade familiar sem contrapartida de competência, para se dar um lugar aos filhos ex-estudantes ou perto disso, para se aprender a como gastar muito além do que se pode, para se aprender a como dar mais a quem faz menos e dar menos a quem faz mais, para se aprender a como manipular os relatórios de gestão e desempenho, para, para, para... Há mais, muito mais. É um autêntico "iceberg" − nem os "patetas alegres" da Comissão de Trabalhadores sonham. Fazem barulho, acham que sabem, acham que vêem, mas não sabem nem vêem nada!!! Considerações políticas e juízos de valor à parte, eficácia meus amigos, eficácia. Sabem o que é?

Enquanto empresa, ela pode e deve ser gerida com base em critérios de eficiência e rentabilidade. Ora aqui estão duas palavras mágicas que tudo explicam. Se não vejamos, de forma sucinta. Seja qual for, ou quem for, o dono de uma empresa, só pode e deve manter e desenvolver a empresa e a sua actividade desde que haja geração de riqueza. Isto é, desde que seja rentável. Mas ser só rentável, nos dias que correm, não basta. Também tem que ser competitiva e flexível. Sem sair deste círculo fechado, qual efeito de "pescadinha de rabo entre os lábios", pode explicar-se de forma simples a história recente da ex-Sorefame. Não quero maçar excessivamente os meus eventuais leitores, mas é em torno destes vectores de gestão que se pode relatar/explicar o envolvimento passado da ABB sozinha pós-IPE, da ABB com a DaimlerChrysler, da DaimlerChrysler sozinha, e finalmente da Bombardier (BT).
Costuma dizer-se que, quem vem no fim varre a casa. Pois é, só que estes Canadianos da BT não são bons de assoar, não brincam em serviço e levam a coisa muito a sério. Não vale a pena adoçar a pílula, dourar o cenário, manipular os relatórios.
Se o índice de concentração de incompetência não fosse tão elevado, a começar pelo topo, onde vegetam iluminados "monstros sagrados" de oportunismo e faz-de-conta, talvez o antigo ou o mais recente tempo de empresa-escola tivesse servido para algo. Talvez os melhoramentos, o desenvolvimento e dinâmica introduzidos no tempo da Adtranz tivessem servido para algo. Talvez as experiências recentes de insucesso, porque não há quem as não tenha, tivessem servido para algo − nem com os erros aprendem. Talvez a solução seja o poder político ter a lucidez e a coragem de seguir o exemplo recente do caso Eurostat − identificar o problema, localizá-lo, assumi-lo e saneá-lo de forma implacável. Longe vai o tempo dos valores morais, éticos e profissionais de outrora, um Eng.º Fernando Vazão por exemplo. Longe vai o tempo em que o nome Sorefame significava qualidade e competência. Resta-me lamentar que sejam arrastados no vórtice que se avizinha tantos e tantos que não merecem. Resta-me desejar dias de pena salomónica para quem tanto mal fez e ainda faz a esta empresa, delapidando recursos, uns poucos destruindo irremediavelmente o que tanto custou a construir por muitos. Resta-me desejar lucidez, coragem e determinação para se encontrar o caminho certo, sabendo distinguir clara e inequívocamente o trigo do joio.


 
CONTAR ESPINGARDAS. Na sua excelente página, o Carlos Vaz Marques respondeu ao nosso último post. Assim: «O Blog de Esquerda faz coro com o Dicionário do Diabo. Está no seu direito (ao erro). No Blog-de-Esquerda escreve-se bem. O Blog de Esquerda é frequentemente interessante. Mas não lhe vejo só méritos. Encontro-lhe também o defeito de ser, por vezes, mais um dos blogues de "contagem de espingardas". O mundo seria melhor se houvesse só esquerda (seja o que for que isso pudesse querer dizer)? Tenho sérias dúvidas.»
Caro CVM, apenas dois comentários:
1) Nós nunca quisemos ter só méritos. A perfeição é para os puros e para os santos; fica bem no céu, mas cá em baixo é uma quimera. Nós temos consciência dos nossos defeitos, das falhas, da tendência para cometer erros (e repeti-los), bem como dos limites do nosso olhar e da nossa escrita (que coincidem, claro está, com os limites da nossa ignorância). Não queremos ter sempre razão e muito menos queremos impor certezas a ninguém.
2) Já não é a primeira vez que nos atiram à cara essa da "contagem de espingardas", unicamente porque não hesitamos em defender ideias de esquerda e, talvez mais do que isso, uma "atitude" de esquerda. Onde é que está o mal? Somos claros, não andamos a enganar ninguém, evitamos os equívocos e as meias-tintas. Repito: onde é que está o mal? Creio que em lado nenhum. Até porque temos o cuidado, sempre que julgamos necessário, de criticar figuras ou projectos de esquerda com os quais pura e simplesmente discordamos (não olhamos para o lado, a fingir distracção, como muitos fazem). Quanto à pergunta crucial («o mundo seria melhor se houvesse só esquerda?»), tu ainda tens «sérias dúvidas». Mas eu tenho uma certeza: não, não seria melhor; seria infinitamente mais pobre (e talvez mesmo insuportável). Ser de esquerda não implica ser monolítico e recusar quem não pensa como nós. Significa outra coisa. Significa desejar um outro mundo, uma outra forma de fazer as coisas, uma outra vida − e lutar por isso. Significa também (mas não só) contar "espingardas". Porque a alternativa às "espingardas" é a paz podre.

 
AND PROUD OF IT... Anda para aí uma grande polémica entre o Carlos Vaz Marques e o Pedro Mexia, por causa da TSF. Eu não concordo com a argumentação do PM (sobretudo na sua réplica às objecções de CVM), mas o que ele diz é verdade: 1) a TSF é a melhor rádio portuguesa; 2) a TSF é de esquerda. Em vez de se indignarem, os profissionais daquela estação deviam orgulhar-se destes factos evidentes, até porque eles não têm colocado em causa o seu profissionalismo.
OK, a TSF está globalmente à esquerda. So what? É impressão minha, ou só se repara nisso porque (quase) tudo o resto, na comunicação social portuguesa, fica descaradamente à direita? Vale a pena responder a esta pergunta.

 
FIDEL. Fidel Castro disse que não precisa da ajuda dos europeus. É capaz de ser verdade. Mas aos cubanos, a esses, provavelmente até lhes dava jeito. As comemorações oficiais do regime são a imagem oposta à da alegria que tomou conta de La Habana quando os barbudos chegaram à cidade. A revolução está prisioneira dos caprichos de um homem. Acontece tantas vezes. (Daniel Oliveira)

 
PORVENTURA UM DEBATE. Miguel Portas vem pedir, no DN, aos camaradas «do mesmo lado da barricada», «elevação» e «uso de argumentos» ao exporem as suas diferenças relativamente a Boaventura de Sousa Santos. Só posso falar do que conheço; da obra do professor, e relacionado com os assuntos em que trabalho, refiro-me ao livro «Um Discurso sobre as Ciências». Após a leitura do mesmo, só posso concluir que, pelo menos ao falar de ciências, o Prof. Boaventura é um pedante (ou seja, fala do que não sabe como se soubesse). As relações entre as ciências físico-naturais e as ciências sociais por ele propostas parecem-me desprovidas de sentido. Falando da Física em particular, de que aprendi qualquer coisa nos últimos anos, espanta-me como, havendo ainda tantos aspectos misteriosos e menos compreendidos da mesma para os especialistas, venha um sociólogo falar como se fosse muito entendido sobre esses assuntos. Para se poder falar da relação entre diferentes saberes, é necessário ter um conhecimento básico dos mesmos. Ora, eu não sei que conhecimentos de Física Moderna terá o Prof. Boaventura. Não sei se ele terá ideia dos principais tópicos de investigação contemporâneos, do confinamento, da quantização da gravidade, da supercondutividade a altas temperaturas. Sei que não pode ser levado muito a sério por cientistas quem fala de conceitos fundamentais tendo os conhecimentos de Física de um aluno do ensino secundário. E é esse nível de conhecimentos que transparece da (pequena, mas julgo que representativa) fracção da obra do Prof. Boaventura que eu li.
Infelizmente, o pedantismo científico que referi é comum a outros cientistas sociais. O físico Alan Sokal tornou-se conhecido internacionalmente por o denunciar (referindo em particular o Prof. Boaventura), utilizando os métodos que os mesmos cientistas sociais usam.
Para tranquilizar o Miguel Portas, Sokal situa-se fundamentalmente do "nosso" lado da barricada e argumenta com elevação, algo que não se pode dizer de muitos dos cientistas sociais que o atacaram. No próximo dia 31, em Lisboa, realiza-se no âmbito do "XIV International Congress on Mathematical Physics", um debate que reúne Boaventura, Sokal e mais cientistas. Não podendo (com pena) estar presente, convido os leitores a assistirem e a participarem.
(Filipe Moura)

 
CONFIANÇA. O Chefe do Estado-Maior do Exército diz que perdeu a confiança política em Paulo Portas. Eu, que nunca tive confiança de espécie nenhuma no ministro de Estado, não posso, no entanto, deixar de me espantar. Agora são os generais que têm confiança política nos ministros? Definitivamente, ou Portas não se dá ao respeito ou estes militares acham que a disciplina é só para os outros. (Daniel Oliveira)

 
TOMARA. Elas são amigas, muito giras (pelo menos as que conheço), faladoras, inteligentes, confusas, alegres, tristes, serenas, com os cabelos em pé, muito líricas, muito práticas, cinéfilas, fãs de canções brasileiras, atiradoras de farpas, propagadoras de afectos desmedidos; enfim, um glorioso gineceu. O blogue chama-se tomara-que-caia − o nome que se dá, no Brasil, a uma peça de vestuário muito feminina. Pela minha parte, garanto-vos que é imperioso ir lá todos os dias (elas escrevem imenso) e espreitar as conversas, as leituras partilhadas, os desabafos. Há por ali girl talk, claro, mas não só. Há sobretudo cinco mulheres de que apetece ser amigo. Eu tenho essa felicidade (essa sorte) em relação a duas delas. E ainda ontem pude constatar que é mesmo uma sorte, enquanto nos deliciávamos − os quatro − com as pataniscas mais-que-perfeitas da Lia.

 
ASTRONOMIA. Ao contrário de JPP, durante o fim-de-semana eu não observei Marte no céu. Preferi Vénus na Terra.

28.7.03
 
O PALHAÇO. Alberto João Jardim voltou a falar no comício do PSD Madeira. Nem sei o que disse. No meio de tanta alarvidade ébria já nem interessa. As televisões lá foram, como todos os anos. A aberração parece vender. Mas já ninguém se dá ao trabalho de comentar o que o pobre palhaço diz. Há quem lhe ache graça. Um provocador, dizem. Eu não acho. Não tenho sentido de humor para tanto. Mas a verdade é que aquela patética figura continua a vencer eleições na Madeira. (Daniel Oliveira)

 
ACONTECE. Ao contrário do que sucede no post anterior, concordo com o Mexia em relação ao «Acontece». Acho mal que acabe só porque o ministro Morais Sarmento acha que é um desperdício de dinheiro. Mas lá que o programa é mau, isso é indiscutível. «Abaixo de Namora», diria o Luiz Pacheco. A solução não é acabar com ele, é melhorar. Aprendam com a Sociedade de Belas Artes. Não será perfeito, mas cumpre. (Daniel Oliveira)

 
VOZ DA AMÉRICA. O Pedro Mexia diz que a «cobertura da TSF da guerra no Iraque foi vergonhosa. O epíteto "Rádio Bagdad" corria em redacções de jornais, cafés, tertúlias e outros círculos». Pedro Mexia trabalha no «Diário de Notícias». Não sei o que do DN se dizia nas redacções, cafés e tertúlias. Sei o que se dizia nas páginas do DN. «A Voz da América», seria o título certo. Já para não falar dos diários de Ribeiro Ferreira em Bagdad. Mas não vou descer tão baixo porque até gosto do Mexia. (Daniel Oliveira)

 
SEM COMENTÁRIOS. Cinha Jardim, sobre Paulo Portas: «É uma pessoa que me diverte imenso, tem um sentido de humor fantástico e além disso, modéstia à parte, acho que quando ele está ao meu lado fica muito mais charmoso, mais solto, mais divertido, fica menos uma figura de Estado.» (24 Horas)

 
VERSOS QUE NOS SALVAM. Continuam a chegar pelo correio, como aparições felizes, os volumes de capa carmim que a Institució Alfons El Magnànim, de Valência, edita com esmero. Lá dentro: poesia espanhola contemporânea, traduzida (e bem) por Luís Filipe Sarmento. Hoje decidi abrir, um pouco ao acaso, o Triste Assombro de Francisca Aguirre, autora que nasceu em 1930 mas só publicou a sua primeira obra – Ítaca – em 1972 (Prémio Leopoldo Panero). Escolhi este poema:


NEGRO INCÊNDIO

A noite está comigo.
Depois de um dia agitado e esburacado
olhei de repente para a janela
e vi o negro incêndio.

Tão irreal e tão surpreendente que é por vezes o conhecido.
De que estranha maneira
de repente estamos vivos.
De que maneira dissimulada e plácida
de repente estamos mortos.

Alguém que me denuncie nesta sombra,
alguém que me defenda nesta noite,
alguém que seja meu fiador,
alguém que me submeta à sua impotência,
alguém, um rosto, mas agora.


 
PEQUENO LAMENTO IRÓNICO SOBRE A PARTILHA (ENTRE NAMORADOS BLOGGERS). Ontem queria ter escrito mais posts. Ela também. É o problema de só haver um computador.

 
QUALIDADE DE VIDA. Os parisienses retiraram os carros de uma via rápida que bordeja o Sena para fazer uma praia. Os lisboetas atafulham a praia e a mata da Caparica com milhares de automóveis. Eles vão comodamente de metro. Nós, de carro, suamos as estopinhas nos engarrafamentos, para lá chegar. Eles refrescam-se com água doce, limpa. Nós mergulhamos na água salgada, poluída pelas borras dos tanques dos petroleiros e suiniculturas. Eles compram produtos do comércio justo a preços controlados. Nós compramos, a preço livre, os produtos das multinacionais. Lá, a animação são as músicas do mundo, o jazz. Cá são as festas da cerveja e o pimba. Lá, os meninos têm os brinquedos na Paris Plage. Cá, têm de levar de casa. Lá, com sensibilidade e inteligência, trava-se o progresso duvidoso. Aqui, destrói-se a beleza que a natureza nos ofereceu. Lá, só podem estar na Velha Europa. E nós, claro, na Nova. Ou será que não? (Vítor Dinis Silva, aka Pai Itálico)



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