BLOG DE ESQUERDA |
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10.5.03
À SAÍDA DO CINEMA. Os semáforos de Lisboa, nas noites de sábado, parecem-me sempre mais melancólicos. PROVA DEFINITIVA. Já ninguém duvida que o JPP do blog Abrupto é Pacheco Pereira. Mas se ainda houvesse alguma relutância em aceitar o facto, por parte de algum blogger mais desconfiado, o post de hoje esclarece a questão de vez. Ainda «no meio do bragadoccio das viagens», JPP arrasa o artigo que saiu no DN. Diz que é «apressado e ignorante», ao mesmo tempo que lamenta ter-lhe dado pretexto. «Infelizmente não vai ser único». Se isto não for o Pacheco Pereira – afirmativo, violento e superior às misérias do mundo – é porque eu sou o Marques Mendes. EXPO LEONARDO. Abriu esta semana, no Museu do Louvre, uma exposição com trabalhos de Leonardo da Vinci: 132 desenhos, três quadros, 12 manuscritos e dois álbuns de retratos. Estou particularmente interessado nos retratos que Leonardo fez para estudar a «variedade infinita das representações faciais humanas». Lá para o final de Junho, conto fazer uma visita ao meu irmão, em Paris. É óbvio que não vou perder a "expô" do mestre nem por nada. E logo partilharei convosco as minhas impressões. REVELAÇÃO. Já o dissemos aqui, mas repetimos: A memória Inventada é um dos mais estimulantes e bem escritos blogs portugueses, mesmo se quem o assina mora na outra margem do Atlântico, em Nova Iorque. Ora leiam lá, por favor, o excerto de um post colocado na última sexta-feira: Um dos momentos mais importantes nas nossas vidas ocorre quando começamos a ter a idade que os nossos pais tinham quando pela primeira vez deles nos lembramos. (...) Percebo agora que o que me seduziu nesta ideia é precisamente aquilo que ela tem de mais superficial e que a torna num “marco”: o cruzamento de dois percursos desfasados no tempo por um critério de sincronia, o que faz da data algo entre a charada e a trouvaille. Tudo isso é acessório. Se a ideia tem algum mérito, é o de simbolizar o momento em que os pais deixam de ser apenas pais e passam a ser amigos, pessoas cuja vida interior podemos imaginar, porque não deve ser muito diferente da nossa. A partir desse momento, é irresistível não fazer uma leitura nova de todas as experiências vividas com os nossos pais, o que, por definição, equivale a reler todas as memórias que deles temos. Continuo a pensar que viver esse momento é experimentar uma revelação. Pois é, Ivan. Temos sentido a tua falta. SE DIZES MAL É PORQUE DEVE SER BOM E VICE-VERSA. Na coluna «Zapping», do Expresso, supostamente de crítica (?) televisiva, Pedro D'Anunciação afirma que o interessante documentário de Edgar Pêra sobre António Pedro é «mauzito» e um exemplo de como se pode fazer do vanguardismo «uma confusão arrastada, repetitiva e maçadora». Logo a seguir, refere-se ao programa «Oriente», de Bárbara Guimarães, em que Manuel Alegre declamou poemas acompanhado ao piano por Duarte Lima, como «um momento político-cultural televisivo com um particular sabor». OK, já percebi tudo. PRÉMIO PARA SONTAG. O Prémio Príncipe das Astúrias das Letras, relativo a 2003, foi atribuído a Susan Sontag, a intelectual americana da madeixa grisalha. Achamos bem, embora tivéssemos preferido Harold Pinter. Apontamento humorístico: a notícia do Expresso dá a entender que Manuel Alegre era um dos candidatos... VIVA IL CINEMA! Eis o lema da edição deste ano do Festival de Cannes, em que se vai homenagear Federico Fellini, com a exibição integral da sua obra. Dos filmes a concurso, destacam-se algumas potenciais obras-primas: Dogville, de Lars Von Trier; The Tulse Luper Suitcases, de Peter Greenaway; Pai e Filho, de Alexander Sokurov; Mystic River, de Clint Eastwood; ou Les Egarés, de André Téchiné. Por falar em Téchiné, há nove anos tive a sorte de assistir ao Festival, na qualidade de Júri do Prix de la Jeunesse, e lembro-me bem de sair, deslumbrado, da projecção de Les Roseaux Sauvages. Em 10 dias, vimos cerca de 50 filmes, de todos os cantos do mundo. Chegámos ao fim exaustos, mas felizes. Ou não tivesse sido aquele o ano em que Pulp Fiction ganhou a Palma de Ouro. PS: Refira-se ainda a exibição na Croisette, neste mês de Maio, do "testamento" de João César Monteiro: o já muito elogiado Vai e Vem. Caro sr. Paulo Branco: para quando a prometida estreia do filme em Portugal? TEMPO. Ao falar de tempo, recordo-me uma vez mais da canção do Cazuza. Como eu gosto desta canção! (Filipe Moura) EINSTEIN. Fui ver e recomendo vivamente, a quem se encontre em Nova Iorque, a exposição sobre Einstein no Museu Americano de História Natural. Para um quase-físico-teórico, como eu, foi uma delícia ver alguns dos manuscritos originais de um dos meus ídolos (posso falar assim de Einstein). Apesar de estarem escritos em alemão, no que dizia respeito à relatividade restrita pude acompanhar a dedução de algumas das consequências mais simples (para quem já as estudou!). Ao olhar para aquelas páginas, não pude deixar de recordar o Professor que mas ensinou, o Prof. (e Padre) João Resina Rodrigues. As notas do prof. Resina pareciam o manuscrito do Einstein traduzido para português! Mais tarde, aquando da relatividade geral, pude verificar como entretanto já tinha introduzido a sua famosa notação para trabalhar com tensores. Se não fosse essa notação, as equações com que trabalho seriam muito mais "pesadas" (e algumas já ocupam uma página!), e os meus artigos e a minha tese teriam o dobro do volume. Havia modelos bem feitos que permitiam ao visitante imaginar-se a bordo de uma nave espacial com uma velocidade próxima da da luz, ou na vizinhança de um buraco negro. Lembrei-me de um simpático livrinho, «O Tempo e o Espaço do Tio Alberto», de Russel Stannard, que recebi de presente enquanto leitor fiel do «DN Jovem». Recuando mais no tempo (uma viagem imaginada, pois máquinas do tempo, não há...), lembrei-me dos meus nove anos e da fantástica série de desenhos animados «Era Uma Vez o Espaço». Tudo ali. Mas, em vez de ler ou ver televisão, foi bom experimentar, mesmo que somente simulado. Muitíssimo instrutivo, para leigos e especialistas. Paralelamente, o Einstein-homem (pai, marido...) e o Einstein-cidadão são muito bem reconstruídos. Se no primeiro caso não se pode dizer que estejamos perante uma "reputação irrepreensível", no segundo é desmontada a tese de que Einstein foi o "culpado" de Hiroshima e Nagasaki. Teve a sua responsabilidade indirecta, ao pedir a Roosevelt que desenvolvesse o que viria a ser o "Projecto Manhattan" de construção da bomba atómica – no qual não foi convidado a participar por existirem suspeitas de ser comunista –, mas se fez tal pedido foi por recear que a Alemanha nazi a desenvolvesse primeiro. E tinha indicações nesse sentido fornecidas por outros colegas seus refugiados do nazismo, como ele. Mas viria a ser frontalmente contra a utilização da bomba contra inimigos que, comprovadamente, não dispunham dela, como era o caso. Mais tarde viria a ser um dos estandartes do pacifismo, defendendo activamente a criação de um governo mundial, independente dos governos nacionais, e perante o qual estes tivessem que responder. Na exposição está patente a última carta por si escrita, uma semana antes de morrer, a Bertrand Russell, aprovando o texto do que viria a ficar conhecido como o "Manifesto Russel-Einstein" contra a proliferação de armas nucleares. A exposição não termina sem referência aos seus problemas com o McCarthismo – não houve coragem por parte da Comissão de o intimar a depor, mas o seu ficheiro no FBI tinha mais de 1400 páginas – e a Israel. Einstein foi um firme defensor da criação deste estado mas, tendo sido convidado para ser o seu presidente, recusou, argumentando que «nessa função, teria de dizer aos israelitas algumas coisas que eles não gostariam de ouvir». Pois... O melhor é não dizer mais nada, porque o post já vai longo. Uma excelente exposição sobre um grande homem. (Filipe Moura) LABIRINTOS. Aconselhado pela Janela Indiscreta, aguardei com expectativa um documentário sobre labirintos, no canal História. Como sabem os meus amigos mais próximos, este é um tema que me fascina. Aliás, alimento secretamente o projecto de escrever um dia, se para tanto sobrarem tempo e aptidão, um rigoroso tratado de labirintologia. Acontece que os labirintos mais interessantes, para mim, não são os de pedra ou de buxo. São os que nascem na cabeça dos escritores. Ou dos pintores. Ou dos arquitectos "virtuais" (como Piranesi). Os labirintos abstractos. Os labirintos enquanto cosa mentale. No documentário, infelizmente, encontrei apenas o óbvio: Chartres, Creta, jardins românticos de um lorde inglês e palácios subterrâneos no Baixo Egipto. OK, tudo bem, eu compreendo que é preciso dar o enquadramento histórico. O que já não consigo compreender é a lógica global do programa, a sua estrutura tão linear (nada labiríntica) e o facto de se resumir à análise simplista das vertentes lúdicas, espirituais e arqueológicas do tema. Dito de outro modo, eu nunca poderia gostar – como não gostei – de um trabalho sobre labirintos que desperdiça infindáveis minutos com imagens de um jogo de computador (Lara Croft), mas não faz uma única menção a Jorge Luis Borges. GRANDE JÚRI. Na entrevista à TSF, Mário Soares mostrou que ainda está muito longe de se reformar politicamente. Fez gato sapato de António Guterres (só faltou chamar-lhe incompetente e cobarde), armadilhou o caminho dos eventuais candidatos socialistas à Presidência e disse que só põe de parte uma recandidatura ao Parlamento Europeu. Quer isto dizer que Belém não é, para já, um objectivo assumido, mas também não é uma impossibilidade. Pelo meio, aproveitou ainda para desferir mais uma machadada em Paulo Portas, ao recuperar as frases de campanha do agora ministro da Defesa. O que Portas dizia, na altura, era que a candidatura de Soares a Estrasburgo era um logro, essencialmente porque o patriarca socialista nunca terminaria o mandato. A prática, porém, desmentiu essas palavras: Soares vai continuar no Parlamento Europeu até ao fim, Paulo Portas é que não. Hábil na retórica política e revelando uma energia que desmente os "problemas" com a idade, o ex-presidente não pode ser considerado uma carta fora do baralho. Resta saber como reagirá o PS (sobretudo o "aparelho") a este mediático regresso às questões internas por parte da figura tutelar do partido. 9.5.03
A CADMANIA. Confesso que fiquei surpreendido. Nunca pensei que as citações do Prof. Carlos Amaral Dias (CAD para os amigos) pudessem provocar tamanho impacto junto dos nossos leitores. Aliás, não me lembro de um fenómeno assim desde o culto que se criou em torno do ministro Al-Sahaf. Vai daí, tive uma ideia: e se nós, aqui no Blog de Esquerda, vendêssemos umas t-shirts (quem diz t-shirts, diz bonés, canecas, porta-chaves – o merchandising todo) com a fotografia do CAD e algumas das suas melhores pérolas? Sempre era uma forma de rentabilizar as centenas de horas que dedicamos a esta causa, sem apoios nenhuns (nem sequer um mísero subsídio do Estado)... PS: Para os viciados em citações de CAD, deixo só um aviso. Acabo de receber o livro Modelos de Interpretação em Psicanálise, escrito pelo Prof. e publicado pela Almedina. Quando estiverem a ressacar, avisem. Este "material" é ainda melhor: mais concentrado, mais puro, uma maravilha. FOI VOCÊ QUE PEDIU UM CARLOS AMARAL DIAS? (5) E pronto, amigos, chegamos agora ao fim do prefácio de Carlos Amaral Dias ao livro de crónicas de Clara Pinto Correia (Oficina do Livro). Foi bom mas acabou-se, até porque o genial texto só ocupa duas páginas e meia. Eis o último "naco de prosa". Aproveitem-no bem: Sabe-se, ainda, que os que usam a personalidade como máscara e a máscara como atributo da personalidade se auto-condenam à observância pública da perscrutação mais ou menos paranóide do sujeito mascarado. Mas essa é também a condição de um tempo, bem como o tempo e o modo nacionais. Em todo o caso, o leitor que esteja disposto ora a rir-se, ora a indignar-se, ora ainda a pensar as questões que Clara Pinto Correia põe neste livro, não se arrependerá. "Quem estiver disposto a rir-se ou a indignar-se não se arrependerá" – eis um belo remate. Até porque, pelas razões conhecidas, há muita gente disposta a rir-se da Clara, a indignar-se com a Clara. Do alto da sua imaculada sabedoria, o Prof. CAD não tem pejo de o assumir. E isso é bonito. Do que nós precisamos, em Portugal, é de prefaciadores assim: frontais e sinceros. Dos lambe-botistas já andamos todos fartos. Não acham? VERSOS QUE NOS SALVAM. Paul Auster não é apenas um dos melhores romancistas americanos dos nossos dias. É também poeta e ensaísta (leia-se, por exemplo, o brilhante Ground Work). Agora, a Quasi publicou, em edição bilingue (para nossa alegria), os Selected Poems de Auster. São poemas muito complexos, densos, por vezes opacos, dificílimos de traduzir. Rui Lage, poeta encarregado da espinhosa tarefa, saiu-se bem. E nós, dos Poemas Escolhidos, escolhemos este: FALA DO FOGO Deflagras. Implodes. Permaneces. Embalada pelo gongo das horas que soou, mais silenciosamente do que tu, através dos doze sagrados tempos, alguma coisa por alguém liberta, resgata o teu nome do carvão. Permaneces aí de novo, a respirar no sol fantasmal por entre gelo e devaneio. Vim de tão longe por ti, a voz que o eco me devolve já não é a minha voz. ENTREGA AO DOMICÍLIO. Ontem aconteceu uma coisa muito estranha. Estava eu em casa, a actualizar este blog, quando alguém tocou à campainha. Percebi logo que não era: 1) o carteiro; 2) um daqueles rapazes esgrouviados que atira panfletos da Telepizza para as escadas do prédio e se põe a milhas na sua motoreta; 3) a vizinha idosa que se esquece das chaves no Minipreço ou na retrosaria. O toque era menos frenético do que é costume e não transmitia mensagens subliminares do tipo: «sou eu, o carteiro, claro que sou eu, quem é que havia de ser a esta hora?»; ou «fosgasse, man, abre lá a merda da porta, man, tenho que bazar para ir ver a minha chavala, man»; ou «e agora, onde é que terei deixado as chaves, na retrosaria ou no Minipreço?, eu lembro-me de as ter pousado ao pé das embalagens de Sonasol, ai a minha cabeça, valha-me Deus, isto é uma desgraça, e os meus óculos, onde é que pus os óculos?» Portanto, fui abrir. E quem estava ali, na soleira da porta, cheio de pressa e simpatia? O Luís Rainha, um rapaz que costuma comentar alguns dos posts deste blog e que eu nunca tinha visto mais gordo (nem mais magro, diga-se em abono da verdade). O Luís Rainha estava ali, na soleira da porta, tão cheio de pressa que nem sequer o convidei para entrar. E trazia um livro na mão. Um volume preto e esguio, com uma caveira desenhada na capa. Era para mim, o livro. Era isso que ele estava ali a fazer, na soleira da porta. Entregar-me o livro dele, as suas «Últimas Palavras» (embora o suposto autor da ficção seja um misterioso Javier Ortega). Eu fiquei desorientado e acho que nem agradeci a dádiva como devia. Para me redimir, Luís, prometo que vou ler este livrinho apetecível o mais depressa que puder (isto é, no intervalo das minhas leituras obrigatórias) e depois direi de minha justiça por aqui. Muito obrigado. PS: Caramba, não é todos os dias que um escritor nos entrega a sua obra ao domicílio. Saramago, Lobo Antunes, Agustina: aprendam. PS2: Como é que ele descobriu a minha morada? PROSA CHOQUE. Quem se indignou com o estilo X-rated do blog A Cagada, deve manter uma distância segura em relação ao novíssimo O Meu Pipi. Aquilo é material hard core, sem tento na língua, uma coisa a merecer várias bolinhas no canto superior direito do ecrã. Para quem goste do género, está lá tudo – menos fotografias (por enquanto). E se já tínhamos um parlamento, centros culturais e imprensa alternativa na blogosfera nacional, agora passámos a ter uma zona red light. Ou de como um blog pode ser a continuação do Olímpia por outros meios. O PODER DA PALAVRA (2). Mais documentados, podemos então passar ao inquérito. E vale a pena citar integralmente, ou quase, a maior parte das respostas. Sobre o "último livro que leu": "Constantemente leio vários livros porque procuro as palavras [os livros são um bom sítio para dar início às buscas], já que gosto de palavrar, isto é, de brincar com as palavras dos autores na verdadeira acepção da palavra [qual palavra?], sempre que possível portugueses [quem?]. A minha pátria também é a língua portuguesa [i.e., andei na escola com o Pessoa] e o último livro que tive o prazer de ler foi o "Coração do Dia" de Eugénio de Andrade, que é um poeta beirão, tal como eu." [i.e., além de beirão, sou poeta como o Eugénio] Sobre "o último que abandonou a meio", tece considerações sobre "todos aqueles que falam sem conhecer convenientemente um trabalho literário ou artístico... [começa a pontuação expressiva] talvez sejam frustrados do quotidiano atribulado e sem rumo que encontram nas suas vidas, ou não." [não são frustrados? não encontram nas suas vidas? e encontram (ou não) o quê, o quotidiano ou o rumo?] Sobre o último livro que ofereceu: "foi O Novo Testamento e continuarei a oferecer a muitos governantes e políticos deste país, no sentido de aprenderem o que é o bem e a lutarem contra a inveja, a maldade, a hipocrisia, e a deixarem de serem fariseus. Estou... a brincar... o livro que dei mesmo foi 'Os Contos', de Guerra Junqueiro." [mais reticências, e um chiste que deixa de rastos qualquer gato fedorento ou marreta que por aí ande] Sobre "como é que arruma os seus livros", ficamos a saber que eles ficam "Na minha cabeça, onde guardo as memórias afectivas dos livros que li. Em termos físicos [i.e., fora da cabeça], tenho por hábito arrumar os livros nas estantes que mandei construir na minha casa de aldeia na Beira Baixa. [tem o mesmo marceneiro que o Eugénio, mas ninguém lhe explicou que a pergunta não era "onde" e sim "como"] Tenho centenas de livros [Clara Ferreira Alves, rói-te de inveja] de várias temáticas e estéticas, completamente diferentes [os livros, as temáticas ou as estéticas?]. Livros desarrumados só nos bancos do carro." [são às centenas, espalhados pelos dois Nissans (um deles na Beira Baixa)] Sobre os locais de leitura, ficamos a saber que "já cheguei a ler em sítios inimagináveis" [não quero saber, e já me arrependi de ter lido o post do Miguel Góis] Sobre os livros a traduzir para português, aprendemos que "Enquanto existirem livros de qualidade, feitos com amor e verdade (sem outros interesses...) não vejo necessidade de ver traduzida alguma obra para a língua de Luís Vaz de Camões..." [Heil Hitler?] Quanto aos sublinhados, uma verdadeira maravilha de ritmo e expressão: "Escrevo! Risco... marco pausas, entoações, ritmos, nuances na voz, enfim, estão cheios de tinta. Normalmente uso marcadores do meu espectáculo Um Poder Chamado Palavra [creepy], para me recordar que sou, enquanto actor, um táxi de palavras [um Nissan que palavreia], fazendo em cada sessão um autêntico momento de strip-tease literário." [comentários para quê?] E cá está o grand finale, o "livro da vida": "Da minha vida... [pausa, mão no queixo, olhar perscrutante na direcção do horizonte] apenas posso dizer que daria um livro. Nasci quase a morrer [oxímoro de bonito recorte], saí do hospital após o meu nascimento [atenção: não antes] e tive um acidente [malditos Nissans]. Andei num lameiro, em pleno Inverno [atenção à precocidade, logo a seguir ao parto], tive [sic] no seminário a estudar para padre, caí de um palco para dentro de um fosso de orquestra nos Açores [uma queda e tanto: o palco era na Beira Baixa], tendo partido uma perna, cheguei a estar em coma em África onde fui dizer poesia [tough crowd] e tenho encontrado ao longo da vida pessoas e gentes simples, fantásticas, fascinantes [forte, fiel, façanhudo] que me fazem acreditar que o mais belo do ser humano é nunca saber nada, vivendo na busca constante da aprendizagem. Apesar de tudo, penso que tenho um poder chamado 'palavra' [que a força esteja contigo]. E sou feliz." [lágrimas, aplausos, bravos, vivas, vénias, lágrimas, aplausos, bravos, vivas, vénias, chega que tenho o Nissan mal estacionado] [Penitencio-me pelos parênteses rectos, sei que não podem deixar de estar a mais. O próximo «Um Poder, Chamado Palavra» é no dia 19 de Maio, às 22h, no Auditório da Biblioteca-Museu República e Resistência] (Francisco Frazão) O PODER DA PALAVRA (1). Havia há uns tempos um post no Gato Fedorento sobre o "voyeurismo literário" que se esconde atrás dos inquéritos sobre livros. Ao ler, por exemplo, o questionário do Mil-Folhas, reparo como é verdade que, como por magia, as conotações eróticas das perguntas se tornam desde logo evidentes, desde o indiscreto "Qual foi o último livro que leu?" (subentende-se: há quanto tempo) ao orgiástico "Lê vários ao mesmo tempo?", passando pelo disfuncional "Qual foi o último que abandonou a meio?". Tendo perdido a inocência, não foi com o estado de espírito mais adequado que fui reler as autênticas pérolas que nos deu Nuno Miguel Henriques nas suas respostas de há duas semanas. O senhor tem um site e é aparentemente o director deste Instituto das Artes do Espectáculo (já terão pensado nele para o futuro e fundido IAC/IPAE?). O IAE também é conhecido por Pátio das Ideias, o que desvenda logo a matriz saudosa da comédia à portuguesa. Leio no cv do director que é "Actor, Encenador, Produtor e Professor especialista em Técnica Vocal/Falar em Público" [atenção às maiúsculas]. E que "actualmente podemos vê-lo no Teatro no espectáculo UM PODER, CHAMADO PALAVRA [atenção à vírgula], além de estar na televisão em diversos anúncios publicitários, enquanto actor". Podemos mais abaixo saber que "protagonizou anúncios como Nissan (2); Caixa Geral de Depósitos; Frutis - 100% Laranja; Vodafone Negócios" [subentende-se "enquanto actor", quer dizer, ele não era nem o carro (das duas vezes), nem o banco, nem o sumo, nem o telemóvel]. Além disso, "tem igualmente um trabalho impar [sic], como Docente de Técnica Vocal /Apresentação em Público, tendo frequentado as suas aulas, centenas de quadros de empresas públicas e privadas, além de diversas personalidades da política, comunicação social, negócios, ensino e sociedade" [atenção às maiúsculas e às vírgulas]. (Francisco Frazão) BLOGOSPHERE MEETS THE PRESS. Hoje, o suplemento Y falou dos blogs portugueses, num apontamento da Joana Gorjão Henriques que destaca a Janela Indiscreta, a Coluna Infame e este vosso humilde cantinho (obrigado, Joana). Amanhã, como já avancei, sairá uma notícia no DN. Estará a blogosfera a entrar na sua fase mediática? Ó DA GUARDA. Não sei quem é que teve a ideia peregrina de enviar 120 soldados da GNR para o Iraque, mas foi um rasgo de génio. No fim de contas, para o bem ou para o mal, os iraquianos já estão habituados a obedecer à Guarda Republicana... FOI VOCÊ QUE PEDIU UM CARLOS AMARAL DIAS? (4) No fim do séc. XIX, criou-se nalguns jornais portugueses a tradição dos folhetins, aquelas histórias intermináveis (precursoras das telenovelas) que os leitores iam descobrindo, aos poucos, semana a semana. Agora, na era da internet, dos blogs e da velocidade supersónica, os folhetins só poderiam fazer algum sentido se fossem actualizados várias vezes por dia. É por isso que nós avançamos já para o quarto e penúltimo episódio dessa odisseia comovente que dá pelo nome de Foi Você que Pediu um Carlos Amaral Dias? Meus amigos, aproveitem bem que isto está quase a acabar. And the story goes like this: (...) o maior erro de Clara Pinto Correia (...) é, sem dúvida, o que provém da autora se permitir ter uma personalidade. Por outras palavras, o que resulta da natural exibição inerente a ser pessoa. Ou seja, não se eximir a retratar o seu tempo pelo jogo de ser ela própria o seu tempo. E, por isso, em cada texto máscara. O que nos remete à questão paradoxal da relação inelutável entre personalidade e máscara, que no étimo grego reenvia ao mesmo. Deliciem-se, caros leitores. Lá mais para o fim da noite, prometo um final condigno para a saga, em que perpassa – garanto-vos – a palavra paranóide. Sim, leram bem: paranóide. INSIDE INFORMATION. Amanhã, na secção de Media do DN, será publicada uma notícia sobre a blogosfera portuguesa, com o pretexto da entrada em cena de Pacheco Pereira. Estejam atentos. SOUNDBYTE. Na crónica de hoje do Vasco Pulido Valente, só concordo com as últimas três frases. E com a primeira: «A guerra do Iraque foi de uma enorme insensatez». Lapidar, caro VPV. NOTÍCIAS DA TV (3). Ouvi dizer que há um rapaz, a atirar para o grunho, que apresenta a Operação Triunfo e se chama Daniel Oliveira. Queremos informar os nossos leitores de que não se trata, como é evidente, do "nosso" Daniel Oliveira. NOTÍCIAS DA TV (2). Atenção, cinéfilos: logo à noite (23h45), o Canal 1 transmite O Quarto do Filho, belíssimo filme de Nanni Moretti. Ó RTP, estás a ver como afinal até sabes o que é serviço público? NOTÍCIAS DA TV (1). No televisor do restaurante, sempre aos berros, leio em letras gordas o tema do programa Às Duas por Três: «Não morra pela boca!». Não percebi bem quais eram os peixes convidados. FOI VOCÊ QUE PEDIU UM CARLOS AMARAL DIAS? (3) Continuamos com a saga do prefácio mais popular da blogosfera. Desta vez é só um parágrafo pequenino, um breve apontamento onde perpassa – do verbo perpassar, eixo e âmago identitário do pensamento amaraldiasiano – algo de impalpável. Talvez uma polissémica forma de melancolia. Polissémica e heteróloga, claro. Além de pensativante. Cá vai: A malfadada solidão que fica quando a pena risca ou sublinha o incómodo, enfatizando o não-dito, abre obrigatoriamente o senso comum à sua não consensualidade, deixando, provavelmente, mais só quem escreve e mais inquieto quem lê. Tem toda a razão, sr. Professor: depois de o ler fico realmente inquieto. Sobretudo porque penso nos seus pacientes. MEMÓRIAS DO OLÍMPIA. Não sou o primeiro, mas sou provavelmente o mais comovido. O Olímpia fechou. E as minhas memórias saltaram para a adolescência, no tempo em que a Internet e o vídeo eram ainda promessas distantes. A minha mais forte aventura intelectual. Obras-primas como «Línguas Ágeis» ou «Brincadeiras na Recruta» marcaram-me para a vida. Aí descobri que, na arte, nada acaba, tudo regressa ao princípio, em sessões contínuas. Descobri as dobragens criativas. A desconstrução do cinema como uma simples narrativa, certinha, que nos conta uma história. Uma nova visão sobre o papel do actor – como esquecer vultos como os de John Holmes? Novos planos, perspectivas. O Olímpia morreu. No seu lugar nascerá uma pornografia mais light, mainstream. A de Filipe La Féria. Com a morte do Olímpia morre um pouco de mim. Morre um pouco do cinema. (Daniel Oliveira) SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA. Tudo começou na área de comentários do melhor blog cultural cá do burgo: a Janela Indiscreta. Alguém pediu sugestões para a banda sonora de um dia de primavera e as pessoas foram deixando ideias, títulos de canções, nomes de músicos. Eu também participei, com todo o gosto (sugeri o primeiro movimento da Kreisleriana, do Schumann). Mas juro que não esperava isto: receber em casa, poucas semanas depois, um disco com a compilação toda bem feitinha e alinhada. Produzido artesanalmente pela novíssima "etiqueta" Edições Indiscretas, o CD é um mimo, da capa luminosa da Cristina Fernandes ao grafismo discreto e lettering "à maneira". Espreitem pela Janela para confirmar o que digo. E já agora leiam o que o produtor executivo desta obra, António Rebelo, tem a dizer sobre cada um dos temas. Pela minha parte, digo-vos que já ouvi o disquinho uma dúzia de vezes e estou viciado. As minha faixas preferidas são a 3 (Mini Skirt, do Kronos Quartet), a 6 (She's a Rainbow, dos Rolling Stones), a 7 (Le Soir du Grand Soir, Pascal Comelade), a 11 (Poison in the Walls, dos Go Betweens), a 14 (Ouro de Tolos, do divertidíssimo Raul Seixas), a 17 (Funny Time of Year, da arrepiante Beth Gibbons) e a 19 (do "meu" Schumann). Ah, sem esquecer os Sons de Belgais, claro. António e Cristina: parabéns e muito obrigado. 8.5.03
MUNDO LABORAL. Vale a pena passar algum tempo a ver o site do sindicato Communication Workers of America e comparar com os exemplos portugueses, agora que tanto se fala das leis laborais. Este sindicato tem parcerias com empresas do sector! Como poderá defender os trabalhadores destas empresas? Por outro lado, ao ler-se o discurso completo de Bill Clinton (vale a pena), verifica-se o que já se sabe: quão atrasada está a América relativamente à protecção social. E no entanto há um desejo de a tornar mais parecida com a europeia. Este desejo pode não ser expresso eleitoralmente pela maioria do povo. No entanto, como sintetiza Clinton numa frase notável, «there's no question now that the majority of the people agree with us on most issues if they really understand what the deal is here». No caso português, permitam-me recomendar aos partidos de esquerda que sigam os conselhos de Clinton... (Filipe Moura) O QUE EU GOSTAVA DE VESTIR UM FATO RIDÍCULO E PÔR NA CABEÇA UM CAPACETE DE METAL COM PENACHO. Estou muito triste. Acabo de renunciar ao meu grande sonho de infância: fazer parte da Guarda Suíça, aquela janota unidade militar que protege o Vaticano. Pelo que soube, é mesmo muito difícil ser escolhido. Além do bom porte, aos elementos da Guarda exige-se que sejam originários da Confederação Helvética, que estejam na faixa etária dos 19 aos 30 anos, que tenham pelo menos 1,74m, que revelem pelo ideário católico um fervor sem constrangimentos e que mantenham, em todos os aspectos da sua vida, uma "reputação irrepreensível". Pois é. Acho que a "reputação irrepreensível", sem o resto, não me vai servir de nada. COLUNA MOLE. A Coluna Infame murchou depois da chegada do Abrupto, ou é só impressão minha? Será que os rapazes ficaram desmoralizados com a força (por enquanto meramente potencial) da nova concorrência? NOTÍCIA DO DIA. «Suécia é o melhor país para uma mulher ser mãe», diz o Público. E para um homem ser pai e um filho ser filho, acrescentamos nós. FOI VOCÊ QUE PEDIU UM CARLOS AMARAL DIAS? (2) Nunca imaginei que os excertos do fabuloso Prof. Carlos Amaral Dias (CAD para os amigos) despertassem um tão grande entusiasmo na nossa comunidade de leitores. Mas as coisas são o que são e temos que dar ao povo o que o povo quer. Sendo assim, prometo solenemente publicar neste Blog, em pequenas doses homeopáticas, o resto do prefácio ao livro de Clara Pinto Correia. O texto não é, infelizmente, muito extenso, pelo que vamos racioná-lo. É como nas sessões em que se provam vinhos: agita-se uma quantidade ínfima dentro de um copo, sacoleja-se vigorosamente dentro da boca, degusta-se, saboreia-se e no fim cospe-se. Mas vamos ao que interessa: Este livro de Clara Pinto Correia retrata, possivelmente, a condenação crítica a que o cosmopolitismo contemporâneo se (obrigatoriamente) auto-propõe. (...) Torna-se assim tão insuportável o politicamente correcto de algum discurso norte-americano, como a forma pela qual abandalhamos o nosso património arquitectónico-ambiental. Tornam-se também assim tão intoleráveis ao quotidiano os brinquedos que impingem aos nossos filhos nos EUA, os filmes cognitivamente toscos que lhes normatizam o imaginário, como os besuntos de cimento armado que se fazem, lá onde se catrapiscou uma lontra sob a luz indízivel da juventude. «Besuntos de cimento armado»? «Lá onde se catrapiscou uma lontra sob a luz indízivel da juventude»? Este homem é um poeta. A NOSSA GENTE NO IRAQUE. Os leitores de jornais que não deixam escapar nada aperceberam-se, certamente, do notável trabalho de Alexandra Lucas Coelho no Curdistão turco, logo no dealbar da guerra. Agora a jornalista está no Iraque, a fazer para o Público um retrato do país pós-Saddam. São, garanto-vos, as melhores reportagens que se podem ler, por estes dias, na imprensa portuguesa. Por exemplo, a que foi publicada hoje, sobre um mosteiro onde só vivem dois monges (um deles cego) e alguns guardas que criam abelhas, é magnífica. AH QUE SAUDADES. Excerto do discurso de Bill Clinton na conferência do sindicato Communication Workers of America no passado mês de Abril: «Concentration in the media, something that will dramatically affect what the American people know and their ability to make good decisions. Was that a big issue in the last election? No. But it's a big issue about how we're going to live in the future. The assault on overtime pay, was that in the last election? No. With us winning by 500,000 votes, you could never make the case that the American people voted for an assault on the environment, voted for an assault on the labor movement, voted to get rid of the surplus and replace it with a massive deficit. You can't make a case that they voted for this. Now, here's what I want to say to you: These guys usually win. They've got more money than we do. They've got more access to the media than we do. And the media, which was never as liberal as they said, has moved way to the right in the last decade. You know that, right? So they usually win. So you've got two choices. You can sit around and bellyache about them beating us, or you can figure out how to win. Because there's no question now that the majority of the people agree with us on most issues if they really understand what the deal is here. So you have to think of yourself as trying to communicate through the fog and the smoke and the static. It's like you're trying to repair the telephones and the radios and the televisions of America so they can hear again. And that's the way you should look at this.» Diz Clinton, e eu repito: «the media, which was never as liberal as they said, has moved way to the right in the last decade.» Pense-se em António Ribeiro Ferreira, tão antiamericano que era (às vezes até parecia de esquerda...) com Clinton no poder, e olhe-se para ele agora. O mesmo se pode dizer do próprio Pacheco Pereira, acerca do posicionamento relativamente aos EUA (releiam as crónicas destes senhores acerca do bombardeamento da Jugoslávia). Meus caros, «the evidence is in our side». (Filipe Moura) A CASSETE. Foi descoberto mais um suposto registo áudio da voz de Saddam Hussein, até agora a única eventual prova de que o ex-ditador poderá estar vivo. O problema das ideologias autoritárias é precisamente este: quando os muros caem, só sobrevive a cassete. INTERMEZZO ASTRONÓMICO. Anda para aí muita gente entusiasmada com a "passagem" do planeta Mercúrio em frente ao Sol. Não percebo porquê. A relação entre os dois é uma coisa antiga. Lembrem-se dos termómetros. FOI VOCÊ QUE PEDIU UM CARLOS AMARAL DIAS? Em resposta às múltiplas solicitações dos nossos fidelíssimos leitores, voltamos a um texto de culto: o prefácio do prof. Carlos Amaral Dias para o livro O Melhor dos Meus Erros, de Clara Pinto Correia. Nesta altura, aliás, parece-me que já ninguém põe em causa que o "melhor erro" da bióloga foi justamente o convite ao mediático psiquiatra. Então tomem lá: (...) a heteronimia emocional e identitária da autora permite-se à polissemia da escrita onde perpassa, por isso, a mulher, a universitária, a cidadã, a escritora, a mãe. Curioso "pot pourri", ainda por cima feito como Atlântico entre dois continentes, ou seja, entre a América e a ponta ocidental da Europa. Por isso mesmo, atravessado por um português de uma portuguesa, algumas vezes emigrada, outras emigrada no seu próprio país, outras vezes ainda transmigrando a sua subjectividade sobre pequenos/grandes acontecimentos que vão de Entre-os-Rios a entre as falas e as suas disjunções. Espero que tenham gostado. Se quiserem mais, é só pedir. UMA COISA OBSCENA. Acabou-se a pornografia no Olímpia, esse mítico cinema de Lisboa. Parece que o Filipe La Féria vai tomar conta da sala, tipo franchising do Politeama. Já estou mesmo a ver: lantejoulas em vez de mamas, Rita Ribeiro em vez de Linda Lovelace. Enfim, um triste destino. Com o Condes transformado em Hard Rock Café, o Eden convertido em Loja do Cidadão e agora o "templo do porno" condenado a sessões contínuas do espectáculo Amália, aquela zona de Lisboa não mais terá o carisma de outros tempos. DA BONDADE DA IMPRENSA. Escreve-nos o Jorge Candeias, blogger novato, a propósito das manipulações mais ou menos escandalosas da comunicação social: Há sincronicidades engraçadas. Dizem vocês que o JPP falou mal da imprensa, hoje, no blog dele. Acredito. Não sei, porque me recuso a ler prosa JPPiana (a completa ausência de um mínimo de honestidade intelectual irrita-me), mas acredito. Curiosamente, eu hoje também falo mal da imprensa no meu blog. É que ao surfar um bocadinho pela blogosfera (sou novo nisto, e ando a ver o que há), acabei por ir dar a uma página de um site inglês (suponho) que desmascara uma fraude grosseira numa fotografia de primeira página sobre o acolhimento prestado aos "libertadores" de Bagdad. Ou seja, falar mal da imprensa não é um anti-truísmo. Não é por falar mal da imprensa que o JPP é o que é. Ele é o que é por dizer acerca da imprensa coisas que não lembram ao diabinho mais infernoso. É que eu, que já trabalhei como jornalista durante dois anos, sou extremamente céptico acerca da bondade da imprensa, nossa ou alheia. Um jornal é um negócio, uma máquina de fazer dinheiro. E publica (ou ignora) o que for preciso para fazer dinheiro. Mesmo os "jornais de referência". Nada mais, nada menos... Caro Jorge: não julgues que temos quaisquer ilusões a esse respeito... POBRE FELISBELA. A menina que foi atingida na cabeça por uma bala, há três semanas, voltou hoje para casa. As televisões vampíricas, filmaram tudo. Acabo de ver na SIC uma entrevista com a Felisbela no seu quarto redecorado (houve quem lhe oferecesse uma cama nova, uma televisão, não sei quantos peluches). O repórter fez perguntas ridículas, com voz de bebé. As vizinhas choraram e agradeceram a caridade alheia. O pai repetiu que este é o dia mais feliz da sua vida, o dia em que a sua filha «renasceu». A câmara percorreu a casa de uma ponta à outra: pequena, fria, pobre. E em tudo isto, no que se viu e na forma como nos deram a ver, uma miséria tão portuguesa. PROPOSTAS DESONESTAS. O mercado pornográfico italiano continua a oferecer-nos, não sei porquê, todo o tipo de serviços. Depois da célebre Arianna, chega-se à frente Alexia, uma loira espampanante com quem podemos comunicar através de um videochat pessoal, todos os dias, entre as 13h00 e a uma da manhã. Está bem, está. Como se tivéssemos tempo para coisas dessas... Ainda não perceberam que somos bloggers? OS ITÁLICOS. A expressão foi inventada pela Sara Figueiredo Costa. «Nós somos os itálicos, aqueles que "aparecem" no Blog de Esquerda no intervalo dos irmãos Silva». É verdade. Para distinguir melhor os nossos textos (os meus e os do Manel) dos enviados pelos colaboradores, decidimos criar uma forma de diferenciação visual automática. O objectivo não foi, como é óbvio, criar qualquer tipo de apartheid. Muito pelo contrário. Se os textos "externos" aparecem a itálico, é para que sobressaiam do imenso fluxo de textos "cá da casa". Quem não gostar de nós, pode encontrar mais facilmente as prosas do Daniel Oliveira, os «Grau Zero» da Sandra Augusto França, os desabafos do Filipe Moura, as reflexões da Sara ou as críticas literárias do Fernando Venâncio. Neste caso, o itálico não é menos, é mais. E já agora, o itálico também não é exclusivo destes nossos amigos. Ele está à espera de todo e qualquer leitor que nos envie as suas opiniões, desde que razoavelmente articuladas e num português escorreito. O endereço de e-mail não podia ser mais simples: blog_de_esquerda@hotmail.com. De que é que estão à espera? TEMAS RECORRENTES. As revistas de grande informação (Visão, Veja, etc) trazem todas, na capa, fotografias de rostos com a máscara da pneumonia atípica. As revistas de televisão (TVGuia, TV-Sete Dias, etc) trazem todas, na capa, fotografias de Carlos Cruz e títulos bombásticos em sua defesa. Deve ser a isto que se chama sintonia editorial. NOTÍCIAS DA AUTARCA EM FUGA. Nos círculos da PJ, a senhora dos sacos azuis mudou de nome. Já não é Fátima Felgueiras. É «Ai Fátima que te esgueiras». UMA VERDADE ABRUPTA. Já não restam dúvidas, meus amigos: o JPP é mesmo o José Pacheco Pereira. E nem sequer foi preciso recorrer ao ficheiro de audioblog. Bastou que ele publicasse, ontem à noite, um parágrafo da sua crónica de hoje, no Público. Como é óbvio, mal o dia nasceu (traduzindo: pelas 11h30), fomos a correr para a banca dos jornais, com a ânsia que normalmente antecede as grandes revelações. E lá estava, preto no branco, o parágrafo sobre Ataturk e o Estado laico. Igualzinho ao que lêramos na véspera, como igual ao D. Quixote de Cervantes era o D. Quixote de Pierre Menard. E assim enterrámos, sob o mármore da evidência, o pérfido cadáver da dúvida. Como diziam os antigos, quod erat demonstrandum. Qualquer cidadão civilizado arrumaria o assunto com a lapidar frase latina. Mas como temos consciência de que somos lidos por muitos esquerdistas tortuosos e alguns adeptos das teorias da conspiração, vamos extirpar, de uma vez por todas, o que possa haver de remanescente shadow of a doubt. Caros amigos, mesmo se o misterioso JPP tivesse conseguido infiltrar-se na redacção do Público, ou subornado um paginador do jornal (a precisar de dinheiro para as férias no Algarve), de forma a transcrever o famoso parágrado ataturquiano, a hipótese de um rebuscado complot cai por terra com os posts publicados durante o dia de hoje. Senão vejamos: começa com um ataque à comunicação social (toda a gente sabe que os ataques à comunicação social são a marca de água de Pacheco Pereira), prossegue com a aplicação do adjectivo estéril ao «pensamento da nossa esquerda» (confere) e termina com um elogio à BBC Learning, acompanhado pela transcrição de um poema de William Blake (o mais célebre de todos, sobre o tigre que arde na floresta da noite). Por fim, last but not least, a estocada fatal: «Vai haver agora um pequeno provável silêncio, não sei se um dia ou dois, dada a natureza da vida de judeu errante do autor. Mas se conseguir entre aviões, comboios, carros, vaporettos, e outros meios de mobilidade terrestre, aéria e aquática, escrever alguma coisa virá para o Abrupto». Repita-se o latim: quod erat demonstrandum. E agora, resolvido o enigma, é preciso cumprir o prometido. O Blog de Esquerda dá as boas-vindas a Pacheco Pereira, o mais recente (e talvez o mais ilustre) habitante da blogosfera nacional. Havemos de polemizar bastante, espero eu, com cordialidade, respeito mútuo e elevação intelectual. Da nossa parte, pode esperar uma leitura atentíssima de toda e qualquer palavra escrita no Abrupto. E não, nunca insinuaremos que o seu blog é o blog oficial do PSD. PRÉMIO TATUAGEM FARFALHUDA DO MÊS (E TALVEZ DO ANO). O nosso prémio do mau gosto vai direitinho para o Prof. Carlos Amaral Dias, inspirado autor da introdução ao livro «O Melhor dos Meus Erros» (Oficina do Livro), de Clara Pinto Correia. Deixo apenas dois excertos, cada um mais genial do que o outro: Escrito no registo de um gozo perpassado pelo dia-a-dia, nele se encontra, tal como no cordame da Armada Britânica, o fio vermelho de uma identidade, de uma perplexidade que se inicia e acaba na própria autora. É desse fio vermelho que os fragmentos cronísticos se entretecem, criando, por aí, a tessitura que faz este livro. Há pessoas que, num determinado tempo, representam, contradizem, infirmam e confirmam esse tempo. Fazem-no tão só porque pensam e porque pensar não é uma actividade homóloga de si própria, mas heteróloga porque pensativante. É o caso de Clara Pinto Correia. OK, concordo que o escândalo das crónicas plagiadas na Visão foi um desastre para a Clara. Mas, caramba, daí a pespegarem-lhe com um prefácio do Carlos Amaral Dias... Ninguém merece um castigo destes. ISTO ANDA TUDO TROCADO. A Charlotte, também conhecida por escrever um excelente blog (o Bomba Inteligente) e por ser uma miúda culta com especialização em etimologia, tem gasto 99% do seu precioso tempo às voltas com a mui complexa lei futebolística do fora de jogo. Os gatos fedorentos, esses, não param de teorizar sobre o Bifidus Activo. Ou seja: temos uma gaja obcecada com um assunto de gajos e gajos obcecados com um assunto de gaja. Está tudo maluco, ou quê? 404 ERROR. Às vezes tenho um pesadelo. Ligo o computador para actualizar este blog mas os posts foram todos apagados. Já não está lá nada. Nem textos, nem comentários. Nada. AINDA SOBRE O SILÊNCIO DO PM. Ele é demasiado orgulhoso para o admitir, mas será que o prolífico Pedro Mexia é o primeiro caso oficial (pelo menos no nosso país) de blogger's block? QUÉ PASA? E por falar em Mexia, não percebo o que se passa com esse rapaz. Há oito dias, OITO DIAS, que não escreve uma linha na Coluna Infame. Ainda ponderei algumas explicações plausíveis para tão incompreensível silêncio: 1) foi abduzido por aliens com tendências conservadoras; 2) encontrou a Nastasja Kinski numa festa do Lux, propôs-lhe que fossem viver juntos para um T1 em Xabregas e ela disse que sim; 3) os petrodólares falaram mais alto e está a escrever, in loco, odes à reconstrução do Iraque. Mas ontem ele compareceu no É a Cultura Estúpido!, ainda por cima em boa forma, apesar da tez pálida e das olheiras. «Então e a Coluna?», perguntei-lhe. «Muito trabalho», disse ele, sabendo perfeitamente que eu sei que isso não é resposta. Hmmm, passa-se qualquer coisa de estranho no reino da blogosfera. Tivemos a abrupta aparição do Abrupto. Agora o infinito silêncio do Mexia. Não sei não. 7.5.03
O ÓNUS DA PROVA. Lembrei-me agora de uma forma do JPP provar que é mesmo o José Pacheco Pereira. Tal como fez a Charlotte, bastava-lhe gravar uma mensagem áudio, através do sistema audioblog disponibilizado pelo Blogger. Qualquer coisa do tipo: «Olá, meus amigos, eu sou o José Pacheco Pereira e a minha voz não me deixa mentir. Se estivessem aqui o Lobo Xavier e o José Magalhães, até fazia uma emissão especial do Flashback, para convencer de vez os esquerdistas cépticos, mas acho que isto já deve chegar». E pronto: nós ouvíamos, afastávamos as dúvidas, ficava o caso arrumado. A IMPORTÂNCIA DOS PEQUENOS DETALHES REVELADORES. Após mais uma sessão do É a Cultura Estúpido!, no São Luiz, os participantes dividiram-se em dois grupos. A "malta" de esquerda (Clara Ferreira Alves, Nuno Artur Silva, Daniel Oliveira, Nuno Costa Santos, mais este que vos escreve) optou por um restaurante indiano do Bairro Alto, enquanto a "malta" de direita (Pedro Mexia, João Pereira Coutinho e companhia) se dirigiu alegremente para o «Pap'Açorda». UM ABRUPTO AFFAIRE. Eis a magna questão que atravessa e divide a lusoblogosfera: será que o Abrupto é mesmo escrito por José Pacheco Pereira? O hemisfério direito, sempre céptico em relação à natureza humana mas muito crédulo em tudo o resto (vejam a forma como aceitou, sem pestanejar, o discurso de Colin Powell na ONU ou toda a propaganda bélica da Administração Bush), já entrou em delírio. Ele é gritos de «Aleluia, Aleluia, chegou o Salvador», ele é timbales e fogo-de-artifício, ele é propostas de auto-reforma e "arrumar de botas", ele é um desvanecimento colectivo como nunca se viu desde que a Coluna Infame deu início a esta coisa dos blogs políticos. Pelo contrário, o hemisfério esquerdo desconfia. Vejam, por exemplo, a brilhante análise das incongruências estilísticas (e não só) do Abrupto, feita pelo "fedorento" Ricardo de Araújo Pereira. Não faltam realmente motivos para ficar, no mínimo, de pé atrás. É que se as referências a Sá de Miranda e o tom do comentário político correspondem ao que esperaríamos de Pacheco Pereira (embora estando perfeitamente ao alcance de qualquer imitador com o mínimo de talento), há ali qualquer coisa que soa a falso, a trompe-l'oeil, a pastiche com o rabo de fora. Goste-se ou não do cronista, temos que admitir que o "verdadeiro" Pacheco escreve muito bem. Ele é um esteta, um autor de prosa cuidada, um perfeccionista. Por isso, das duas uma: ou não é ele que espalha aqueles espaços em branco e aquelas gralhas todas pelos textos do Abrupto (advérbios acentuados, JPP?), ou então tem um revisor excelente no Público. Uma última hipótese é que o multifacetado ideólogo social-democrata, com tantos afazeres, dispõe de pouco tempo para esta coisa de escrever na Internet e os textos saem-lhe assim, desleixados. Nesse caso, para que serve o blog? Resumindo, enquanto não tiver a certeza da autoria de Pacheco Pereira, o Abrupto não passa de mais um blog recém-chegado, a arrumar junto da galáxia direitista. Por nós, o JPP fica em quarentena, no que à credibilidade diz respeito, até conseguirmos provas inequívocas de que não se trata do hoax da semana. Entretanto, fica a promessa: logo que essas provas surjam, dar-lhe-emos, como se impõe, as calorosas boas-vindas. QUESTÕES DE ORGANIZAÇÃO. A estrutura que vai gerir o Euro-2004 já começa a dar mostras de incompetência. Então os polícias entroncados dos GOE andam a simular ataques a aviões cheios de terroristas imaginários, num exercício parolo para inglês ver, quando em vez disso podiam perfeitamente distribuir garrafinhas de água, oferecidas por um qualquer patrocinador, àqueles abnegados adeptos portistas que acamparam diante do Estádio das Antas, com cadeirinhas e cobertores, só para conseguir o mirífico bilhete para a final de Sevilha? Onde está, sr. Madaíl, o seu sentido de serviço público? ESCADA ROLANTE. Na estação de metro Baixa-Chiado, há umas intermináveis escadas rolantes que nos trazem até ao Largo do Chiado, como quem sobe do Hades ao mundo dos vivos. O fabricante do prodigioso mecanismo, reparei hoje, é uma empresa chamada O&K. Nada contra. O problema é quando as escadas ficam K&O. UMA FRASE CERTEIRA. Ao DN, disse o escritor inglês Neil Gaiman: «O inferno é a ausência de papel e caneta». Não podia estar mais de acordo. «É A CULTURA ESTÚPIDO!» – SEGUNDA SESSÃO. Hoje à tarde (18h30), o Jardim de Inverno do Teatro São Luiz volta a acolher um debate «É a Cultura Estúpido!», organizado pelas Produções Fictícias. Desta vez, a convidada principal será Clara Ferreira Alves, directora da Casa Fernando Pessoa e da "nova" revista Tabacaria, além de responsável pela animação da Feira do Livro. O duelo polémico entre João Pereira Coutinho e Daniel Oliveira partirá do livro «Globalização Cultural», de Alexandre Melo. E haverá, como sempre, crítica de livros por Pedro Mexia, José Mário Silva e Nuno Costa Santos, terminando a sessão com mais um imperdível momento de stand up comedy, garantido pelo grande (em todos os sentidos) Ricardo Araújo Pereira. A entrada é livre para todos e obrigatória para alguns. PS: Como da outra vez, contamos com a presença de muitos "bloggers" (mas já agora digam qualquer coisa, que é para a gente se conhecer). SURVIVOR. A todas as pessoas que enviaram palavras de conforto via e-mail ou SMS, temendo pelo meu estado de saúde mental após o longo período de exposição ao 24 Horas (relembro: foram 4'33", uma eternidade), venho aqui prestar um sentido agradecimento. A verdade, amigos, é que também eu tive medo de "passar para o outro lado". Mas esta manhã folheei números antigos da Magazine Littéraire e do TLS, sem o mínimo sinal de enfado. Pelo contrário, com pena de não ter mais tempo para ler aqueles dossiers e artigos de não sei quantas páginas. Como devem compreender, foi um alívio. Posso ter muitos defeitos, mas pelos vistos ainda não me conto entre as vítimas do perigoso vírus da Pimbice Atípica. Para ficar mesmo descansado, faltava só o "teste do algodão". Sim, meus amigos, eu vi uns minutos de «Inquietude», o filme do Manoel de Oliveira, sem bocejar. Acho que estou safo. 25.ª HORA. Ainda no 24 Horas, tomei conhecimento de uma série de factos que os jornais ditos de referência, na sua habitual e consabida presunção, ignoraram. A saber: - A estreia do novo show de Júlia Pinheiro, «A Grande Oportunidade», na TVI, foi adiada uma semana. O objectivo do programa, relembra-se, é oferecer empregos aos concorrentes. Consequência directa deste adiamento, o desemprego voltou a subir este mês (mais 0,2%) em Portugal. - A competição entre astrólogos e mediuns de origem africana está ao rubro no nosso país. Só entre a página 35 e 36, encontramos anúncios do clássico Prof. Karamba, do Mestre Alaje, do Prof. Dabo, do Prof. Sidibé, do Prof. Fofana, do Prof. Guirassy, do Prof. Djabula, do Prof. Salimou e do Prof. Djaquité (um corpo docente completo). Depois, para quem estiver interessado noutro tipo de serviços, recomenda-se «A Casa da Kátia» que é ***** (cinco estrelas) e fica na Zona Benfica. Ou o «genuíno» Pau de Cabinda, vendido em comprimidos, ampolas bebíveis e pacote de chá, sempre com slogans geniais: «Não durma em serviço»; «Encomende já o seu prazer» e o inultrapassável «Seja Você Mesmo, Afinal de Contas Até os Bichinhos Gostam». Por outro lado, quem quiser contribuir para a APL (Associação Portuguesa de Doenças do Lisosoma) também encontrará nestas páginas de classificados o respectivo telefone. - Madonna adora Inglaterra. Segundo o 24 Horas conseguiu apurar, a cantora americana disse, num programa da BBC, estar farta de ler nos jornais que não gosta de Inglaterra. «Não é verdade», declarou. - O herói de Lili Caneças é Nuno Gomes. Nas próprias palavras da distintíssima lady: «Sou do Benfica por contraponto ao meu pai que era um sportinguista tão convicto, tão chato... É assim. Lembro-me de delirar com a equipa de 76, conheci-a como a palma da minha mão (sic). Agora, adoro o Nuno Gomes que é muito bonitinho e, quando entra em jogo, marca logo golos. Um querido!» - Poluição automóvel dá cabo da virilidade. Ah, então é por isso... - Eduardo Beauté garante que «dois amigos podem fazer filho feliz». OK, agora só falta saber quem é o Eduardo Beauté. - O olho da avestruz é maior do que o seu cérebro. Está bem, aceita-se, embora o facto de colocarem este dado científico (?) por cima de uma fotografia da Sofia Aparício já me pareça maldade. - Durão Barroso passou ao pé (sic) de um doente que podia ter pneumonia atípica. Mas não tinha, para grande alívio de Bush, que assim já pode convidar o solícito Zé Manel para uma churrascada lá no rancho do Texas. Parece que os convidados do costume (Blair, Aznar) gostaram muito da Cimeira dos Açores, sobretudo do serviço, e George W. não os quer desiludir. Agora compreendo que o 24 Horas seja o jornal cujas vendas mais cresceram, durante o último ano, em Portugal. A qualidade acaba sempre por ser recompensada, não é? O PRATO DELE. No mesmo jornal, houve uma pergunta (pág. 37) que me deixou angustiado: «Qual é o petisco preferido do actor Nuno Lopes?» As hipóteses são três: 1) Caracóis; 2) Moelas; 3) Francesinhas. Podia aqui armar-me em bom mas a verdade, admito-o, é que não sei responder. E pronto, lá se vai a minha fama de campeão do Trivial Pursuit. O DIA DELA. Ontem, para variar, decidi ler o 24 Horas de uma ponta à outra, incluindo a publicidade. Foi, deixem-me que vos diga, uma experiência exaltante. Uma odisseia pós-moderna que demorou precisamente quatro minutos e trinta e três segundos: 4'33". Como em Cage. Nem mais, nem menos. Uma eternidade. E as coisas que eu fiquei a saber... Na rubrica «O Meu Dia», por exemplo, entrei no fabuloso mundo de Isabel Figueira, «apresentadora» e figurante num anúncio televisivo a iogurtes. O que é que isto não vale, hem? Digo-vos mais: se o título prometia muito – «Tomo um bom pequeno-almoço» – o texto propriamente dito ultrapassou todas as expectativas. Aqui fica, com a devida vénia à talentosa autora: Acordo às 7.30 horas, arranjo-me, ponho uns cremes e, às 9 horas, tenho que estar pronta para uma sessão fotográfica, que deverá durar até às 16 horas. Não tenho tempo para almoçar e, como tal, devo comer apenas uma sandes, uma maçã verde e beber leite de soja, pois tenho sempre comigo uns pacotinhos. Por volta das 18 horas, vou tomar café com umas amigas e vamos jantar fora, por volta das 21.30 horas. Como acordo cedo, vou logo para casa, mas, antes de me deitar, ainda cumpro um ritual de beleza: levo 45 minutos a pôr cremes, por causa da profissão e também porque gosto de cuidar de mim. Uau! Leite de soja e 45 minutos a pôr cremes antes de dormir. Há pessoas que têm vidas mesmo estimulantes. PS: Eu sempre pensei que a Isabel Figueira comia uma maçã vermelha a meio do dia. Mas afinal não. É verde. Estamos sempre a aprender. VALE TUDO. A partir da próxima semana, Raquel Rocheta, cujas únicas qualificações se resumem ao facto de ser esposa de Carlos Cruz, vai ter direito à publicação (bem paga, presume-se) de um «Diário» no 24 Horas. Não haverá um limite, em Portugal, para a falta de vergonha? Como diria a Tereza Coelho, quanto mais batemos no fundo, mais o fundo se afunda. 6.5.03
O CONVITE. Quando abri o envelope, confesso que me assustei. Lá dentro, vinha a foto de uma boca feminina em grande plano, o nome da Rita Ferro escrito em letras garrafais (azuis, sobre fundo negro) e um título no mínimo abusivo: «És Meu!». Sim, adivinharam, a escritora decidiu publicar mais um romance e a Dom Quixote continua a ir na cantiga. Pior: continua a enviar-me religiosamente os convites para lançamentos aos quais só aceitaria comparecer, amigos, se a alternativa fosse engolir um frasco de estricnina (e mesmo assim...). Por isso, a quem estiver interessado, lanço o desafio de me convencer, pela via da argumentação dialéctica, que Rita Ferro é mesmo uma escritora e não uma mera acumuladora de palavras. Ao vencedor será entregue, como prémio, o meu precioso convite para a festa, que terá lugar no Navio-Escola Sagres (ancorado na Doca da Marinha), na próxima segunda-feira, dia 12, pelas 21h30, com direito a um Porto de Honra e a estacionamento reservado. Como se tudo isto não fosse suficientemente blasé, a apresentação do livro estará a cargo do presidente da Câmara, Pedro Santana Lopes, esse intelectual de fina estirpe. Nota: Os e-mails poderão ser enviados até domingo, dia 11. Vá lá, meninos e meninas, esmerem-se. DON'T FORGET US, PLEASE. À saída do encontro com Donald Rumsfeld e Dick Cheney, Paulo Portas, a rebentar de felicidade, disse à imprensa: «Recordei que Portugal é membro da coligação desde o princípio, que Portugal foi um bom aliado dos seus aliados, que agora, que cessaram as hostilidades militares, é bom que se saiba no plano interno e externo que Portugal está em linha com o sentido da História e faz parte do grupo vencedor». Pergunta ingénua: mas então eles (Rumsfeld e Cheney) não sabiam? TELMO, O VIGILANTE. Não há nada que lhe escape. Telmo Correia, o líder parlamentar do CDS-PP, é uma espécie de bulldog sempre pronto a saltar às canelas de quem esboce um gesto contra a política do governo ou – crime dos crimes – contra Paulo Portas. Agora as vítimas foram Mário Soares, Freitas do Amaral e o manifesto que põe em causa «a ocupação do Iraque» (publicado no DN). Para o diligente dr. Telmo, tudo não passa de «mais uma manifestação de anti-americanismo primário» – claro, o que é que havia de ser? – por parte de pessoas que perderam «o sentido do ridículo». Uma qualidade cada vez mais rara nos nossos dias, mas que o iluminado dr. Telmo possui, como é fácil de perceber pelas suas diatribes na Assembleia, em doses industriais. NOMES. Descobri ontem que o treinador campeão pelo FCP – o competente mas detestável Mourinho – também se chama José Mário. Zé Mário, para os amigos. Quero por isso que fique bem claro: em matéria de homónimos, eu continuo a preferir o outro. O que não é azul e branco. O que é só Branco. DUAS COISAS QUE NÃO CONSIGO SUPORTAR. É mais forte do que eu. Tiram-me do sério: - as pessoas que cortam as unhas em locais públicos. - as pessoas que estalam os dedos (um a um) mesmo à minha frente. Acontece muito, garanto-vos. Sobretudo em carruagens do metro, repartições de finanças e cacilheiros da Transtejo. O PECADO DA CARNE. Muito original, a campanha publicitária da cervejaria Portugália que chama a atenção, hoje, para o 147.º aniversário do nascimento de Sigmund Freud. Diz o anúncio que esta é uma «boa desculpa para se deixar das neuroses da dieta e atacar sem culpa um Bife cheio de Molho». Um bife nunca é só um bife? A VOZ DA VOZ (8). Como não posso continuar a análise deste disco ad aeternum (isto é um blog, não é o Blitz), termino com a transcrição de uma das letras mais curtas do álbum. E uma das mais parecidas com os "posts" do Tiago na Voz do Deserto: FADO DO QUE A MINHA AVÓ SEMPRE DISSE A minha avó sempre disse que um homem não serve para nada, apenas dá jeito para abrir os frascos e os boiões e dois ou três corações. A VOZ DA VOZ (7). Gosto muito da "distribuição" instrumental nas várias faixas. Como esta: T. Guillul: voz, guitarra, telemóvel de brinquedo, caixa de papelão e chocalhos Nuno S.: copo e faca Nem Constança Capdeville ou Jorge Peixinho fariam melhor. A VOZ DA VOZ (6). A voz do Tiago é indefinível. Mas se me pedissem para a definir, talvez dissesse que é como a voz que o Bob Dylan teria, eventualmente, depois de meia hora a gargarejar com Tantum Verde. A VOZ DA VOZ (5). Este é um disco que fala sobre a Universidade e a importância dos cursos superiores, sobre «a minha rua», sobre a fé, sobre os ardis do amor e os desabafos das velhas nas padarias. Inclui ainda temas bíblicos. E uma canção que seria um hit instantâneo no Cabaret da Coxa: o «Fado da minha vizinha», com as suas histórias de «incompatibilidades amorosas e clivagens culturais». Um exemplo: Ela é mulher prá frentex E eu sou homem à antiga Ela vai para o ginásio e eu começo a ganhar barriga A VOZ DA VOZ (4). Alguns prós: as letras minimais (já lá vamos), a auto-ironia permanente, o solo de cavaquinho em «Aninha-te no meu colo, gato». Alguns contras: os problemas de dicção e prosódia, os temas instrumentais, o registo monocórdico do tema «Os mortos não ressonam no caixão». A VOZ DA VOZ (3). Eu não sei muito bem como classificar este disco registado «entre a casa de Tiago Guillul, o seu carro e a Igreja Baptista de Queluz, através de um minidisc e de um gravador de 4 pistas Tascam». Acho que é uma espécie de artesanato, o equivalente musical dos livros em edição de autor, mas não tenho a certeza. A VOZ DA VOZ (2). Embora todas as canções tenham sido gravadas até Setembro de 2001, o título do álbum não podia ser mais actual: «Fados para o Apocalipse contra a Babilónia». Ó Tiago, Apocalipse será exagero, mas olha que na Babilónia voltou a cair do céu uma chuva de fogo. És adivinho ou quê? A VOZ DA VOZ (1). Há umas semanas, o Tiago Cavaco, aka Voz do Deserto, enviou-me o CD do seu alter ego musical: Tiago Guillul. Não agradeci logo, mergulhado que andava em trabalho. Agradeço agora. Já lá dizia o outro: antes tarde do que nunca. CITAÇÃO. Do extraordinário volume The Collection (edição paperback na Vintage), em que Peter Ackroyd reuniu «journalism, reviews, essays, short stories and lectures», retiro duas frases magníficas sobre Oscar Wilde: It was a brilliant career: he went from poetry to prose, from prose to drama and then from drama to prison. He always did the unexpected so that, although he was not forgiven, he was certainly never forgotten. 5.5.03
ADENDA BRAGANTINA. Já depois de termos recebido o texto do Daniel Oliveira sobre as "mães de Bragança", lemos no Público uma notícia reconfortante: ontem, domingo, 15 agentes da PSP, em rusga a um dos bares de alterne da cidade, detiveram duas das "tentadoras" brasileiras que andam a dar descaminho aos homens transmontanos. As "mães de Bragança" (mães dos filhos dos seus maridos, presume-se) puderam por isso dormir mais descansadas. E talvez agora encontrem tranquilidade de espírito para enfrentar o único inimigo que ainda não tiveram a coragem ou a lucidez de pôr em causa: os seus homens, esses seres angélicos que se deixam fascinar, irremediavelmente, pela primeira rapariga de perfume tropical que lhes passa por perto. Ou será que "eles", coitadinhos, não são capazes de resistir à mínima tentação? Lamento imenso dizer isto, mas não há pior machismo que o machismo das mulheres. A DROGA DE BRAGANÇA. As mães de Bragança estão perdidas da cabeça. Os maridos fogem-lhes de casa por causa de umas meninas brasileiras. Fizeram um abaixo-assinado dirigido às autoridades e às forças vivas da cidade para que pusessem travão ao despautério e lhes devolvessem os maridos inteiros, entregues que agora estão à lasciva influência das nossas irmãs brasileiras. Das autoridades não se ouviu um pio. Uma vergonha. E as forças vivas continuam tão mortas como estavam. As mães de Bragança (fiquei sem saber de quem eram elas mães, se das brasileiras, se dos homens, se das forças vivas) lá vão penando na incompreensão do drama que sobre elas se abateu. Uma das ditas mães, que não deu a cara para não cair na boca do povo (já se sabe que nestas paragens o povo não perde uma história destas), disse que não sabia o que faziam as brasileiras a estes homens. «Deve ser droga que lhes dão», disse uma. «Ou uma mezinha», arriscou. «Ele não consegue largar aquilo». Num mundo globalizado manter esta pureza de espírito… As mães de Bragança são lindas. Deve ser uma droga. Ou uma mezinha… (Daniel Oliveira) MANUEL DIAS. Eu não podia estar mais de acordo com o que a Sandra escreveu no "post" anterior. O papel do Manuel Dias, pai (e filho e espírito santo) do DNJovem, foi crucial na revelação de alguns dos melhores escritores portugueses das novas gerações: José Eduardo Agualusa, Luís Quintais, José Riço Direitinho, Alexandre Andrade, José Tolentino Mendonça, Pedro Mexia ou José Luís Peixoto, só para citar alguns dos que já se destacaram. Ele foi um mestre, no verdadeiro sentido da palavra. Ensinou-nos o amor pela literatura, pelo rigor gramatical, pela perfeição estilística. Incentivou-nos, corrigiu-nos, disciplinou-nos e, quando o merecemos, premiou-nos. Se alguns de nós se tornaram escritores, em grande parte o mérito é dele. Além disso, o Manel foi o mais obsessivo e perfeccionista dos jornalistas de fecho que tive o privilégio de conhecer. A sua pontaria, na caça às gralhas, era quase infalível. A sua angústia, quando algumas escapavam, infinita. Estes jornalistas discretos, que asseguram o mais invísivel e inglório dos ofícios, são o pilar de um jornal. Não duvido que o Manel Dias sinta a falta do Diário de Notícias, o jornal onde trabalhou mais de 30 anos. Mas vai ser sobretudo o Diário de Notícias a sentir – e de que maneira! – a falta dele. O GRAU ZERO. Os blogs também servem para isto. Na semana passada, um querido amigo com mais de 30 anos de jornalismo abandonou definitivamente a redacção do jornal onde trabalhava desde os 17. A minha memória piora a cada dia que passa (e ainda mais a cada notícia que leio sobre o Alzheimer) mas julgo ainda me lembrar do tempo em que não distinguia ambos – ele e o jornal – ou seja, não me lembrava de um sem me lembrar do outro, e em que ele fazia as maiores barbaridades à sua vida pessoal, social e familiar por causa de uma vírgula mal posta (sim, é uma inconfidência, mas o que é que queres?). Uma amiga a quem dei a notícia dizia-me um dia destes isso mesmo, e nunca a vida dela se cruzou muito em nenhuma vertente com nenhum dos dois. Se o cansaço justifica todos os males do mundo, ainda hei-de saber antes do juízo final. Mas por enquanto, é saudável desconfiar de tudo. Quem nos roubou o Manuel Dias, havemos de descobrir. Não tem preço esta perda. E ficam a dever-nos uma indemnização sem tamanho, que nunca poderão pagar. («O Grau Zero» é da responsabilidade de Sandra Augusto França, que não tem afinidades com nenhum partido nem está muito convencida de ser de esquerda) AGRADECIMENTO. Nisto dos blogs, uma das coisas mais extraordinárias é ver como os leitores reagem, com uma rapidez impressionante, aos textos que vamos publicando. Umas vezes nascem polémicas intermináveis, com "posts" para cá e para lá, outras vezes nascem gestos da mais pura amizade. Foi o que aconteceu hoje, com um rol imenso de mensagens solidárias para comigo e com o meu irmão, nesta altura difícil em que perdemos a nossa avó. A todos, mas sobretudo aos que nem sequer conheço pessoalmente, quero deixar um grande abraço. Muito obrigado. É bom sentir que a blogosfera também pode ser, acima de tudo, uma amigosfera. ELOGIOS FÚNEBRES. Escrevo a minha coluna de «A Capital», um jornal que orgulhosamente se mantém fora da Internet, só aceitando os verdadeiros fãs, os que vão à banca, no próprio dia. Foi sobre Cuba. Violento. Mas no Domingo tive uma surpresa. Telefonaram-me e disseram-me: o fadista elogiou-te. Já tinha sido elogiado pelo Telmo Correia. Já tinha sido defendido pelo Pedro Mexia. Agora foi o fadista. Abri o jornal e lá estava. O elogio rasgado de uma coluna assinado por… João Braga. Esta gente quer dar cabo de mim. Como o texto não está na Net e gostava de dividir esta declaração de princípios com os meus blogocamaradas, apesar dos elogios inconvenientes, aqui vai: SERVE-ME A CORDA DE UM OUTRO Perguntava o escritor mexicano Carlos Fuentes: «como não apoiar a revolução cubana?» Falava do princípio dos tempos, do início dos anos 60. A pergunta atormenta: como não apoiar a revolução cubana? Não é Cuba um país que mantém a dignidade perante um vizinho gigante e prepotente, que pôs e depôs ditadores por toda a América Latina? Não é Cuba o país que devolveu aos seus homens e mulheres a auto-estima, transformando um antigo bordel americano, estância de férias de magnatas, postigo de homens de negócios stressados, sala de jogo de abastados, num país independente e apostado em melhorar a educação e a cultura dos seus compatriotas? Não é Cuba, segundo a ONU, o país centro-americano e caribenho com os melhores índices de desenvolvimento humano, alfabetização e saúde? Não é Cuba que resiste, há mais de quarenta anos, a um bloqueio económico que a sufoca, à prepotência de quem julga poder escolher os governos, as políticas e os destinos de todos os povos do Mundo? A resposta afirmativa a todas estas perguntas não chega. Porque também foi Cuba que escolheu pertencer a um bloco imperial, aceitando que outros, no lado de lá da Europa, escolhessem a sua estratégia produtiva, adiando o fim da monocultura e apertando laços de dependência que a conduziriam, inevitavelmente, ao estrangulamento económico. Porque também foi Cuba que fechou as portas à liberdade política, de criação, de expressão, de associação e de manifestação, ao multipartidarismo e ao sindicalismo independente. Não há inimigo externo que desculpe o lápis azul. Não há imperialismo que justifique a prisão da inteligência. Nenhuma independência se conquista com pelotões de fuzilamento. Cada um escolhe o seu caminho. Fidel há muito que escolheu o dele. E o dele nada tem a ver com a liberdade dos povos. Reinaldo Arenas, um escritor gay e oposicionista, livre e anti-castrista, autor de «Antes que Anoiteça», contou a sua história de fuga e medo, num regime intolerante e tacanho. Esta Cuba de «Antes que Anoiteça» não nos pode fazer vacilar. Porque a ditadura é sempre o reino da estupidez. Porque só a liberdade é criadora. Só ela é revolucionária. Quem sabe escolher só pode escolher o oprimido, nunca o opressor. O prisioneiro, nunca o carrasco. Quem sabe escolher escolhe como se lá estivesse, sabe de que lado estaria. Sabe do sufoco da censura, sabe da miséria de todos os discursos oficiais. Sabe que os que falam em nome da «Pátria» falam sempre em seu próprio nome, para o seu infinito benefício. Quem sabe escolher pergunta se, como canta Sérgio Godinho, «pode alguém ser livre, se outro alguém não é?» e sabe que «a corda dum outro serve-me no pé, nos dois punhos, nas mãos, no pescoço». E se em Cuba eu não pudesse escolher, se me visse esmagado entre a máfia cubana de Miami, disposta a matar o seu país para recuperar privilégios justamente perdidos, e a nomenclatura de guerrilheiros há muito instalados no conforto da arbitrariedade, então não escolheria. Mas em Cuba há uma oposição democrática que não desiste, que resiste à tentação da escolha fácil, que quer uma Cuba democrática mas independente, orgulhosa mas plural. Essa é a Cuba que sente a repressão, as perseguições, a morte. Serão de direita? Talvez, não sei. Mas serão a minha gente, mesmo que não saiba quem são. Lutam pela primeira condição de humanidade e autodeterminação: a liberdade. Como não os apoiar? (Daniel OIiveira) FJV. Depois de ter juntado os "poemas escolhidos" («Metade da Vida», Quasi, 2002), Francisco José Viegas regressa agora com aquele que é, para mim, o seu melhor livro de poesia: «O Puro e o Impuro» (na mesma editora). Sexta-feira tentei justificar esta opinião, no DN. AUTORIZEM! Jorge Sampaio autoriza a ida de militares para o Iraque se alguém autorizar primeiro. Já não tem de ser a ONU. Pode ser a NATO, a União Europeia. Pode ser a UEFA, a FIFA, a Eurovisão, a Nestlé. Alguém que lhe tire este peso dos ombros. Das duas uma: ou Sampaio acha que só a ONU pode legitimar a ocupação ou Sampaio não acha. Se acha, espera por uma resolução das Nações Unidas. Se não acha, opõe-se. Esta linha de meias tintas de Jorge Sampaio começa a cansar. De tanto dar uma no cravo e outra na ferradura, já nem o florista, nem o cocheiro o podem ouvir. (Daniel Oliveira) PLÁGIO. São dois blogs políticos siameses e já existem há algum tempo. A graça está no facto de serem mantidos por dois rapazes um pouco esquizofrénicos. Isto é, dois seres pensantes que tanto se revelam abertamente de esquerda e até jantam no Agito, como guinam subitamente para a direita e se põem a discutir os preços e serviços disponíveis na prostituição de luxo. Confesso que até lhes acho uma certa piada, mas o problema está no nome escolhido para o canhotoblog: De Esquerda. Já viram tudo, não é? Eles são o blog De Esquerda, nós somos o Blog de Esquerda. Acontece que nós aparecemos primeiro. Sorry, boys. O nosso advogado contactará o vosso muito em breve. Espero que consigamos chegar a acordo como cavalheiros (quero dizer, camaradas) que se prezam, sem necessidade de levar o caso até à barra dos tribunais. Estas coisas são mesmo assim. Se por acaso surgisse um blog de fofocas e Jet 7, chamado «A Coluna In - Fame», o Mexia, o Lomba e o JPC também não ficariam de braços cruzados. 4.5.03
BELA TEMPESTADE. Andamos para dizer isto há muito tempo. Dizê-mo-lo agora: a Storm é provavelmente o melhor site de crítica e divulgação cultural da Web portuguesa (a par da nossa conhecida Janela). O número de Abril/Maio acaba de ser colocado on-line. Façam o favor de confirmar se temos ou não temos razão. UMA ANDORINHA NÃO FAZ A PRIMAVERA. Parece que a Nova Democracia já tem um símbolo: a andorinha (nome científico: Hirunda rustica). E a escolha do animal até bate certo. Faz um apelo aos grandes voos, mas com ligação à terra. É uma coisa bucólica, nostálgica, com o seu quê de rústico (como o nome em latim deixa supor). Agora, caro Manuel Monteiro, não te iludas. Podes esvoaçar à vontade. Não contes é com o nosso beiral para fazer o ninho. O ANO DO DRAGÃO. De vez em quando, o F. C. Porto sai assim: vintage. E então torna-se a equipa mais forte, mais eficaz, mais entusiasmante. Numa palavra, a melhor. Foi o caso desta temporada. O dragão mereceu a vitória. Parabéns. Só falta ganhar a Taça UEFA. ARRIBA ALONSO! Eu já tinha ficado com boa impressão dele noutras corridas, mas agora tenho a certeza: Fernando Alonso é o piloto mais interessante que vi surgir na Fórmula 1 de há muitos anos para cá. O seu segundo lugar no GP de Espanha foi simplesmente brilhante e o moço só não conseguiu um resultado ainda melhor porque o Ferrari de Michael Schumacher é muito mais potente (e rápido em linha recta) do que o Renault. Ou muito me engano, ou temos aqui um futuro campeão do mundo. Talvez mesmo um novo Fangio, um novo Senna, um novo Prost. Claro que os comentadores da RTP, na sua habitual cegueira ferrarista, toleram o fenómeno com um certo (e pouco escondido) desdém. Se ao menos ele se chamasse Schumacher ou tivesse nascido no Brasil... «É A CULTURA ESTÚPIDO!» – SEGUNDA SESSÃO. Na próxima quarta-feira, pelas 18h30, o Jardim de Inverno do Teatro São Luiz volta a acolher um debate «É a Cultura Estúpido!», organizado pelas Produções Fictícias. Desta vez, a convidada principal será Clara Ferreira Alves, directora da Casa Fernando Pessoa e da "nova" revista Tabacaria, além de responsável pela animação da Feira do Livro. O duelo polémico entre João Pereira Coutinho e Daniel Oliveira partirá do livro «Globalização Cultural», de Alexandre Melo. E haverá, como sempre, crítica de livros por Pedro Mexia, José Mário Silva, Nuno Costa Santos e João Miguel Tavares, terminando a sessão com mais um imperdível momento de stand up comedy, garantido pelo grande (em todos os sentidos) Ricardo Araújo Pereira. A entrada é livre. «DESCULPE, DEVE SER ENGANO». São 7h30 de domingo. Ao telefone, uma voz idosa pergunta-me: «Rogério? És tu, Rogério?» Não, não sou o Rogério. Isso sei. Mas às 7h30 de domingo, arrancado ao sono mais profundo, não tenho certezas sobre rigorosamente mais nada. |