BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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29.6.03
 
SEM RUMO. Esqueçam os mapas, os roteiros detalhados, as listas de monumentos (sobretudo as listas de monumentos), as dicas de quem já lá viveu e mesmo os conselhos de amigos que até conhecem, ao mínimo detalhe, cada esquina de cada rua de cada bairro. Repito: esqueçam o que ouviram, rasguem os folhetos, ignorem as sugestões. Porque só há um método fiável para descobrir uma cidade: a deambulação ao acaso. Isto é, sem rumo, sem plano, a sós. Deambulações de cabeça vazia e sentidos alerta. Ou então introspectivas, como as que fez Rousseau nas suas espantosas Rêveries du promeneur solitaire.

 
SEGUNDA MÃO. Abundam no Quartier Latin, mas também se encontram no resto da cidade: os vendedores de livros em segunda mão. Diria mesmo que há duas categorias. Os “bouquinistes” propriamente ditos, especializados em raridades para bibliófilos, que estendem as suas bancas ao longo das margens do Sena e ficam sempre bem nas fotografias dos turistas ou nos postais. E depois os outros, os comuns de Lineu, quase indistinguíveis das livrarias normais, a não ser pelo facto de invadirem a rua com grandes caixotes onde se acumulam centenas de volumes comidos pelo sol, pela poeira e pela humidade (numa palavra: pelo tempo), quase sempre edições de bolso com mau aspecto e um título obscuro, mas raramente tão obscuro quanto o nome do autor.
Mergulhar nestas montanhas de livros vendidos a eito é uma tarefa que requer intuição, muita paciência e aquela capacidade de entrever, no meio de toneladas de joio, o redentor grão de trigo. Já me aconteceu comprar livros magníficos por tuta e meia, mas na maior parte dos casos afasto-me, ao fim de uma hora de arqueologia bibliográfica, as mãos vazias. Noutras ocasiões, gosto de correr riscos e disparar no escuro, a ver no que dá. Se um livro me desperta curiosidade, seja pela arguta sinopse da contracapa, seja pela disposição gráfica das páginas, não perco tempo com hesitações e avanço, certo de que no máximo estou a perder dois ou três euros. Foi isso mesmo que fiz há uns dias, numa livraria de “occasion” da Avenue de Italie. Por 15 euros, trouxe seis livros:

- La Vie Fractale, romance de Marc J. Bloch, editado pela Gallimard (em Abril de 2003!) e que vi mais tarde à venda na FNAC por 23 euros;

- Le Théorème d’ Espitallier, poesia experimental de Jean-Micher Espitallier, editado pela Flammarion (Fevereiro de 2003!);

- o n.º 80 da revista L’Infini (Outono de 2002), com artigos de Philippe Sollers, Patrick Besson, Alain Jouffroy e Alain Kirili, edição da Gallimard;

- L’Effondrement, o diário escrito entre Paris e Nice (Maio-Agosto de 1940) por Zoltán Szabó, publicado pelas Éditions Exils (Dezembro de 2002);

- Le désir de la neige, poesia de Jacques Chessex, editado pela Grasset (2002);

- Évocation de Matthias Stimmberg, narrativas curtas de Alain-Paul Mallard, publicado pelas Éditions Bibliophane de Daniel Radford (Maio de 2003!)

Não me perguntem como é que um livro entra no circuito da revenda apenas um mês após a saída da gráfica, porque não sei responder. O certo é que comprei o volume de Mallard a metade do preço e com a lombada intacta como prova da sua “virgindade”.
Quanto ao resto, já em casa, folheei as obras e acho que não vou dar os 15 euros (e sobretudo os muitos minutos de busca metódica no meio do lixo literário) por mal empregues.


 
OÙ EST LA BLOGOSPHERE? Pergunto aos amigos franceses se sabem o que é um blogue e eles olham para mim com vincos na testa: «Quoi? Qu’est-ce que c’est ça?» Para eles, a julgar pelo som da palavra, um blogue é uma coisa de outro mundo, um alien, uma abstracção pós-moderna, um maligno “abre-te Sésamo” apocalíptico; ou então um animal perigoso, uma doença rara, um vírus informático letal. Depois, os meus amigos franceses, com o ar perdido de quem faltou a demasiadas aulas teóricas na faculdade, admitem, embaraçados, que não fazem a mínima ideia de como se escreve um post e que não têm, nem nunca poderiam ter, opinião sobre o novo lay-out do Blogger. Eu, claro, sorrio com um misto de paternalismo e complacência. «Coitados», penso baixinho. E mudamos de assunto.
Mais tarde, ainda incrédulo com tanta pureza de espírito, viro-me para o Le Monde, para o Libération, para o Nouvel Observateur, até mesmo para a Science & Vie, em busca de referências à blogosfera francesa. Não peço editoriais ou artigos de fundo, como é evidente, apenas uma peça de meia página, um comentário, uma notícia breve sobre o fenómeno, uma pista, qualquer coisa. Leio, releio e volto a ler. Nada. Não encontro nada. Nem uma palavra sequer. O vazio absoluto. A blogosfera francesa, se existe, vive na mais completa obscuridade mediática. Uma tristeza, garanto-vos. Uma vergonha.
Eu sempre disse: este país é um atraso de vida. Agora tenho a prova inequívoca. E vou mais longe: será assim, com este "infomiserabilismo", que os franceses pretendem impor-se como locomotiva política da Europa? Pffff. Se fosse a eles, esquecia o Minitel e punha quanto antes os olhos no futuro. Isto é, obviamente, em Portugal.

 
ANOMALIA E CONTÁGIO. Não resisto a transcrever, na íntegra, um pequeno texto de Javier Marías incluído no livro que já citei no BdE: Literatura e Fantasma (tradução de Francisco Vale, Relógio d'Água). Intitula-se Contágio e foi publicado pela primeira vez no suplemento «ABC Literario», em Abril de 1988:

«Não é preciso dizer que falo por mim:
Escrever romances é a assunção de uma anomalia. Publicá-los é uma tentativa de impor aos outros essa anomalia. O romancista tem a visão deformada, a língua também, talvez o gosto. Mas não é só isso: diz-se muitas vezes que quem vive não escreve, quem escreve não vive. Creio antes que quem escreve realiza continuamente uma selecção da vida. Escolhe o que lhe interessa viver e portanto escolhe a sua própria morte. Ou, dito de outro modo, morre inúmeras vezes, de cada vez que quebra o que é apenas um continuum para os que não padecem da sua anomalia.
O romancista suporta tudo se acredita que vai poder contá-lo, ou, nas palavras de Isak Dinesen, sabe que «todos os sofrimentos podem suportar-se se forem inseridos numa história ou se se contar uma história sobre eles». Suporta inclusive a sua própria tarefa de fragmentação, a constante hierarquização a que submete as coisas do mundo, o esforço e o cansaço inerentes à necessidade de discernir até os mais pequenos pormenores: uma cor, um gesto, um diálogo. Nisso consiste a sua anomalia: na doença de escolher e ordenar tudo aquilo que o seu olho imagina ou capta e a sua língua pode silenciar ou nomear.
Mas o romancista quer influenciar e ter partidarios, ainda que hoje em dia raras vezes se confessem tais pretensões por parecerem ingénuas e os grandes objectivos estarem desprestigiados. Pretende, além disso, uma mudança duradoura e trabalha disfarçadamente, pensando no tempo. Não tem pressa, mas aspira a contagiar os outros com a sua anomalia particular e pretende que aquilo que ele vê deformado e mostra pela primeira vez seja reconhecido como próprio por quem cai na tentação de folhear as suas páginas uma após outra. Para isso, e ao contrário do assim chamado pensador e do assim chamado poeta, tem que dissimular e fazer saber de que fala só quando já é demasiado tarde para que o leitor possa continuar a pretender ignorá-lo.
Contudo, o romancista não é um iludido, porque aquilo que pretende contagiar pode ser, com efeito, contagioso.»

O texto é excelente, como quase tudo o que Javier Marías escreve. E, perdoem-me a provocação, estou em crer que continua a fazer sentido se substituirmos a palavra romancista pela palavra blogger.

 
INSTANTÂNEO. Ontem à tarde, na Rue de Rivoli, vi passar Sebastião Salgado, ao volante de um Mini Cooper preto (talvez com a sua Leica pousada no lugar do morto, mas não tenho a certeza). À sua volta, nas imediações do Louvre, dezenas de pessoas circulavam com sacos de lojas caras, cheios de objectos de consumo comprados na loucura dos saldos. Presumo, por isso, que o fotógrafo não estava ali em trabalho.

 
OLHA UM LIVRO. Falamos hoje da revista FICÇÕES. Chama-se a si mesma ‘revista’, uma «revista de contos», mas é tecnicamente um livro. Ou ainda mais tecnicamente: um livro periódico. Isso valeria para outras revistas mais (a Colóquio Letras, a Ler), mas no caso desta revista as proporções fachada x profundidade são muito, mesmo muito, de livro.
Esta pequena tensão, esta minúscula picanteria, aí está o que enriquece o objecto, e pelo menos a percepção dele. O que é óptimo, porque a nossa atenção, ele merece-a toda. Já vai no número 7 (que não tenho ainda, e comprarei ao descer na Pátria), mas a edição «fora de série» FICÇÕES DO HUMOR, saído há semanas, encheu-me as medidas. E isso acontece-me quase sempre, neste extraordinário fruto que a direcção de Luísa Costa Gomes e a coordenação de José Lima nos lançam às mãos com uma regularidade exemplar. Pouco lusitana. Ou já mudámos, e ainda não vimos.
Como quase sempre nesta revista, a produção estrangeira impera. O que não admira, porque o estrangeiro é muito grande, e muito produtivo. E, quase sempre também, as traduções são primorosas, e bastantes delas feitas para esta exacta aparição. Sei por experiência (traduzi, certa ocasião, um conto do neerlandês) quanto a Luísa é exigente, mestra-escola tipo madre superiora do melhor colégio ‘in town’. Mas é assim que as coisas aparecem bem feitas. E é, ela mesma, contista. O que me aviventa a impressão de deverem os críticos ser também praticantes. Não, a virgindade literária será sempre um estado, nunca uma virtude.
Quando leio contos, marco com uma cruzinha os que me seduziram. O que é prático, para o caso de ser preciso, um dia, escrever sobre eles. Outra cruzinha assinala os bem traduzidos (e a gente sabe – sabe, sim – quando uma tradução é boa). Neste volume, quatro dos 16 contos reuniram duas cruzinhas. Os restantes divertiram-me sem me calarem fundo. Quanto ao único texto dum português, «O citadino Pipote», de Alexandre O’Neill, pareceu-me deslavado. Eu diria que, abrindo-lhe ao acaso os livros de crónicas, se acertava logo com melhor.
E para onde vão os globos de ouro? Para «Há lugar para dois», do Marquês de Sade, para as «Confissões de um humorista», de O. Henry, para «Esmé», de Saki (sobre este, e os outros autores, as informações têm todo o aspecto de adequadíssimas) e para «A sociedade de acidentes de Ukridge», de P. G. Wodehouse. Qualquer dos quatro vale o desvio à livraria. Imaginem-nos juntos.
(Fernando Venâncio)

28.6.03
 
PONTO DA SITUAÇÃO. A minha resposta à crónica anti-blogues do Pedro Rolo Duarte – resposta desejada (e quase exigida) por parte da blogosfera, com um afã para mim inexplicável – aparece hoje no único lugar em que me pareceu lógico que aparecesse: o próprio DNA. Como é óbvio, quem esperava sangue a correr pelas ruas, rasgar de vestes ou gritaria, vai desiludir-se. Mas aqueles que me conhecem melhor, destas e de outras lides, sabem que eu nunca reagiria de outra maneira.

27.6.03
 
VERSOS QUE NOS SALVAM. Além de crítico de poesia, quase sempre atento e informado (mas por vezes também incendiário e provocador), Manuel de Freitas é um dos mais prolíficos poetas surgidos nos últimos anos. E se o álcool e a música foram sempre dois dos eixos em torno dos quais esta escrita se vem desenvolvendo, não é sem um certo alívio que verificamos que no último volume (na realidade uma plaquete: Büchlein Für Johann Sebastian Bach, edição da Assírio) há muito mais cantatas, suites para violoncelo e Glenn Gould do que absinto, tabernas e ressacas. Ora oiçam lá estes versos:


COCSET, 2002

Não te esqueças de Casals,
do perfume sombrio das laranjeiras,
dos primeiros versos de Eugénio
ou daquele tio que desiludiste
ao dizeres que não era de mulher
o corpo que esses versos
mais amavam. Não te esqueças.

Tão depressa a morte cairá
sobre este poema. Recorda,
porém, a buganvília que abraçava
a varanda da casa e os amigos
todos que lá iam. Volta a sentir
na tua mão o peso das mãos
que um dia tiveram a destreza
do arco sobre as cordas
- à mercê de uma música sem saída.

Não te esqueças.
Ou melhor: esquece-te.


 
FRENCH TOUR. Agradecemos muito a simpatia de todos os que nos têm desejado uma boa estadia em Paris e nos têm enviado mails com sugestões diversas. Uma rectificação torna-se no entanto necessária: apenas o Zé Mário (e só ele) está de férias. Eu voltei agora ao meu ritmo de trabalho normal, uma vez que tenho a sorte de morar e estudar nesta bela cidade. Aqui ficam alguns comentários a algumas das propostas que nos fizeram:

1. O primeiro é para o Ran Tan Plan e à sua pertinente recomendação gastronómica. Nós já éramos clientes fiéis do Léon de Bruxelles, mas, quando lá fomos ontem, pensámos especialmente no nosso infatigável comentador. Pois fica sabendo, amigo Ran Tan Plan, que há novidades no menu, particularmente uns «mexilhões com massa» que são uma pequena maravilha! Quando cá voltares, não percas.

2. Quanto ao auto-denominado «saudosista» que andou a fazer publicidade à «Librairie Française» nas caixas de comentário, temos o enorme prazer de o informar que essa tenebrosa livraria já não existe. De qualquer forma, nós não iríamos lá nem que nos pagassem. Quem quiser dar dinheiro às organizações neo-nazis terá agora que ir à «l’Aencre», onde parece que se continua a fazer propaganda fascista na maior das impunidades, devido a protecção de elementos dos serviços secretos franceses (e esta, hein!).

3. Agradecemos ainda a gentileza do Luís Tibúrcio, que nos enviou de Santo Domingo de Guzman o seguinte e-mail:

Tenho lido com prazer os vossos posts sobre Paris, onde vivi tantos anos e nasceu um dos meus filhos. Saí há 18 meses e não me apercebi que dela já tenho a nostalgia. Gostei do comentário sobre o grupo de portugueses da Rua Tolbiac, que tantas vezes escutei assim mesmo como foi descrito. Ponho-me a pensar que a minha decisão de residir sempre na «rive gauche», e mais especificamente no 15ème teve muito que ver, é claro, com o facto do meu local de trabalho estar perto da escola militar, mas também pelo facto de que ainda é menos difícil de estacionar do que na outra margem...
Rua Tolbiac. Essa e outras como a Rue de la Convention (particularmente aos domingos de manha) ou a Rue de Vaugirad são, aos meus olhos, bem mais simpáticas do que os Champs Elysées. E, aproveitando, recomendo um velho rum e um charuto (para os fumadores) na sala do fundo do Havana Café, naquela rua pequenina mesmo em frente ao La Coupole, em Montparnasse. E imaginar o que se diriam Che Guevara, Hitchcock e Orson Welles se saíssem das molduras onde estão fumando confortavelmente.


O Zé Mário não fuma e eu não sou muito dado a charutos. Ainda assim, não vamos deixar de dar um salto ao Havana Café e contemplar esse trio improvável. Um grande abraço, caro Luís, e boa estadia na República Dominicana.

 
POLÍTICA AGRÍCOLA COMUM. Temos passado, aqui no BdE, um pouco ao lado dos debates importantes que atravessam neste momento a construção europeia. Tentaremos de futuro reservar mais espaço para os assuntos comunitários, nomeadamente a discussão da nova Constituição. Um desses debates de que não temos falado é o da PAC, que está a sofrer uma profunda reforma dos seus princípios e uma considerável contestação. Damos então as nossas boas-vindas ao cincinato, que aqui se estreia como itálico, e que ataca de frente esta espinhosa questão. Está lançado o debate.

Quando se fala ou escreve de Política Agrícola Comum é tudo feito com uma ligeireza, como se se escrevesse para a Lux ou para a Caras.
Um bom exemplo foi o que encontrei no blog intermitente e no mata-mouros. Os lugares comuns que apresentam a PAC como o bode expiatório dos males do terceiro mundo, faz-me pensar que isso não passa de um afago a uma falsa consciência social.
A PAC é cara no seio do Orçamento comunitário e está com certeza cheia de incoerências (particularmente os subsídios à exportação) mas, talvez porque seja, efectivamente, a única política comum da União Europeia, se mais houvesse (e tanto se pede por elas)...
O facto de os produtores agrícolas terem visto os preços agrícolas reduzidos em mais de 50% desde o início dos anos 90, por políticas anti-inflacionistas, não merece compensação?
Em Portugal este papel malfadado da PAC explica-se em muito por uma sociedade recentemente urbanizada que quer esquecer o seu passado recente, rural e pobre. Penso que deve existir um debate e que este merece ser mais aprofundado e sério, pelo que lanço algumas questões:
Qual o papel da agricultura nos países europeus e em Portugal? Este deve resumir-se unicamente aos aspectos de actividade económica?
Será que não se encontram inúmeras externalidades positivas no sector primário?
A ocupação territorial e o abandono das terras é uma boa opção (ambiental, turística, cultural e, arrisco mesmo a dizer, para a nossa identidade nacional...)?
Alguém acredita que as actividades económicas e a fixação de população em cidades médias e vilas do interior do país se faz sem agricultura e ocupação do espaço rural?
A dependência alimentar externa é uma boa opção?
No caso de passarmos a ter essa dependência como é que poderemos actuar num problema de segurança alimentar (tipo vacas loucas) num país (terceiro) fornecedor?
“Os países pobres que nos dêem alimentos (baratos) que nós investimos lá”: é essa a vossa opinião? Então mais vale voltarmos a criar umas quantas colónias nessa gente de segunda.
(cincinato)

 
POBREZA RELATIVA Bagão Félix em declarações aos telejornais sobre um relatório que indica que há cerca de 2 milhões de pobres em Portugal (25% da população): «Há uma diferença entre a pobreza absoluta, que existe nos países do terceiro mundo e conhece situações dramáticas, e a pobreza relativa que é a que existe no nosso país.» Rematou em seguida clarificando que não acreditava em utopias.
As maravilhas da solidariedade cristã. Relativamente pobres, absolutamente crédulos, assim nos quer ver o nosso ministro. Depois espantam-se por haver quem cerre os punhos.
(Ricardo Noronha)

 
UM ESPECTRO PAIRA SOBRE JOSÉ MANUEL FERNANDES. Há algo de ligeiramente esquizofrénico neste repetido ajuste de contas de certos ex-estalinistas. José Manuel Fernandes vem pela milésima vez estabelecer um paralelo entre os dois totalitarismos do século XX, explicando-nos que a diferença entre os dois é a superior capacidade do comunismo em ocultar os seus crimes através da propaganda, elaborando uma verdade alternativa e apropiando-se dos sentidos das palavras, invertendo-os. Seria essa capacidade que permitiria a tantos erguer o punho fechado sem sentir as reminiscências totalitárias que o acto encerra.
Não se percebe se o director do Público teve alguma vez oportunidade, enquanto era estalinista, de conhecer a história do comunismo anterior a Estaline, ou se alguma vez entrou em contacto com as críticas comunistas do estalinismo. Não se percebe, em suma, se o problema é de ignorância ou de simples má-fé.
Toda a literatura a que recorre JMF, Courtois e Furet, Applebaum e outros, emprega aliás esquemas de pensamento e formas de discurso bastante similares aos do "marxismo-leninismo" com o qual ajusta contas.
Uma pretensa objectividade que passa pela citação de muitos números e dados fora do contexto, por vezes até de forma pouco rigorosa (na contagem dos mortos causados pelo comunismo na Rússia, no Livro Negro do Comunismo, entra por exemplo o total dos mortos da guerra civil russa, causados obviamente pelas manobras de ambos os lados), com o pretexto de que "os factos falam por si".
A noção de que as ideias e os objectivos, o posicionamento político que as pessoas reivindicam como seu, pouco interessa. "Objectivamente", os comunistas são e sempre foram totalitários e representam um perigo para a democracia, da mesma maneira que no gulag as pessoas eram julgadas e condenadas por, "objectivamente", representarem um perigo "para a pátria soviética".
A ideia de que o comunismo que conta, aquele que deve ser levado a sério, é o que venceu e triunfou, o comunismo dito "real". Uma espécie de Darwinismo político que nos dispensa de compreender de que forma triunfou, à custa de que métodos, manobras e crimes, porque estaria inscrito no próprio código genético das revoluções que só o apparatchik sobrevive e se impõe, só a burocracia e o totalitarismo são possíveis.
A história como espaço de uma acção pré-determinada, sem rupturas nem conflitos, em que tudo o que parece é. A condenação de qualquer aprofundamento da reflexão acerca daqueles sistemas, com o espantalho da "relativização" dos seus crimes (muito semelhante a certos anti-fascistas a quem desagrada qualquer abordagem do fascismo que não seja apenas uma condenação ético-moral).
O totalitarismo como prolongamento lógico de toda a contestação ao sistema capitalista. Uma linha de continuidade que passa por Marx e Estaline até chegar a Carlos Carvalhas. É tudo o mesmo.
Quando, por ocasião dos 150 anos do Manifesto Comunista, "The Economist" colocou Marx na capa e recomendou a sua leitura, os ingleses deviam estar loucos. Não aprenderam o suficiente com Orwell. Felizmente que há um senhor muito inteligente em Portugal para lhes explicar que isso é pactuar com o totalitarismo. A nossa democracia está salva.
(Ricardo Noronha)

 
PESADELO SMS. Um dia acordaremos e só conseguiremos dizer (só conseguiremos pensar) duas ou três frases seguidas, com um máximo de 160 caracteres.

26.6.03
 
LEITURA DE FÉRIAS. «Hoje, nas cidades, guarda-se pouca memória daqueles que nos precederam nos andares e casas e quase ninguém se preocupa em saber se essas pessoas ali foram razoavelmente felizes ou infelizes, se as paredes que contemplamos diariamente foram testemunhas de veemências ou incertezas ou esperas, de súplicas ou de rotinas, de cantarolares ou de imprecações ou de crueldades: se alguém aqui sofreu antes de nós ou corou de prazer, se entre estas paredes se disseram coisas que quem saiu daqui - talvez obrigado a isso - não esquecerá nunca, alguém em cuja retina estão para sempre impressas as divisões em que dormimos, comemos, vemos televisão ou escrevemos». (in Literatura e Fantasma, de Javier Marías, tradução de Francisco Vale, Relógio d'Água, 1998).

 
TRÊS FRASES. Ao visitar a magnífica exposição antológica sobre Henri Cartier-Bresson, na Biblioteca Nacional François Mitterrand, anotei no meu caderno preto (uma espécie de blogue portátil) três frases que estão escritas nas paredes. Duas são do imenso fotógrafo que fundou a Magnum: «Je n' ai aucun message à delivrer, rien à prouver: voir et sentir, et c'est l'oeil surpris que décide»; «Photagraphier c'est mettre dans la même ligne de mire la tête, l'oeil et le coeur». A outra é de Anatole France: «Comme je n'etudiais rien, j'apprenais beaucoup». À exposição, ainda vou voltar. E então escreverei sobre os muitos "instantes decisivos" que ali se revelam.

 
A ESTRANGEIRA. Na Rue Mouffetard, às 16h57, uma rapariga asiática (provavelmente turista e japonesa) lia L'Étranger, de Albert Camus, em francês, numa edição de bolso. Diante de um cappucino arrefecido, ora mergulhava na leitura, ora pousava o livro. Absorta, os olhos perdidos nas pirâmides de alperces e cerejas da loja mesmo em frente, pareceu-me por momentos que não sabia onde estava: se em Paris, se sob o ardente sol argelino.

 
O VELHO DILEMA. Face às misérias do mundo (umas cruéis; outras ridículas; todas absurdas) o que devemos fazer? Rir como Demócrito ou chorar como Heraclito?

 
AS LEIS DA SIMPATIA. Na papelaria, no talho, na fromagerie ou na loja de discos e DVD's, os empregados dizem "bonjour, monsieur", "merci, monsieur", "au revoir, monsieur". E sorriem, mesmo os trombudos, os arrogantes, os mal-dispostos. Eu sei que é cultural, uma coisa que se aprende de pequenino. Mas também sei que não custa nada e às vezes, quase sempre, faz toda a diferença no contacto entre eles (quem vende) e nós (quem compra).

 
CORREIO DO BRASIL. Recebemos do «blogueiro» Renato Motta, do muito interessante Babilónia, o poema que passamos a transcrever:


Blog de Esquerda, em PT
Por Renato Motta - Rio de Janeiro, Brasil

Não pensem em reprodução.
Ou escriba sem imaginação.
Minh?alma que navega
Se encontra, se apega.
Simplesmente contemplação.
Não me entenda mal
O PT em questão
É o de Portugal.


O nosso amigo carioca avisa ainda os seus leitores brasileiros que «os patrícios estão tirando onda» (referindo-se ao número de leitores deste blog). Vamos fazendo por isso, Renato, e pode ter a certeza que são leitores como você que nos ajudam a afrontar todos os dias as marés da blogosfera.

 
OFF-LINE. Com a minha dose diária de internet reduzida ao mínimo (meia-hora para mails e BdE), não tenho tido tempo para ler os novos blogues. Sei, por leituras avulsas, que surgiram novos e excelentes bloggers, como o Carlos Vaz Marques e o Tiago Rodrigues. Ainda não tive, infelizmente, tempo de os ler com a atenção que merecem. Mas prometo, a eles e a todos os outros recém-chegados à blogosfera, os devidos posts de boas-vindas, assim que regressar a Lisboa e ao meu habitual ritmo de consulta internética. Não se esqueçam, por favor, de que estou em férias. E as férias, pelo menos em Paris, dão muito trabalho.

 
NÓS ATÉ GOSTAMOS DE DÚVIDAS METÓDICAS, mas a salgalhada que aqui apareceu no lugar da crítica do Francisco Frazão não fazia qualquer sentido. O que aconteceu foi que a nova versão do blogger não estava preparada para tanto acento. Sem dúvida porque eles não existem em inglês, a mesma razão que faz com que não seja possível ter um endereço electrónico, ou mesmo um mail, devidamente acentuado. Descansem que este post não se destina a denunciar o imperialismo linguístico americano (o que nos daria pano para muitas mangas), mas apenas para apresentar as nossas desculpas ao Francisco Frazão pelo seu texto ter aparecido muito mais «interrogativo» do que devia.

PS: Aproveitamos para agradecer à Margarida e ao João as preciosas indicações que nos permitiram resolver este pequeno problema.

25.6.03
 
HAMLET NO MARIA MATOS. Já li alguns comentários ao recente "Hamlet" de Peter Brook e só este se referia ao aspecto mais marcante dos espectáculos de Lisboa: o calor excruciante que fazia na sala do Maria Matos ("Lamentamos informar que o ar condicionado está avariado", ou coisa assim, de qualquer modo muita lata para depois vender bilhetes a 15 e 20 euros. E a mim, das quatro representações, logo me foi calhar a do "dia mais quente"...). Não deixa de ser interessante a tendência (da memória) do espectador para se abstrair das vis condições materiais (o calor, as cadeiras que chiam, os múltiplos programas feitos leques, como se a plateia fosse levantar voo) e concentrar-se estoicamente no espectáculo. É o que faço a seguir.

1. O espaço. Não sei se resultou. Não haver mudanças de cena numa peça de Shakespeare é sempre boa ideia (sugere o funcionamento "cinematográfico" do palco isabelino), mas aqueles módulos de sofá multi-usos a deslizarem de vez em quando em cima do tapete vermelho quadrado - como se os actores estivessem no foyer da Culturgest - não convencem: são precisamente insuficientemente multi-usos (há um limite para as transformações a que se podem sujeitar uns paralelipípedos de espuma) e demasiadamente (porque não "significam"). Claro que, no Théâtre des Bouffes du Nord, qualquer cenário deve ficar lindíssimo... não é o caso do Maria Matos. De qualquer modo, pouca inspiração, aqui.

2. O multiculturalismo. Augusto M. Seabra falou disto na sua "inclinação" [não está na net, não sei porquê] no Público de 20/06. Diz que "o corpo, a pele, também é um signo teatral, que, no caso, Brook parece ter somente intentado neutralizar", dá o exemplo da "Tempestade" (pelo mesmo Brook) onde havia um Próspero Negro e um Caliban Branco e conclui que este Hamlet "é um espectáculo que da questão multicultural retém sobretudo sinais ostentatórios, senão mesmo estereótipos como quaisquer outros."
Por mim, hesito: por um lado, Brook, de há vários anos para cá, tem jogado habilmente a cartada multicultural, que passou mesmo a cansada imagem de marca, significando-se a si mesma; por outro, vejo o lado redutor da opção (elogiada) na "Tempestade", que agora seria claramente datada.
A solução está em libertar o significante-pele do binómio colonizador-colonizado, que como chave de leitura de uma peça de Shakespeare é manifestamente pouco. Talvez seja tempo de o corpo (a pele) "ir significando", ao longo da peça, coisas diferentes, sem nunca se fixar numa interpretação totalizadora. A legítima ambição de um actor negro representar o Hamlet não tem de estar submetida a uma "ideia de encenação" pós-colonial.

3. Os actores. Ninguém consegue mostrar todas as faces de Hamlet. Este (William Nadylam) era bom na rapidez do pensamento, na energia da "antic disposition", na relação com o público. Pior talvez no resto. É verdade que o Laertes (já diz o LFB) era muito fraco e despachado. E o mesmo para a mãe (a cena com Hamlet no IV Acto era insuportável). Bruce Meyers óptimo.

4. A adaptação. "La Tragédie d'Hamlet" era o título: a chamar a atenção para o nome do género teatral enquanto tal. Das múltiplas leituras de "Hamlet", era menosprezada a política (daí cortar a personagem de Fortinbras, a quem cai no final o poder nas mãos) e sublinhada de certo modo a psicanalítica (o mesmo actor a fazer o tio e o fantasma do pai).
Mas, acima de tudo, ressalta o lado meta-teatral, o Hamlet-actor: daí a distribuição dos papéis por apenas oito intérpretes (que saíam com um figurino para entrarem logo de seguida com outro), a importância dada à peça dentro da peça, ou o arrepiante monólogo do chefe da trupe (Meyers) sobre Hécuba (com uma gravidade ancestral indiana - lá estava o "multiculturalismo" a funcionar perfeitamente). Ou a pirandelliana resposta de Hamlet ao "que estais a ler?" de Polónio: largando o livro, aponta para as (péssimas) legendas ao fundo do palco e lê, em português, "Palavras, palavras, palavras".
Aliás, a principal intervenção textual de Brook vai neste sentido: no final, depois das mortes, os actores que ficaram de pé deitam-se também no palco (lembrando mortes anteriores de personagens por eles feitas); depois Horácio (a quem Hamlet pediu que vivesse para lhe contar a história), fala do dia que nasce e é da cena 1 do Acto I (cortada do início) que saem as palavras; ao mesmo tempo, os actores levantam-se; e Horácio faz, à boca-de-cena, a pergunta que abre a peça: "Quem está aí?" O público respondeu com as muitas palmas do costume.
(Francisco Frazão)

 
O EFEITO MONTGOLFIÈRE. Em Paris, também os euros são mais leves do que o ar.

 
NO QUIOSQUE DA ESQUINA. Confirma-se: a imprensa cor-de-rosa é má em todo o lado.

 
LOMBA IS BACK. Com algum atraso, devido ao pouco tempo passado on-line em Paris (quase só o estritamente necessário para consultar o e-mail e pôr em dia o BdE), assinalamos o regresso à blogosfera do nosso amigo Pedro Lomba. É muito bom voltar a ler os seus textos assustados com o mundo moderno (facto normal num setecentista caído de pára-quedas no séc. XXI) e em especial as suas diatribes literalmente anti-umbiguistas. No seu jeito ora púdico ora indignado (mas uma indignação sempre contida), o Pedro é das pessoas que melhor escrevem no universo dos blogues. Mostrou-o na Coluna Infame. Confirma-o agora no novíssimo Flor de Obsessão, inspirado no seu autor-fétiche: Nelson Rodrigues, de quem o PL já disse, num rasgo de devoção hiperbólica, que não se importava de ser pajem. A propósito, leiam um post recente dedicado ao mestre brasileiro. Intitula-se «A Pureza» e vale, como diria o “nosso” Fernando Venâncio, cinco estrelinhas.

 
SOBRE OS AMIGOS. Nós sabemos que eles estão sempre lá. Os verdadeiros. Ainda assim, é bom perceber que nos momentos essenciais não hesitam, não pactuam, não lhes treme a voz. Haja o que houver, não nos abandonam (como nós não os abandonamos). Num tempo pródigo em desilusões, este tipo de certeza simples pode não apagar todas as mágoas; mas reconforta.

 
COMPATRIOTAS. Numa das esquinas da Rue Tolbiac, estava parado um grupo de operários da construção civil, em pausa para o almoço. Um deles ainda terminava de mastigar uma sandes de presunto, enquanto os outros conversavam e bebiam cerveja pela garrafa. Quando me aproximei, percebi que eram portugueses. Vozes grossas, risos lúbricos, pronúncia do norte. Fingindo consultar as cotações na montra do banco, pus-me a ouvir um pouco da conversa, para saber do que falavam. Questões de trabalho sobretudo (uma camioneta, o material por descarregar) e questões de dinheiro (uma dívida não saldada: «vê lá se me pagas isso, hein»).
Mas depois, ó deuses inclementes, passou uma rapariga. Não especialmente bonita, diga-se, não especialmente jeitosa. E eu, à maneira do Lomba, fui forçado a estugar o passo e a fugir daquele apocalipse. Sem a barreira do pudor, conferida pelo facto de falarem em terra estranha a sua língua de origem, os homens lançaram em série piropos do mais escabroso que imaginar se possa. É claro que cão que ladra não morde e quem muito diz pouco faz, mas para ser sincero, tantas horas depois, ainda coro só de pensar nalgumas das barbaridades que os meus compatriotas, pelo menos da boca para fora, prometiam fazer à pobre da moça.

 
POST SOBRE PARIS (SEM VÍRGULA). A cidade continua bela mas aos meus olhos surge incompleta como a frase perfeitíssima a que falta apenas um pequeno sinal de pontuação.

24.6.03
 
ESPIRITUALIDADES JOANINAS. Acabo de ver a reportagem da Sic Notícias sobre os festejos de S. João ontem na zona da Inbicta. De candeias às avessas, os dois municípios que partilham o Douro frente a frente - Gaia e Porto - organizaram celebrações independentes. Luís Filipe Menezes (homem por quem tenho alguma estima pois é de lágrima fácil, algo difícil de mostrar num país de fanfarrões) comentou a circunstância dizendo que só Nosso Senhor Jesus Cristo conhece as razões por que ele e Rui Rio andam de costas voltadas. Mais um caso que, para ser sanado, exige a intervenção da incontornável Alexandra Solnado. (Pedro Vieira)

 
REGRA N.º 3 PARA CONDUZIR EM PARIS. Nesta cidade, os lugares para estacionar são um bem escasso. Por isso, todos são bons, mesmo os que as leis da lógica e da geometria nos garantem ser demasiado pequenos para a nossa "bagnole". A solução é o famoso método de estacionamento à parisiense: toque atrás, delicado choque à frente; toque atrás, delicado choque à frente; toque atrás, delicado choque à frente; e ja está. Não é por acaso que 90% dos carros em Paris circulam com os pára-choques amolgados. É uma espécie de marca distintiva, daquelas que gostamos de exibir no estrangeiro. Diria mesmo que os parisienses não têm vergonha das feridas que a vida quotidiana lhes deixa na chapa automóvel. Pelo contrário, até têm orgulho.

 
RASTEIRA AO GOVERNADOR. Trouxe-me um amigo, de Moçambique, esta maravilhosa peça de jornalismo, do “Notícias” de Maputo, o jornal de referência lá do burgo. Data de 6 de Junho.
«Pacheco lesionado numa partida de futebol
O governador de Cabo Delgado, José Pacheco, contraiu uma fractura na noite de quarta-feira, num jogo de futebol de salão realizado na cidade de Pemba, encontrando-se neste momento imobilizado.
Pacheco confirmou isso à Reportagem do nosso jornal que o visitou na tarde de ontem num das casas protocolares da Praia de Wimbe, onde se encontra em recuperação. O governador acrescentou que o facto aconteceu quando, num contra-ataque, deslizava para a baliza com muitas probabilidades de marcar o golo. Porém um defesa contrário que estava na ilharga, incapaz de travá-lo conforme mandam as regras do jogo, rasteirou-lhe sem apelo nem agravo, deitando por terra o bom do Pacheco, que viria a ter a perna fracturada.
'Com o facto de a nossa equipa estar a comportar-se bem, toda a gente anda nervosa. Primeiro foi o Yassine, funcionário sénior das linhas aéreas, depois o Laço, director provincial de juventude, e agora é o Pacheco', disse o governador [Pacheco].»
(Daniel Oliveira)


 
FOGO NA FLORESTA (2). Não sei qual é a solução para isto, embora saiba, infelizmente, qual será o resultado! Mas parece-me que a existência de um movimento ambientalista combativo, independente dos partidos e sem medo de dizer mal dos poderes que lhe podem atribuir subsídios seria meio caminho andado para começarmos a exigir a resolução de problemas como este. Não é possível avançar com acções de sensibilização ambiental sem explicar e debater a dimensão político-económica dos problemas coisa que, muitas vezes (vezes demais), o movimento ambiental tem medo de fazer. Não é possível mobilizar as populações com o espírito do “ai que desgraça! E nós não podemos fazer nada!” que se foi instalando. Não é possível, enfim, haver uma intervenção coerente ao nível do ambiente se continuarmos a ignorar a política por trás das decisões (e indecisões) que se tomam. Sob pena de não apontarmos o dedo ao essencial, de não sabermos onde está “o inimigo” e de nos arrastarmos sempre nesta desgraça sem nome. E correndo o risco maior, e cada vez mais visível, de deixarmos instalar a sensação de impotência face aos poderes… que é meio caminho andado para desistirmos de tudo e para assistirmos ao florescer de atitudes radicais e inconsequentes que acabarão por sair do controle de quem quer que seja. (Sara Figueiredo Costa)


 
FOGO NA FLORESTA (1). As florestas portuguesas (ou o que vai restando delas) já recomeçaram a arder, um inferno sazonal aproveitado pelos especuladores imobiliários e pelos plantadores de eucaliptos para, literalmente, pôr mais lenha na fogueira. A RTP passou um programa sobre o assunto (eu só apanhei o fim, mas o Espigas viu tudo e fala disso no seu blogue) e a imagem que retive foi a de um senhor apresentável e responsável por qualquer coisa importante ao nível do Governo (peço desculpa pela imprecisão) a explicar que Portugal precisava era de arranjar maneira de aumentar a sua quota de emissão de dióxido de carbono e poluição… Entretanto, as florestas vão ardendo, os bombeiros não chegam para as encomendas e o equipamento disponível para o combate às chamas (para não falar no equipamento e recursos humanos para PREVENÇÃO, essa palavras que em Portugal parece misteriosa) é claramente insuficiente. As florestas vão ardendo, as espécies botânicas e animais vão desaparecendo, a paisagem altera-se e o país vai caminhando para uma descaracterização ambiental e para uma situação de desequilíbrio ecológico (onde se insere, obviamente, o equilíbrio humano, por mais que às vezes nos esqueçamos disso) insustentável. (Sara Figueiredo Costa)


 
MAIS UM. É um blogue organizado por pessoas que participam activamente no Fórum Social Português. Falam apenas em seu nome, mas ajudam a fazer crescer o FSP. Chama-se Blogo Social Português. A direita está a começar a perder o domínio do blogosfera. Que mais mil blogues floresçam para que uma outra blogosfera seja possível. (Daniel Oliveira)

 
BLOG DAS IMAGENS. A nossa amiga (e itálica) Sara Figueiredo Costa criou o seu próprio blog sobre BD & Ilustração, o Beco das Imagens (para os favoritos, já). No entanto, como se pode ver já a seguir, continua a colaborar connosco, até porque não há qualquer incompatibilidade, como é óbvio, entre o BdI e o BdE.

23.6.03
 
SINAL DOS TEMPOS. Dantes, sempre que vinha a Paris escrevia postais. Agora, escrevo posts.

 
PÉRIPHÉRIQUE. Tantas portas (Porte de Pantin, Porte de Saint Ouen, Porte de Bercy, etc); nenhuma janela.

 
REGRA N.º 2 PARA CONDUZIR EM PARIS. No periférico, de quatro vias para cada lado, conduza preferencialmente na segunda via a contar da direita. É a melhor forma de escapar aos engarrafamentos (que surgem quando menos se espera) e de preparar a saída, quando ela se aproxima. Isto é sobretudo válido à noite, quando o trânsito se torna menos intenso. Durante o dia, o melhor é manter a calma, ter fé em Deus (os que têm) e alinhar alegremente na gincana automóvel a 100 kms/h, ao redor de Paris, pensando sempre que há situações hipoteticamente ainda mais complicadas para um condutor médio, mesmo que seja apenas em filmes como Mad Max ou Matrix Reloaded.

 
REGRA N.º 1 PARA CONDUZIR EM PARIS. Não hesitar. Não hesitar nunca. Há sempre carros a surgir dos sítios mais impensáveis, táxis aventureiros, gente cheia de pressa. A cidade exige velocidade, decisões rápidas, a fluidez de quem conhece todos os trajectos. Se ainda confunde os nomes dos boulevards ou ignora qual a melhor ponte para atravessar o Sena, tendo como objectivo chegar à Place de la Madeleine, por favor não encoste, não faça piscas e sobretudo não consulte o mapa. Paris é uma cidade cruel, incapaz de admitir a dúvida ou a fraqueza rodoviárias. Por isso, finja que sabe perfeitamente o que está a fazer, siga o movimento dos outros automóveis e vire à esquerda ou à direita segundo o seu instinto. Quando se enganar, dê mais uma volta e terá todo o tempo para emendar a mão. E mesmo que perca a tal manhã na esplanada da Place de la Madeleine, o certo é que da próxima vez já saberá mais uns nomes de boulevards e até, com um pouco de sorte, qual a ponte ideal para atravessar o Sena quando se deseja ir naquela direcção.

 
A “QUESTÃO” DNA. Eu não quis até agora intervir nas várias polémicas em torno do DNA e do seu director, porque sou (como a maior parte dos leitores saberá) parte interessada. Mas quando um mero suplemento de sábado se torna a besta negra dos blogues, convém no mínimo pôr alguma água na fervura e apelar, mais uma vez, à calma. Eu, que por inerência de funções leio tudo o que ali se publica (incluindo o Especial Sons sobre Frankfurt e as legendas da moda, só para citar duas das secções mais verberadas), até sou capaz de aceitar muitas das críticas – sobretudo as que são ao mesmo tempo irónicas e construtivas. Mais: eu concordo que o DNA poderia ser muito melhor do que é. Acontece que também conheço muitas dos problemas concretos com que o suplemento se tem defrontado, nomeadamente a redução de 64 para 48 páginas e as sistemáticas restrições orçamentais. Lembram-se da velha história da omolete que não se pode fazer sem ovos? É verdade.
Claro que ao leitor só lhe interessa o resultado final, independentemente das crises na imprensa, e por isso evoca, nostálgico, o tempo em que o DNA era outra coisa: melhor, mais variado, mais dinâmico, mais original, mais criativo. A única coisa que posso dizer é que toda a equipa que pensa, escreve e edita o DNA faz o melhor que pode, nas circunstâncias actuais, para satisfazer o leitor habituado à excelência do DNA dos primeiros anos. E só a cegueira completa, ou a má-fé, será capaz de negar que parte dessa primordial excelência ainda assoma, muitas vezes, naquele caderno publicado pelo DN aos sábados. Exemplos? As imagens do Augusto Brázio (talvez o melhor fotógrafo da imprensa portuguesa), as entrevistas da Anabela Mota Ribeiro, as reportagens da Sónia Morais Santos, as críticas de livros ou as crónicas do MEC e do Carlos Quevedo. Admito que possa não ser o ideal, a fórmula perfeita. Mas também não é, sejamos honestos, tão pouco quanto isso.


 
ENOUGH IS ENOUGH. Um marciano que aterrasse em Lisboa há duas semanas, aprendesse português em 45 minutos e se metesse a ler, de uma ponta à outra, a blogosfera nacional, chegaria rapidamente a uma conclusão: há na imprensa deste país um único suplemento muito mau e chama-se DNA. O resto, presume-se, é tudo magnífico, excelente, estratosfericamente bom, da New Yorker para cima.



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