BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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19.7.03
 
C DE CARLA BRUNI (UMA ENTRADA PARA O DICIONÁRIO DO DIABO). Ela é lindíssima, canta bem e diz que os seus gostos literários passam por «James Joyce, Thomas Mann, Italo Calvino, Dante, Flaubert, Proust, Baudelaire e Rimbaud». Ó Pedro, de que é que estás à espera? Chegou, finalmente, a tua musa.

 
JAZZ EM COIMBRA. Logo à noite (21h30), a Dave Holland Big Band toca no Pátio das Escolas da Universidade de Coimbra. A não perder.

 
VENTO AGRESTE. Este senhor não gosta mesmo nada de nós e está, como é óbvio, no seu direito. Mas só não percebo uma coisa: por que razão diz ele que nos perde sempre que pode? Quer dizer que às vezes não pode? Haverá alguém que o obriga a visitar este antro de horrores? Tss, tss, e eu que julgava que a tortura tinha sido erradicada em Portugal... Liguem para a Amnistia Internacional, por favor.

18.7.03
 
A LENTIDÃO (AINDA E SEMPRE). Continuam a chegar mails de leitores queixando-se da lentidão na abertura desta página. É verdade, o problema ainda não foi resolvido. Os muitos afazeres dos dois mentores deste blogue lá fora (isto é, no mundo real), têm adiado medidas mais expeditas para resolver a situação. Apelamos por isso à paciência dos nossos visitantes, desejando que a leitura dos posts e comentários compense os excessivos períodos de espera.

 
AGRADECIMENTO. Em mais um exemplo de solidariedade inter-bloguística, a Sofia, do blog A Corneta, ajudou-nos a resolver o problema dos acentos na barra de descrição do BdE. Como o problema afecta muitos outros blogues e a solução é simples, transcrevo-a aqui, a ver se debelamos definitivamente a maleita:

«O underscore (_) representa a letra a acentuar (a, e, i, o, u ou o ç).
Depois é só acrescentar:
Til: &_tilde
Acento agudo: &_acute
Cedilha: &_cedil

No vosso caso, por exemplo, ficaria assim:

POLÍCA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC.
(envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)»

Garanto-vos que é menos complicado do que parece. E resulta. Obrigado, Sofia.

 
DIVULGAÇÃO DE LIVROS. Atenta leitora de blogues, a Helena Ayala Botto (talvez se recordem de um post que ela publicou aqui no BdE, sobre um disco antigo com o Debussy ao piano) trabalha agora na editora Relógio d' Água. Uma das suas funções é dar a conhecer, aos críticos dos jornais, as obras que vão saindo. Por exemplo: À Sombra das Raparigas em Flor, segundo volume da tradução de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, por Pedro Tamen; ou Nostalgia do Absoluto, mais um dos fabulosos ensaios de George Steiner. E o que a Helena fez foi muito simples: enviar a nota de imprensa, não apenas para as redacções (onde tantas vezes acabam no caixote do lixo), mas também para um número considerável de blogues (mais de 30). Não faço ideia de qual será a resposta da blogosfera a este tipo de divulgação. Mas, à partida, parece-me uma excelente ideia.

 
REFUTAÇÃO DE FERNANDO PESSOA. Ai que prazer, cumprir um dever, ter um livro para ler («O Monstro», de Stephen Crane) e lê-lo.

 
UM RECURSO IMPOSSÍVEL. Um arguido está em prisão preventiva porque é acusado de ter amigos que pressionam a Justiça. O advogado desse arguido, usando de um direito constitucional (Artº 32), recorre da decisão para um tribunal superior. Sabendo do recurso, o juiz que decidira da prisão preventiva, resolve antecipar o momento em que revê o processo. O tribunal da relação, sabendo da revisão, decide não responder ao recurso, porque entende que ele está ultrapassado. O arguido fica a saber que isso pode acontecer sempre que pedir recurso, nunca podendo esperar que outro juiz decida da bondade da decisão do juiz anterior. Soa bem? A mim não. Mas isto é a mim, que acredito nas afirmações do Presidente do Sindicato dos Juízes, que nos garante que estes «não são um bando de justiceiros». (Daniel Oliveira)

 
POEMAS A BORDO. Já aqui falámos (e ainda havemos de falar melhor) de uma nova livraria de Aveiro, chamada «O Navio de Espelhos» - um título "roubado" a um dos mais belos poemas de Cesariny. Hoje à noite, pelas 21h30, a Sónia e o Jorge, audazes arquitectos desta ideia, organizam uma leitura de poesia, levada a cabo pelo Grupo Poético de Aveiro. Se estiverem por perto, não se esqueçam. A bela casa dos livros fica na Rua 31 de Janeiro, n.º 8-D e 10.

17.7.03
 
MARATONA DE TEATRO. Está a chegar ao fim o XX Festival Internacional de Teatro de Almada, marcado este ano por uma notável diversidade ao nível das dramaturgias, das encenações e até do trabalho dos actores. Depois do encerramento, amanhã à noite, com o «Bão» de João Mota, fica prometido um pequeno balanço destas duas semanas de peregrinação à Escola D. António da Costa (onde está instalado o palco principal), com passagem pelo CCB e pelo Teatro da Trindade. Estejam atentos às pancadinhas de Molière.

 
MAIS UM. Saudações ao João Amaro, do novíssimo hARDbLOG, que nos "oferece" um dos seus posts:

Metabloguismo. Sobre o bloguismo Fernando Pessoa disse: «Invejo - mas não sei se invejo - aqueles de quem se pode escrever uma biografia, ou que podem escrever a própria. Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho a dizer.
Que há-de alguém confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações.»


 
VERSOS QUE NOS SALVAM. Guillermo Carnero é um poeta espanhol (Valência, 1947) pouco conhecido em Portugal. Ex-professor de Literatura em Berkeley e Harvard, além de erudito especialista na história das vanguardas literárias, tem feito parte do júri de alguns prémios importantes, como o Príncipe das Astúrias ou o Reina Sofia. Um dos seus últimos livros, Sepulcros e Jardins, foi traduzido para português por Luís Filipe Sarmento e editado na colecção Els Plecs, da Institució Alfons El Magnànim. Da recolha, graficamente muito cuidada, escolhemos o último poema:

TIRASTE-ME A PAZ DOS JARDINS

Tiraste-me a paz dos jardins,
a gama dos verdes, do negro
húmido no arrulho da gruta
ao Abril esmeralda e amarelo,

a detenção da água e da luz
no tempo redondo das fontes,
cálice de certeza sem fissura
como cofre no brilho da sua laca;

a inacção do espelho enfeixando
o vermelho das luzes caidiças
da tarde: tiveste muito rigor
para cortar laçada tão estreita,

fechar os reluzentes repuxos,
apagar o rumor dos arroios
que iluminavam a sombra e o silêncio
ao repetir o teu nome derramado;

esquecer os demorados pequenos-almoços
– brioches e plumcake em lencinhos
com renda riçada sobre prata
e doce rutilantes marmeladas –,

as noites de Verão que costumavam
dar um rumo ao apertado deleite
deixando-se levar pela corrente
da carícia de uma toalha de linho.

Tiraste-me o refúgio dos mapas,
a fuga dos números e dos nomes;
hoje a velocidade só me traz
um borrão de faíscas incolores,

as cinzas do luxo e da distância,
os excrementos dessa luz que não consegue
amanhecer em céus tão redondos.

Assim me desbarataste a memória,
e os pedaços sujos e as pétalas
que foram uma vez uma grinalda
apodrecem no caminho para a noite
em que chove sem perdão o tempo.


 
BOLA AO POST. Em plena pré-época, acaba de surgir mais um blogue sobre futebol: o Adepto-de-bancada. Menos enciclopédico e inventivo do que os clássico Caderneta da Bola e Terceiro Anel, promete ainda assim doses industriais de paixão pelo jogo. Para começar, cita Camus no cabeçalho e uma passagem de Jorge Valdano (mestre da escrita futebolística) sobre certa vez em que Maradona se pôs a dar toques numa laranja que lhe atiraram da bancada.
Ah, já me esquecia: além de viciado em futebol, o autor anónimo deste blogue é benfiquista. Nobody is perfect.

16.7.03
 
NO TV. Há mês e meio que não vejo televisão. Nada. Nem sequer «Os Sopranos». Nem as notícias. Nem "cinco minutinhos". Nada. And I feel fine.

 
O LIMITE DA ABJECÇÃO. Como se depreende do post anterior, eu não assisti ao último programa de Herman José e ao achincalhamento público, em directo, de uma pessoa com evidentes perturbações mentais. Mas, pelo que pude ler em vários blogues (nomeadamente nos Marretas e no Abrupto, os primeiros onde encontrei a denúncia do grotesco espectáculo), o que aconteceu foi muitíssimo grave. Gozar com uma pessoa diminuída não é só uma deselegância e uma canalhice, é a assunção de um «vale tudo» que banaliza o que há de pior no ser humano: o desprezo pelos mais fracos.
Para mim, a carreira de Herman José, ex-humorista genial e entertainer decadente, terminou no domingo. Há limites que simplesmente não podem ser ultrapassados.

 
ESPERAMOS MUITO DE TI. Eu já contava que ele viesse aqui dar, mais tarde ou mais cedo. O Joel Neto, sobre ser um jornalista infatigável, um escritor em progressão geométrica e um tipo às direitas, tem o mérito de ser organizado e metódico. Veja-se, por exemplo, o que conseguiu reunir num dos melhores sites pessoais de escritores portugueses. Frenético por natureza, o Joel deambula entre os afazeres profissionais (agora mesmo acompanha a visita de Durão Barroso a Cabo Verde), os amigos e as ficções – não necessariamente por esta ordem –, sempre com uma alegria serena e vagamente auto-irónica. O seu estilo de escrita é muito vivo, mas também rigoroso, musical, cheio de panache. Em suma, perfeito para esta coisa de manter um blogue, o vício a que finalmente sucumbiu, embora com inusitada modéstia. Só para que vejam, chamou à página Não Esperem nada de mim, quando é óbvio que nós esperamos muito dele. Por exemplo, mais textos como este:

Terra Chã, Angra do Heroísmo . Se houvesse literatura na minha aldeia, o Marcos não teria assassinado o Carlos Barraca – e a família do Marcos não teria desaparecido para parte incerta e a família do Carlos não teria aquele olhar que mantém doze anos depois e a Terra Chã seria ainda o pedaço de céu que há muito tempo não é. Se houvesse literatura na minha aldeia, o Carlos Barraca não teria chamado puta à Marta, irmã do Marcos – e o Marcos, que tinha 16 anos, não teria esfaqueado e depositado sob as pedras de um cerrado o Carlos Barraca, que tinha 14 anos e era um menino a descobrir a sua sexualidade na cobiça que o assaltava pela irmã do Marcos.
A Marta era uma jovem bonita, um tanto 'kitsch' no vestir e no perfumar e no pentear dos seus longos cabelos ocres, que cedo começou a passear no banco do pendura dos rapazes da cidade. Não era uma puta. Se houvesse literatura na minha aldeia, o Carlos Barraca não lhe teria chamado puta.
Vi o Marcos há uns tempos, deambulando por Angra após sair da prisão, e nos seus olhos havia o mesmo olhar que hoje tem a família do rapaz que matou. Onde há literatura, aos assassinos e às vítimas raramente são permitidos os mesmos olhos.


 
LAPSUS LINGUAE. Converso com um amigo. Às tantas, quando quero dizer «Vi isso na Feira do Livro» sai-me «Vi isso na Feira Popular». O meu amigo, com a bonomia de um mestre lúcido, sorri: «Tens razão, é quase a mesma coisa».

 
UMA HISTÓRIA DE LIVROS. Ontem mesmo, deixei-me arrastar para o lançamento de um livro de nome «MilitärMusik». Atraído pela promessa de encontrar uma «figura polémica e extravagante» na pessoa do autor russo Wladimir Kaminer, e sensibilizado pelo apelo dos editores que receavam uma sala às moscas, lá fui ao Instituto Goethe. A apresentação do livro explicou-me que se tratava de uma sátira aos anos finais da URSS, escrita originalmente em alemão, num tom assim à laia de «Woody Allen no País dos Sovietes».
Até aqui, tudo bem; o pior foi quando chegámos à parte das perguntas. A princípio, a tradutora ainda se esforçou por acompanhar a pedalada da figura extravagante, em companhia do inevitável número das gargalhadas a retardador, emitidas por quem só percebia as graças um minuto depois dos falantes de alemão ali presentes.
Quando a coisa começou a ficar viva, a tradução foi tragada por areias movediças. Consegui entender que uma das senhoras alemãs na sala se ofendera com uma resposta do autor e pouco mais. Não concordo com a ideia, nascida na minha mesa, de que aquilo seria «surreal», pois o Surrealismo ainda me soa a coisa com pés e cabeça. Mas lá que parecia uma cerimónia Dadá, parecia.
Agora divertido a sério foi ouvir a mesma pergunta angustiada ser repetida umas três vezes, em português e, pelo que me explicaram depois, no idioma da casa: como fora o acolhimento dispensado pelo público russo a tão irreverente prosa?
O bom do Wladimir torcia-se na cadeira e falava de «perspectivas diferentes», «traduções defeituosas», etc. Conseguiu durante largos minutos bailar à volta do óbvio sem nunca o nomear: como poderíamos querer que os russos se divertissem com um relato das suas tragédias – do glorioso Socialismo ao promissor mundo do Mercado Livre & Mafias Associadas – feito em tom burlesco? Que recepção seria por cá dada a um livro que retratasse os anos anteriores ao 25 de Abril como uma paródia infindável?
Uma coisa, lícita e frequente, é proporcionar divertimento à custa da infelicidade alheia. Outra bem diversa é esperar que as vítimas riam connosco.

PS: o diabo do livro até tem graça. Fica aqui o link do bravo Cavalo de Ferro para mais informações.
(Luís Moura)

15.7.03
 
COMBATE. Saiu o número de Julho do jornal «Combate», onde podem ler uma análise das lutas sindicais e políticas em França nos últimos meses, por mim enviada de Paris. Nos «contratempos» há também um comentário à «febre dos blogues» e uma crítica pertinente ao filme Matrix (do nosso eternamente adiado colaborador Pedro Rodrigues). Mas o melhor mesmo é darem uma vista de olhos por todo o jornal – fala-se lá do FSP, do Iraque, da Índia, do governo Lula e das tensões no PT, do orwelliano JMF e do movimento LGBT. É que não há assim tantos outros jornais em Portugal onde se fale de tudo isto.

 
MAIS ABELAIRA. O post «Tudo na mesma» do Daniel lembrou-me mais uma memória do Abelaira, via José Gomes Ferreira. É datada de 30 de Setembro de 1966 (dois dias depois da morte de André Breton), e também está nos Passos Efémeros, publicados pela Dom Quixote.

«O Abelaira regressou de férias, passadas no Sul de Espanha, ávido de notícias e boatos.
- Não há... - respondemos.
- Mas não aconteceu nada? Mesmo nada?
- Nada.
O Abelaira, desencantado:
- Sempre que saio de Portugal, volto com a esperança secreta de encontrar tudo transformado... Mas em vão!
- Você esquece-se - disse-lhe eu - que essa transformação depende também de si (como aliás de nós todos)...
- É verdade... - aceitou o Abelaira com cara-de-já-não-haver-contos-de-fadas-realizáveis.»


 
PELO TEATRO. A situação do teatro em Portugal (aliás, da cultura em geral) aproxima-se do abismo. O Ministério e o senhor ministro são, objectivamente, figuras de retórica, hologramas espúrios, escandalosas inexistências. Alguém tem que fazer alguma coisa. E não se pode esperar pela próxima legislatura. Tem que ser já. A começar por algum lado, pode mesmo ser por aqui. (Agradecemos a dica ao José Maria Vieira Mendes)

 
CALÇADA PORTUGUESA (2). A propósito de um post aqui publicado sobre o símbolo de Lisboa, desenhado no chão da Praça do Chile, em pedra branca e negra, escreveu-nos o Rui Branco (cujo blogue fica aqui):

«Caro vizinho – só pode – confesso que nunca tinha topado com os corvos naquela esquina. A agitação é sempre tanta naquele ponto... Mas já tinha partilhado uma sensação semelhante nesta cidade. Durante quatro anos (e já lá vão outros tantos) passei também duas vezes por dia no Largo do Carmo e numa bela manhã apareceu, bem na linha diagonal que eu regularmente palmilhava, uma lápide em estilo de mosaico.
Foi estranha a sensação de pisar aquelas letras, ritual que repeti durante uns dias apressados. Até que vi por lá doze rosas vermelhas depostas com evidente intenção e li o que por lá estava escrito.
É um belo sítio, nestes tempos de cabeça no chão e de gentes ensimesmadas, para homenagear assim os heróis – comigo funcionou – principalmente os heróis humildes e nobres como Salgueiro Maia. Bem haja.»

Obrigado, Rui. E parabéns pelo blogue.

 
QUERO O EXÍLIO. Hoje foi votado, na Assembleia da República, o código de trabalho, as novas leis para a televisão, a lei de financiamento do ensino superior, leis para obtenção da nacionalidade, a lei dos partidos políticos, a lei de separação de mercados de drogas duras e leves, a lei de regulamentação das medicinas não convencionais. Que manifestação ocupava as escadarias do parlamento? A da população de Nelas por causa de Canas de Senhorim. E Boaventura Sousa Santos acha que em Canas estão os movimentos sociais… Ah, movimentos sociais! Finlândia, aí vou eu. Quero exílio político, mental, sanitário. (Daniel Oliveira)

14.7.03
 
ADIÓS, COMPAY. Descobri Compay Segundo, o velhinho do son cubano, como quase toda a gente: no documentário Buena Vista Social Club, um dos raros bons filmes do Wenders pós-Asas do Desejo. Lembro-me da ternura que era impossível não sentir por aquele ancião impecavelmente bem vestido, sempre de chapéu branco e puro nos lábios, caminhando pelos bairros decrépitos de Havana ou recordando, na sua casa minúscula, a avó a quem acendia os charutos quando era menino. No meio dos outros velhinhos, amparado por Ry Cooder, Compay ainda tinha a energia e o porte dos músicos que sobrevivem, sabe-se lá porque milagres, à usura do tempo. No concerto de Amesterdão, sorrindo em palco com a alegria de quem conhece a fama depois de décadas de olvido, Compay ainda era Compay, um sedutor de voz gasta mas memória intacta.
Uns meses após a estreia do filme, vi-o em palco, na Aula Magna. Cansado, incapaz de cantar, com o peso da súbita fama em cima dos ombros e a adulação acrítica do público em frente dele. A cena podia ser patética, mas não foi. Apesar de tudo, Compay poupou o escasso fôlego para duas ou três canções, nem sequer as mais conhecidas, interpretadas com veemência e garbo. Aos noventa e tal anos, não podia dar mais - ninguém lhe podia exigir mais - e ele deve ter acabado a noite embebedando-se com vinho português, a pensar nas muitas mulheres da sua vida. Naquela noite lisboeta, Compay Segundo deu pouco de si. Mas esse pouco que deu talvez fosse, afinal, tudo o que lhe restava. Agora que penso nisso, o que guardo daquele espectáculo é sobretudo a dignidade de quem, sabendo que está a chegar ao fim, não se importa com isso e permanece de pé em cima do palco. Trôpego mas vivo. E a sorrir. Aquele sorriso que Wenders soube filmar tão bem.
(esta é uma pequena homenagem ao homem que já não viu, hoje, as ondas a rebentarem no Malécon)

 
CABELEIREIRO DE ESQUERDA. Como se não bastassem os dilúvios de SPAM que se abatem, todos os dias, sobre os nossos endereços pessoais de correio electrónico, agora a maldição alastrou ao e-mail deste humilde blogue. Já tivemos 348.567 propostas indecentes de jovens italianas com excesso de líbido e webcam acesa 24 horas por dia; já nos convidaram para negócios obscuros na Nigéria; já nos sugeriram férias de sonho nas Maldivas (logo a nós...); já nos recomendaram janelas em PVC e soalho flutuante; enfim, a lista é quase infinita.
Acontece que chegámos agora ao estádio superior da perversão. Esta manhã, na caixa do Hotmail, jazia um folheto publicitário da Tampopo Hair Cutting Team, uma escola de São Paulo (sim, São Paulo - Brasil) que oferece os seguintes cursos:

CURSO DE PENTEADO
Técnicas avançadas de penteados presos, clássicos, fashion e estilizados. Preparação, texturização, desfiados, acabamentos e finalizações com métodos rápidos e práticos, divididos em 4 níveis:
Nível 1 – cabelos curtos;
Nível 2 – cabelos médios;
Nível 3 – cabelos longos;
Nível 4 – penteado artístico

CURSO DE CORTE
Curso de corte com visagismo, cortes geométricos, assimétricos, perfilados, desfiados, texturizados, navalhados e finalização. Conheça também o curso de corte de cabelos étnicos e orientais com técnicas especializadas.

CURSO DE COLORIMETRIA
Curso com níveis de especialização em colorimetria nível 1, nível 2 e nível 3 – como iniciar a colorimetria e seus segredos nível 4 – técnica de coloração personalizada criando um diferencial na coloração e sua finalização.

CURSO DE RECONDICIONAMENTO TÉRMICO
A mais nova e revolucionária técnica de alisamento para cabelos ondulados e rebeldes. Faça este curso com os pioneiros do mercado e receba todo o suporte técnico necessário.


Como devem calcular, o nosso problema reside, apenas e só, no embaraço da escolha. Se em Setembro não encontrarem posts por aqui, já sabem: é porque eu e o Manel, depois de tão completa aprendizagem, decidimos abrir um salão de beleza em Pernambuco.

 
ZENAIDE, PARA ONDE VOCÊ ESTÁ OLHANDO? Na última página do Público, aprende-se que os homens brasileiros são os mais ciumentos do mundo. Deve ser das telenovelas.

 
OLHA UM LIVRO. Se eu tivesse lido o primeiro livro de POSSIDÓNIO CACHAPA quando ele saiu, em 1997, era hoje mais feliz. Ou tinha sido mais feliz mais cedo. Esse livro, imagino-o um opúsculo, sendo decerto uma novela, e sei que se chamava «O Nylon da Minha Aldeia».
Descobri tudo isto ao ler a última produção do autor, esse livro de exótico título, «SEGURA-TE AO MEU PEITO EM CHAMAS» (Oficina do Livro). Há-de haver ainda, nos vertiginosos cafundós deste blogue, um comentário meu prometendo-me lê-lo. E, no exacto instante em que a obra é apresentada no Colombo em Lisboa, estou eu a redigir esta nota.
O volume começa exactamente por essa novela, «O Nylon da Minha Aldeia», que já se teria tornado de difícil encontro. Foi aqui que dei com ela. Foi esse o tal momento de felicidade. E porquê? Por isto. Com os desencantos que a malta apanha em muita ficção portuguesa contemporânea, com a pouquíssima chance conseguida pelos produtos realmente bons, vai crescendo a descrença nas nossas posses, no nosso discernimento, e desponta, mesmo, uma desistência, o que, concedo, é perigoso.
E, de repente, isto. Esta ligeireza, este gozo narrativo, esta frescura expressiva. Aqui está um gajo que, diferentemente de bastantes outros, traz alguma coisa para contar. Que, ainda por cima, sabe como fazê-lo. Sem esforço, com um traço generoso e fino.
A história, colocada numa aldeia do Alentejo, é maluca de alto a baixo. Um dos protagonistas, a Lurdinhas, é, ao mesmo tempo, o cúmulo da rejeição social e o mais diáfano dos seres. Na construção da outra figura, o jovem Marcelo, entraram todos os preconceitos do reconhecimento do homossexual: esbelto, passivo, e precisado de roupas femininas (o «nylon», nem mais). Tudo isto seria a receita do fracasso. Ora, o que daí sai é uma das mais lindas narrativas que nos últimos anos entre nós se produziram. Como foi isso possível? Só lendo, meus senhores.
O resto do volume dispensava-se. As «pequenas histórias» ficam a anos-luz daquele esplêndido texto, e suponho que o editor perguntou ao Possidónio se guardava mais alguma coisa no disco rígido. Para fazer lombada, evidentemente. Assim terá sido. Mas são francamente para esquecer, e espero que o Cachapa as esqueça ali. O resto, o que fica, está pedindo a maior atenção. E cinco estrelinhas cinco.
(Fernando Venâncio)

 
CALÇADA PORTUGUESA. À saída da estação de metro de Arroios (Praça do Chile), perto da esquina com a Morais Soares e mesmo em frente a uma loja de conveniência, está desenhada no chão, com pedras brancas e negras, a nau de São Vicente com os dois corvos. Eu passo por ali todos os dias, no mínimo duas vezes. Ou seja, eu piso o símbolo da minha cidade todos os dias, no mínimo duas vezes. E nunca tinha sequer pensado nisso, absorvido que ando sempre com outras coisas menos presas ao chão. Acontece que hoje pensei nisso: «é verdade que caminho todos os dias, displicentemente, sobre esta barca e estes corvos negros. Não olho para ela, os outros transeuntes não olham para ela, ninguém olha para ela». E o que senti foi uma espécie de bizarro arrependimento. Bizarro, sim, porque ainda não o consigo explicar.

 
LUCIANO. O Luciano Amaral é autor de “O Comprometido Espectador”, mais um blogue da direita que agora está em voga. Dei-lhe aqui as boas-vindas e ele, que é um tipo educado e bem disposto, agradeceu. O Luciano é muito inteligente e informado e mais uma das muitas pessoas de direita de quem gosto. É um gajo porreiro, tem sentido de humor, não se leva excessivamente a sério (que é das coisas mais importantes desta vida) e tinha tudo para ser de esquerda. O filho dele, tal como diz no post que me ofereceu, para além de ser lindíssimo parece um cigano. A mulher dele, para além de ser muito engraçada, é de esquerda. Ele, aliás, quase só tem amigos de esquerda. É da “colheita” Fernando Rosas/FCSH. Mas saiu de direita. É pena. Tem mais uma vantagem, de que ele próprio fala no seu post: não entra em histeria quando lhe chamo “facho”. Como ele próprio diz, vindo de quem vem, é para ele um elogio. Fossem todos assim… (Daniel Oliveira)

 
SINAIS. Ontem à noite, ao jantar, derramei vinho numa toalha impecavelmente branca. Primeiro fiquei envergonhado pela minha falta de jeito, a minha débil coordenação motora, a minha (lá vem o francês) maladresse. Mas depois, enquanto apreciava o saboroso coelho, olhando de soslaio para a rubra mancha, pareceu-me ver ali uma espécie de sinal. Eu não sou supersticioso, mas gostava que o vinho entornado fosse, para todos os que estavam à mesa, um bom prenúncio. Para mim, de certa forma, já é.

 
TUDO NA MESMA. Tenho andado ocupado em escritos, trabalho e mudança de casa. Por isso, pouco tenho blogado. Enquanto arrumava livros, os taxistas entraram em rebuliço porque querem continuar a não pagar impostos. Enquanto viajava para Felgueiras (ninguém me bateu) o Mota Amaral vestiu-se de colono e, qual pigmeu aos saltinhos, estendeu-se num monólogo sobre as suas divergências ideológicas com Lula da Silva. Enquanto arrumava roupa, a Helena Matos voltou a escrever um texto arrevesado que me diz que há pessoas com quem não vale a pena ter polémicas. Enquanto empilhava pratos, Manuel Monteiro regressou, sinal da chegada do Verão. Enquanto acabava um texto com data marcada, Maria Barroso disse que queriam acabar com a família Soares e Maria José Nogueira Pinto deu mais uma farpada em Paulo Portas. Enquanto limpava o pó, ficou-se a saber que a CIA mentiu a Bush para que Bush pudesse mentir ao mundo. Enquanto punha quadros na parede, José Manuel Fernandes não escreveu sobre a mentira, à espera que alguém na blogosfera a desminta. Enquanto varria por fim os destroços de uma casa abandonada, a CIP pediu para se rever o Código de Trabalho que ainda não entrou em vigor (são, definitivamente, uns vanguardistas) e até a Constituição marxista-leninista (esta gente ainda vive no PREC). Tudo na mesma. Diferente, diferente, só mesmo a minha casa. (Daniel Oliveira)

 
O SILÊNCIO. Para ser franco, acho muito estranho que ainda ninguém tenha referido o surgimento de uma nova rubrica do DNA dedicada aos blogues (pág. 9 da última edição). É uma página inteira de texto, caramba, não é uma coisa que passe despercebida. Pode dizer-se bem, pode dizer-se mal, podem criticar-se os fragmentos escolhidos ou os desenhos ou o grafismo, podem mesmo sugerir-se correcções, acertos, melhorias. Mas não dizer uma única palavra? Nem sequer uma reacção, bem intencionada ou maldosa, ao facto de ser justamente o Pedro Rolo Duarte, o jornalista que mais "atacou" os blogues, a dar-lhes depois este espaço de contacto com o "outro" público, de uma forma regular, numa página de jornal? Será que o DNA só interessa se for para demolir, para lhe atirar facas, para o enterrar debaixo das cinzas de uma glória antiga? Será assim tão difícil retribuir uma gentileza (como o blogue Desejo Casar fez a propósito da simpática crónica de Ana Sá Lopes, no Público)?
Às vezes o silêncio pode ser ensurdecedor. A ingratidão também.

PS: O blogger RRP, do excelente Hipatia, já escreveu entretanto um pequeno comentário ao tema deste post. E o N e o J, do Cruzes Canhoto, também.

 
«ALLONS ENFANTS...» Pois é, amigos: 214 anos depois, ainda há muitas Bastilhas para derrubar, sobretudo as que não são de pedra. Já meteram na cabeça o barrete frígio? Então vamos. «Ah! Ça ira, ça ira, ça ira...» (mas sem enforcar aristocratas, por favor, isso já não é preciso).



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