BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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13.4.03
 
A BARBÁRIE. Eles já tinham destruído o funcionamento das instituições democráticas de alguns países e do direito internacional. Depois aumentaram desmesuradamente a sensação de impotência que todos sentimos face ao poder cego e esmagador... Foram para a guerra contra tudo e todos, deixando de lado a opinião pública que, parece que agora até alguma direita o reconhece, se opunha feroz e maioritariamente a tal acção. Depois mataram, ocuparam, fingiram salvar e libertar. E por isso deixaram desbaratar casas, lojas, edifícios públicos sem tentarem proteger nada... Era preciso dar ao povo um bocadinho da ilusão certa... ou seja, "matámos alguns dos vossos familiares e amigos, deixámos um rasto de destruição nas estradas e aldeias, mas aqui está a recompensa merecida: saqueiem à vontade, afinal era tudo do malandro que vos governava (e que nós ajudámos a colocar no poder, como faremos daqui a nada com o próximo malandro que vos há-de roubar tudo outra vez) e agora podem reclamar o vosso quinhão." E o saque espalhou-se com o beneplácito do amigo americano, até chegar ao Museu de Bagdad, até atingir a memória de toda a humanidade, destruindo-a, espalhando-a em mil pedaços, desbaratando-a como se se tratasse de mais um jarrão de faiança, daqueles que o palácio presidencial costumava usar para a decoração de algumas salas. Era da exclusiva responsabilidade dos "libertadores" e "protectores" da cidade a protecção daquele museu! Ainda que os soldados enviados para a frente de batalha urbana não saibam distinguir um copo de plástico de um artefacto sumério, aqueles que os mandaram para lá saberão... Ou talvez não, porque só uma ignorância e uma bestialidade atrozes poderão explicar que se deixe o Museu de Bagdad a saque quando a cidade está, dizem eles, controlada. Ou seja, já não estamos no meio da guerra com fogo aberto, já não há, ao que parece, aviões a bombardearem a cidade, os
americanos já estão na zona urbana a garantir a estabilidade...
Não há explicação! Não há nenhuma forma razoável de compreender que haja soldados disponíveis para deitar abaixo estátuas do anterior ditador e esfregar-lhes bandeiras americanas na cara, mas não haja soldados para protegerem um museu como o de Bagdad. Quando tropas de países que se autodenominam democráticos, libertadores e civilizados pactuam com a destruição da memória do mundo, a barbárie começa a ganhar aos pontos... e sem deixar muitas esperanças numa inversão do resultado.
(Sara Figueiredo Costa)


 
MAIS CUBA. O leitor François Maltie lançou-nos uma questão muito concreta e supostamente incómoda:

Gostaria de saber o que os senhores têm a dizer sobre a execução sumária, pelo governo cubano, dos três "terroristas" que queriam sequestrar um barco para os EUA no início do mês passado, assim como a prisão, neste mês, de dezenas de "dissidentes". O que alguém assumidamente de esquerda acha de tudo isso?

Caro François:

Tanto sobre os dissidentes presos (leia o que escrevemos lá para trás) como sobre a morte dos três "terroristas" (executados sumariamente), a nossa posição é só uma: condenação total e absoluta. Aliás, esta é a única atitude possível para quem é «assumidamente de esquerda». Não nos confunda, por favor, com as cegueiras estalinistas que para aí andam.

 
GOETHE E AS NUVENS. A Assírio & Alvim acaba de editar um pequeno livro precioso: «O Jogo das Nuvens», de Johann Wolfgang Goethe (selecção e tradução de João Barrento). Foi sobre ele que escrevi a minha última crónica no DNA.

 
OLHA UM LIVRO! «Para a minha mãe a única coisa importante são os funerais». E a senhora vai, hoje, a três. «Eu fico, continuarei aqui sentado, e o meu rosto, se é igual ao rosto da minha mãe, não pode deixar de ser o rosto de quem vai a três funerais». E nós pasmados. É como nos deixam muitas das histórias de um curioso livro, «O Grande Frémito da Paixão», de João Camilo (Fenda Edições, 211 págs.). Histórias engenhosas, e que nem o parecem, tão próximas estão do que sempre pensámos, do que sempre poderíamos ter pensado. Histórias enternecedoras, porque é de nós próprios que temos pena, sobretudo quando descobrimos que a vida é essa gaveta que, «desleixo a desleixo», deixámos desarrumar-se.
João Camilo (que também é poeta, e ensaísta, e foi catedrático, e é conselheiro cultural em Londres) põe-se, e põe-nos, em situações que não lembrariam ao demo, e que por isso são hilariantes. Mas o riso cedo nos morre nos lábios. Reconhecemo-nos demasiado nessas figuras algo inteligentes, algo generosas, e que por isso nunca conseguem ser más. Quando precisavam de sê-lo. Ou só um pouco mais atrevidas. Enquanto se pode. «A idade é que estraga tudo, nada resiste ao tempo que passa. O que começa a preocupar-me é a minha dor futura, em certo sentido. Como suportar a beleza inacessível das raparigas quando me tiver caído o cabelo, quando tiver perdido os dentes, quando os músculos se atrofiarem, e a pele da barriga, de uma brancura repugnante, ficar cheia de rugas? Provavelmente terei dinheiro, um vago mas certo prestígio, e poderei ser amado por isso (é estúpido, bem sei). Mas como expor ao olhar severo de uma mulher jovem o meu corpo sem defesa, a minha decadência de ser humano?» Aqui está um homem que quer ser feliz. Só, só um bocadinho ainda. Mas, com essa lucidez, nunca irá lá. Confrontador. Delicioso. Quatro estrelinhas.
(Fernando Venâncio)

 
O CRÍTICO RESIDENTE. Convenhamos que é um luxo. A partir de hoje, o Blog de Esquerda passa a contar - em exclusivo! - com recensões de Fernando Venâncio, um dos melhores críticos literários e polemistas cá do burgo. A rubrica chamar-se-á «Olha um Livro!» e começa com uma obra de João Camilo. Muitas outras se seguirão. Estás à vontade, Fernando. Entra, acomoda-te, passa para cá o casaco e o chapéu-de-chuva. Acende a luz da sala. Senta-te no sofá junto à janela. Faz como se estivesses em tua casa.

 
AVENTURAS DA RAPOSA DIALÉCTICA. Hoje de manhã, no café do costume, a raposa dialéctica tentava acabar de ler os jornais de sábado. «Não tem futuro», suspirou ela, quando me sentei à sua mesa, pedindo por gestos a bica e o copo de água. «Estás a referir-te ao Iraque?», perguntei. «Não», disse ela, «estou a pensar no Paulo Portas». Aos domingos de manhã, a raposa dialéctica come sempre um croissant com fiambre e um galão. O Expresso já estava cheio de migalhas.
«Vais pôr esta conversa lá no blog?», continuou ela. Disse-lhe que não sabia e ela preferiu deixar o cigarro para mais tarde (a Sandra Augusto França mete-lhe um certo medo). Foi então que começou a tamborilar as garras da sua pata felpuda na mesa com tampo de fórmica. Estava visivelmente impaciente e eu, como percebi que ainda lhe faltava ler as páginas finais do Mil Folhas, decidi deixá-la entregue ao delicioso suplício da imprensa em atraso. Disse-lhe adeus, paguei a conta e dirigi-me para a saída.
Foi então que ela me disse:
«É verdade, dá os parabéns ao teu pai».
Estaquei. Como é que ela poderia saber do aniversário do meu pai? Logo do meu pai, um admirador confesso das suas Aventuras. Será que trabalha para o SIS? Terei o meu telefone sob escuta?
«Não dizes nada? Ele faz anos hoje ou não faz?»
Eu abanei a cabeça, afirmativamente. A boca aberta de espanto.
«Sei que ele simpatiza comigo. E como é que sei? Isso não interessa. Chama-lhe intuição animal».
Eu continuava parado. A boca aberta.
«Sabes o que era bonito? Bonito era colocares um post meu lá no teu blog, hoje. Sempre se variava um bocado, pá, que aquilo anda sério demais. O que é que achas?»
Fechei a boca. Olhei para os sapatos. Disse: «vou pensar nisso».
Já na rua, pus-me a reflectir sobre estes meus encontros esporádicos com a raposa dialéctica. E cheguei a uma conclusão. O que é estranho não é eu andar a conversar com uma raposa. O que é estranho é eu andar a conversar com uma raposa que diz "pá".

 
PROVÉRBIO VAGAMENTE ORIENTAL APLICÁVEL A TODO O TIPO DE SITUAÇÕES E QUE UM AMIGO ME DISSE ONTEM À TARDE, JÁ NÃO ME LEMBRO BEM PORQUÊ. «Os nabos querem ver o luar de Agosto» (pronto, já cumpri o meu sonho: escrever um título de post maior do que o post).

12.4.03
 
FUTEBÓIS. A Mariana Vieira da Silva, ainda no País Relativo, revolta-se contra as "maiorias" e diz que está sempre do lado das "minorias". Apetece perguntar então por que escreve ela no "País Relativo"... (a minoria do PS é conjuntural).
Em termos futebolísticos, sendo eu sportinguista, compreendo perfeitamente a indignação da Mariana. Mas julgo que ela está a ser muito radical no que à selecção do Brasil diz respeito. Eu também ainda hoje não gosto da "obrigação nacional" de se ser brasileiro no Mundial de Futebol. Nunca fui "brasileiro" neste aspecto (sou-o em muitos outros, começando na música), até... 1994. Aí vi a magia do "escrete" (em 82 era novo...). Vi os "canarinhos" chegarem aqui aos EUA, mostrarem a magia do seu futebol e serem merecidamente campeões. Comandados por um "baixinho" de esquerda - eleitor do Lula desde 1989 - e cheio de personalidade, Romário de seu nome. Um "petista" campeão do mundo. (Tenho quase a certeza de que Parreira também é de esquerda, mas não posso jurar.) Se tal facto fosse mais divulgado, para onde é que iria a "unanimidade brasileira" em Portugal... E foram campeões nos EUA! Só com um país sul americano tal seria possível (recordemos outro exemplo: Jorge Valdano).
Mais tarde, no ano passado, a vitória brasileira permitiu-me "apagar" da memória a frustração da participação portuguesa - para mim ainda foi maior, depois de ter andado a dizer a tudo o que era americano que tínhamos o melhor jogador do mundo e que a selecção deles ia perder! A vitória do Brasil foi uma autêntica vingança da lusofonia (e noutro país que não seja lusófono não há, de todo, unanimidade em torno do Brasil). Concluindo, para mim o que torna o Mundial de Futebol um espectáculo único é ver os países do terceiro mundo, com jogadores criados na favela, a baterem as civilizadas potências ocidentais. Isto sim, é esquerda! Esperemos que a globalização não o destrua!
(Filipe Moura)

 
AI A ALCOOLÉMIA!. Quero cumprimentar o Filipe Nunes, por dois motivos: por dar a cara e assumir que também erra - nestes tempos de públicas virtudes - (mando-lhe também a minha solidariedade), e por TER SIDO PARADO pela polícia. Isto revela que ele tem um carro proletário ou de classe média - a polícia nunca pára os BMWs, os Mercedes ou outros que tais. Apetece-me porém perguntar ao Filipe e aos outros "relativos": quando voltarem ao poder, vão insistir com a lei - ridícula - dos 0.2 g/l? Aí ao lado, em Espanha, o limite é de 0.8 g/l. Não quer dizer que não haja um problema de alcoolismo nas estradas portuguesas, mas tudo resulta de um problema geral português, que é o total incumprimento das leis vigentes, e que não se resolve por um endurecimento das mesmas para lá do limite do razoável. (Isto também se aplica ao tabagismo, Sandra Augusto França.) Voltarei a este assunto. (Filipe Moura)

 
À ESQUERDA DO CENTRO. Neste aspecto, os últimos dias têm sido muito positivos. O centro tem revelado a sua face de esquerda, e uma convergência futura talvez até seja possível. (Isso não depende só do PS, camaradas do PCP e do Bloco. Toda a gente tem de fazer concessões.) A oposição votou unida as moções de censura ao governo de direita, com as excepções - de direita - do costume. A entrevista de Guterres ao Público foi bastante positiva, e será bom relê-la em 2006, enquanto tomamos os sais de frutos.
O meu amigo Nuno Anjos escreveu - muito bem, como ele sabe - aqui no Blog de Esquerda. "Eles", agora, até têm um blog. Todo giro, diga-se. Há ali esquerda... Há ali Chico Buarque. Há ali "cotidiano" (eles ouvem o "Cotidiano"). Nem tudo está perdido.
Agora, talvez eles (os "relativos") possam começar por explicar: por que será que quando estão na oposição parecem sempre tão bons e quando chegam ao poder é sempre a tristeza que se sabe?
(Filipe Moura)

 
POSTS RELATIVOS. E já que falámos nos Relativos, recuperamos agora três textos que o Filipe Moura nos enviou pouco tempo após o surgimento do blog socialista. Desculpa o atraso, Filipe.

 
OS RELATIVOS SÃO FIXES. Consta que a Coluna Infame ficou desiludida com a malta do blog País Relativo, por causa das posições assumidas sobre a guerra no Iraque e o "papel" dos EUA no mundo. Escusado será dizer que nós, pelo contrário, ficámos agradavelmente surpreendidos. Se esta é a esquerda que há-de ser Governo em Portugal um dia destes, ainda podemos ter uma réstea de esperança.
Antes que o Lomba comece a tremer de indignação (ou medo) perante este inesperado conluio das esquerdas, é bom que fique claro que discordamos em muitas matérias essenciais. Acontece que neste momento fundamental da História, o tal da separação das águas, vocês souberam estar do lado certo. Não nos vamos esquecer disto. Um abraço para o MK, para o PAS, para o FN, para a MVS e para o resto da malta. Deixem lá a Coluna carpir as suas mágoas. Eles bem precisam de um contraponto à alegria sem limites que é assistir ao nascer de um novo sol, radioso, em Bagdad. Aquele sol em technicolor, hollywoodiano, precursor de todos os finais felizes...

 
CONTRAPARTIDAS. O assessor diplomático de Durão Barroso (Nuno Brito) foi a Washington falar com Condoleeza Rice, ao mesmo tempo que Paulo Portas telefonava para o "amigalhaço" Donald Rumsfeld. Resultado: as autoridades americanas vêem com bons olhos a participação de empresários portugueses na reconstrução do país que em três semanas conseguiram destruir.
Pelos vistos, o serviço de mesa nos Açores sempre serviu para alguma coisa. Os salamaleques da Cimeira nas Lages traduzem-se agora na mais despudorada e indigna gorjeta que Portugal alguma vez recebeu.
É nestas alturas que sinto vergonha de ser português.

 
DÚVIDA. Por que será que o maradona, tão activo a comentar os outros blogs, não tem comentários no seu?

11.4.03
 
F. C. PORTENTOSO. Para quem gosta de futebol, o que o F. C. Porto fez ontem à noite só tem um nome: obra-prima. Vou até mais longe. Esta vitória estrondosa (4-1) sobre uma das melhores equipas do mundo (a Lazio de Stankovic e Claudio López) foi simplesmente a melhor exibição que alguma vez vi do Porto. Um extasiado Pinto da Costa disse que era preciso recuar até à final de Viena para encontrar um jogo tão bom mas eu não concordo. Nesse jogo clássico, tendemos a recordar apenas o calcanhar do Madjer e a entrada oportuna do Juary, mas a verdade é que o Bayern de Munique dominou o jogo e enviou várias bolas ao poste. Ontem, pelo contrário, a Lazio foi pura e simplesmente esmagada. A todos os dragões, os mais sinceros parabéns deste vitoriano (de Setúbal) e sportinguista.

PS: O Boavista defendeu bem o seu empate em Glasgow (com o Celtic) e tornou provável uma final portuguesa da Taça UEFA, em Sevilha. Quem diria?

 
FONTE NOVA. Fui ao cinema. O filme era razoável, a cadeira péssima (muito dura, com o assento inclinado, desconfortável). No fim, olhei para o bilhete e compreendi. Fiquei no lugar G8. Maldito G8.

 
25 DE ABRIL. É muito interessante verificar como toda a direita, incluindo os recentíssimos neoconservadores (como José Manuel Fernandes), fala do 25 de Abril de forma tão comovida. É a memória da alegria, o júbilo da libertação, as lágrimas nos olhos. Pela minha parte, fico contente. Isto quer dizer que a Av. da Liberdade, daqui a duas semanas, vai ser pequena para tanta gente.

 
DÚVIDAS METODOLÓGICAS. Porque é que de repente, de um dia para o outro, a direita passou a considerar as manifestações na rua como um bom meio de expressão da opinião política? Milhões de pessoas que manifestaram em todo o mundo contra a guerra não valiam uma pevide, umas centenas no Iraque são já «vontade popular»? Nós, na esquerda, consideramos as manifestações em Bagdade como um facto político importante. É normal e coerente. Mas não era a direita que «desprezava» a Rua, mesmo aquela que «está do seu lado»? Não era a direita que considerava que a Rua está na «origem directa de catástrofes políticas»? Estamos confundidos. Ainda assim, não deixa de ser uma boa notícia que a Coluna Infame, por exemplo, reconheça «representatividade» nas manifestações populares em Bagdade. Mas se no futuro houver manifestações contra a nova «autoridade» americana, será que a «Rua» iraquiana continuará a inspirar-lhes o mesmo respeito?

10.4.03
 
O IMPÉRIO DEPOIS DA DITADURA. Senti uma alegria automática ao ver a estátua do sinistro Saddam cair. Pena que tenha caído com tantos anos de atraso. Mas a bandeira americana no lugar da estátua de Saddam deixa pouco lugar para poesias ou para textos épicos como os de José Manuel Fernandes. Mas o director do "Público" tem experiência neste género literário. E as ameaças dos Estados Unidos à Síria (recomeça a farsa – diz Wolfovitz: "não sabemos o que andam a fazer, mas exigimos que parem imediatamente") deixam pouco espaço para ingenuidades. Um novo Mundo está a nascer. Ele é perigoso. Ele vive à mercê de uma força imparável, incontrolável, insaciável. A queda de Saddam marca o fim de um ditador. A "guerra preventiva" é o argumento sem fim do princípio de um Império. (Daniel Oliveira)

 
AFEGANISTÃO. Relembro uma frase deixada pelo Pedro Rosa Mendes no debate de ontem: «No Afeganistão, este ano vai ser feita a maior colheita de papoilas de sempre». Como se vê, retirar os talibans, em Cabul ou noutro lugar qualquer, não chega.

 
O QUE NÃO ANDO A LER. A pedido de várias famílias (e não me refiro à minha), aqui deixo o texto que li ontem, na sessão do S. Luiz, numa das rubricas a que decidimos chamar «O que não ando a ler»:

O que não ando a ler é um romance de amor que se tornou «best-seller» instantaneamente, escrito por alguém que nas entrevistas abusa do auto-elogio. E não, não me estou a referir à Margarida Rebelo Pinto. É mesmo ao Saddam Hussein e ao seu romance lírico-épico «Zabiba e o Rei», publicado pela Europa-América.
E por que é que não ando a ler esta importante obra, quicá prima?
1) Porque já sei como acaba: o Rei, tanto na ficção como na realidade, morre.
2) Há a forte possibilidade de o livro não ter sido escrito pelo déspota mas por um dos seus sósias (calhando o analfabeto). E eu não gosto de contrafacções.
3) Há a questão dos antecedentes. A "genial" produção dos grandes ditadores, como Mao Tse Tung ou Kim Jong-Il é geralmente de fugir. Só são consideradas maravilhas literárias por quem sabe que há uma vala comum à espera dos mais cépticos.
4) O livro termina com a frase «Viva o Exército!», escrita assim mesmo - sem ponta de ironia. E há um limite para aquilo que um pacifista consegue tolerar.
5) Não consta que o romance tenha sido inspeccionado pela equipa do sr. Hans Blix, pelo que se mantêm as suspeitas de que existam, escondidas nas páginas, perigosíssimas armas de destruição maciça - senão das nossas vidas, pelo menos dos nossos neurónios.

 
É A CULTURA, ESTÚPIDO! O muito anunciado debate «É a Cultura, Estúpido!» juntou ontem, no S. Luiz, vários bloggers, tanto na mesa como na assistência. Sobre o evento nada diremos, por razões óbvias (estamos do lado da organização), mas abrimos portas aos comentários de quem lá esteve. Foi o caso da Sara Figueiredo Costa, que nos enviou o seguinte relato:

O jardim de inverno do S.Luiz estava composto, com um ar confortável e acolhedor, pronto para receber quem até ali se deslocou para conversar sobre livros. E o resultado foi muito bom…
Mas há coisas para destacar, por isso, vamos a elas! A ideia de juntar estas pessoas todas num ambiente informal é muito boa. Perde-se aquela imagem de que só os académicos discutem livros, ou a outra, ainda pior, de que para falar sobre livros temos de assumir um ar compenetrado e pesaroso. Também há espaços para isso, e ontem o S. Luiz foi o espaço para mostrar que se pode (e deve) ir além disso. Pudemos ouvir e partilhar do deslumbramento do Zé Mário com as nuvens e do humor certeiro do Pedro Mexia ao falar da nova ficção portuguesa, ficámos a conhecer-lhes as opiniões sobre meia dúzia de livros e sobrou-nos a vontade de continuar ali mais umas horas, a folhear volumes de diversos tamanhos como quem tem a noite toda para conversar, sem pressas nem obrigações. Pudemos também partilhar alguns dos encantamentos do Pedro Rosa Mendes e do João Francisco Vilhena, em torno do seu projecto, já concretizado e impresso, chamado «Atlântico – Romance Fotográfico». Ou ouvir mais opiniões livrescas de João Miguel Tavares e Nuno Costa Santos (acho que eram estes os nomes) em torno do fado, da poesia e da banda desenhada (a propósito, comprei a recém-editada revista da Bedeteca, a «Quadrado», e recomendo a todos os apreciadores. Está linda!).
Depois chegámos ao momento agitado da tarde, com o debate entre o Daniel Oliveira e o João Pereira Coutinho em torno do último livro do Chomsky sobre a guerra do Iraque. Percebeu-se que nenhum dos dois gostava assim muito do que diz o Chomsky (JPC porque o que se diz não favorece nada os EUA; Daniel porque o que se diz é o mesmo que se dizia há uns anos e o Chomsky não deve muito à inovação no que à análise política e social diz respeito) e avançou-se para os argumentos pró e contra a guerra. E aqui, chamem-me tendenciosa, mas a esquerda saiu de longe a ganhar. Desde logo, pela postura. Não se defendem ideias com o tom de voz a subir de cada vez que se percebe que o auditório não está a concordar, nem utilizando argumentos como "os palestinianos que gostam de se explodir em frente aos tanques israelitas" (o que motivou um protesto) ou "o terrorismo existe porque os estados ocidentais não acabaram com ele" (isto para responder ao Daniel, que disse que quanto maior for o poder de uma superpotência, neste caso os EUA, e maior a impotência sentida pelas pessoas relativamente ao exercício dos seus direitos democráticos, maior e mais perigoso será o terrorismo). Mas, posturas à parte, JPC não conseguiu explicar que raio de salvamento foram os EUA fazer ao Iraque, onde estão as armas de destruição massiva que despoletaram esta guerra, que espécie de democracia terá o Iraque no pós-guerra. Nem conseguiu responder à lista infindável que o Daniel trouxe, com todas as intervenções dos EUA "em nome da liberdade e da democracia" desde a II Guerra Mundial, apontando um só país onde se tenha passado a viver em democracia depois dessas intervenções. A hora já ia adiantada (talvez seja uma boa ideia reduzir o número de convidados, ou de mesas, para as conversas não saberem tão a pouco) e a sessão encerrou com um cheirinho de «stand up comedy» pelo Ricardo de Araújo Pereira. Hilariante! Da presença de Manuel Alegre em todas as antologias, mesmo as de outras épocas, à definição de sósia segundo o Dicionário da Academia, passando pelas crónicas-listas de Marcelo Rebelo de Sousa, o humor foi sempre genial!


Obrigado, Sara. Já agora, quem estiver interessado noutras visões do mesmo acontecimento pode ler o que escreveram o Espigas, repórter atento e exaustivo; o maradona, desiludido com a minha altura (meço "apenas" os mesmos 1m72cm que ele mede) e com o meu penteado, vá-se lá saber porquê; e a malta do blog O Complot. A todos o nosso agradecimento.

 
UM WHISKY PARA OS RAPAZES. A direita anda para aí toda indignada com a suposta parcialidade pró-iraquiana da comunicação social portuguesa. Da TSF, por exemplo, dizem que é a rádio Todos Somos Fedayin – e há insultos ainda piores.
Eu só me pergunto se essa direita não terá visto, por mero acaso, o Carlos Fino a beber whisky na companhia dos Marines, lá no seu quarto do Hotel Palestina? Aconteceu na quarta-feira à noite (RTP1) e foi um espectáculo lamentável. Numa de «relax» (sic), depois de ter sido espancado na rua (e salvo por militantes do Baas), o bom do Carlos Fino bebericava o seu malte com a malta, falando meio em português, meio em inglês, naquele jeito atrapalhado de quem deseja agradar, provincianamente, aos amigos estrangeiros. O ponto alto da sessão foi quando o repórter se virou para os soldados americanos e lhes disse: «A mim também me apetece comemorar com vocês a vossa vitória mas tenho que "keep a distance" porque sou jornalista». Para Fedayin, não está nada mal.

 
A ALMA EM SANGUE. Um ano depois de ter começado, o julgamento da Moderna vai entrar numa fase que promete muita vozearia e facas longas. Atente-se nesta carta aberta de José Braga Gonçalves, dramaticamente escrita nos famosos calabouços da PJ (adoro o pathos da palavra calabouço):

CARTA ABERTA AO DR. PAULO PORTAS
Com serenidade, espírito de sacrifício e a coragem humanamente exigível, tenho aguardado, desde há mais de quatro anos e no mais completo e absoluto silêncio, uma tomada de posição honrosa da tua parte em relação ao chamado "Caso Moderna" e, dentro deste, aos factos referentes à tua pessoa e à tão propalada "Amostra". Em vão.
Dos quase dois anos que levo sob prisão preventiva, mantive, no último, o que considero um silêncio de Estado dadas as funções por ti exercidas. Fi-lo por amizade e respeito. Em vão.
Não é legítimo alguém exigir a outrém, na minha desgraçada situação, mais sacrifício. Não posso, aliás, a bem da verdade que assumi respeitar perante o Tribunal, ocultar por mais tempo factos pouco conhecidos e por ninguém esclarecidos, nem, tão pouco, assumi-los como de minha responsabilidade. É com a alma em sangue que o faço. Na mais completa solidão.
Calabouços da PJ, 07/04/03
José Braga Gonçalves


Comovente, não acham? O pior é que este tipo de ameaças raramente se concretizam, como se viu na sessão de hoje. Ainda assim, o Paulinho das Feiras já vai dando mostras de um nervoso miudinho. Pudera, naufrágios de super-petroleiros não acontecem todos os dias. E até o Saddam se foi abaixo das canetas. Uma maçada. Logo agora que o espectáculo da guerra, devorador de todos os espaços mediáticos, estava a distrair convenientemente a opinião pública dos assuntos incómodos...

 
CARTA SOBRE CUBA. Do leitor Nuno Guilherme Costa, recebemos este e-mail:

Caros organizadores do Blog de Esquerda:
O vosso colaborador José Mário que teve a amabilidade de responder à questão que vos coloquei sobre a prisão de jornalistas em Cuba coloca em cima da mesa, na sua resposta, a questão dos prisioneiros em Guantanamo. Gostaria apenas de acrescentar que considero uma questão tão grave como a outra, condeno igualmente uma situação como a outra. Acredito firmemente que a possibilidade de uma defesa e de um julgamento justo que são negados aos prisioneiros taliban em Guantanamo é uma prática anti-democrática e que deve ser condenada por qualquer liberal e por qualquer democrata. Mas também concederão que nos EUA esta situação constitui a excepção e não a regra, enquanto que me parece que em Cuba se passa o inverso. A situação dos detidos em Guantanamo só me parece complexa no sentido em que não sei (ninguém sabe) se estes estão detidos como prisioneiros de guerra ou como criminosos internacionais. Aliás nem sei porque é que os EUA não aproveitaram para fazer um julgamento, nem o que ganham com a continuação desta situação. De qualquer forma, como referi no mail que vos enviei anteriormente, se em 90% das matérias discordo da vossa posição, esta é uma situação em que tal não acontece. Ao que parece condenamos ambas as situações.
Com os melhores cumprimentos,
Nuno Guilherme Costa


Caro Nuno,
Ainda bem que condena a situação dos prisioneiros em Guantanamo. Infelizmente, não vejo ninguém na direita (oficial ou bloguística) a preocupar-se com as condições degradantes em que estão os prisioneiros do Campo Raio X, ao passo que a esquerda (oficial e bloguística) condenou imediatamente a perseguição do regime de Fidel Castro aos oposicionistas. Curioso, não acha? É também nestes pequenos detalhes que se vê a diferença entre esquerda e direita.

 
21 DIAS. Escreve Luís Delgado, no DN: «21 dias depois (peço desculpas por ter previsto o fim em apenas 15 dias), acabou, felizmente, o regime de Saddam Hussein». Caramba, esperava tudo menos isto. Uma semana de atraso, Luís? Já não se pode confiar na realidade...

 
3ª FASE. Os militares americanos apareceram enfim, com um blindado de engenharia e passaram uma corrente em torno da estátua, decididos a acabar com a brincadeira e dar uma ajuda aos iraquianos, que pelos vistos nem derrubar estátuas conseguem. Um soldado, mais afoito, colocou com toda a naturalidade uma bandeira americana sobre a cabeça de Saddam, com a desfaçatez que o Zé Mário descreveu. Os manifestantes reagiram mal. Um deles começou a agitar uma bandeira iraquiana (sem as inscrições em árabe que Saddam impôs) e os aplausos multiplicaram-se.
Compreendendo a situação, os soldados retiraram à pressa a bandeira americana e pegaram na iraquiana que os populares lhes ofereceram.
Só que o soldado americano, sem saber muito bem o que fazer, lembrou-se de lhe dar um nó e meter a bandeira em laço à volta do pescoço do ditador. Os marines desceram e prepararam calmamente o blindado para a operação. De súbito, apercebem-se de que derrubar a imagem de Saddam, assim engravatado com as cores do Iraque, era uma emenda muito pior que o soneto. Cairia assim a imagem de um Saddam nacionalista, arrastado pelo veículo de um exército estrangeiro. Não servia. E lá foi de novo o soldado trepando a grua para retirar a bandeira e devolvê-la aos populares.

 
DESENLACE. Por fim ficou a estátua de novo nua, a ser só Saddam, agarrada pelo pescoço pelas correntes. Depois de esticados os fios, a grua começou finalmente a puxar a estátua, que resistiu estranhamente, dobrando-se, descarnado-se e pondo à vista os ferros que a mantinham de pé. Mas não caiu logo! Ficou pendente, a balançar toda torcida, num terrível sorriso de escárnio. Só depois, num arranque mais potente do blindado, é que foi arrastada e desprendida do pedestal, ficando à mercê da exaltação dos populares.
Os jornalistas, esses, respiraram de alívio. Estava salvo, in extremis, o espectáculo mediático.

 
1ª FASE. Quando os soldados americanos ocuparam a Praça do Paraíso (?!) – no centro da qual se erguia uma enorme estátua de Saddam – e toda a zona de hotéis e edifícios governativos à volta, ficou claro que o poder iraquiano se desmoronara. A população apercebeu-se depressa da mudança e veio para a rua festejar e aclamar os americanos. O problema é que não eram assim tantos como isso, umas centenas talvez. O que aliás por si só não quer dizer grande coisa, tendo em conta as condições em que Bagdade vive neste momento. Mas para as televisões e para o exército, pelo contrário, quer dizer muito (sobretudo para os militares que andavam ávido de cenas assim há semanas).
O que foi interessante notar foi que população, militares e jornalistas se aperceberam muito rapidamente de uma necessidade evidente: era preciso um símbolo da queda de Bagdade. Um símbolo forte e inequívoco. Ora o que estava ali mesmo à mão de semear era a estátua de Saddam, ainda a desafiar os novos donos do Iraque. Para mais, terão pensado os oficiais, a imagem da estátua de um ditador a cair (ainda por cima bigududo) traz consigo memórias do fim da guerra fria, muito a propósito para a frente ideológica.

 
2ª FASE. As coisas ao princípio até correram bem. Os populares tomaram a iniciativa, apareceram escadas e uma corda foi colocada em torno da estátua. Mas a corda era frágil e curta, e à primeira tentativa de derrube partiu-se. Os manifestantes começaram a impacientar-se. Uns foram buscar marretas e começaram a dar insensatos golpes num pedestal que parecia aguentar-se demasiado bem. A pouco e pouco, a pequena multidão começou a dispersar, um pouco desiludida. Os jornalistas mostravam embaraço, inquietos com as horas de satélite a passar e o fiasco de um directo onde nada parecia acontecer. Para mais, o anoitecer estava para breve e depois ia ser ainda mais difícil. E o símbolo tinha que ser naquele dia, naquele local.

 
DA DIFÍCIL CONSTRUÇÃO DOS SÍMBOLOS. A transmissão em directo, pelas televisões de todo o mundo, do derrube da enorme estátua de Saddam em Bagdade, ao fim da tarde de ontem, foi uma grande lição de semiologia. Atrevemo-nos mesmo a propor que seja considerada doravante como matéria de estudo obrigatória nos departamentos de ciências da comunicação. O Zé Mário já aqui assinalou o essencial, mas para quem não viu a transmissão na íntegra, segue um pequeno resumo, em quatro fases.


 
O MURO. Com a questão do "Prestige", já sabíamos que Aznar era arrogante, cego e cobarde. Com a cimeira dos Açores, ficámos a saber que também é dócil e submisso perante o "dono". Agora, com a comparação entre a estátua caída de Saddam em Bagdad e o Muro de Berlim, completa-se o puzzle. Ele também é historicamente ignorante e politicamente imbecil (da estirpe ignóbil).

 
A AMEAÇA. Na prática, a guerra durou três semanas. Armas de destruição maciça? nem vê-las. Campos de treino para terroristas? Só nos sonhos húmidos do sr. Rumsfeld. O exército iraquiano? Uma anedota. A guarda republicana? Outra anedota. A divisão Medina? Um tigre de papelão. O regime de Saddam? Um castelo de cartas. Onde é que estava afinal, meus senhores, a tão maléfica e tenebrosa "grande ameaça" à paz no mundo? Alguém me sabe explicar?

 
OS ANALISTAS. Convenhamos que o júbilo revelado pela maior parte dos analistas militares, ao falarem sobre a inaudita "eficácia" da estratégia americana para esta guerra, é pouco menos do que obscena.

 
A BANDEIRA. Já tinha acontecido em Umm-Qasr, voltou a acontecer ontem. A bandeira americana como sinal de conquista. Desta vez, pior ainda: viu-se um soldado a esfregá-la na cara de Saddam, na estátua – prestes a cair – de Saddam. Toda a gente sabe (menos, talvez, aquele soldado e o seu comandante) que vivemos num mundo de imagens, de ícones, de gestos simbólicos. Este gesto simbólico, com a sua tremenda carga de humilhação, deve ter feito "nascer" uns quantos terroristas pelo mundo árabe fora. E depois ainda se admiram que o mundo, ingrato, os odeie.

 
A EUFORIA EM BAGDAD. Ontem à tarde, todas as pessoas de bom senso (isto é, todas as pessoas que não têm da democracia uma visão decorativa) ficaram felizes por ver a gigantesca estátua de Saddam arrancada do seu teimoso pedestal. Mas essas mesmas pessoas de bom senso (isto é, todas as pessoas que olham para o mundo com sentido crítico) não podem estar agora sossegadas, como se o pesadelo tivesse acabado de repente e entrássemos agora, cheios de sorrisos, num maravilhoso sonho cor-de-rosa.
Vemos euforia em Bagdad mas importa ter presente que esta alegria da libertação não é a mesma alegria que nós vivemos, em Lisboa, no 25 de Abril de 1974. Deixando de lado as súbitas conversões dos seguidores de Hussein, agora aos gritos de «America yes, Bush is good», há nas imagens que nos chegam muitos sinais preocupantes. Pressente-se nos rostos da multidão, mais do que alívio pelo fim da tirania, um ódio recalcado e inflamável. Observa-se a anarquia a tomar conta de tudo, a pilhagem selvática, o ruir não apenas do regime mas de todos os equilíbrios sociais.
Este é um momento crítico e decisivo, porque se uma guerra está em vias de acabar, há outra que começa com o horizonte próximo da sucessão. Que Iraque teremos daqui para a frente? As respostas possíveis são muitas mas nenhuma me parece, para já, minimamente tranquilizadora.

9.4.03
 
A PERGUNTA (2) Vale a pena dizer ainda, no entanto, que recusamos a ligeireza com que o Pedro Mexia expedia a história, na tal pergunta que nos colocou. Anunciava o Pedro Mexia que iríamos «enquadrar, contextualizar, subtilizar, exemplificar, historicizar». Para ele, «em suma», não íamos «ser claros». Nós já sabíamos que para a Coluna todas essas operações críticas são crimes hediondos de gente opaca, que se refugia em teorias para não responder. Aqui reside uma diferença essencial entre nós. A “clareza” e a “frontalidade” da nossa resposta funda-se precisamente no que procuramos ser uma perspectiva enquadrada, contextualizada, subtilizada, exemplificada e, sobretudo, historicizada. É que da História nós evitamos precisamente ter apenas uma visão “vaga”, para não dizer “cursiva”...

 
A PERGUNTA. Por falar em Coluna Infame e em tête-à-tête, houve um momento importante no debate que temos mantido sobre a guerra no Iraque no lapso de tempo em que estivemos por fora. No sombrio dealbar do conflito, o Pedro Mexia e o João Pereira Coutinho dirigiram a este blog uma pergunta que pretendiam “decisiva”: a Coluna queria saber que «tipo de vitória [esperávamos nós] desta campanha». A pergunta não só não era inocente, como era retorcida, oportunista e cínica (as bombas caíam sobre o Iraque e as vítimas já se acumulavam). Mas merecia uma reacção frontal e sem equívocos. Foi o que fez o Zé Mário (ver mais em baixo o post "a pergunta"). Uma resposta que fala por este blog. O que o Zé Mário aí escreveu, eu subscrevo inteiramente. A queda de um ditador merece sempre ser celebrada e nós nunca fingimos a nossa oposição a Saddam (que é bem antiga). Agora que o seu regime se desmorona, vamos tirar o champanhe do frigorífico.

 
MUDANÇAS. À escala da blogosfera, já o sabíamos, quinze dias é uma eternidade. Por isso não estranhámos esta sensação de Ulisses a chegar a uma muito transformada Ítaca. A rede de blogs adensou-se e diversificou-se, o que é normal. Mas também se tornou mais difícil de acompanhar. Passámos umas boas horas só a sobrevoar as novidades e o resultado foi mais do que animador. Antes de mais pelo aparecimento da Farpa, mais um blog de esquerda crítica e contra-hegemónica, animado pelo nosso amigo Ricardo Noronha. Também pelo novidade de um blog próximo do PS, o país relativo, um site lúcido e interessante. E até o crítico mais veemente e contundente deste blog, o celebérrimo maradona, aceitou finalmente o nosso desafio e criou um blog pessoal (esperemos que não deixe de nos ler e de deixar uns comentários). Pelos vistos, os dias do nosso tête-à-tête com a Coluna infame passaram definitivamente à história.

 
REGRESSO. Os leitores mais recentes deste blog devem ter estranhado o facto de todos os posts serem invariavelmente assinados por um tal de José Mário Silva, quando o pequeno anúncio no canto esquerdo anuncia que esta página tem dois escribas oficiais. Pois bem, existe de facto um outro mano Silva, só que andava desaparecido em parte incerta há mais de quinze dias. Temos por isso o prazer de anunciar que estamos de volta e agradecer os muitos mails preocupados com o nosso paradeiro. Aproveitamos ainda para desmentir categoricamente os insólitos rumores segundo os quais estávamos a servir como escudo humano em Bagdade. Nada disso. Não estávamos nas margens do rio Tigre, mas nas do rio Tibre. A fazer o quê? Turismo cultural, pois então, que isto de ser intelectual de esquerda não perdoa. Muitos museus, livrarias e monumentos. Ou seja, enquanto a esquerda “pura” aguentava as investidas dos fachoblogs e discutia as diferenças entre nazismo e estalinismo na rádio, a esquerda “dura” foi passear-se pelas galerias da villa Borghese, a ver Caravaggio e Bernini. Paradoxos. Prometemos que, a partir de agora, o equilíbrio será reposto.

 
O TESTAMENTO. Ainda o corpo está quente e já os familiares discutem a herança. É a nova moda dos bushistas: defender que quem "sofreu e deu o sangue" por esta guerra deve recolher os dividendos. Os americanos devem reconstruir o que destruíram e distribuir pelas suas empresas as empreitadas. As empresas francesas já disseram ao governo Chirac para não fazer ondas, que a vida está difícil. Os governos que deram o apoio moral, põem-se na fila, a ver se sobra alguma coisa. A Portugal já terá sido dada uma marquise e um fontanário. Mas eu tenho cá para mim uma ideia completamente doida: e se deixassem os iraquianos decidir? São cá maluquices minhas.
Também se discute o novo governo iraquiano. Escusado será dizer que a ninguém passou pela cabeça perguntar aos autóctones a sua opinião. E eleições, nem falar. Já no Afeganistão esse foi um tema tabu. Não fossem os eleitores escolher o governo que queriam, e lá se iam as novas colónias. É que a democracia é uma coisa muito séria para ser tratada por árabes.
(Daniel Oliveira)

 
LIVROS NO SÃO LUIZ. É já hoje, pelas 18.30, que tem lugar no Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz a primeira sessão dos encontros É a Cultura, Estúpido!. Organizados pelas Produções Fictícias, os encontros serão realizados mensalmente, e têm uma entrevista, críticas sobre livros, polémica política e humor, em rubricas como Leitura Obrigatória e O Que Não Ando a Ler. As sessões serão apresentadas por Anabela Mota Ribeiro, e terão como participantes os críticos literários José Mário Silva e Pedro Mexia, os jornalistas João Miguel Tavares e Nuno Costa Santos e os colunistas Daniel Oliveira e João Pereira Coutinho (este últimos realizarão um debate que, nesta primeira edição, será sobre Chomsky e a guerra no Iraque), além de um artista convidado para falar (finalmente) a sério num sketch final – Ricardo de Araújo Pereira. O autor do mês será Pedro Rosa Mendes, que estará presente com o fotógrafo João Francisco Vilhena, para falar de Atlântico – Romance Fotográfico, obra feita a quatro mãos e que será lançada amanhã. A entrada é livre.

8.4.03
 
OS BIMBOS. O ICEP quer cobrir o Terreiro do Paço de relva sintética durante o Euro 2004, como promoção do acontecimento. Acho muito bem. Não fossem os turistas pensar que o nosso país existia antes de se inventar o futebol. Afinal de contas só se construíram dez estádios. Ainda há tanta praça para gramar. Que mil relvados floresçam na bimbalhice nacional. (Daniel Oliveira)

 
VERSOS QUE NOS SALVAM. Após um primeiro contributo que gerou acesa polémica, Teresa Santos Silva enviou-nos novo poema, desta vez de um autor consensual: João Cabral de Melo Neto. Os versos podem encontrar-se no volume da «Poesia Completa 1940-1980» (edição da Imprensa
Nacional-Casa da Moeda).


TECENDO A MANHÃ

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia ténue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.


 
PRESOS EM CUBA. Sete opositores ao regime cubano foram presos por delito de opinião. Castro aproveitou assim um sentimento de revolta em relação aos Estados Unidos para fazer sentir a sua mão pesada sobre jornalistas, intelectuais e activistas pelos direitos humanos. Enquanto o bloqueio americano durar, Fidel está seguro. O bloqueio une os cubanos, deixando sempre para mais tarde a oposição à ditadura. Com os mafiosos de Miami à espreita, parecem preferir o menos mau. No meio, democratas que, mantendo-se em Cuba, não desistem de lutar pela liberdade sem pedir autorização aos EUA, são as vítimas do costume. (Daniel Oliveira)

 
DESCULPEM QUALQUER COISINHA. Ninguém me criticou por falta de independência. Criticaram porque acham haver uma espécie de incompatibilidade entre a participação cívica e a militância partidária. Quanto ao facto de ser assessor do BE, nunca me impediu de tomar posições diferentes do meu partido, que, felizmente, o permite. Só assim poderia ser militante do BE. Era já assessor do Bloco quando escrevi um artigo no «Público» sobre Barrancos, tomando uma posição contrária à do Bloco. E ainda aqui ando, vivo e com o ordenado em dia. Sempre fui livre e não me sinto diminuído por estar a tempo inteiro num partido. Não sou mercenário, defendo o que quero. O Zé Mário disse de onde eu vinha, e fez bem. Assim, não há equívocos. Aqui estou para debater sem pedir autorização a ninguém. Não sou porta-voz de ninguém. Espero, portanto, que não me tenham sido retirados os direitos cívicos fundamentais no dia em que entrei para um partido. (Daniel Oliveira)

 
PEDIDOS DE ESCLARECIMENTO À MESA. Pelas mais variadíssimas vias, incluindo o e-mail e a área de comentários aos posts, muitos leitores têm feito chegar aos responsáveis por este blog as suas preocupações com uma eventual partidarização desta página. Tudo porque um dirigente do Bloco de Esquerda, o Daniel Oliveira, iniciou uma colaboração que se prevê assídua. Convém por isso esclarecer, mais uma vez, alguns pontos essenciais:

1) Este blog não será nunca um espaço “ao serviço” do Bloco de Esquerda (chamemos-lhe a "síndrome Pacheco Pereira"). É, como alguém já disse, apenas e só o blog dos “irmãos Silva”.

2) O Daniel é um dirigente do Bloco mas é também um cidadão com opiniões políticas próprias, muitas vezes não coincidentes com as posições do seu partido. O Daniel que colaborará neste blog é o cidadão, não é o dirigente.

3) Há muitos casos de políticos partidários que se limitam a repetir o discurso (ou a cassete) dos líderes. Não é, manifestamente, o caso do Daniel Oliveira, um heterodoxo que não se coíbe de defender a sua heterodoxia. Se fosse um papagaio ou um Bernardino bem comportado, não teria lugar no Blog de Esquerda. Mas o Daniel não é nada disso, como os mais cépticos vão compreender rapidamente.

4) As opiniões que o Daniel defender são dele e só dele. Os nossos leitores (de esquerda e de direita) podem concordar ou discordar, como concordam ou discordam das minhas. De qualquer forma, há sempre um espaço de comentário onde lhes é permitido exercer o direito à discordância, ao contraponto e à polémica (mas não ao insulto).

5) Eu conheço o Daniel e sei que ele pode enriquecer os debates que se fazem neste blog. Compreendo as resistências iniciais, sintomáticas de uma desconfiança aguda em relação aos partidos políticos, mas acreditem que tudo isto não passa de uma tempestade num copo de água. A suspeita de “manipulação” desta página só se explica porque a maior parte dos leitores não conhece, de facto, o Daniel Oliveira. Ou ainda não me conhece a mim. Nada que o tempo não resolva.

 
LIVROS NO SÃO LUIZ. Amanhã, pelas 18.30, tem lugar no Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz, a primeira sessão dos encontros É a Cultura, Estúpido. Organizados pelas Produções Fictícias, os encontros serão realizados mensalmente, e têm uma entrevista, críticas sobre livros, polémica política e humor, em rubricas como Leitura Obrigatória e O Que Não Ando a Ler. As sessões serão apresentadas por Anabela Mota Ribeiro, e terão como participantes os críticos literários José Mário Silva e Pedro Mexia, os jornalistas João Miguel Tavares e Nuno Costa Santos e os colunistas Daniel Oliveira e João Pereira Coutinho (este últimos realizarão um debate que, nesta primeira edição, será sobre Chomsky e a guerra no Iraque), além de um artista convidado para falar (finalmente) a sério num sketch final – Ricardo de Araújo Pereira. O autor do mês será Pedro Rosa Mendes, que estará presente com o fotógrafo João Francisco Vilhena, para falar de Atlântico – Romance Fotográfico, obra feita a quatro mãos e que será lançada no dia 10 de Abril. A entrada é livre.

7.4.03
 
BLOG, NÃO BLOCO. A animosidade que se instalou em redor do Daniel Oliveira revela bem a falta de confiança que os portugueses têm nos seus partidos, "tradicionais" e não só. É um verdadeiro "case-study". Deveriam alertar o Prof. Villaverde Cabral para isto. Para sossegar os leitores do Blog de Esquerda, quero partilhar um texto escrito por mim faz agora um ano, na altura das legislativas:

«O Bloco de Esquerda padece daquilo a que Lenine chamou "a doença infantil do comunismo". A sua actuação, acreditem, é curiosamente semelhante em muitos pontos ao que se chama "esquerda" aqui nos EUA. E deveriam reflectir sobre isso, uma vez que não existe país onde a esquerda seja mais ineficaz do que este. É em nome dos discriminados negros que alguns dirigentes do Bloco defenderam as pichagens (vulgo grafitti) como forma de expressão "legítima" (para isso, prefiro o MRPP). É provavelmente em nome de alguma "minoria" que se sente discriminada que o Bloco quer as medicinas "alternativas" nos hospitais públicos. Charlatães pagos com os nossos impostos! Isto para mim foi a gota de água. Valha ao menos o facto de o Bloco dizer claramente que não viabilizará nenhum governo e que será sempre oposição! Somando tudo isto, no contexto destas eleições em que o que está em causa é a formação de uma maioria no Parlamento, e querendo eu que dessa maioria saia um governo de esquerda, concordo com Ferro Rodrigues quando ele diz que, nestas eleições, o voto no Bloco é "totalmente inútil".»

Ou seja, não tenham medo, que o Blog não é o Bloco. Para cascar na esquerda Lux - agora até dizem mal da FNAC, meu Deus! - e no pedantismo do Prof. Porventura cá estarei eu, sempre que o tempo (escasso - estou a escrever uma tese...) mo permita. E outros colaboradores. E agora, as boas vindas ao prolixo Daniel Oliveira!
(Filipe Moura)

 
ROGEIRO & AS BOMBAS INTELIGENTES. Hoje, no espaço de opinião do Público, encontrei dois artigos a merecer uma leitura atenta. Por um lado, o sarcasmo de Rui Baptista, ridicularizando em Uma Questão de Fardas a sapiência todo-o-terreno de Nuno Rogeiro. Por outro, a memória de Graça Castanheira (documentarista), que viu em Belgrado os efeitos dos bombardeamentos "humanitários" dos americanos: «As bombas não são bisturis de alta precisão, são - e sempre serão - armas de destruição maciça. Não duvido da sua inteligência enquanto voam direitas aos seus alvos, mas serão sempre estúpidas quando rebentam.»

 
O SEGREDO DE JCN. Fonte insuspeita garantiu-me que as crónicas de João César das Neves não são escritas pelo próprio (ouve-se o bruaá na sala) mas antes por uma "task force" das Produções Fictícias. Eu sempre me pareceu que aqueles textos eram maus demais para serem verdadeiros...

 
O ABOMINÁVEL CÉSAR DAS NEVES. Após um breve interregno, por causa da guerra e de questões económicas (em que é perito), o moralista-mor do reino está de volta. E as saudades que nós já tínhamos de ler passagens João César das Neves "vintage"...
Como esta:

(...) Quem defende a família é hoje condenado pelos sumos sacerdotes do deboche com a acusação suprema de moralismo e hipocrisia. Como se o dogmatismo inverso não fosse muito mais totalitário. (...) O sexo é a nossa capacidade mais maravilhosa, a única força do universo que propaga a vida racional. É evidente a sua enorme influência na psicologia e formação de carácter. Mas também sempre foi evidente a necessidade de controlar a sua força excessiva. Se, por exemplo, alguém dedicasse à comida a atenção que presta ao sexo, seria um doente. Que diríamos de quem passasse a vida a contar anedotas sobre refogados, compor baladas a pastéis ou mandar piropos às montras de mercearias? Que diríamos de alguém disposto a fugir de casa por um bom «bacalhau à Braz»? Ou da empresa que usasse caldeirada e puré para publicitar carros, revistas ou sabonetes? Estes comportamentos, desequilibrados na comida, são correntes no sexo. Por isso todas as culturas e épocas usaram práticas, hábitos e costumes para controlar essa veemência, evitando os seus desequilíbrios. Nunca se achou que o prazer sexual tivesse de ser aguçado. Precisa é de ser controlado. Vivemos na primeira época que caiu no ridículo de tentar «eliminar tabus» e estimular o sexo, não por razões pessoais, mas por interesses comerciais. Vivemos mergulhados em estímulo sexual por causa dos carros, revistas e sabonetes. O sexo é hoje uma indústria de sedução e manipulação por estratégia empresarial. Os nossos intelectuais, sempre prontos a condenarem as empresas, estão estranhamente silenciosos quanto a isto. Porquê?
Desta ditadura intelectual nasce a tragédia. Os recentes casos de pedofilia resultam todos da destruição da família e da cultura do prazer. E todos, mesmo todos, são homossexuais. Quem se atrever a apontar isso é repudiado violentamente, com uma sanha tanto mais furiosa quanto luta, não contra uma opinião, mas contra a evidência.


Entre a mais completa irresponsabilidade («Os recentes casos de pedofilia resultam todos da destruição da família e da cultura do prazer. E todos, mesmo todos, são homossexuais»!) e a mais completa imbecilidade («mandar piropos às montras de mercearias»? «vivemos mergulhados em estímulo sexual por causa dos carros, revistas e sabonetes»?), venha o diabo e escolha.
O artigo completo pode ser lido na edição de hoje do DN.

PS: Espero que o Animal do Blogue dos Marretas tenha lido esta crónica com muita atenção. «Nunca se achou que o prazer sexual tivesse de ser aguçado. Precisa é de ser controlado». Ouviste, ó Animal?

 
COM R. Ó meus amigos... Eu até gosto, em geral, do arranjo gráfico da colecção Mil Folhas – esses livros de capa dura que o Público tem vendido a preços módicos à quarta-feira. A aposta tem sido nos tons pastel, com uma fotografia a preto e branco, tudo muito sóbrio e equilibrado.
Mas, já se sabe, no melhor pano cai a nódoa. Viram a apresentação do próximo volume – o n.º 45 (!) – que vai espalhar pelos quiosques deste país o celebrado «Retrato de Dorian Gray»? Pois é. Mesmo sabendo que o autor da obra-prima foi Oscar Wilde, acho que não era preciso pespegar com um rapazinho angélico na capa. O título pode induzir em erro, mas Gray escreve-se com "r".

 
VERSOS QUE NOS SALVAM. O livro é do ano passado, intitula-se «Museu das Janelas Verdes» (Relógio d'Água) e todos os seus poemas – magníficos poemas – se referem a obras do Museu Nacional de Arte Antiga. Naquele que escolhemos, «Paisagem», João Miguel Fernandes Jorge reinventa verbalmente uma tela pintada por Jan van Goyen, em 1653. Crítico de artes plásticas, além de poeta, JMFJ sabe, melhor do que ninguém, cumprir o velho mote: «Ut pictura poesis».


PAISAGEM

Canais de Holanda
caminhos que levam
a um tempo passado.
Meu amigo de Holanda
disse-me adeus
do embarcadouro
foi viver para
Amersfoort.
Agora sei
meu amigo de Holanda
branco como a branca
gola que van Goyen
usou sobre a negra
veste

eu sei
meu amigo de Holanda
passeia na praça da
igreja
três naves cobertas
com três telhados
que mais parecem
fábrica de tijolo

ele passa sobre a ponte
do canal
vê os cisnes
e logo os campos de
Amersfoort
e eu não vejo de
Holanda o meu amigo –
não sei
qual de nós separa os
mortos
das tábuas podres
que vogam nos canais.


 
TROPAS OCUPAM TELEJORNAIS. Os militares tomaram conta das nossas ondas hertzianas. Todos os dias se apresentam ao serviço, por ordem de um oficial de dia que nunca foi à tropa. As televisões recebem-nos para o cumprimento de mais uma missão. Nos telejornais, preparam o terreno (é como eles chamam aos bombardeamentos), provocam danos colaterais (o nome de código para a morte de civis) e desenvolvem acções psicológicas (mentira e propaganda, na gíria militar). Os técnicos da guerra ganharam posições fazendo recuar o debate político. Porque a política, já se sabe, é demasiado importante para ser deixada aos cidadãos. Depois de tomarem os governos, a tropa tomou as redacções. Que retirem as suas forças dos noticiários, era tudo o que queríamos. (Daniel Oliveira)

 
DA TRADIÇÃO É QUE ELES GOSTAM. Os infames estão zangados com uma proposta do Bloco de Esquerda que permite (vejam o escândalo) o divórcio a pedido de um dos cônjuges. Dizem que esta esquerda adora números de circo e abomina a tradição. De facto, se a tradição for o casamento coercivo, o divórcio com cenas de pugilato e a obrigação no lugar dos afectos, sim, que morra a tradição. Umas bofetadas na mulher, um avental e roupa para passar, assim é que querem a família. Eterna e fiel. (Daniel Oliveira)

 
TREMAM, FACHOBLOGS. A partir de hoje, o Blog de Esquerda passa a contar com um reforço de peso na sua lista de colaboradores: Daniel Oliveira, assessor de imprensa do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda e cronista de A Capital (não confundir com O Capital). Em suma, um polemista "à séria", capaz de fazer a cabeça em água aos blogs reaccionários que se multiplicam por aí. Querem um conselho, ó conservadores/liberais/bushistas? Vão limpando as armas retóricas porque novos combates se avizinham. A luta ideológica, meus amigos, está só a começar. E eu, ao pé do Daniel, até vou parecer o Kofi Annan...



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