BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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6.7.03
 
ESTÉTICA RADICAL. No café do cinema MK2 “Bibliothèque”, em Paris, os tabuleiros têm um curioso papel, do tamanho de uma folha A4, onde se pode ver um rectângulo branco sobre fundo negro. Ao lado vêm este texto inacreditável:

«Au printemps 1937, Oskar Serti fut appelé à Hollywood par la Metro-Goldwyn-Mayer pour réaliser un film sur les amours passionés de Sandor Ferenczi (Miskolc, 1873 - ?, 1933).
Après trois années de travail intensif, Serti acheva son film, qui retraçait dans les moindres détails la vie mouvementée du célèbre pionnier hongrois de la psychanalyse.
Mais, lors de l’avant-première, les producteurs refusèrent de distribuer un film de plus de sept heures et sommèrent Oskar Serti de le réduire à un maximum de deux heures dix minutes.
Oskar Serti ne pouvait accepter de voir son œuvre ainsi amputé pour une simple question de minutage. Après le départ des producteurs, il resta seule en salle de projection pour visionner une dernière fois son film dans l’état où il l’avait conçu. Il en profita au passage pour photographier l’écran avec un appareil dont le temps de pose correspondait à la durée de son film. Après quoi, il détruisit toutes les copies existantes de son film.
Le lendemain, il laissa sur le bureau des producteurs un exemplaire de la photographie de son film, en leur signifiant qu’elle constituait le seul résumé valable de son oeuvre.
Patrick Corillon, Ferenczi, 1992, court. Galerie in SITU»


Depois de ler uma coisa destas, entra-se no cinema com outros olhos...

 
O TRIUNFO DA ESCRITA. Desapareceu na passada sexta-feira, e era um dos mais inteligentes e discretos romancistas portugueses. Chamava-se Augusto Abelaira, e não estava (nem queria!) nos tops da FNAC. Agora, neste momento vazio em que nos deixa, não consigo afastar uma memória intensa. Um longo verão, há já muitos anos, em que escolhi ao acaso na estante dos meus pais um livro para leitura de férias. Era «O bosque harmonioso». Certamente que o meu irmão já me devia ter falado vagamente no Abelaira, mas foi nesse Agosto algarvio, por entre passeios na serra, que descobri maravilhado uma prosa rara e subtil. E Abelaira tornou-se para mim, desde aí, como que um guia modesto, mas lúcido e cúmplice, nas dificuldades da escrita e da militância. Ensinou-me nos seus livros, pelo menos, um certo optimismo céptico, apaixonado pelas pessoas e pelas as suas contradições. E a necessidade da ironia. Mesmo agora, no momento em que as parcas lhe cortaram o fio, aposto que não terá resistido a uma observação jocosa antes de fazer as malas e partir.

 
NA BRASILEIRA. Recentemente, no meio das investigações para a minha tese, voltei a cruzar-me com a figura atenta e implacável de Abelaira, pela mão do seu amigo José Gomes Ferreira, cujos diários são um precioso historial do que foi o mundo artístico e político português no século XX. Na vida intelectual dos cafés Abelaira brilhava pelo comentário certeiro e arguto. Sobre tudo e mais alguma coisa, mesmo sobre música. E Abelaira foi um dos raros, por exemplo, a perceber o interesse da mediocridade artística de um Rui Coelho, compositor que foi uma espécie de versão portuguesa e musical do Ed Wood. Fiquem com duas observações musicais, tiradas dos Diários de Gomes Ferreira (Dias Comuns. 1 Passos Efémeros, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1990):

«27 de Dezembro de 1966
A propósito da Sinfonia do Joly, escrita para celebrar o 40.º aniversário da Revolução Nacional, o Abelaira com desprezo envergonhado:
- Deixem-no! Quando Beethoven o encontrar por acaso no outro mundo, corre-o a pontapés no cu!
Músico para pequeninos serviços de celebrações filarmónicas…

21 de Dezembro de 1966
Anunciam para breve o 3.º acto de Orfeu em Lisboa de Ruy Coelho. Os dois primeiros roçavam pelo delírio parvo, concebidos como foram pelo próprio compositor que – à Wagner – escreveu o libreto, cujo nível se pode medir pelo leitmotiv:

O teu sorriso
é o paraíso.

O que o Abelaira e eu rimos! (O Abelaira é um guloso de Ruy Coelho.) E no entanto o pobre autor das Camoneanas anda nesta luta desde os 20 anos: a tentar exprimir qualquer coisa que não sabe bem o que é, e, nem por acaso, sai cá para fora.»



5.7.03
 
NOVA CARTOGRAPHICA. Nestes tempos de rápido crescimento da blogosfera nacional, é necessário actualizar em permanência a geografia da nossa navegação. Não temos dado, nos últimos tempos, o merecido destaque às novas páginas que têm aparecido. Aqui vai então, com desculpas pelo atraso, mais um “portulano” provisório destes novos territórios de palavras e discussão (e muitos nos escaparam ainda, certamente).

Guerra civil de Espanha. Um projecto do Tiago Barbosa Ribeiro, que se propõe reunir em arquivo «dados, documentos, biografias, bibliografias, iconografia, siglas, registos fotográficos/audio/vídeo» sobre esse período histórico. Tem referências a Benjamin e à «História dos vencidos» e citou o magnífico poema «Fuzilaram um homem num país distante» do José Gomes Ferreira (...e (baixinho, em sonho) aos gritos no mundo ordeno aos homens que venham para a rua descalços para sentirem nos pés nus o silêncio da terra - e o terror de viverem num planeta onde os fuzilados não ressuscitam...)

Socio[B]logue. Pequenos artigos e ensaios, escritos por um autor atento a todos os debates sociológicos que percorrem a blogosfera (é um verdadeiro serviço público). Gostámos particularmente do ensaio sobre Walter Benjamin motivado pelo aparecimento do blogue Guerra civil de Espanha.

A formiga de Langton. Um blogue sobre «Ciência, vida artificial, auto-organização, novos media e sociedade». Este descobrimos por sugestão do nosso amigo e comentador Tcher. Segundo ele a Formiga vai ser mais um “peso pesado” na blogosfera, e nós acreditamos.

O extemporâneo. Página do nosso amigo André Belo (que também anda exilado por estas terras de França), onde se podem ler as suas improvisações sobre história, música, a moda dos blogues e muitas outras coisas.

A praia. O blogue de Ivan Nunes, ainda a dar os primeiros passos, que recupera o título de uma revista que foi projectada em 1999 e que nunca chegou a sair.

O almocreve das petas. Bibliófilo, xadrezista e gastrónomo. Franco-atirador político de alto gabarito.

A aba de Heisenberg. Blogue de um grupo de investigadores de Coimbra (vai daqui um abraço especial para o Rui Silva) que têm como mote «a incerteza como princípio». Comentários sobre a cidade, sobre ciência, poesia, ética e etc.

Blogo Social Português. Página colectiva que pretende dar continuidade às discussões do Forum Social Português. Economia, agricultura, comércio justo, LGBT, cultura, média e outros combates.

Portugal em debate. Mantido pelos organizadores do Clube de Política do Porto, cujo manifesto de abertura começa assim: «A Democracia exige um esforço de construção diário, só trilhando o caminho da credibilização e da responsabilização política, apelando a uma cidadania participativa, responsável e consciente podemos reinventar processos, definir estratégias e criar projectos».


PS: Constatámos com agrado que a maioria destes blogues se situa politicamente à esquerda. A relação de forças na blogosfera tem vindo a mudar muito rapidamente e agora já há, at last, um largo e variado espaço de discussão “à esquerda”. As nossas boas-vindas a toda esta “canhotosfera” em expansão.

 
«RAFFARINADES». Aqui há uns dias, Pacheco Pereira publicou umas “Notas europeias” (no caso exclusivamente “francesas”), que merecem alguns comentários. Numa delas procurava minimizar a frase infeliz que o primeiro-ministro francês lançou num encontro do Partido Popular Europeu. Raffarin, repegando numa citação de Churchill feita minutos antes pelo seu homólogo eslovaco ("Socialism is workable only in heaven where it isn't needed and in hell where they've got it."), afirmou na ocasião que: «La France est encore au purgatoire puisqu'il reste des socialistes». A frase não é apenas, como sugere Pacheco Pereira, mais uma gaffe, nem é verdadeiramente desculpável pela propalada bonomia do PM francês. É verdade que a boutade é perfeitamente inconsequente do ponto de vista intelectual, uma vez que passa duma forma saloia ao lado do que possa representar o Socialismo na frase de Churchill. Mas o que Raffarin pretendia, de facto, era apenas atacar a esquerda francesa, neste caso de uma forma perfeitamente a despropósito. Esta “brincadeira”, para mais, surge depois de uma outra em que Raffarin dizia que «les socialistes préfèrent leur parti à leur patrie» (o que já dera ocasião para uma séria tempestade no Palais Bourbon, com exigência de pedidos de desculpa e abandono do hemiciclo), e no contexto da discussão do projecto de reforma das pensões, em que a maioria de direita demonstrou uma postura extraordinariamente arrogante em face dos seus opositores (na rua e no parlamento). No Parlamento Europeu talvez tenha soado como um comentário espirituoso mas para a esquerda francesa foi mais uma demonstração do desprezo que a maioria UMP (o partido de Chirac) tem reservado ao principal partido da oposição (para já nem falar dos outros).
Na opinião francesa, a tal imagem de Raffarin que Pacheco Pereira continua a reforçar com alguma condescendência (um “francês pequeno, encorpado, com a cara típica de um boulanger de província, bem disposto, nada snob nem altaneiro, irónico e senhor da sua boutade”), já se desvaneceu por completo. As suas frases ocas e pomposas, ao princípio apenas motivo de troça (vejam por exemplo este site, ou admirem este hábil merchandising) começam a exasperar muitos dos seus próprios apoiantes. A reacção a esta imbecilidade de Raffarin, não foi fabricação de uma hipotética “tempestade política”. Muito simplesmente porque a tempestade tem andado permanentemente pelas ruas francesas durante os últimos meses, e está ainda muito longe de ter acabado.

 
REFÉNS. Como já devem ter reparado, continuamos à mercê dos problemas da Enetation e dos caprichos do Blogger. Agradecemos mais uma vez a todos os que continuam a esperar pacientemente pela abertura da nossa página e que continuam a dar vida ao espaço de comentários. Estamos a estudar medidas drásticas para resolver a situação (com a ajuda dos nossos cúmplices Tchernignobyl e Jean-Luc). De qualquer forma, em Setembro haverá muitas novidades (e algumas surpresas) aqui no BdE. Mas não se preocupem, até lá não vamos abrandar o ritmo do blog. Diremos mais sobre as mudanças previstas para a “rentrée” dentro em breve. Mantenham-se atentos.

 
OLHA UM LIVRO! Não é culpa dum crítico se, de vez em quando, surge do nada um escritor que merece um instante de cortesia. Eu sei que gente da minha profissão não pode andar muito a descobrir autores. Quer dizer, pode descobri-los, mas não convém voltar ao assunto muitas vezes. Dá mau aspecto, fica-se com fama. Aconteceu-me já.
Para mais, há quem teorize o problema. Assim: «O prazer da novidade, do novo, do ‘recém-chegado à nossa banca de trabalho’, do ‘acaba de ser publicado’, é sempre duvidoso». Isto afirmou-o há dias o Mestre de Aviz, esse mesmo que passou anos descobrindo autores novos, lançando-os, animando-os, enfim, fazendo o bem. «Sempre duvidoso», escreve agora. Não, por quem é.
Chama-se o novo autor RICARDO ADOLFO. Acaba de publicar «Os Chouriços São Todos Para Fritar». Tem, se bem entendo, 29 anos, possui curso de Marketing e Publicidade, e reside em Amsterdão, «com a mulher da sua vida», o que em Amsterdão é bastante recomendável. Eu também lá vivo, sem a mulher da minha vida. E, sobretudo, não supunha o burgo albergando mais um interessante escritor.
Pois bem, esqueçam o incrível título (aliás, já o tinham esquecido, seus mariolas), e perguntem por Qualquer Coisa Chouriços, da Dom Quixote. Não se arrependerão. São vinte e tantos excelentes contos, «uma série de retratos urbanos, suburbanos e rústicos, de vidas fantásticas cheias de acontecimentos banais», como diz a contracapa. Subscrevo.
E digo mais. É talvez o livro mais divertido entre as recentes ‘novidades’ das livrarias, óptimo para o Verão que aí vem. Esta escrita reguila, contida e de nível, andava um bocado esquecida entre nós. O autor tem um afinadíssimo sentido da sintaxe oral, das suas redundâncias, espaços vazios, lugares comuns, patentes contradições mesmo. Os seus diálogos são perfeitos. E nada em literatura (não é, ó eminente Ricardo Araújo Pereira?) se revela tão difícil como um diálogo ‘natural’. Depois, as situações criadas têm aquele mínimo de improbabilidade que as torna autênticas. Um mimo. Quatro estrelinhas.
(Fernando Venâncio).

4.7.03
 
TUDO O QUE NÃO ESCREVI. Como é óbvio, o que contei durante a minha estadia foi apenas uma pequena parte do que aqui gostaria de ter escrito. Dei preferência aos pequenos apontamentos quotidianos, porque são mais aéreos e voláteis. Mas não esqueci o resto. Se tiverem paciência para me ler, descobrirão nos próximos dias, já depois do meu regresso a Lisboa, outros aspectos de Paris que ainda não abordei. A vida cultural, por exemplo. Sem prometer nada, porque não sei se conseguirei cumprir, vou tentar dar-vos conta do que por aqui fui vendo e ouvindo. Nomeadamente:

- Os filmes de François Ozon («Swimming Pool»), de Lars Von Trier («Dogville»), de Thomas Vinterberg («It’s All About Love») e a descoberta do cinema de Béla Tarr («Les Harmonies Werkmeister»)

- As exposições de fotografias de Henri Cartier-Bresson (já mencionada), de desenhos de Leonardo da Vinci (no Louvre) e da pintura de Nicolas de Staël (Centro Pompidou)

- A peça de teatro «Le dernier Caravansérail (Odyssées)», de Ariane Mnouchkine (Théâtre du Soleil)

- O espectáculo de Pina Bausch, «Fur die Kinder von gestern, heute und morgen» (Théâtre de la Ville)

Resumindo: há ainda muito por contar, em não me faltando o entusiasmo e o engenho. A viagem a Paris vai prolongar-se no mínimo por mais uma semana. E isso vai tornar de certa forma mais doce, ou menos brusco, o regresso.

 
TOUR. Amanhã começa, aqui em Paris, o centésimo Tour, a centésima Volta à França em Bicicleta. Partem de Paris os ciclistas, para subirem, daqui a uns dias, aos altos dos Pirenéus e dos Alpes, refazendo as odisseias de Eddy Merckx e Bernard Hinault. E parto eu, no Clio azul, pela auto-estrada, de regresso a Portugal. No domingo à noite, cortarei a meta em Lisboa. E não terei à espera uma camisola amarela, nem champanhe, nem uma coroa de flores, mas coisas ainda melhores.

 
AS PLACAS DA MEMÓRIA. É impossível não dar com elas, quando se passeia pelo centro de Paris. São as placas que assinalam o lugar em que morreram, a lutar pela libertação da cidade, jovens soldados franceses. Placas como esta: «Ici a été mortellement blessé, pour la libération de Paris, Robert Bottine, brigardier des gardiens de la paix do VI.ème Arr.t, le 19 Août 1944». E, por baixo, uma argola de ferro. A argola de ferro onde se penduram as flores de quem não esquece.

 
LA HUNE. Se há livrarias em que um devorador de livros se sente bem, a «La Hune», no Boulevard Saint-Germain (mesmo ao pé do Café de Flore, onde o Sartre costumava beber a bica com a Simone de Beauvoir), é uma delas. Além do acervo muito completo, nomeadamente em tudo o que diz respeito à arquitectura e ao design, o que mais atrai é a disposição dos livros. No rés-do-chão, as várias mesas temáticas – novidades, política, religião, poesia, revistas, literatura de viagens, etc – e as estantes bem arrumadas, com destaque para a da Pléiade (autêntica ameaça terrorista à nossa carteira). Depois, lá em cima, os livros de arte, as revistas underground ou alternativas, o ensaismo mais pesado, as edições raras para nichos de mercado, enfim, um jardim das delícias para os especialistas, os intelectuais hard-core e o nosso “omnívoro” Eduardo Prado Coelho. Unindo os dois pisos, uma escada bífida. Isto é, uma escada dupla, um V invertido, coisa de metal impossível de descrever.
A verdade é que se está muito bem na «La Hune», sobretudo quando lá fora chove e o cheiro dos livros se torna ainda mais intenso. De lamentar, apenas uma certa arrogância dos empregados e o facto de não termos dinheiro para comprar tudo o que desejaríamos. Além disso, num dia de sorte (não foi o meu caso), arriscamo-nos a tropeçar, ou a dar um encontrão, num dos muitos escritores célebres (Philippe Sollers, Julia Kristeva...) que gravitam muito por ali.

 
A VIDA PEDONAL DE CATHERINE M. Enquanto caminhava descontraído, a meio da tarde, na pacata Rue Racine, vi a uns 50 metros de distância uma mulher parecidíssima com a escritora Catherine Millet. Pelo sim pelo não, mudei logo de passeio.

 
A CIDADE DAS RUAS COMPRIDAS. Sabia que as 10 ruas mais compridas de Paris ultrapassam todas os 2,5 kms de extensão? Aqui fica a lista, para quem gosta de listas. Quem não gosta, faça o favor de passar à frente.

Lista das ruas mais compridas de Paris:

1. Rue de Vaugirard – 4360 metros
2. Rue des Pyrénées – 3515 metros
3. Boulevard Saint-Germain – 3150 metros
4. Rue de Charenton – 3150 metros
5. Rue de Rivoli – 3070 metros
6. Rue de Tolbiac – 2965 metros
7. Boulevard Voltaire – 2850 metros
8. Rue La-Fayette – 2830 metros
9. Rue de l’Université – 2785 metros
10. Boulevard Malesherbes – 2650 metros


 
REGRA N.º 4 PARA CONDUZIR EM PARIS. Se o máximo de adrenalina que já experimentou, em termos de condução automóvel urbana, foi atravessar a Praça Marquês de Pombal em hora de ponta, pense duas vezes antes de se meter no caos da Étoile. A Étoile é aquela praça gigantesca onde se ergue o Arco do Triunfo (com o nome de todas as batalhas ganhas pelos franceses, na era napoleónica), mesmo ao cimo dos Champs Elysées, no ponto de confluência das avenidas desenhadas a régua e esquadro no tempo de Haussmann. Como diriam os brasileiros, circular ali é barra pesada, só ao alcance de um Fangio táxista com muitos anos de praça.
Para se ter uma pequena ideia, nos momentos mais complicados (ou seja, quase sempre), o normal é formarem-se entre 12 e 15 “faixas” de rodagem. Este número é variável porque naquele microcosmos desregrado – onde toda a gente avança ao mesmo tempo, tentando “furar” – a própria geometria se torna variável. Estudantes de arquitectura ao volante de um Peugeot 106, PDG’s no banco de trás de berlinas topo de gama com os vidros fumados ou bloggers portugueses com carta há 13 anos, estamos todos metidos no mesmo inferno e com uma única ideia na cabeça: sobreviver à confusão e sair dali o mais depressa possível.
A piorar tudo, uma regra tramada: quem entra na rotunda é que tem prioridade. Quer isto dizer que o automobilista que decida fazer uma volta completa, à procura da melhor saída, vai apanhando, uns atrás dos outros, com fluxos de automóveis que não dão abébias a ninguém e que procuram, desesperadamente, ocupar o mínimo centímetro de asfalto que ainda esteja livre. O resultado é previsível: ao fim de uns minutos, estamos perdidos num mar de chapa, sufocados pelo fumo dos escapes e pelo chinfrim das buzinas, a pensar que deve ser mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que nós chegarmos, finalmente, à quase utópica Avenue de Wagram.
Por isso, se quiser saber o que é conduzir no Cairo, sem ter que passar pelo Egipto, já sabe: é só atravessar a Étoile. E caso chegue ao fim ileso, prova inequívoca do seu sangue-frio e perícia, dê graças a Deus. Ou a Alá. Ou a quem quiser. Porque sair dali com o carro intacto não é um feito menor. Aliás, todas as lojas de “souvenirs” deviam vender t-shirts a dizer qualquer coisa como: «Atravessei a Étoile e sobrevivi». Eu, por exemplo, comprava logo uma.

3.7.03
 
PORTUGAL A CONCELHO. Fátima subiu a concelho. Canas de Senhorim também. Esmoriz e Samora Correia não, até ver. O povo de Fátima sente-se justiçado. O de Canas também. O de Esmoriz e Samora Correia estão revoltados. Os pequenos caciques locais de Fátima e Canas já pensam no futuro. Os de Esmoriz e Samora Correia fazem contas à vida. Os partidos contam perdas e ganhos. E o povo canta e grita. Promete votos e promete abstenção. Poucos se mexem contra os 400 mil desempregados, contra o trabalho escravo dos imigrantes, contra a degradação do ambiente. Mas ser concelho, lá isso é um sonho para a vida. Que viva Fátima, que viva Canas, que viva Esmoriz, que viva Samora. Que se lixe Portugal. (Daniel Oliveira)

 
CAPO DEI CAPI. Berlusconi chamou nazi a um deputado do Parlamento Europeu, que, sendo de centro-esquerda, só assim pôde ser chamado por ser alemão. Berlusconi, sendo presidente do Conselho e não tendo sido eleito deputado, é convidado no PE. Mesmo assim, na sua estreia como Presidente do Conselho, chama nazi ao deputado. Diz que era uma piada. Tendo em conta o passado da Alemanha, este é o pior e mais achincalhante de todos os insultos para um alemão.
Respondia a um ataque do deputado em causa, diz-se. Só que o ataque tinha conteúdo: Berlusconi é um corrupto que usou o facto de ser primeiro-ministro para, mudando a lei, fugir ao tribunal. Berlusconi é um homem que não merece o respeito de ninguém e de nenhuma instituição. Berlusconi tinha de ser atacado e a Europa tinha de deixar claro que sente vergonha em ver um homem destes à frente dos seus destinos. Disto ao insulto que apenas se baseia na nacionalidade de um deputado, vai um salto sem comparação possível.
A comparação com Chirac, feita por Pacheco Pereira no Abrupto, é totalmente despropositada. O problema de Berlusconi não é estar a braços com a justiça. Muitos estão, na Europa e em Portugal. É não estar a braços com a justiça. É ter pervertido e maniatado a justiça. É ter ofendido o próprio Estado de Direito. É concentrar os media na sua mão para telecomandar o país e a democracia. Mas é mais: é ter Bossi, um fascista indescritível, no governo. É corresponder a um verdadeiro perigo para a Europa. Aqui está toda a diferença.
Pacheco Pereira sabe-o e isso, felizmente, incomoda-o. Se há coisa de que não tenho dúvida é que entre Berlusconi e Pacheco Pereira há um abismo. Por isso, não precisa nem deve relativizar a gravidade dos actos de Berlusconi. Berlusconi não se “passou”. Ele é assim. É assim que governa, é assim que dirige a política italiana, é assim que vê a democracia. Merece a revolta e a indignação da Europa e, por isso, a dos seus deputados. Enquanto Berlusconi falar em nome da Europa ela deve deixar claro ao Mundo que não se sente representada pelo "capo dei capi".
(Daniel Oliveira)

 
MÚSICA UNDERGROUND. Na estação de Montparnasse-Bienvenue, um homem toca marimba. Os gestos são frenéticos e os sons, em cascata, reproduzem um dos movimentos rápidos de Vivaldi, a tempestade do Concerto estival das «Quatro Estações». Num banco colocado estrategicamente ao lado do instrumento, vários CD?s com a cara do músico ou paisagens bucólicas. Em letras brancas, estilizadas, um nome: Igor Kolod. Imagino-o aluno brilhante de um qualquer Conservatório da ex-URSS: Riga, Tbilissi, Minsk. Os cinco minutos de espera dão para perceber que tem escola, domínio da técnica, «savoir faire». Pode dizer-se que toca bem e com precisão, apesar do arranjo foleiro que serve de acompanhamento (som plastificado, de sintetizador, saindo de uma coluna que já conheceu melhores dias). Se não foi seleccionado para o disco que o metro de Paris acaba de publicar – uma antologia dos melhores músicos que fazem dos longos corredores subterrâneos o seu posto de trabalho – declaro a exclusão uma injustiça.

 
CIDADE-CARACOL. Gosto muito da forma como esta cidade vai crescendo, bairro a bairro, do centro para a periferia, em espiral.

 
OS JAPONESES. Vejo-os no metro, lendo os guias de viagem como se fossem romances de aventura. Roupa ocidental de marca, óculos estilosos, a inevitável máquina de fotografar a tiracolo. Não são piores nem melhores do que os americanos ou do que os alemães: são turistas, ponto final. Ainda assim, associo-os sempre àquele nipónico casal de namorados do filme «Mistery Train», do Jim Jarmush, que atravessam o mundo só para respirarem o mesmo ar que Elvis Presley respirou e para lhe seguirem a estereotipada sombra. Os japoneses do metro de Paris são também jovens, na maioria, com t-shirts da Nike e a torre Eiffel no pensamento. Posso estar enganado, mas parecem-me, mais do que viajantes, coleccionadores. Têm o ar de quem pensa para os seus botões: «OK, Paris está quase feita. Para o ano, despachamos Praga e Florença».

 
LOCUS PARISIENSIS (RUE MARCEL DUCHAMP). Começa no cruzamento com a Rue du Château des Rentiers, no prolongamento da Rue Jean Fautrier, e desemboca, ao fim de apenas 100 metros, na Rue National, de onde já se avistam os arranha-céus do bairro chinês, perto da Place d’ Italie. Percorro-a lentamente, atento aos pequenos detalhes como este: as imprecisas escalas de piano que saem da janela de um primeiro andar, talvez tocadas pela criança que deixa a bicicleta na varanda, ainda com restos de terra nos pedais. À direita, logo no princípio da rua, há um jardim público relativamente grande, cercado por um gradeamento verde. Sendo autorizada a utilização dos relvados, as famílias aproveitam a hora do almoço para fazer pic-nics, com vinho de Bordéus e camembert. Depois do jardim, alinham-se prédios banais, sem qualquer brilho arquitectónico, feitos com tijolos cinzentos (ou talvez brancos na origem e acinzentados pela pátina urbana).
Eu páro a meio da rua e rabisco notas no meu caderno. Há dois renques de árvores, um de cada lado, embora eu não saiba dizer que árvores são. Passa um homem de camisa aberta, com uma borboleta tatuada no peito. Outro homem, asiático, óculos Ray Ban, relógio de ouro, está parado, com a pasta de couro preto entre as pernas, a falar ao telemóvel em voz alta, enquanto abana a cabeça como se fizesse uma vénia. Reparo também numa placa que diz apenas isto: “cette plaque a été posée le 19 Décembre 1953”. E mais nada: nem por quem, nem porquê.
Vou até ao fim da rua e volto para trás, ainda a pensar na misteriosa placa que até podia ser um «ready made». E é então que assisto a uma cena caricata: em plena luz do dia, um homem de meia-idade alivia-se no vão de acesso a um dos prédios cinzentos, em parte escondido por uma parede de arbustos. Ironia das ironias: na Rue Marcel Duchamp, faz falta um urinol.

2.7.03
 
ABERTURA. No post anterior, o Abel Campos elogiou a posição de um juiz americano conhecido por ser conservador entre os conservadores. Outro dos nossos itálicos mais regulares, o Jean Luc, já pôs aqui em causa o relativismo cultural e procura sempre, com a dose certa de ironia e provocação, estimular o pensamento auto-crítico da esquerda, não se coibindo de apontar a dedo os equívocos e vícios de raciocínio que também existem (ó se existem!) deste lado da barricada.
Pessoalmente, agrada-me que isto aconteça. Nós sabemos bem onde nos situamos, as constelações que nos orientam e os caminhos que queremos seguir (bom, talvez mais ainda os caminhos que não queremos seguir). Mas isso em nada nos impede de revelar as nossas dúvidas e incertezas, até mesmo as nossas angústias existenciais, quanto ao futuro do nosso ideário político. Nós não queremos ser mais uma «esquerda bem pensante», nós queremos pensar. Acontece que pensar seriamente implica pôr tudo em causa, mesmo as ideias que damos como adquiridas. Implica ver o outro lado das questões e, se for caso disso, dar o braço a torcer. Nós já o fizemos várias vezes. Sem crises, sem problemas de consciência, sem traumas.
Agora, a verdade é esta: também gostávamos de ver os blogues assumidamente de direita a demonstrarem a mesma abertura, em vez de destilarem um permanente ódio a todos os «projectos» de esquerda, sobretudo àqueles que não conhecem bem ou não se deram ao trabalho de tentar perceber. A reacção ao Fórum Social Português foi um exemplo óbvio (mas há mais).

 
ACÇÃO AFIRMATIVA. Poucos, a não ser talvez o Francisco Teixeira da Mota na sua (excelente) crónica no «Público», falaram em Portugal das duas decisões do Supremo Tribunal norte-americano, do passado dia 23 de Junho, sobre a "affirmative action". Por um lado, compreende-se. A "affirmative action" é uma coisa tão especificamente americana que a Velha Europa tem alguma dificuldade em comentá-la. E no entanto, os sistemas de discriminação positiva (ou de não discriminação activa, como alguns lhe chamam) começam a entrar nos hábitos europeus, aos mais variados níveis. Por exemplo, começa a ser cada vez mais normal encontrar, em várias organizações, sistemas de promoção que dão a preferência ao sexo sub-representado. Estas duas decisões (Grutter v. Bollinger et al. e Gratz et al. v. Bollinger et al.), no fundo, pouco acrescentam de novo uma vez que o Supremo Tribunal confirma, no essencial, a velha decisão de princípio (Regents of Univ. of Cal. v. Bakke, de 1978), que declarou a constitucionalidade de um sistema que aprecie o critério da raça como um factor, entre outros, de escolha dos candidatos às Universidades públicas, com o objectivo de assegurar a diversidade nos campus e de compensar as discriminações passadas. Claro, uma parte da sociedade americana esperaria mais, vendo nestes casos a oportunidade de pôr em causa todo o sistema da "affirmative action". Ainda não foi desta.
Destaco duas notas que me pareceram relevantes: em Grutter v. Bollinger, o Supremo Tribunal afirma que dentro de 25 anos o sistema de preferência racial deixará de ser necessário, porque entretanto se terá atingido a tal diversidade
tão desejada. Não deixa de ser estranho encontrar tais profissões de fé em textos jurídicos. A segunda nota vai para o voto de vencido, também neste caso Grutter v. Bollinger, du juiz Thomas, o único negro do Supremo Tribunal e
simultâneamente um dos mais conservadores. Numa declaração de elevada qualidade, o juiz Thomas, a dada altura, põe, surpreendentemente ou talvez não, o dedo na ferida: a tão almejada diversidade, sobretudo no que diz respeito à Universidade em causa neste caso, a Michigan Law School, não passa pelo critério da raça. Thomas sublinha, sem pôr em causa, embora duvidando, que um Estado possa ter interesse em manter uma Universidade pública de elite, como é o caso da Michigan Law School, que os sistemas de preferência racial não ajudam em nada os que são demasiado pobres para ter acesso a uma tal educação universitária de elite.
Noutro passo do seu voto de vencido, Thomas lembra ainda que existem outras excepções à meritocracia neste tipo de escolas: por exemplo, sistemas que favorecem os filhos de antigos estudantes destas Universidades. Talvez não seja abusivo interpretar esta opinião do juiz Thomas como pretendendo que o verdadeiro desafio pela diversidade dos campus e, consequentemente, da sociedade americana, está em criar as condições para que as franjas mais desfavorecidas da população tenham maior acesso a estas escolas, que no fundo praticam a reprodução social, assegurando que os futuros líderes da Nação provenham das mesmas classes sociais de sempre. Quer dizer, às vezes os progressistas encontram-se onde a gente menos os espera.
(Abel Campos)

 
AINDA O PROBLEMA DA LENTIDÃO. Em resposta ao nosso apelo de ontem, os nossos amigos informáticos, sempre atentos e dispostos a ajudar, já nos deram algumas pistas sobre o factor L (L de lentidão) que nos está a afectar gravemente, sobretudo nestes últimos dias, ameaçando mesmo uma situação de paralisia total. Segundo eles, o principal problema reside no nosso sistema de comentários (Enetation) que, além de não ser muito eficaz, "entope" o funcionamento do blogue, problema agravado pelo número elevado de comentários que alguns posts suscitam (no fundo, estamos a ser vítimas do nosso próprio sucesso).
Sendo assim, o que fazer, sabendo que enquanto o Enetation não entrar nos eixos (talvez com o reforço de novos servidores) a lentidão exasperante pode eventualmente continuar? A resposta não é fácil. A solução mais radical é acabar com os comentários - uma hipótese que foi posta de lado à partida, por todas as razões e mais uma (não queremos que dê o badagaio ao nosso amigo tchernignobyl). A outra solução é mudar de serviço, por exemplo para o blogger.com.br, o que implica perder todos os comentários feitos até hoje (tragam mais um calmante para o tchernignobyl, por favor). Ou seja, não há uma alternativa "boa", salvo fazermos todos figas e ficar à espera que o Enetation resolva, de uma vez, os seus problemas.
Claro que se o factor L persistir, vamos ter que tomar medidas drásticas. Mas nada de precipitações. Nos próximos dias, vamos ver como as coisas correm. E deixamos uma sugestão: se a página estiver lenta (ou lentíssima), abram outras janelas ao mesmo tempo, vejam os mails, dêem as vossas voltas pela blogosfera e regressem depois ao BdE. Não é o sistema ideal, mas talvez seja o único sistema viável, neste amaldiçoado começo de Julho.
Pela nossa parte, prometemos fazer tudo para contornar, quanto antes, este incómodo. E pedimos desculpas a todos os nossos leitores. Melhor dizendo, a todos os nossos pacientes leitores.

 
A BAÍA DA TRANQUILIDADE. Tem o estimado leitor 20 minutos para ler um artigo extenso do Guardian? Então ponha uma bolinha vermelha no canto superior direito do monitor, ganhe coragem e carregue aqui. (Jean Luc)


1.7.03
 
INFORMAÇÕES (2). Uma das nossas leitoras regulares segredou-nos isto ao ouvido: «dia 3 de Julho, quinta-feira, pelas 21h30, no B.LEZA (Largo Conde Barão, nº 50, 2º andar, Lisboa), não percam um recital de poesia por António Poppe». A 2.000 quilómetros de distância e sem teletransporte disponível, Maria, é óbvio que nós vamos perder a sessão. Mas talvez alguns dos nossos interessados leitores aproveitem. Fica o aviso.

 
E AGORA UM PEDIDO DE AJUDA (URGENTE). Por razões que o nosso analfabetismo informático não nos permite discernir, há dias em que o acesso ao BdE se torna mais lento do que a fila para a Ponte 25 de Abril em véspera de fim-de-semana prolongado. Há nisto uma certa dose de mistério porque outros blogues, com tantos ou mais textos publicados (e muitas vezes recorrendo a imagens “pesadíssimas”), abrem sem qualquer problema. O que é que se passa, afinal? Alguém nos sabe explicar? Pedimos humildemente apoio aos informáticos do costume: Nuno Centeio, Jean-Luc ou ao Luís Sousa (que nos resolveu de vez a questão dos acentos). Ajudem-nos, please, a ultrapassar este problema que tem sido, compreensivelmente, o principal motivo de queixa dos nossos leitores.

 
INFORMAÇÕES (1). O jornalista e poeta Mário Galego deixa o aviso: amanhã, quarta-feira, a seguir ao noticiário das 18h00 da RDP Antena1, vai para o ar uma reportagem (feita por ele) sobre o movimento libertário em Portugal. Título: «Do lado da Utopia». Estejam atentos. O programa repete à uma da manhã.

 
SEIS MESES. Foi há precisamente seis meses, embora às vezes pareça que foi há seis anos. Nesta mesma mesa, diante deste mesmo computador e desta mesma janela (escrevo no apartamento do meu irmão, na Avenue de Saint Ouen), eu e o Manel pusemos de pé - a princípio de forma periclitante (por causa das birras do Blogger) - este blogue que tantas horas de trabalho, militância e diversão nos tem proporcionado e exigido.
Na altura, enquanto lá fora a temperatura baixava, prenunciando a neve que surgiria uns dias depois, nós escrevemos uma espécie de declaração de intenções. Foi o nosso primeiro post e recupero-o agora para quem nunca o tenha lido:

O PRIMEIRO DIA. Hoje, 1 de Janeiro de 2003, nasce um novo espaço de pensamento e opinião - sobre política e cultura, mas não só - no ciberespaço português. Como é evidente, não pretendemos inventar a pólvora. Desejamos apenas aproveitar esta admirável ferramenta que a Internet nos oferece para chegarmos ao maior número de amigos e cúmplices, tanto no campo da discussão de ideias políticas como na partilha de entusiasmos (ou repugnâncias) intelectuais. Sobretudo, queremos dizer de nossa justiça, num momento histórico em que as direitas vão ganhando um peso cada vez maior, não apenas nos aparelhos do poder político e na esfera económico-financeira, mas também no plano da influência mediática e do combate ideológico.
Com uma guerra à porta e os efeitos securitários do 11 de Setembro a fazerem-se sentir cada vez mais, é imperioso separar as águas. É preciso apontar o dedo, desmascarar as mecânicas de um capitalismo que se alimenta das suas fraquezas e denunciar - sempre, sempre, sempre - as injustiças que os outros calam ou ignoram. Uma esquerda que não seja capaz de remar contra a fortíssima maré conservadora e neo-liberal, é uma esquerda que não vale a pena e que está condenada, a médio prazo, a desaparecer. Ou, o que é pior, a tornar-se um ornamento folclórico.
Aqui, no Blog de Esquerda, estamos disponíveis para todos os debates, todos os diálogos, todos os recomeços. Com uma certeza: ser de esquerda, a sério, é hoje mais importante do que nunca. E nós não vamos faltar à chamada.

Mais de 45.000 visitas e muitas polémicas depois, novamente em Paris, o texto continua a reflectir aquilo que pensamos e desejamos. A guerra do Iraque já lá vai (embora menos do que se pensa), mas novos e cada vez mais duros combates ideológicos e sociais se perfilam. E nós cá estaremos para os combater. O que nos interessa não são os seis meses que passaram, são os próximos seis meses e todos os semestres que hão-de vir.
Entretanto, a todos os que nos têm acompanhado nesta jornada - leitores, itálicos e comentadores ("residentes" ou esporádicos) - o nosso muito obrigado.

30.6.03
 
O CINÉFILO SACRÍLEGO. No Irão, ver cinema é considerado um acto pernicioso, vil, herético. Um verdadeiro crime contra o Estado e contra Alá, tão grave que pode lançar o mais pacato dos cidadãos na cadeia. Foi o que aconteceu a Mahmoud Vakili, preso por cinefilia, segundo o jornal The Guardian. No momento da detenção, em flagrante delito, Vakili transportava, dentro de um saco, cassetes vídeo e DVD's com filmes de John Ford, David Lynch, Jim Jarmush e Kusturica, entre outros. Mais do que a cinefilia, o que exasperou as autoridades foi, presume-se, o seu bom gosto.

 
GRANDE LOMBA. Agora que cortou de vez com o passado "infame", o Pedro Lomba está a escrever melhor do que nunca. Eu sei que já o disse aqui, há meia dúzia de dias, e peço desculpa pela insistência. Mas o rapaz publicou ontem um dos mais belos e comoventes posts que me lembro de ter lido (título: «Acontece-nos») e pequenos milagres como este não podem, simplesmente, passar sem registo. Obrigado, Pedro.

 
DUPLO LINK. Eu sei que o Pedro Mexia, agora a braços com o infortúnio das traições informáticas, é meu close friend e gosta do que vamos escrevendo aqui, mesmo quando não concorda nada com o que escrevemos aqui. Mas daí a incluir duas vezes o BdE na coluna dos blogues preferidos, Pedro, vai uma distância. Vê lá isso, companheiro, antes que comecem a acusar-nos de andarmos a promover, sabe-se lá porque obscuros meios, o culto da personalidade. Convenhamos que este duplo link, depois da nossa presença em várias listas de favoritos no artigo da Visão (a propósito, obrigado Statler, RAP, Ponto e José Manuel Fernandes!), parece um bocadinho suspeito.

 
PACHECO NO TPI? Posso concordar e discordar. É indiferente para a questão. Mas não há nada que me irrite mais do que frases fora do contexto. No Abrupto, José Pacheco Pereira cita António Louçã, não diz porque disse António o que disse e que frases bombásticas de Pacheco Pereira causaram o seu texto no Combate. É um texto antigo, de Setembro de 2002. Aqui vai, na íntegra. Cada um que faça a sua leitura, com todos os dados.

«Pacheco Pereira: um caso para o TPI
José Pacheco Pereira (JPP) entregava-se no "Público" de 11 de Setembro [de 2002] ao "exercício", como ele próprio diz, de imaginar o que acontecerá se o Iraque não for imediatamente travado na sua alegada corrida às armas de destruição em massa.
Nessa altura, diz-nos o eurodeputado do PSD, Israel estará na mira de Saddam Hussein e "o único cenário realmente eficaz em termos de impedir o Armagedão pode ser a utilização de armas nucleares, as únicas que podem garantir o grau de devastação que impeça que não só a liderança iraquiana sobreviva, como muitas das suas instalações militares escondidas". Notemos bem as palavras: JPP quer "um grau de devastação suficiente". E ele bem sabe, como logo a seguir acrescenta, que "haverá milhares de mortos civis".
JPP explica ainda que neste hipotético cenário "os EUA poderão hesitar, mas os israelitas certamente que não". A mensagem é clara: apoiem agora a carnificina ianque, porque ela será feita com armas convencionais, ou então sujeitem-se daqui a uns anos a uma carnificina israelita, feita com armas nucleares.
O nosso autor engana-se aqui de várias formas. Primeiro, se houve alguém na história que não "hesitou" em cometer o crime de lançar a bomba atómica contra populações civis, foi precisamente o imperialismo americano. O nosso historiador nunca ouviu falar de Hiroshima e Nagasaki? Nunca se deu ao trabalho de reflectir o que significava lançar essa bomba contra um Japão já derrotado, que enviava sinais insistentes de querer render-se? Não lhe ocorre que o "aviso" de Truman à URSS, à custa de centenas de milhares de vidas inocentes, pode bem repetir-se agora num aviso à Rússia, à China, à própria Europa?
E, em segundo lugar, JPP engana-se redondamente ao remeter para um futuro distante a agressão nuclear isrealita. Foi já para esta guerra que responsáveis militares sionistas advertiram que poderiam utilizar a bomba nuclear, se o Iraque lançasse contra eles as armas que tem.
E, já agora: se a guerra dos EUA é "preventiva", com medo de que um dia Saddam faça desembarcar os seus soldados nas praias da Florida - porque não havia Israel de utilizar também "preventivamente" a bomba nuclear? Porque havia de esperar passivamente para ser primeiro atingido pelas alegadas armas iraquianas de destruição em massa? A partir do momento em que passa a valer a ideologia da "guerra preventiva", passa a valer tudo - e não nos esqueçamos que era também essa a ideologia dos nazis para atacarem a URSS sem prévia declaração de guerra.
Numa palavra: ao justificar, para o futuro, um crime de guerra cometido com armas nucleares, JPP está na verdade a justificar a sua perpetração já nesta guerra. Como os ideólogos nazis Goebbels, Rosenberg, Streicher, Fritsche, que nunca deram um tiro mas foram acusados de crimes de guerra - e julgados, os que viveram o suficiente para isso - JPP é um daqueles energúmenos que pululam na retaguarda. De teclado em punho, ele incita ao ódio e à violência contra povos e culturas que, da sua janela de Bruxelas, aprendeu a considerar inferiores. Com as suas mãos, ele nunca fará mal a uma mosca: mas com as suas palavras vai justificando a limpeza étnica na Palestina e um eventual holocausto nuclear no Iraque. Se o TPI não fosse uma piada de mau gosto, JPP seria um sério candidato a partilhar o banco dos réus onde Milosevic bem pode esperar por Sharon, Peres e Bush.»
(Daniel Oliveira)

 
ZAZIE DANS LA FENÊTRE. No outro dia abri muitos os olhos, ao andar na linha 14, entre a Bibliothéque François Mitterrand e Chatelet, mas não vi a Zazie dans le metro (tinha a certeza de a reconhecer, se me cruzasse com ela, por causa da franja). Agora percebo porquê. Ela não anda lá por baixo, nos longos corredores ou nas carruagens cheias de graffitis. Ela agora põe-se à Janela. E com que donaire, com que «aplomb»... Uma maravilha. Parabéns, Zazie!

 
VISÃO PERIFÉRICA. Mão amiga (bom, mais do que amiga) fez-nos chegar ao retiro da Rue Tolbiac o último número da Visão, com mais uma reportagem de fundo sobre o fenómeno dos blogues (a do Público, publicada há uma semana e lida na internet, pareceu-me bastante séria, bem feita, completa). Diga-se que o trabalho da revista semanal, bem ao seu estilo de news magazine (cheio de caixas e caixinhas), está bastante equilibrado, só pecando pelo excesso de citações de uma crónica de Pacheco Pereira e por duas ou três imprecisões (como chamar Manuel Nunes Silva ao meu irmão, por exemplo, ou Margarida Serra à Margarida Ferra, a Vírgula do Ponto e Vírgula). Uma coisa é certa: se não tivesse um blogue, estaria agora mortinho para fazer um. Aliás, não deve ser por acaso que o Blogs em .pt, consultado há cinco minutos, regista quase 850 blogues.
Todos sabemos que há-de chegar o dia do refluxo, da bolha que rebenta, da maré baixa. Mas garanto-vos que não é hoje. Nem amanhã.

 
BYE, KATHARINE. Morreu ontem, aos 96 anos, Katharine Hepburn, um dos rostos mais magnéticos da História do Cinema. Se o pescoço feminino tivesse que seguir um modelo de perfeição, seria o desta actriz algo fria, altiva, distante (e por isso misteriosa; e por isso desejável). Ou de como a beleza pode iluminar o mundo mas também se apaga.

 
O EVANGELHO DE CERTA ESQUERDA. Estava a ler o excelente artigo do Daniel Oliveira no «Público» [lincado no post anterior] e senti necessidade de "emendar a mão", ou, pelo menos, de explicar o que motiva alguns dos meus contributos e comentários.
Portugal parece-me um país um pouco homófobo, xenófobo e racista. Aliás, em muitas coisas é sem dúvida um país de "direita conservadora": a agressividade no local de trabalho, a forte interiorização das hierarquias (senhor doutor para aqui, senhor engenheiro para ali). Tudo coisas a combater e a inverter.
Ora o meu ponto de vista, quando escrevo no BdE, é outro: auto-crítica à esquerda (não, não nunca fui maoísta ;-) ). Eu acredito que a maioria da esquerda à esquerda do PS é bastante quadrada...
Li há poucos dias, noutro artigo do «Público», que o João Joanaz de Mello esteve no Fórum Social Português. Segundo esse artigo, houve muita gente que saiu da sala pois ele defendeu soluções não estatistas. Não sei se é verdade ou não, mas para mim é muito fácil acreditar que sim: para muita gente de esquerda, certas maneiras de ver o mundo (mesmo que vindas de pessoas cheias de boas intenções), estão automaticamente condenadas à pena maior que existir (como estas pessoas, felizmente, não têm poder nenhum, a pena maior é sairem da sala).
Ora, para mim, eu prefiro 1000 vezes o bem intencionado e muito bem informado João Joanaz de Mello (se bem que de direita), alguém que quer no fundo resolver problemas, a certa esquerda religiosa e dogmática que só está preocupada em espalhar o seu evangelho, mesmo que isso não resolva os problemas de ninguém.

PS - Mais uma vez, não sei o que se passou no FSP, não vi. Mas penso que entendem (se assim quiserem) onde quero chegar. Poderá não ser válido neste caso, mas sê-lo-á de certeza em muitas outras situações.
(Jean-Luc)

 
POLITICAMENTE CORRECTO. Helena de Matos escreveu um texto sobre o "politicamente correcto", no «Público» de sábado. Ali lhe respondi com outro texto e trago o debate para a blogosfera. (Daniel Oliveira)

 
VERDADE LAPALICIANA COM UMA SECRETA RAZÃO DE SER. Um mês é apenas uma infinitésima parte da eternidade.

 
ARRUMAÇÕES. Em Paris, chove. O céu muito cinzento, vento frio, poças na rua. E eu, em vez de me enfiar num cinema, opto por ficar em casa do meu irmão, a blogar (ai que saudades!) e a pôr um pouco de ordem aqui na casa. Lá para trás, como devem ter reparado, havia posts mal editados, gralhas à solta, um ou outro erro ortográfico (dos imperdoáveis), links por fazer, textos desalinhados, etc. Já fiz todos os retoques necessários, acho. Mas conto sempre com a vigilância dos nossos leitores para que o BdE não corra, em circunstância nenhuma, o risco do desmazelo.

 
UMA QUESTÃO DE FOÉ. A final da Taça das Confederações em futebol, disputada ontem à noite no Stade de France, foi um jogo estranho. Estranho, em primeiro lugar, porque não devia sequer ter acontecido. Na partida Camarões-Colômbia (1-0), das meias-finais, o jogador Marc-Vivien Foé, médio-defensivo camaronês, morreu em campo após desfalecer durante um sprint, por razões ainda não apuradas. Como é óbvio, o facto, inédito numa competição deste nível, provocou uma imensa consternação entre os jogadores qualificados para a final, tanto os camaroneses como os franceses (vencedores da Turquia por dificílimo 3-2). Houve quem defendesse o cancelamento da final ou a atribuição ex-aequo do troféu, mas a FIFA, na pessoa do execrável sr. Joseph Blatter, disse que o «jogo tinha que continuar». Ou seja, se a França e os Camarões desistissem, avançavam para St. Denis os semi-finalistas derrotados. Com esta miserável chantagem, Blatter conseguiu respeitar o que lhe interessava (os compromissos comerciais) e lá se jogou a final da tristeza. Que foi, ao mesmo tempo, uma final alegre.
E aqui voltamos ao tal sentimento de estranheza. Mesmo sem motivação e sem ter treinado durante três dias, os jogadores camaroneses fizeram uma partida memorável, de entrega, capacidade física, rigor defensivo (não sofreram um único golo ao longo da prova) e vontade de ganhar. De Ndiefi a Samuel Eto'o, todos se excederam, mas o destaque vai inteirinho para Mbami, um "construtor"-geómetra que fez uma exibição simplesmente perfeita. A França, desconcertada com o jogo colectivo dos africanos (que alinharam de branco, em sinal de luto), equilibrou as coisas através da melhor qualidade individual dos seus jogadores, nomeadamente Sagnol, Thuram, Dacourt e Thierry Henry.
Chegou-se assim ao fim dos 90 minutos com 0-0 no marcador, apesar de não terem faltado oportunidades para os dois lados. Depois, no sempre angustiante desempate pelo "golo de ouro", a sorte voltou a sorrir aos franceses (que nunca perderam neste modelo de prolongamento), com um golo bizarro de Thierry Henri, marcado de joelho.
O momento mais intenso da noite, porém, estava reservado para a entrega do troféu. Depois de terem pendurado a medalha de Foé num retrato gigante do jogador, já presente no ínicio da partida (quando os atletas das duas equipas deram as mãos à volta do círculo central, durante o minuto de silêncio), o capitão da selecção francesa, Desailly, chamou o capitão camaronês, Song, para erguerem juntos a taça. Não houve saltos nem festa, só abraços, lágrimas e cabeças baixas. A volta triunfal foi feita por todos os jogadores, atrás do retrato de Marc-Vivien, com o estádio a aplaudir de pé. E eu, confesso, fiquei comovido por perceber que afinal nem todos os futebolistas são máquinas mercenárias e que ainda há, no mundo tantas vezes espúrio do chamado desporto-rei, momentos de pundonor, de dignidade.



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