BLOG DE ESQUERDA |
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7.6.03
VERSOS QUE NOS SALVAM. A Relógio d' Água acaba de editar o livro Outro Tempo, publicado por W. H. Auden em 1940, logo após o seu exílio voluntário nos EUA. A tradução é de Margarida Vale de Gato. De entre as várias dezenas de magníficos poemas, escolhi este (por razões que me abstenho de explicar): Repousa, meu amor, a tua cabeça adormecida, Humana, sobre o meu braço descrente; O tempo e as febres consomem A singular beleza das Crianças pensativas, e a campa Prova que é frágil a criança; Mas nos meus braços, até amanhecer Deixa jazer a criatura viva, Mortal, pecadora, mas para mim, De uma beleza sem fim. Não têm limites a alma e o corpo: Aos amantes que se deitam Sobre a sua vertente encantada Num habitual delíquio, Oferece Vénus uma grande visão De compaixão sobrenatural, De esperança e de amor universal; Enquanto uma abstracta percepção Desperta, entre rochas e glaciares, O êxtase sensual do ermitão. A certeza, a fidelidade, Ao toque da meia-noite se vão Como vibrações de um sino, E os loucos em voga erguem O seu grito maçador e pedante; E tudo até ao último tostão, Predizem-no as cartas temidas, Será pago, mas desta noite, Não se perca um só instante, Um único beijo, um pensar, Um suspiro anelante. A beleza, a meia-noite, a visão fenece. Que sopre suave o vento errante Da aurora sobre a tua cabeça adormecida, Desvelando um dia de tanta doçura Que agracie o olhar e o coração pulsante, Bastando-lhes o mundo mortal; E que te saciem, na árida secura, Os poderes involuntários, E possas passar, nas noites de injúria, À guarda de todo o humano amor. TEMPUS FUGIT. Como ficou claro no princípio, este blog é um espaço a que dedicamos muito do nosso tempo, quando temos tempo. Desde que começámos a aventura, no mês de Janeiro, pelo menos um de nós foi "inventando" esse tempo necessário para as actualizações regulares (uma média de 10 por dia) a que habituámos os nossos leitores. Acontece que um vasto conjunto de causas veio obrigar-nos, nos últimos dias, a abrandar o passo. Este blog é um hobby a que nos dedicamos com muito prazer e entusiasmo, mas a nossa vida tem outras prioridades. Prioridades que por vezes nos afastam, mais do que desejaríamos, da blogosfera. Não se preocupem: é uma situação temporária. Em breve regressaremos ao ritmo do costume. 6.6.03
DIREITO DE RESPOSTA. João Pereira Coutinho escreveu um “post” indescritível sobre a minha pessoa. Não me ofendo com pouco, mas há limites para tudo. Pereira Coutinho não percebe quando vê uma piada e isso é estranho. Terá de resolver esse problema na sua vida. A mim, já me chamaram esquerdista, canhoto, vermelho, comuna. Não me recordo de ter reagido de tal forma. Mas João Pereira Coutinho fez algo mais grave: contou uma conversa privada e alterou o seu conteúdo. Toda a gente sabe de que partido sou militante e todos sabem porque não o escondo. Disse-lhe apenas que preferia que não chamasse o Bloco à colação, no debate, para que este fosse comigo e não com o dirigente partidário. Como é óbvio, não tenho vergonha da minha militância. Muito pelo contrário. Fora estes dois esclarecimentos, nada mais tenho a dizer. Porque não sei usar o vocabulário com que João Pereira Coutinho me surpreendeu. Entretanto, registei com agrado, mas sem surpresa, o post da Coluna Infame. O assunto com a Coluna, infelizmente só com ela, fica encerrado. (Daniel Oliveira) CARTA DE SINTRA. Da leitora Graça Moreira, recebemos esta pequena nota: Hoje ouvi o Rui Rio a falar sobre os arrumadores de automóveis do Porto, sobre o projecto «Porto Feliz» (penso que é esse o nome) e lembrei-me das ilhas, também no Porto. Com mais de 40 anos de intervalo, e agora em «democracia», o conceito é o mesmo: esconde-se a miséria. Não se resolve nada mas esconde-se dos olhos... e olhos que não vêm... Desculpem este meu desabafo, mas estou farta de comentar sozinha, no carro, os disparates que vou ouvindo. Obrigada pelo vosso blog. 5.6.03
ESPEREM PELA PANCADA. Nos últimos dias, a falta de tempo impediu-me de comentar uma série de farpas e provocações de que fui alvo, em várias latitudes da blogosfera. Amanhã, se tudo correr bem, conto pôr essa escrita em dia. (nota pessoal para o Zé Diogo: tem lá calma, rapaz, que os teus esforços para polemicar com este "generoso" gajo de esquerda não foram em vão; a resposta segue dentro de momentos). «DE LA MUSIQUE AVANT TOUTE CHOSE». A nossa amiga Helena Ayala Botto, «melómana em formação», fez uma descoberta entusiasmante para quem gosta de música. Ouça-mo-la: «Encontrei completamente por acaso uma gravação de 1904 (!!!) com o próprio Claude Debussy a acompanhar uma tal de Mary Garden a cantar este poema de Verlaine. Fiquei tão... eufórica (sim, acho que é essa a palavra) que quis de imediato partilhar este "link" ou enlace (como diz o Alexandre Andrade). Não sabia muito bem com quem, mas de repente lembrei-me que tu eras rapazinho para gostar disto! Se gostares e quiseres também divulgá-lo no blog, tens o meu total apoio. Não é para isso que os blogs servem, afinal?» Numa frase, Helena: sim, tens toda a razão, também é para isto que os blogs servem. Obrigado. ELE NÃO TEM UM BLOG. Um dos melhores momentos da sessão de ontem do É a Cultura, Estúpido! foi aquele em que o Nuno Costa Santos admitiu, em público, a sua blogoexclusão. Em rigoroso exclusivo, o BdE orgulha-se de publicar esse brilhante pequeno texto do Nuno. Ora apreciem. EU NÃO TENHO UM BLOG Quase todos os meus amigos têm um blog. Eu não tenho um blog. Só se fala de blogs. Antigamente os meus amigos falavam de futebol, de mulheres, de livros, de música e de filmes. Agora falam de blogs. Eu não tenho um blog. Os blogs unem os opostos. Amigos meus, de direita e de esquerda, que eu nunca sonharia ver juntos, nem no Estádio da Luz, juntam-se em grandes jantaradas para partilharem as suas experiências na blogosfera. Eu não sou convidado. Eu não tenho um blog. Dantes os miúdos queriam ser bombeiros ou astronautas. Um dia destes, sou pai. O meu filho dir-me-á, com um brilhozinho nos olhos: «Ó pai, quando for grande, quero ser um bloguista!». Eu não saberei o que responder. Eu não tenho um blog. Eu não tenho um blog. Mas, no início, também não tinha telemóvel. FOI A CULTURA, ESTÚPIDO! Ontem, no São Luiz, discutiu-se a questão dos blogs, dos bloggers e da blogosfera. E discutiu-se bem, parece-me – embora eu seja suspeito nesta matéria. Como disse às tantas a Mariana, ninguém pode prever quais serão os contornos do blogomapa, daqui a uns meses. Uma certeza, porém, já tenho: esta comunidade – multiforme, complexa, interessantíssima – não vai desaparecer de um dia para o outro, como costumam desaparecer os ténues frutos das modas efémeras. Quanto ao É a Cultura, Estúpido!, volta depois das férias, lá para Setembro. Mantenham-se atentos. EXTREMA-DIREITA. Ao contrário do que dizem os infames, para a malta a direita e a extrema-direita não é a mesma coisa. Por exemplo: o Pedro Mexia é de direita, o João Pereira Coutinho é de extrema-direita e o Pedro Lomba gosta de conviver. Como podem ver, não somos injustos, sabemos identificar as nuances de um reaccionário. (Daniel Oliveira) SIAMESES. Sentado bêbado no chão, o homem dizia mais ou menos assim: somos como os irmãos siameses, se um empurra o outro caem os dois. Uma forma poética de falar da consciência de classe? Talvez. Mas os dois desempregados de um estaleiro galego falavam, no «Às segundas ao sol», desta coisa extraordinária que é a capacidade dos mais fracos se fazerem fortes, nunca se traindo. Falavam desta máxima da sobrevivência. Ela escapa sempre aos que falam de "gestão de carreiras", da meritocracia, do salve-se quem puder. O filme é político sem ser propaganda. É social sem ser neo-realismo barato. Enfim, é bom. (Daniel Oliveira) TIAS NORMAIS. Com o parque infantil do Príncipe Real como cenário, umas senhoras entraram em minha casa através da SIC. Chamavam-se "Mães em Acção" e eram uma mistura de mães de Bragança com Tias da Lapa. Juntaram-se, indignadérrimas, para combater as ambiguidades da Lei da adopção. Apesar dos milhares de crianças por adoptar, elas estavam preocupadas com o excesso de procura. Queriam saber se uma mulher sozinha estava, na candidatura para adoptar uma criança, à frente de um casal; se um homem sozinho ficava em pé de igualdade com uma mulher; e, acima de tudo, se os homossexuais (a voz tremeu-lhe) podem adoptar uma criança. Diziam as tias, imenso zangadas, que as crianças devem ter famílias "normais". Olhei para elas e deu-me a nostalgia: a minha é tão saudavelmente anormal. O pai não se meteu com a criada. Não foi a criada que tomou conta de mim. (Daniel Oliveira) FUI EU. O Pedro Lomba desafia a lógica e isso é divertido. O Pedro Lomba está contente, mesmo muito satisfeito, porque ao contrário do que dizia a extrema-esquerda histérica anti-americana primária, os americanos não plantaram armas de destruição massiva no Iraque. Não! Foram honestos. Atacaram e nem se preocupam em esconder que era tudo uma mentira. O senhor Wolfowitz contou tudo à comunicação social: foi ele que inventou a história porque achou que ela resultava. O homem é um génio. Um irresponsável, mas um génio. Um fanfarrão desbocado, mas um génio. Um dia, sentado à lareira, ainda há-de apontar para uma velha fotografia de Bagdad destruída e dizer ao seu neto, com um sorriso doce e orgulhoso, «fui eu, meu querido, isto fui eu que fiz». Assassinos sim. Mas honestos. (Daniel Oliveira) A FOME E A FARTURA. Depois de quase duas semanas de ausência (devidamente justificadas), o Daniel Oliveira volta ao BdE cheio de genica e dispara quatro posts de rajada. Os itálicos são uma espécie curiosa: vão e vêm, animam-se e eclipsam-se, tanto são frenéticos como bissextos. À fome segue-se a fartura; à fartura segue-se a fome. E nós, os residentes, entre uma coisa e outra, lá vamos fazendo pela vida. 4.6.03
É A CULTURA, ESTÚPIDO! – PARTE III. No lugar do costume (Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz), à hora do costume (18h30), realiza-se hoje a terceira sessão do «É a Cultura Estúpido», uma espécie de happening cultural organizado pelas Produções Fictícias e oferecido (literalmente: a entrada é gratuita) à população de Lisboa e arredores. Desta vez, para além das rubricas do costume (crítica de livros, debate e stand up comedy), escolhemos um tema que está na ordem do dia – e não, nada tem a ver com juizes em t-shirt. O tema, como de resto já anunciáramos noutro post, é a própria blogosfera, esta "coisa" assombrosa que nos acicata os dotes literários e nos rouba o sono. Na mesa, em vez de um único entrevistado, quatro bloggers de várias tendências: Mariana Vieira da Silva, do País Relativo (esquerda); Nuno Miguel Guedes, do Tradução Simultânea (direita); Marta Almeida, do Janela Indiscreta (cultural); e Tiago Cavaco, a Voz do Deserto (religioso atípico de tom aforístico). A moderar, as always, Anabela Mota Ribeiro. Façam o favor de aparecer, ok? SER DE ESQUERDA. Em relação à discussão que está em pé sobre o que é ser de esquerda, eu partilho da tua opinião, Zé Mário, e acrescento que a esquerda na sua maioria é o garante da moralidade social. Não dos falsos moralismos, que se confundem com os bons costumes inscritos na bíblia do jet-set, mas aqueles que permitem uma sociedade avançar coesa para o futuro. Sentimentos como a solidariedade, a partilha e o voluntarismo, entre outros, são abraçados pela esquerda de uma maneira mais aberta e desinteressada. Resumindo, penso que a capacidade para o altruísmo é superior na esquerda do que na direita, não implicando que a primeira tenha o monopólio dele. Veja-se apenas as diferenças no estilo de governação e as diferenças nas medidas adoptadas pelos governos PS e PSD. O desprezo mostrado pelo actual governo pelas questões sociais e pelas pessoas é gritante e o país está cada vez mais refém de uma direita que se guia somente pelos números do défice e nada mais. (JAK) Nota: o verdadeiro nome de JAK é James Kirkby, mas nós ignoramos se terá algum laço de parentesco com o Mark Kirkby, dos Relativos. O certo é que JAK acaba de criar o seu próprio blog. Um blog interessante e, coisa rara, de esquerda. Aleluia, aleluia, aleluia. Na blogosfera, por muitos "canhotos" que surjam, seremos sempre poucos. 3.6.03
DANOS COLATERAIS RETARDADOS. Ao escrever o último post, veio-nos à memória um outro que o Pedro Mexia escreveu no auge da nossa polémica sobre a guerra, no início do mês de Fevereiro. Afirmava ele: «Vale a pena dizer isto: se estivéssemos convencidos de que não havia armas de destruição em massa no Iraque (existentes ou em preparação), não estaríamos a favor da intervenção americana» (sublinhado dele). Como é, Pedro? Este post ainda vale? Se valer, ficamos à espera da auto-crítica. ORGULHOSAMENTE CÍNICOS. Dois meses depois da tomada de Bagdade, Paul Wolfowitz, o conhecido falcão da administração Bush, veio agora admitir que as armas de destruição em massa não foram a principal razão da Guerra do Iraque. Temos que confessar que por esta não esperávamos nós. Tão pouco tempo depois do fim das hostilidades, é a própria extrema-direita americana que nos vem confirmar o que sempre aqui dissemos sobre a questão, a saber, que a rábula do Powell a agitar o frasquinho na ONU era só circo, e que nem mesmo eles deviam acreditar naquelas imagens desfocadas de satélite. Mas o desplante do secretário-adjunto da Defesa dos Estados Unidos não fica por aqui. Diz ainda que se exageraram deliberadamente o problema das armas de destruição em massa, foi apenas porque era o único que poderia ser consensual (quererá ele dizer manipulável?), e não porque fosse uma verdadeira razão. A finalidade de tudo isto era poder retirar as tropas americanas da Arábia Saudita, um dos conhecidos argumentos da fúria de Bin Laden. Ou seja, ficará registado pela boca deste alto funcionário, que a administração Bush mentiu à América e ao mundo. Que quis impor uma guerra à ONU com falsos argumentos, sem explicitar as verdadeiras razões do seu empenho em derrubar Saddam. Nós já sabíamos, mas agradecemos a prova. Provado fica também, para quem não sabia, que os senhores do Império não têm vergonha em assumir que andaram a gozar com o mundo durante meses. Who cares? Ganharam a guerra, não ganharam? Agora que mal podem fazer algumas verdades. Da próxima vez terão de novo a comunicação social e os opinion makers para fazer o mundo engolir mais umas quantas patranhas legitimadoras. Mas quem vai ficar mesmo muito mal nesta história é o pobre do Blair (aquele homem político de grande coragem a seguir ordens, lembram-se?) que ainda jura a pés juntos que as armas devem estar algures. Agora só resta saber quanto tempo é que o sorridente Tony vai levar a assumir que sabia tanto sobre o arsenal de Saddam como eu sei de física nuclear. INDUMENTÁRIA. Título do DN: «Juiz [Rui Teixeira] foi ontem perseguido por um homem armado». Consta que o potencial agressor se chama José Manuel Fernandes. A arma: uma perigosíssima gravata de seda italiana, já com o laço feito e pronta a usar. CARTA DE EB. O Eurico de Barros, camarada de profissão e infame ocasional, escreveu-nos um e-mail: Caro Zé Mário, é verdade, nós na direita não acreditamos nesse gado informe que se chama a Humanidade, acreditamos só em certos homens. Como dizia (e muito bem) esse cínico lúcido chamado Jonathan Swift. «I like Tom, Dick and Harry. But I hate Mankind». Agora, os gestos simpáticos como os da Cristina Fernandes, não são uma questão de esquerda ou de direita, mas sim de simpatia, de cortesia, de boa educação.... que não têm partido. Ou estarei errado? E já agora, subscrevo o post da tirania do futebol nas televisões sobre o resto da informação relevante... dá vontade de ir estoirar com todos os estádios do Euro 2004! Não estás errado, Eurico. Os gestos da Cristina não têm partido nem ideologia. E talvez por isso sejam ainda mais belos. E mais raros. QUESTÕES DE IDENTIDADE. Confessa PM, o Infame: «Sempre que alguém me aborda e me pergunta "você é que é o Pedro Mexia?", eu, talvez por causa daquele "é que é", quero sempre responder como Drummond: "não sou não, desculpe, mas passam a vida a confundir-me com ele"». A réplica do poeta brasileiro é excelente, mas eu continuo a preferir a de Jorge Luis Borges. Quando lhe perguntaram, naquele típico êxtase que nasce da incredulidade, «você é que é Borges?», ele respondeu «Às vezes». ZM. Na blogosfera, ao contrário do que se passa na vida real, o meu apelido tende a desaparecer. Já não sou o José Mário Silva; sou apenas o Zé Mário (ou ZM). Ainda bem. Foi assim que todos os meus amigos, desde sempre, me trataram. 2.6.03
ERROS DE PARALAXE. Vejo na televisão francesa notícias da mobilização contra a reunião do G8 em Evian. Segundo o repórter tudo correu de forma pacífica, com uma grande manifestação que reuniu mais de cem mil pessoas. Mostrou imagens do cortejo e entrevistou líderes de sindicatos, de partidos políticos e de associações. Confrontou os protestos com as discussões dos presidentes dos países mais industrializados. Anotou, no fim, que um grupo de jovens encarapuçados partira seis, repito, seis montras numa rua (só uma) e destruíra duas estações de serviço. Viram-se os cocktails molotov, as barricadas improvisadas e os confrontos com a polícia, dando uma ideia da violência, mas também do seu carácter isolado. Depois mudei de canal, para um telejornal português. Naquele texto que passa em rodapé, a dar estilo de CNN, li que Genebra estava, naquele momento, em «estado de sítio», devastada pela violência de grupos extremistas. Depois admiramo-nos que o debate em Portugal esteja como está. LEITURAS. Chegado de fresco a Lisboa, volto ao activo do BdE depois de uma boa semana de ausência. Ao ler o que entretanto por aqui se passou, deparo com mais uns quantos posts mínimos e líricos do meu mano ZM. Eu bem sabia, não há auto-crítica que o salve. Os poetas marxistas são assim, não há volta a dar. Mas confesso que depois de percorrer as novidades da sua biblioteca fiquei bem mais descansado. No saco que ele acabara de trazer da Feira do Livro descobri, além do Hamsun que aqui referiu, e entre alguns livros sobre literatura, um volume do Michael Lowy (A teoria da revolução no jovem Marx) e uma recolha de textos de Marcuse (A grande recusa hoje). Como vêem, nem tudo está perdido. O MOTIM. Calhamaços do Lobo Antunes à porrada com romances do Saramago. Combates de vida ou morte entre os muitos volumes de Chomsky e o paquidérmico Diplomacia, de Henry Kissinger. Tentativas de suicídio por parte das obras escritas por suicidas (Sylvia Plath, Mário de Sá Carneiro, Hemingway, Virginia Woolf). Chocantes actos de canibalismo na secção de poesia (os Sonetos de Shakespeare devorados por livros medíocres de autores desconhecidos). Exemplares de literatura light desmaiando no meio da confusão. Bagunça, desordem, muito papel pelos ares. Um verdadeiro caos controlado com lança-chamas. Sim, por incrível que pareça, tudo isto aconteceu há poucos dias no armazém de uma livraria. E o Vincent, do Bicho Escala Estantes, fez da hilariante descrição deste apocalipse um dos melhores posts do mês. A FEIRA. Balanço da primeira visita: gostei de encontrar o romance Victoria, de Knut Hamsun (edição francesa em livro de bolso, texte intégral) só a um euro; não gostei do folclore (os monges budistas e a banca dos Amigos de Olivença). FINALMENTE A HISTÓRIA RUSSA. Bingo! Finalmente Pacheco Pereira recorda a sua "história russa", que já pelo menos uma vez tinha contado num artigo, não me lembro se no Público se no DN, de tal forma a história o marcou. A mim o que me marcou foi o seu artigo, como uma das peças mais reaccionárias que até hoje li, e em que mais claramente é feita a distinção entre a forma de ver o mundo da esquerda e da direita (Pacheco Pereira, por muito que isso lhe custe, encaixa-se nitidamente na segunda). Não tendo mais tempo agora para analisar com pormenor a história da portuguesa que, no meio da miséria moscovita, abre um restaurante que deseja de luxo (com certeza, para a mafia local como clientela) e que prefere contratar cubanos sem protecção social, pois reclamam menos (ora que surpresa!), gostaria de focar a atenção no extraordinário episódio do cozinheiro que não queria fazer potes de café fresco para cada cliente, certamente (era essa a sua "mentalidade") por não querer deitar café fora. Havia muitos moscovitas a passar fome que poderiam beber esse café, entre outras coisas, desde que a riqueza (neste caso, a comida) fosse mais bem distribuída. Mas isto não passa pela cabeça do Pacheco Pereira, nem pela direita que está no poder no mundo, que prefere manter os pobres na miséria, acenar-lhes com salários de fome e dizer «vêem como eles trabalham? E muito mais do que os "sindicalizados"!» A esta direita é também por isto inútil explicar uma política económica e social mais justa a nível global. Neste país onde me encontro vejo, como nunca vi, desperdício de bens (comida, energia...) em quantidades... abissais! É a isto que eles chamam um "país rico", que explora para isso petróleo no Alasca, não ratifica o Protocolo de Quioto e faz guerras no Médio Oriente. Tudo isto a eles é indiferente, e no fundo também ao Pacheco Pereira, que quer é ter um café "freshly brewed", como aqui orgulhosamente o anunciam (mesmo deitando fora um pote cheio a cada quinze minutos). Querem prova mais cabal de que estes ex-maoístas, no fundo, não estão minimamente interessados em abdicar do seu próprio conforto? (Esta é a definição última de "ser de direita".) Não tenho mesmo mais tempo agora para dedicar ao assunto. Quando passar a ostentar o título de doutor (algo que, espero, estará para breve), voltarei ao tema. Até lá, gostaria de chamar a atenção para uma notícia no Público deste fim-de-semana: Portugal já faz parte do grupo de países em que se desperdiça comida. (Filipe Moura) MAIS UM BLOG. Assina Attila, gosta das esculturas filiformes de Alberto Giacometti e da always amazing PJ Harvey. Assume-se como «"um ateu optimista" – por que não acredita em deus, mas espera estar errado – e que quer fazer uma pagina de ideias e debates rápidos, ricos em colesterol e gorduras saturadas; pois a unanimidade só se obtem na base do medo, do interesse, ou da alienação activa de quem discorda». Nós discordamos de algumas coisas (nomeadamente dos termos empregues nos curiosos exercícios de sociologia ideológica) mas estamos muito longe de nos sentirmos alienados. Aliás, a única coisa de que não gostámos mesmo foi do nome deste novíssimo blog: Filhos de Viriato (blargh). Mas enfim, nobody's perfect. Que sejas muito bem-vindo, Attila. ENOLOGIA. Ontem ao almoço bebemos um Esteva tinto (colheita de 2000) e soube-nos muito bem. Tão bem que decidi ir à procura do que sobre ele escreveu um suposto especialista, João Paulo Martins, no livro Vinhos de Portugal 2003 (Dom Quixote). E a opinião do enófilo é esta: «[o Esteva 2000] perde ao lado do 2001 porque está um pouco mais cabisbaixo, com menos fulgor mas ainda está cheio de saúde. Redondo e fácil na boca, com personalidade. Diferente do 2001, mas não pior». Confesso que fiquei perplexo com tantas contradições num mesmo parágrafo. Como é que a colheita de 2000 perde ao lado da colheita de 2001 e consegue, ao mesmo tempo, não ser pior? Mistério. E o que é isso de um vinho estar "cabisbaixo"? O autor que se levante e explique, porque eu não chego lá. Será falta de Prozac no processo de sulfatação? Não sei, nem me interessa. O que sei é que o Esteva me pareceu lúcido e até com alguns travos de euforia. Perdoe a insolência, caro JPM, mas se houve uma depressão, um período de desânimo e tristeza, foi coisa pontual. Os taninos murchos são coisa do passado. Entretanto a situação melhorou (três anos são três anos) e acho que este tinto robusto já não tem quaisquer problemas de auto-estima. Mas isto, claro, sou eu a falar. ABREVIATURAS. (Atenção, Manel, este é mais um post minúsculo e lírico). Na conta do supermercado, os iogurtes com pedaços de amora transformaram-se em "iog. ped. amor". Serei eu que vejo, de repente, poesia em tudo? Até no Pingo Doce? 1.6.03
SIC NOTÍCIAS. Quero saber o que se passou em Genebra, nas manifestações contra a reunião do G8. Mas parece que as invasões de campo, nos estádios de futebol cá do burgo, são muitíssimo mais importantes. MERCE CUNINGHAM. Acendo a RTP2 e vejo Merce. Muito velhinho, a dançar uma música vagamente techno, agarrado a uma espécie de varão com rodas. A cena tem tudo para ser patética. O corpo do coreógrafo já não é a máquina perfeita que foi em tempos. Os gestos são desconjuntados, as pernas e os braços escolhem as suas próprias trajectórias. E no entanto, há em cada um daqueles movimentos qualquer coisa que está para além das óbvias limitações anatómicas. Merce bate o pé, mexe as ancas, agita os ombros e sorri como se tivesse vinte anos. O corpo decadente não tem pudor; tem prazer. Explode de inesperada alegria. E há mais dança nisto tudo do que em 300 bailarinos de gestos milimétricos, acabados de sair de um qualquer Conservatório. |