BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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12.7.03
 
TOP. Parece que o romance que ganhou o Booker Prize do ano passado – A Vida de Pi, do escritor canadiano Yann Martel – está nos primeiros lugares das tabelas de vendas. Agora imaginem o que será no dia em que alguma editora portuguesa com tomates der à estampa A Vida de Pipi, obra-prima autobiográfica de um certo blogger anónimo da nossa praça. Nuno Markl e Miguel Sousa Tavares, ponham-se a pau.

 
SACO DE GATOS. Como se não bastassem os excessos verbais do sr. Berlusconi e de alguns dos seus aprendizes (como o subsecretário do Turismo, Stefano Stefani), o governo do Cavalieri está a abrir brechas por todos os lados. Bossi anda às turras com Fini, Fini já não pode com Bossi e ambos pedem que Don Silvio ponha ordem na casa. Acontece que os disparates do signore Berlusconi lhe retiraram margem de manobra e capacidade de reencontrar consensos no interior da sua heteróclita coligação (cada vez mais um saco de gatos). Resultado: a Itália está a tornar-se, de novo, progressivamente ingovernável. Eu diria que é altura de surgir uma alternativa credível, à esquerda. Algo que o Nanni Moretti possa, um dia mais tarde, filmar.

 
O ÚLTIMO ABELAIRA. Na edição de hoje do suplemento Mil Folhas, pode ler-se a derradeira entrevista de Augusto Abelaira, concedida a Jussara Rowland, no âmbito de uma tese em Sociologia sobre a profissão de escritor. Apesar da doença, da idade e do cansaço, a inteligência e a ironia continuavam a ser, em Abelaira, nos últimos anos, o que sempre tinham sido: armas de precisão.
«Como sou preguiçoso, se tivesse nascido na Babilónia duvido que fosse escritor porque me daria muito trabalho estar a escrever e não há dúvida que o Proust, pelo menos, não poderia escrever na Babilónia, porque pegar num prego e escrever num tijolo não dá para escrever romances». Já agora, leiam a conversa toda, de uma ponta à outra. Vale mesmo a pena.

 
LEMBRANDO PEREC. Em Paris, lembrei-me do genial Georges Perec. E escrevi uma crónica, publicada hoje no DNA. Para a semana, prometo um texto sobre a sua rua no 20ème Arrondissement: a Rue Georges Perec. (NR: Este post foi escrito com todas as vogais da língua portuguesa e sem respeitar, hélas, uma única das "contraintes" engenhosamente criadas pelo grupo OuLiPo)

 
NAVIO DE ESPELHOS. Logo à noite, nasce oficialmente em Aveiro a livraria com o nome mais bonito do mundo: «O Navio de Espelhos». Os mais atentos repararão que se trata de um título roubado a Mário Cesariny. É verdade, sim senhor. Se não roubarmos a beleza aos poetas, a quem é que a roubaremos?
Sobre a livraria, falarei quando a vir (e não pode ser hoje, para grande pena minha). Lá iremos um dia destes, para depois vos darmos conta aqui. Entretanto, fiquem com a morada: Rua 31 de Janeiro, n.º 8-D e 10. Entrem, vejam, comprem. Tenho a certeza que não se vão arrepender.

11.7.03
 
MARMELO ASSIM E ASSADO. O Manuel Jorge Marmelo tem pelo menos quatro qualidades: é do Porto, é um excelente jornalista, é um escritor de boa cepa e – mais importante que qualquer das outras – é um gajo porreiríssimo. Podem lê-lo em muitos sítios (embora vos aconselhe sobretudo os livros publicados na Campo das Letras) e também aqui, no seu blog nascido há pouco mais de dois meses. Ou, como admite o autor, «apenas um pouco tarde». Um abraço, MJM.

 
DA SUBTILEZA. Mota Amaral foi indelicado, paternalista e pouco elegante no seu discurso de recepção a Lula da Silva, em plena Assembleia da República? Sim. Mas tão triste figura, diante do presidente brasileiro, só terá surpreendido quem se esqueceu que o segundo mais alto "magistrado da nação" considera o 69 um «curioso número».

 
PRÉ-ÉPOCA. Hoje vai aparecer, em muitos ecrãs do país, uma coisa verde e poderosa. Pena que não seja a equipa de futebol do Sporting.

 
RENAS SOBRE BAGDAD. Tony Blair é um exemplo notável de estoicismo e capacidade de auto-ilusão. Três meses após a queda de Saddam Hussein, quando já se tornou óbvio que as armas de destruição maciça foram um despudorado argumento falso para começar uma guerra evitável, ele continua convicto de que elas existem e serão encontradas. Fontes bem informadas garantiram-nos que o PM britânico, apesar dos apelos à racionalidade e ao bom-senso por parte dos seus filhos, também continua à espera que o Pai Natal desça, talvez já no próximo dia 25 de Dezembro, pela chaminé do número 10 de Downing Street.

 
ORA DEIXA CÁ VER QUEM É QUE PRECISA MESMO DE UMA AJUDINHA. Manuela Ferreira Leite, a ministra mão-de-ferro, é conhecida por não dar quaisquer abébias na sua engenhosa política de contenção orçamental. Alguém falou em subsídios culturais? Corta. Apoios à investigação científica? Esqueçam. Investimento a sério na reforma do sistema educativo? Podem esperar sentados. Afinal, para que servem todas essas coisas claramente dispensáveis, quando Portugal tem que cumprir as exigências draconianas da União Europeia no que diz respeito ao défice? Em tempo de vacas magras, todos temos que apertar o cinto, não é?
É, é. Mas não deixa de ser curioso descobrir que a intransigente responsável pelas Finanças também cede de vez em quando e fecha os olhos quando convém. Exemplos: o Benfica, o EURO 2004, os contribuintes relapsos e os taxistas. Só eu é que vejo aqui um padrão?

 
TABLE DE FROMAGES. Tal como previra, o inspirado post do Manel sobre os queijos gerou bastante feed-back dos nossos leitores. Leia-se, a título de exemplo, os seguintes e-mails:

1.
Achei fundamentadíssimo o post sobre o glorioso gruyère. Fez-me lembrar um comentário que um amigo avançou sobre Gerald Brenan, um hispanista (comprei ontem dois livros dele, encontrei-me com o P.M.). E é assim: «para escrever duas páginas A-4 sobre cerâmica espanhola, G.B. tinha de devorar tudo o que houvesse sobre o tema.» O post está muito bem apoiado ou não estivéssemos a falar de coisas sérias.
Um abraço,
JVP


As iniciais escondem o nome do nosso amigo José Vaz Pereira, um cinéfilo e bibliófilo à antiga (além de ser provavelmente a pessoa mais cortês que conheço). Obrigado pela atenção, caríssimo JVP.

2.
Descobri o "fenómeno" bloguista há pouco tempo, e logo me juntei à multidão enfurecida que por aqui debita as suas ideias e ideais.
Foi com particular agrado que li o vosso Blog de Esquerda, e ao ler o post sobre o queijo acabei por me lembrar que recentemente, a propósito de uma viagem e outras coisas, descobri que houve uma polémica semelhante com um queijo Grego: o Feta. Não é qualquer queijo que merece o artigo, mas este sem dúvida é um deles. O problema foi o do costume: os gregos dizem que o feta é só deles, mas na realidade é feito em vários países, Turquia, Alemanha, França, Bulgária, etc. Enfim, história é sempre a mesma...
O Incontornável


Thanks. No campo dos diferendos internacionais sobre a origem dos queijos, todas as achegas são bem-vindas. O nosso especialista na matéria, dr. Manuel Deniz Silva (PhD em queijologia), está neste momento a acabar o seu muito aguardado ensaio sobre a influência do Camembert nas decisões do Eliseu, durante o pós-guerra; mas, depois dessa empreitada, falará certamente, com a costumada sapiência, sobre o problema do Feta e de outros queijos transfronteiriços.
Até lá, sugerimos a exegese de um Roquefort aos apreciadores de aromas fortes e umas tostinhas com Boursin, aos de estômago delicado.

 
AVISO À NAVEGAÇÃO (ESCRITO APÓS UMA NOITE LONGA EM QUE NÃO CONSEGUI LER NEM METADE DOS BLOGUES QUE ME INTERESSAM). Caros bloggers, companheiros de armas, é escusado lutar contra a evidência: já ninguém consegue acompanhar, com a devida atenção , tudo o que se passa de importante neste mundo (a blogosfera) em que a Terra Incognita cresce mais depressa que a nossa capacidade de desenhar novos mapas. Eu tentei pôr-me à la page (horas a fio em frente ao ecrã) e não consegui. Pior, arrependi-me da tentativa inglória. Porque neste momento, há que dizê-lo, ou se lê ou se escreve. E eu quero escrever. É uma realidade dura (um pouco triste, mesmo) mas é a que temos.

10.7.03
 
DIVINO RAMEAU. Há discos que compramos um pouco às cegas e depois se revelam imprevistas maravilhas, capazes de nos deixar paralisados de espanto. Aconteceu-me recentemente com este disco: a ópera «Castor e Pollux», de Jean-Philippe Rameau, pelo agrupamento Les Arts Florissants, dirigido por William Christie (Harmonia Mundi). Oiçam o coro das Espartanas, chorando a morte de Castor («Que tout gémisse»), e digam lá se não é das coisas mais belas e arrepiantes que alguma vez ouviram (ao nível do coro final da «Jephte», de Carissimi)?

 
O SENHOR HENRI. Gonçalo M. Tavares é um dos mais prolíficos e interessantes escritores portugueses da nova geração - aquela a que se vai chamando, ciclicamente, "os novíssimos". Em menos de ano e meio, publicou seis livros de vários géneros (poesia, teatro, conto) em quatro editoras diferentes (Assírio & Alvim, Caminho, Difel e Campo das Letras). O último acaba de ser publicado pela Caminho, intitula-se «O Senhor Henri» e vem na sequência de um conjunto de minúsculos contos filosóficos («O Senhor Valéry») que lhe valeu, com toda a justiça, o Prémio Branquinho da Fonseca. Sobre esta nova personagem, mais uma na linha do senhor Keuner de Brecht ou do Plume de Michaux (e talvez mesmo, em certos aspectos, do senhor Palomar, de Italo Calvino), escrevi hoje no DN.
As quatro estrelas justificam-se, acreditem. E para que tenham uma ideia do tom geral da obra, deixo aqui dois excertos:

O CONTRATO

O senhor Henri disse: os meus pais não me adormeciam com histórias infantis.
... os meus pais adormeciam-me a ler contratos de arrendamento e outros.
... o meu pai trabalhava num notário que tinha um notário e três homens que ninguém notava.
... o meu pai era um deles.
... o meu pai não tinha tempo para estar comigo e não tinha tempo para reler os contratos que era obrigado a redigir.
... o meu pai aproveitava os momentos antes de eu dormir para me ler alto os contratos e assim verificar erros, e eu cresci a pensar que as histórias infantis tinham sempre dois lados, o lado da direita e o lado da esquerda, dois outorgantes, e que um só dava uma coisa em troca de outra.
... só mais tarde percebi que isto acontecia mesmo na vida real ? o dá e recebe ? e só nos livros infantis é que se dava algo sem querer receber nada em troca. (...)



A TEORIA

O senhor Henri disse: o telefone foi inventado para as pessoas poderem falar afastadas umas das outras.
... o telefone foi inventado para afastar umas pessoas das outras.
... é exactamente como o avião.
... o avião foi inventado para as pessoas viverem afastadas umas das outras.
... se não existissem aviões nem telefones as pessoas viviam todas juntas. (...)


 
REGRESSO A CASA. Foi bonito ver Durão Barroso a discursar no Oceanário de Lisboa, à frente de um tanque cheio de peixinhos. Once a cherne, always a cherne.

 
EAST/WEST. Houve um tempo em que os restaurantes chineses de Lisboa tinham nomes orientais: Dragão Vermelho, Grande Muralha, Yi Xiang Ting, etc. Agora não. Agora vale tudo. Na Estrada de Benfica, por exemplo, até há um que se chama Nova Europa(!), embora suspeite que os empregados continuam a chegar de Macau ou de Xangai e não da Polónia ou da República Checa.

 
SISTEMA DE LOCALIZAÇÃO AUTÁRQUICA. Para ser sincero, a instalação do GPS nos táxis lisboetas não me aquece nem me arrefece. Muito mais dispendiosa e inútil foi a instalação do PSL na Câmara Municipal de Lisboa.

 
A FORÇA DO MARKETING. Após quase 20 anos de coma, um cidadão americano recuperou a consciência e a primeira palavra que disse foi: «mãe». Até aqui nada de anormal. A mãe esteve sempre por perto, esperando ardentemente um "milagre", falando com ele, tratando dele. O que é estranho é que a segunda palavra tenha sido «Pepsi».

 
CHISSANÍADAS. O nosso leitor Álvaro Marques, atento seguidor da imprensa dos PALOP, enviou-nos um mail em que dizia apena isto: «Em clip junto a crónica desta semana do Machado da Graça no jornal Savana, de Moçambique. É uma delícia, um espanto! Um panegírico ao presidente Chissano – tão desajeitado e bacoco um como o outro! O autor da crónica autoriza a sua publicação e promete mais para a semana...»
Sendo assim, aqui vai a prosa:

O LIVRO
Enquanto no Centro de Conferências Joaquim Chissano, dignitários, transportados nos carros alugados a Nyimpine Chissano e a Naite Chissano, discutiam os problemas de África, foi lançado um livro: «Joaquim Alberto Chissano e o olhar moçambicano».
Comecei a ler o livro e não posso deixar de partilhar com os meus leitores alguns nacos da prosa do autor, o marroquino Moqtad Med:

Orelha – «Vanglorie-se o povo moçambicano por uma figura tão ilustre ao expoente deste grande homem, tenha sido “parida”, por acaso, das entranhas do poder celestial divino e lançada para Moçambique para dar nascimento à concórdia e bem-estar».

Contra-capa – «Chissano é aquela devota individualidade do seu povo, uma lenda que muitos cidadãos já sonham a lembrar mesmo ainda antes de partir, o homem que ao longo da sua carreira política construiu uma personalidade paradoxal e indefinível, nem sempre oferecendo argumentos para a previsibilidade do seu agir político e moral, um cidadão meigo, manso, propenso ao diálogo, hábil negociador em conflitos e sempre disposto a aproximar os moçambicanos, enfim um Chefe de Estado de perfil que poderia fazer sombra a míticos filhos desta velha e sofrida África, como Nelson Mandela e Julius Nyerere, entre outros.»

Pág. 10 – «O seu nome aparece e ultrapassa os maiores que constituem a panóplia dos génios africanos…»

Pág. 11 – «Falar de Chissano, seria como recuar para os tempos remotos dos que contam lendas sobre as grandes figuras com uma sabedoria inestimável; seria falar do grande tesouro de sabedoria encontrado em Napoleão Bonaparte.»

Pág. 13 – «A governação de Chissano em função dos preceitos que moldam a nação moçambicana, vai ao encontro das resoluções que são estabelecidas nos vários quadrantes de decisão. Esta é a grande razão do impulso dado às políticas nacionais por planos de desenvolvimento traçados por instituições como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial e da prevalência de certas decisões em função de interesses de certos agentes da economia moçambicana.»

Pág. 14 – «Oposto que se seja e longe de Chissano, vós podereis crer que ele está mergulhado num inferno diplomático e político vazio e neutro, assim como podereis imaginar a destruição das pontes Chissanianas após um silêncio que durou no seu eixo de tempo político e diplomático. Mas tudo acontece numa estupidez extrema dos que pensam. As sensações mortas e fracas não têm charme, pois, não podem ultrapassar as virtudes da ambição de governar um povo firme e mestre.»

Pág. 17 – «Muito pequenino ainda, tinha que andar uma longa distância até ao rio para ir buscar água para sua casa. Devido ao grande peso que o recipiente contendo água tinha em relação à sua força, ele empurrava-o pelo caminho para casa e, se o caminho era uma subida, quando o tambor tendia a retroceder ele arremessava o seu corpo contra este, buscando o equilíbrio.»

Pág. 29 – «Muito sério, o jovem Chissano exprimiu uma revolta psíquica que lhe permitiu perceber, de forma intensa, o mundo.»

Pág. 30 – «A partir dessas organizações nota-se a passagem da realidade interior da sua personalidade, a sua acção no mundo exterior. Uma passagem que é uma fase de criação da intimidade do ser, sem crispar o silêncio do seu espaço interior.»

Pág. 31 – «As tropas portuguesas, separadas do país de origem a milhões de Km na Europa…»

Pág. 31 – «A COREMO lançou uma significativa campanha guerrilheira contra as autoridades portuguesas, liderada por Fanuel Malhuza como secretário da defesa.»

Pág. 32 – «Pode determinar-se em Chissano um valor inalterável que não fomenta agitação ou melancolia e uma luz transparente que faz parte da arte diplomática e política na sua concepção … Construiu uma moral humanista simples e natural que não precisava de assombrar a convincente limpidez.»

Pág. 43 – «(Chissano) com palavras flutuantes…»

Pág. 43 – «o jovem país devia-se confrontar imediatamente com algumas dificuldades: a pobreza, a ignorância, as doenças, a independência económica.»

Pág. 49 – «Quando da ascensão de Moçambique à independência, aos 25 de Junho de 1975, a sua economia estava marcada por um forte crescimento, uma viragem para a indústria de importação…»

Pág. 49 – (Fala-se dos tribunais populares) «Em cada nível, os juizes eram eleitos pelo povo, incluindo homens e mulheres, a maioria dos quais eram advogados profissionais ou juizes.»

Pág. 49 – «Os cidadãos juizes eram eleitos e realizavam as suas actividades por dois meses remunerados por um ano, enquanto o tempo de licença de trabalho fosse integral. Sobre uma base rotativa, os juizes assistiam a todas as sessões do tribunal…»

Pág. 52 – «A nacionalização de todas as propriedades privadas, de terra e de propriedades alugadas foi anunciada pelo governo.»

Pág. 53 – «Em 1976, a Organização Central de Inteligência (OIC), de uma minoria do governo da Rodésia…»

Pág. 53 – «O objectivo principal deste movimento era neutralizar o crescimento dos guerrilheiros armados do Exército Africano Nacional de Libertação do Zimbabwe (ZANLA) a operar no exterior de Moçambique.»

Isto até à página 53. O livro tem 225.
(Machado da Graça, 9 de Julho de 2003)


 
TE DAMOS AS BOAS-VINDAS. Uma pessoa distrai-se e o Mundo todo chega à blogosfera. Amigos presentes e distantes, projectos futuros, presentes e passados. Sonhos desmoronados e saudades grandes. Soube de três novos blogues e reencontrei gente da minha vida e da minha história. Bem-vindo André, extemporâneo nunca foste. Bem-vindo Ivan, a lembrar um projecto que morreu na Praia. Bem-vindo Luciano, um espectador comprometido com a direita, ao contrário dos outros. Discuti com todos durante muitos anos. É bom vê-los por aqui. (Daniel Oliveira)

 
QUEIJO SEM FRONTEIRAS. Talvez isto não merecesse um post, mas ainda assim aqui vai. Apercebi-me que nos comentários do BdE se discutiu com alguma ligeireza o vasto problema da “identidade nacional” do famoso queijo Gruyère. Ora gostaria de deixar aqui um esclarecimento que me parece de alguma importância. Mas antes de chegar à questão “nacional” impõe-se um esclarecimento prévio. É que o problema do Gruyère é mais complicado do que parece. Porque em França, como diz um credenciado conhecedor, «on emploie abusivement le mot de Gruyère pour désigner tous les fromages en grandes meules à pâte pressée cuite». Quer isto dizer, trocado por miúdos, que em terras gaulesas se dá na gíria quotidiana (com total imprudência) o nome de Gruyère a uma grande variedade de queijos. Nomeadamente ao Beaufort, ao Comté, ao Emmental e ao Gruyère propriamente dito!! E é esta confusão que está na origem da infeliz associação do Gruyère ao ícone sobejamente conhecido do “queijo com buracos”, quando essa imagem apenas se pode referir com inteira propriedade ao Emmental. Esse sim, como afirmam todos os especialistas, «a sa pâte, de couleur ivoire à jaune pâle, caractérisée par des yeux [buracos] de taille variable». O “verdadeiro” Gruyère, muito pelo contrário, tem uma massa compacta (ou melhor, tem «quelques rares yeux minuscules»), sendo portanto, e ao contrário do que se poderia pensar, muito mais próximo de um queijo de tipo Beaufort.
Esclarecida esta questão, passemos então ao problema da nacionalidade. A grande convenção internacional sobre os queijos, realizada em Stresa em 1951 (nas margens do Lago Maggiore, na fronteira italo-suíça), reconheceu que a designação «Gruyère» é co-propriedade da França e da Suiça. Esta atribuição nunca foi revogada, pelo que é totalmente lícito afirmar que o Gruyère é também um queijo francês. O que aliás foi pouco depois confirmado por uma decisão do tribunal de Dijon (a 22 de Julho de 1952), em cujo acórdão se especifica que a apelação “Gruyère da Sabóia” é perfeitamente legal, com a condição expressa de ser referida por extenso. Este direito veio a ser reforçada por um acordo entre Paris e Berna em 1974, ou seja, precisamente no ano em que Giscard d’Estaing ascendeu à presidência francesa (não sabemos se os dois acontecimentos estão relacionados, mas não é impossível).
Ou seja, a despeito dos nacionalismos que imperam por terras alpinas, o verdadeiro Gruyère não conhece fronteiras. No que é muito bem acompanhado, aliás, pelo cremoso Mont d’Or, bem conhecido pelo seu aroma a resina de abeto e que também tem duplo passaporte. Et vive l’International du fromage!!

9.7.03
 
VERSOS QUE NOS SALVAM. Foi ontem à noite, numa pizzaria. Estava a jantar com amigos (na verdade, com amigas) quando a Jussara, a propósito de Paris e das saídas à noite na Rue Oberkampf, se lembrou de um verso «muito bonito» do António Franco Alexandre: «falta-me ver paris contigo dentro». O verso está num dos magníficos sonetos do livro «Duende», publicado pela Assírio & Alvim no final do ano passado. Recupero-o na íntegra, para a Jussara, para a Lia, para a Margarida e para todos os nossos leitores:


10


Vi roma arder, e neros vários
bronzeados à luz da califórnia
guardar em naftalina nos armários
timidamente, a lira babilónia;
as capitais da terra, uma a uma,
desfeitas em rumor e negra espuma,
atingidas de noite no seu centro;
mas nunca vi paris contigo dentro.
E falta-me esta imagem para ter
inteiro o álbum que me coube em sorte
como um cinema onde passava «a morte»;
solene imperador, abrindo o manto
onde ocultei a cólera e o pranto,
falta-me ver paris contigo dentro.


 
ESTRANHOS NUMA TERRA ESTRANHA (A NOSSA). Para mim, o melhor jornal na Internet em português é a Folha de S. Paulo. É impressionante como os artigos parecem redigidos com algum balanco, como há sempre algum esforço para explicar alguns temas mais complicados. Este artigo fez-me corar de vergonha. Fez-me pensar: não, não sou eu, eu não tenho nada a ver com isto. Sou português, tenho gosto nisso (pode parecer às vezes que não, mas tenho). Só que é ao ler coisas destas que dá vontade de queimar o passaporte.
Será que uma terra de *E*migrantes esquece tão depressa o que foi e o que ainda é? Será que meia dúzia de estrangeiros incomodam assim tanto? Será que a boa disposição brasileira ofende assim tanto o típico carrancudo portugues? Ou será inveja da capacidade de boa disposição apesar de todos os problemas? E logo os brasileiros, que apesar de bem dispostos, são tão parecidos connosco.
Pelos vistos o conceito de procurar uma vida melhor lá fora só é válido para nós. Ou será que o facto do país já ser suficientemente bom para atrair outras pessoas ofende a nossa costumeira falta de autoconfiança, a nossa tristeza e amargura?

PS - Percentagem de estrangeiros em Roterdão: ~40%; em Amsterdão: > 50%
(Jean-Luc)

8.7.03
 
POST-MORTEM. Não foi a primeira vez que aconteceu nem será, provavelmente, a última. Hoje de manhã, os leitores que abriram o BdE encontraram, em vez dos textos do costume, uma misteriosa sequência de posts, numerados de 1 a 11. As explicações não tardaram: que eu teria adormecido em cima do teclado; que aquilo seria obra de um gerador automático de posts (ou de um artista minimal); que se tratava, talvez, de «um exercício de exploração da sincronicidade assíncrona». Pois bem, não é nada disso.
Eu explico. Às vezes, por razões de organização do meu trabalho, abro posts que só escrevo mais tarde. E numero-os. O desastre surge quando, inadvertidamente, publico esses posts e os deixo umas horas a pairar no topo do blogue, com a sua capciosa ambiguidade. Foi, já terão percebido, o que voltou a acontecer hoje. E se normalmente costumo apagar os posts abertos em excesso, não apago este porque entretanto já acumulou vários comentários e eu, cioso da relação de confiança com os nossos leitores, não os quero eliminar (aos comentários, entenda-se) sem mais nem menos.

 
NÃO ME LEMBRO DISTO ASSIM. É um sentimento estranho. Volto a casa, após duas semanas noutra cidade (com um acesso mais limitado à internet), e parece que não reconheço a minha própria casa. Leia-se: a blogosfera. Alguém mudou os móveis de sítio, deitou fora a pilha de jornais que estava ali no canto e trocou a ordem dos talheres nas gavetas da cozinha. O corpo da casa é o mesmo, claro, mas está diferente. Foi ampliado. Tem mais caves, mais sótãos, inúmeros acrescentos, projecções, anexos no quintal. Alguém deitou paredes abaixo, construiu novos corredores e mobilou quartos vazios que nunca tinha visto antes. Há muito mais portas que apetece abrir todos os dias, essa é que é essa. E eu vou precisar de um porta-chaves maior. Além de uma bússola.

 
CINIC SEASON. É óbvio que lamento a morte das duas irmãs siamesas, unidas pela cabeça. Isso não está em causa. Agora, tenho que dizer que o interesse mórbido das televisões por este assunto me repugna, até porque é o prenúncio dos alinhamentos informativos de verão que aí vêm. À falta de uma tragédia daquelas que dá pano para mangas (como a queda do Concorde perto de Paris, há três anos; ou o naufrágio do Kursk), as agências noticiosas atiram-se a estas histórias clínicas como gato a bofe.
Não sei se já repararam no fenómeno, mas há sempre siameses operados em Julho e Agosto, a merecer horas de cobertura nos telejornais e entrevistas em directo aos nossos mais eminentes cirurgiões. A questão é que é só mesmo em Julho e Agosto. Porquê? Será que no resto do ano não se operam estes casos complicados ou, muito simplesmente, ninguém se interessa por eles, ninguém quer saber?

 
PALAVRAS ESCRITAS À MÃO. Uma das vantagens de escrever postais, em vez de e-mails ou posts (corrijo: para além dos e-mails e dos posts), é oferecermos, num rectângulo de papel espesso, a nossa caligrafia. Porque o fio de tinta ─ com as suas curvas, as suas inclinações, os seus arabescos, a ocasional emenda ─ diz mais coisas sobre nós, suspeito, do que as palavras com que quisemos fixar um pensamento, uma epifania, um efeito de luz sobre os telhados da cidade, o "instante decisivo" de um fotógrafo ou a pequena história imaginada na plataforma do metro.

 
SANGUE NOVO. Chama-se «Geração de 70» e é a nova página de opinião do Diário de Notícias (infelizmente ainda não disponível on-line). Os escribas, que se revezarão na escrita de crónicas e apontamentos (posts, no fundo), são bem conhecidos dos frequentadores da blogosfera: Pedro Mexia, Pedro Lomba e João Miguel Tavares (que animou durante uns tempos o efémero blogue dos debates «É a Cultura, Estúpido!»). Esta parece-me, sinceramente, a primeira lança em África do movimento blogue na imprensa clássica, porque se a "chamada" do Pedro Mexia e do João Miguel é mais ou menos natural, tendo em conta a qualidade do seu trabalho regular nas páginas do DN, já a presença do Lomba (excelente mas bissexto colaborador do DNA) só se pode dever ao apuro da sua escrita na "arena" blogosférica.
Pela qualidade da página de estreia, a coisa promete. O Mexia assume a primeira crónica ─ uma reflexão ao seu jeito sobre o culto da juventude, com muitos desdobramentos nas entrelinhas e uma oração que subscrevo inteiramente (aquela que diz ser o capitalismo «um horizonte ultrapassável») ─, bem como uma sucinta e muito cinéfila evocação de Katharine Hepburn e Gregory Peck. O Lomba, esse, confirma a sua veia humorística, enquanto o João Miguel lança uma oportuna farpa ao nosso apático ministro da Cultura. A cereja em cima do bolo é a ilustração, magnífica, de um dos melhores autores portugueses de BD: José Carlos Fernandes.
Depois de José Manuel Fernandes ter afirmado à Visão que os blogues poderiam contribuir para renovar a escrita "empedernida" dos jornais de referência, o DN antecipou-se. E ou muito me engano, meus amigos, ou isto ainda é só o começo.

 
UMA PRIMEIRA PÁGINA DE ABELAIRA. No seu belo texto sobre Augusto Abelaira (com excertos de uma entrevista que lhe fez, publicada na revista da Abril em Maio), o nosso itálico Francisco Frazão desabafava, com indisfarçada tristeza: «Queria citar a abertura do Outrora Agora, a primeira página até à palavra "Sofá". Mas está emprestado.» Como este blogue é de serviço público, mas sobretudo muito amigo dos seus amigos, fazemos agora o que a generosidade do FF (ou o esquecimento alheio na hora de devolver livros) não lhe permitiu fazer.
Aqui vai, quase na íntegra, a primeira página do romance Outrora Agora (Presença, 1996), da palavra «Carneiros» à palavra «Sofá»:

Carneiros, é assim que se diz? Ou carneirinhos, a inclinação, tão portuguesa, para os diminutivos. O vento horizontal (dotado de garras, pensa ironicamente, detestando, como detesta, as imagens inúteis, ainda por cima vulgares), o mar cinzento e encrespado, os reflexos brancos (a espuma) ─ e o barco à vela, para ilustrar turisticamente («para ilustrar» ou «utilizado para ilustrar»?) os postais destinados a transmitir ao mundo as belezas do Algarve. De novo a ironia, com ou sem imagens. Num barco assim (ou assado) afogou-se Shelley, um volume de Sófocles no bolso. Poeta ateu e progressista. Onde parará o livro do Maurois (Ariel, deu-lhe o pai)? Empréstimos, mudanças de casa (a quem deixar a minha biblioteca, se o Fernando já morreu?). E aquele coronel inglês (inglês, escocês ou galês, para nós todos os gatos são pardos, mas não para eles, ingleses, escoceses ou galeses) que no dia D atravessou a Mancha a ler, tranquilo, o Macbeth, se é possível ler, tranquilo, o Macbeth, mesmo sentado num maple. Poltrona e não maple. Maple é o nome de um antigo fabricante de móveis: inglês, escocês ou galês, para nós todos os gatos são pardos. Sofá.

 
DO SUCESSO INEQUÍVOCO DOS BLOGUES. É impressionante o número de pessoas a quem não disse onde ia passar férias e que me perguntam, com um ar cúmplice: «então e Paris?»

7.7.03
 
NOTAS DE VIAGEM (8). Domingo. Às três da tarde, Madrid arde. Mal se consegue respirar e os termómetros garantem que estão 39 graus. Recomeçar viagem, nestas condições e sem ar condicionado, se não é suicídio anda lá próximo. E eu, sensato, decido esperar. Em boa hora. No Prado, descubro uma exposição notável de Ticiano, das primeiras obras incipientes (com débeis noções de perspectiva) aos trabalhos sombrios da velhice. Além dos quadros mais célebres, como o «Homem da Luva» e o «Retrato do Papa Paulo III», fascinam-me sobretudo três obras: a grandeza solene de «Carlos V en la batalla de Mühlberg» (1548); a desmesura do «Sísifo» (1548/49) e o espantoso «Autorretrato» (c. 1562) em que um Ticiano decadente aparece com um pincel na mão, «como se ainda estivesse capaz de pintar» (Vasari).

 
NOTAS DE VIAGEM (9). Domingo. Vindo de Badajoz, cruzo a fronteira ao fim da tarde e páro em Elvas para comer qualquer coisa. Num dos poucos cafés abertos, enquanto espero por uma bifana (trocada por uma sandes de queijo, vinte minutos de espera mais tarde), vejo os jornais desportivos com manchetes bombásticas (jogadores que vêm, jogadores que vão, jogadores que nunca hão-de vir) e espreito o Telejornal: Santana Lopes vs José Sócrates, com notícias sobre pedofilia a passar em rodapé. Pois é, Portugal, como temia estás na mesma.

 
NOTAS DE VIAGEM (10). Domingo. Mal entro em Portugal, perco os médios. Os faróis médios, entenda-se. Na escuridão da auto-estrada, de repente só tenho os mínimos que me deixam cego e os máximos que cegam os outros. Estou reduzido ao oito ou ao oitenta, sem meio termo. E por uma vez, meus amigos, isto não é uma metáfora, uma "imagem". Embora, como é óbvio, pudesse ser.

 
NOTAS DE VIAGEM (7). Domingo. A 147 quilómetros de Madrid há uma saída para Milagros, mas nenhum dos automóveis à minha frente liga o pisca. Ó gente de pouca fé!

 
NOTAS DE VIAGEM (6). Domingo. Fazer 2000 quilómetros em dois dias, num Renault Clio 1.2 sem ar condicionado, não é fácil. Salvaram-me duas coisas: um rosto imaginado e a música de Ludwig van Beethoven (as 32 sonatas para piano, tocadas por Daniel Baremboim).

 
NOTAS DE VIAGEM (5). Domingo. Um pouco depois de Bilbau, numa estação de serviço, encontro dois livros que procurava há muito tempo: «Travesía del horizonte», o segundo romance de Javier Marías (creio que ainda não traduzido para português) e «La Tempestad», de Juan Manuel de Prada (uma trama veneziana em volta de um quadro de Giorgione, pelo surpreendente autor de «Conus»). Os dois em edição de bolso, a um preço muito razoável. E numa estação de serviço, repito.

 
NOTAS DE VIAGEM (4). Sábado. Os espanhóis chamam-lhe San Sebastián; os bascos, Donostia. Não sei ao certo o que me atrai nesta cidade virada para o mar, debruçada sobre o mar, mas acho que é uma secreta harmonia que só se pressente quando se atravessa a Puente de la Zurriola ao fim da tarde e ainda pairam, no horizonte, as nuvens vermelhas do crepúsculo. Olha-se à volta e a arquitectura é coerente, tem uma lógica e um sentido, não agride, não fere. Nas águas do Urumea, pouco profundas e transparentes, brilham já as luzes do Hotel Santa Catalina. E o viajante caminha pelo molhe, espantado por ver, na outra margem, o bairro que se interrompe a dois passos do oceano. Por trás desse bairro fica um monte e por trás do monte uma baía: La Concha. Deste lado, em frente à praia, o Kubo (museu de arte contemporânea + auditório), uma espécie de engenhoso Guggenheim em miniatura. Há também a marginal, cruzada por casais que não prescindem do passeio nocturno, antes do jantar, e bandeiras da Real Sociedad, a equipa-maravilha que esteve quase a ser campeã, penduradas nalgumas janelas e varandas. Num cartaz, anuncia-se o Festival Internacional do Filme, em Setembro. E eu penso que gostava de voltar aqui em breve, mas não pelo cinema.

 
NOTAS DE VIAGEM (3). Sábado. Perto de Bordéus, passam por mim três descapotáveis. Olho para as matrículas: França, Reino Unido, Espanha. Os três são conduzidos por homens de cinquenta e tal anos (um calvo, os outros dois com pouco cabelo), cada um deles com uma menina-bibelot ao lado (duas loiras, uma ruiva), todos acelerando com uma pujança directamente proporcional, presume-se, à sua virilidade. Conclusão: tal como tudo o resto, também os sinais exteriores da andropausa se globalizam.

 
NOTAS DE VIAGEM (2). Sábado. Viajam em carros grandes (quase sempre Mercedes dos antigos) ou em carrinhas. A matrícula pode ser belga ou holandesa, mas o sinal distintivo é a carga extra que carregam no tejadilho, coberta com plásticos cinzentos, amarelos, azuis. Quando os ultrapasso, percebo que são famílias inteiras de magrebinos (pai, mãe, avós e quatro ou cinco filhos) de regresso ao país que os viu nascer e onde devem ser esperados como são esperados os nossos emigrantes, nas aldeias do norte. Nas estações de serviço, estendem mantas e fazem pic-nics, os homens fumam, as mulheres aquecem tachos, as crianças fogem aos gritos das mães. Há véus e hierarquias e regras não escritas. Mas também há telemóveis e revistas cor-de-rosa espalhadas na relva e música pop aos berros no autorádio. A migração sazonal repete um movimento antigo, só que o regresso está agora aberto a todo o tipo de contaminações.

 
NOTAS DE VIAGEM (1). Sábado. À saída de Paris, um engarrafamento. Centenas de automóveis parados na auto-estrada, miragens de calor nascendo do asfalto, choro de crianças na «station wagon» do lado. Penso nas férias que começam, no primeiro dia do Tour, no Grande Prémio de Fórmula 1 que se corre no dia seguinte, em Magny Cours. Não sei − não cheguei a saber − o que provocou a enervante paragem de meia-hora. Mas sei que não vi um único condutor a sair do carro e muito menos a caminhar pela berma, fazendo pala com a mão na testa, para ver «se houve algum acidente».

 
ABELAIRA. É verdade que, como diz a Memória Inventada, se falou pouco por estas bandas do Abelaira. É um daqueles para quem não fazem sentido palavras como "génio", ou "obra-prima". Escreveu romances importantes, alguns muito importantes, claro. Mas não é a preocupação da "importância" que anima um leitor de Abelaira, e ainda bem: a arte não é só consumo sôfrego de perfeições. Era dos que escreviam "sempre o mesmo romance" mas não como Rohmer faz "sempre o mesmo filme" (e há situações, diálogos, raciocínios rohmerianos): em Abelaira, da Cidade das Flores a Enseada Amena, de Bolor a Outrora Agora, as personagens foram envelhecendo com o autor. E é o país e o mundo que muda com elas. Gosto dos seus parênteses, dos seus travessões que interrompem, que permanentemente pensam o que escreve. É um dos meus autores preferidos. Queria citar a abertura do Outrora Agora, a primeira página até à palavra "Sofá". Mas está emprestado. Copio em vez disso uns bocadinhos de uma entrevista que lhe fiz com a Mariana Vieira para o número zero um da Revista Abril em Maio:

1. Não sei muito bem se há romances que tenham tido uma acção social. Há alguns exemplos: o Dickens, sem dúvida. Sei de outro, que me foi contado por um professor brasileiro, um naturalista que andava pelo Brasil à procura de borboletas. Mas também tinha vocação de etnólogo, de sociólogo, de educador, e resolveu fazer às crianças dessas zonas, longe das grandes cidades, uma pergunta: "Qual o animal de que têm mais medo?" Era uma zona em que havia jacaré, piranha, anaconda, jaguar. A resposta, em 90 e tal por cento foi: o lobo. Que não há naquela região. É evidente que a literatura está por trás deste lobo que elas nunca viram.

2. No dia 1 de Setembro de 1939, vindo eu de Viseu a caminho da Figueira da Foz, deparei com dois acontecimentos de importância diferente, um à escala universal, outro de importância pessoal: num placard da papelaria Havanesa estava escrito que as tropas alemãs tinham invadido a Polónia; e na montra da mesma Havanesa estava um livro de Tchekov (Uma História Vulgar) e um outro da Katherine Mansfield (O Garden-Party), que eu comprei e li. E nesse dia tive uma visão completamente diferente da literatura, que se completava com a influência do Fernando Pessoa. Há uma ideia de literatura que para mim nasceu no dia 1 de Setembro de 1939.

3. Fui entrevistar o Otelo Saraiva de Carvalho nos tempos da Revolução. Era nessa altura o comandante-chefe e estava no quartel da região militar de Lisboa, em S. Sebastião. Quando entrei, os soldados estavam a jogar futebol, de modo que pude entrar à vontade, sem ser incomodado (...) Subi as escadas, entrei num grande salão com várias portas, não estava ninguém a receber-me. Resolvi abrir uma porta e por acaso acertei, o Otelo estava lá. Eu levava um gravador desses, ia entrevistá-lo, pus esta coisa a funcionar. Pu-la a funcionar mas ela não funcionou. O jornalista que vai entrevistar o homem mais poderoso de Portugal e leva um instrumento que não funciona... senti-me envergonhado. Então o Otelo disse: "Não se preocupe que eu tenho habilidade para estas coisas." Então sentou-se no chão e pôs-se a arranjar isto. (...) É um pequeno pormenor que dá a beleza do 25 de Abril. Naturalmente que também o desastre, depois.

4. O romance permite que se digam asneiras, disparates, burrices. O ensaísta não pode dizer coisas estúpidas, enquanto que o romancista pode pô-las na boca de uma personagem sem passar por estúpido. (...) Ser romancista é mais fácil. O romance é uma questão de paciência, ser poeta é outra coisa. Ser Dostoievsky também é outra coisa, mas ser um romancista razoável é uma questão de paciência e de um certo sentido de observação.

5. Nós controlamos relativamente o nosso destino. Eu hoje vou jantar a casa de uns amigos: isto está na minha mão. Admitindo que uma telha não me cai na cabeça (...) A probabilidade maior não é a da telha, é ir jantar, voltar, dormir e amanhã levantar-me. Mas pode não acontecer, e às vezes não acontece. Aliás, parece que as pessoas morrem, de vez em quando. (...) Embora não esteja provado que morrem sempre. A única coisa que sabemos é que em todos os casos conhecidos as pessoas morreram... tal como todas as maçãs caíram.
(Francisco Frazão)

6.7.03
 
ESTÉTICA RADICAL. No café do cinema MK2 “Bibliothèque”, em Paris, os tabuleiros têm um curioso papel, do tamanho de uma folha A4, onde se pode ver um rectângulo branco sobre fundo negro. Ao lado vêm este texto inacreditável:

«Au printemps 1937, Oskar Serti fut appelé à Hollywood par la Metro-Goldwyn-Mayer pour réaliser un film sur les amours passionés de Sandor Ferenczi (Miskolc, 1873 - ?, 1933).
Après trois années de travail intensif, Serti acheva son film, qui retraçait dans les moindres détails la vie mouvementée du célèbre pionnier hongrois de la psychanalyse.
Mais, lors de l’avant-première, les producteurs refusèrent de distribuer un film de plus de sept heures et sommèrent Oskar Serti de le réduire à un maximum de deux heures dix minutes.
Oskar Serti ne pouvait accepter de voir son œuvre ainsi amputé pour une simple question de minutage. Après le départ des producteurs, il resta seule en salle de projection pour visionner une dernière fois son film dans l’état où il l’avait conçu. Il en profita au passage pour photographier l’écran avec un appareil dont le temps de pose correspondait à la durée de son film. Après quoi, il détruisit toutes les copies existantes de son film.
Le lendemain, il laissa sur le bureau des producteurs un exemplaire de la photographie de son film, en leur signifiant qu’elle constituait le seul résumé valable de son oeuvre.
Patrick Corillon, Ferenczi, 1992, court. Galerie in SITU»


Depois de ler uma coisa destas, entra-se no cinema com outros olhos...

 
O TRIUNFO DA ESCRITA. Desapareceu na passada sexta-feira, e era um dos mais inteligentes e discretos romancistas portugueses. Chamava-se Augusto Abelaira, e não estava (nem queria!) nos tops da FNAC. Agora, neste momento vazio em que nos deixa, não consigo afastar uma memória intensa. Um longo verão, há já muitos anos, em que escolhi ao acaso na estante dos meus pais um livro para leitura de férias. Era «O bosque harmonioso». Certamente que o meu irmão já me devia ter falado vagamente no Abelaira, mas foi nesse Agosto algarvio, por entre passeios na serra, que descobri maravilhado uma prosa rara e subtil. E Abelaira tornou-se para mim, desde aí, como que um guia modesto, mas lúcido e cúmplice, nas dificuldades da escrita e da militância. Ensinou-me nos seus livros, pelo menos, um certo optimismo céptico, apaixonado pelas pessoas e pelas as suas contradições. E a necessidade da ironia. Mesmo agora, no momento em que as parcas lhe cortaram o fio, aposto que não terá resistido a uma observação jocosa antes de fazer as malas e partir.

 
NA BRASILEIRA. Recentemente, no meio das investigações para a minha tese, voltei a cruzar-me com a figura atenta e implacável de Abelaira, pela mão do seu amigo José Gomes Ferreira, cujos diários são um precioso historial do que foi o mundo artístico e político português no século XX. Na vida intelectual dos cafés Abelaira brilhava pelo comentário certeiro e arguto. Sobre tudo e mais alguma coisa, mesmo sobre música. E Abelaira foi um dos raros, por exemplo, a perceber o interesse da mediocridade artística de um Rui Coelho, compositor que foi uma espécie de versão portuguesa e musical do Ed Wood. Fiquem com duas observações musicais, tiradas dos Diários de Gomes Ferreira (Dias Comuns. 1 Passos Efémeros, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1990):

«27 de Dezembro de 1966
A propósito da Sinfonia do Joly, escrita para celebrar o 40.º aniversário da Revolução Nacional, o Abelaira com desprezo envergonhado:
- Deixem-no! Quando Beethoven o encontrar por acaso no outro mundo, corre-o a pontapés no cu!
Músico para pequeninos serviços de celebrações filarmónicas…

21 de Dezembro de 1966
Anunciam para breve o 3.º acto de Orfeu em Lisboa de Ruy Coelho. Os dois primeiros roçavam pelo delírio parvo, concebidos como foram pelo próprio compositor que – à Wagner – escreveu o libreto, cujo nível se pode medir pelo leitmotiv:

O teu sorriso
é o paraíso.

O que o Abelaira e eu rimos! (O Abelaira é um guloso de Ruy Coelho.) E no entanto o pobre autor das Camoneanas anda nesta luta desde os 20 anos: a tentar exprimir qualquer coisa que não sabe bem o que é, e, nem por acaso, sai cá para fora.»





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