BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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6.4.03
 
SANGUE. Foi há pouco, no Telejornal, após um aviso solene do José Alberto Carvalho: «as imagens que vamos mostrar de seguida não foram editadas» (isto é: «preparem-se para mais Choque e Pavor informativo porque guerra é guerra e nós mostramos tudo»). Vemos carros a arder, corpos em pedaços e um pânico total – danos colaterais provocados por mais um ataque de "fogo amigo", desta vez sobre uma coluna de guerrilheiros curdos, escoltada pelas forças americanas. Balanço provisório: 18 mortos, entre os quais o tradutor de uma equipa da televisão inglesa.
Ferido, o operador de câmara cambaleia e pousa a máquina no meio das ervas. Foi então que vi sangue na objectiva da câmara de filmar. Gotas de sangue na lente, como nos filmes gore. Sangue verdadeiro, sangue humano, sangue sangue, daquele que não se apaga, daquele que não se limpa (como o sangue nas mãos de Macbeth).
Por uma vez, dizer que o ecrã se encheu de sangue não foi uma figura de estilo. Quando o horror invade o mundo, desaparecem as metáforas.

 
BRITCOM. Das várias sitcom da BBC que a RTP2 nos tem dado a conhecer, «The Office» é uma das melhores. Brilhante, brilhante, brilhante. Destaque para a personagem do chefe, um imbecil incapaz de olhar para o abismo da sua mediocridade. Garanto-vos: desde o lendário George, o rei dos «loosers» de Seinfeld, que não me deparava com uma figura tão hilariantemente patética.

5.4.03
 
FOGO ANTI-GUERRA. Na República Checa, quatro jovens morreram nas últimas semanas em acções de protesto contra a guerra do Iraque e a política externa americana. Como? Através do fogo. Imolando-se. Imolando-se por uma causa que não lhes dizia directamente respeito. Quatro jovens.
Tento imaginá-los. Tento imaginar as labaredas. Pergunto-me: o que pode motivar tão drásticos sacrifícios? Respondo-me: não sei, não sei mesmo, isto tudo é tão estranho. Depois, volto a pegar no diário de Kafka. Procuro o dia 2 de Agosto de 1914. A célebre entrada: «A Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde fui nadar».
Pouso o livro. Abro uma janela. Se fumasse, acenderia um cigarro. Penso nos quatro jovens, compatriotas de Kafka. Os Estados Unidos declararam guerra ao mundo (o mundo não americano é, todo ele, terrorista). E os rapazes não foram nadar.

 
ENTRE MUROS. Estreia hoje no Cine-Paraíso (R. do Loreto, 15; junto ao Largo Camões) o documentário «Entre Muros», de João Ribeiro e José Filipe Costa, que acompanha a vida em Portugal de dois imigrantes ucranianos: as suas rotinas, as suas esperanças e desilusões, o seu isolamento (porque são clandestinos), o regresso à pátria. O filme acaba por ser o retrato intimista de uma realidade que a maior parte de nós desconhece. A imigração a rimar com exploração. E imagens desse exílio voluntário, longe da casa construída a pouco e pouco, longe da neve. Imagens com a lentidão dos gestos verdadeiros. Imagens suspensas numa espécie de melancolia a que chamaríamos saudade. Sim, eu gostei mesmo deste filme.

 
VERSOS CONTRA A BARBÁRIE. Do poeta brasileiro Murilo Mendes (1901-1975), de quem a Quasi acaba de editar «Janelas Verdes» (registo em prosa poética das suas impressões sobre Portugal e os portugueses), escolhemos o poema «Alta Tensão»:

ALTA TENSÃO

Salve mundo de amanhã
Que possuirás meus ossos,
Fuzilarás talvez meus sobrinhos:
Espero não te legar filhos
Para massacrares na guerra.

Os sem-trabalho vão visitar o ditador,
Recebem presentes de granadas.
Os banqueiros protegidos
Por máscaras contra gases asfixiantes
Montam guarda à porta dos palácios.
Meu anjo da guarda não aparece,
Os aviões inimigos
Estabelecem uma forte cortina de cerração
Em torno do seu corpo.
Minha mãe num delírio
Sai do arco-íris tocando piano
Que só eu escuto na desordem geral.

A tarde nasce com cuidados de manhã.
As órfãs vão passear de uniforme na praia
Enquanto as filhas dos capitalistas
Jogam bola diante delas,
Deslizam na bicicleta,
Voam na lancha azul.
Os elementos não me pertencem,
Não posso consolar
Nem ser consolado;
Não posso soprar em ninguém
O espírito da vida
Nem ordenar o crescimento das crianças
Nem oferecer uma aurora boreal à minha amada
Nem mudar a direção do olhar da amada,
Nem mudar – ai de mim! – a direção do mundo.


 
AINDA FERNANDA DE CASTRO. Outro e-mail do Francisco Frazão:

O poema da Fernanda de Castro não é "apenas um poema", é um poema cujas verdadeiras potencialidades só serão reveladas se for declamado da forma mais dramática possível: carregando nos "punhais" e nas "espadas" (com a respectiva "stabbing motion" a acompanhar), não deixando passar em claro nenhum ponto de exclamação, rugindo ao dizer "tigre", saltando ao dizer "gazela" e cantando, cantando sempre!...
Não quero ferir os sentimentos de ninguém mas, por uma questão de método científico, talvez o título do post devesse excepcionalmente ser, em vez de "Versos que nos salvam", "Versos que salvam a leitora Teresa Santos Silva". Era mais seguro. Com esta base podia-se então recorrer ao método indutivo e começar a sugerir poemas para esta nova secção. Há sugestões?


Francisco:
Tu não perdoas nada e eu gosto disso. És a nossa voz da consciência, atenta aos "desvios" perigosos. Só que desta vez acho que exageras, mesmo se a tua indignação é em grande parte irónica.
Deixa lá a Fernanda de Castro em paz. «Versos que nos salvam» é apenas o nome de uma rubrica aberta à participação dos leitores. Leitores que se responsabilizam, ao assinar, pelo que dizem e pelas sugestões que fazem. Foi o caso da Teresa Santos Silva, como já expliquei noutro post. Se achássemos o poema da Fernanda de Castro ideologicamente deslocado, ou esteticamente lamentável, nunca o publicaríamos. End of story.


 
FNAC. Do nosso amigo e colaborador Francisco Frazão recebemos este e-mail:

Sou contra a «Ode à FNAC» que o ZMS tresleu no título do poema do Jorge de Sena.
A FNAC tem muitos livros mas raramente encontro aqueles de que vou à procura. Os poucos livros bons (há poucos livros bons) são, na FNAC, ofuscados pelos muitos livros maus (há muitos livros maus): como a FNAC quer aparentemente ter "tudo", acaba por ter muito do muito que é mau e pouco do pouco que é bom (a "personalidade" de uma livraria é definida pela sua escolha: a FNAC prefere não escolher).
Na FNAC faz muito calor.
Não se pode entrar na FNAC com um livro na mão: esse livro tem de ser acondicionado num saco da FNAC, saco esse que é selado com um autocolante da FNAC. O livro fica então de quarentena até à saída, evitando-se assim que contamine os livros da FNAC. É como as fitas de plástico amarelas que se põem à volta do local onde um crime foi cometido e um crime talvez tenha sido de facto cometido: aquele livro pode não ter sido comprado na FNAC.
Às vezes vou à FNAC (às vezes compro livros na FNAC). Preferia não o fazer.
É melhor haver FNAC do que não haver? Será. Mas era melhor ter melhor do que a FNAC. O que não quer dizer ter uma FNAC melhor.


Francisco:
A ver se nos entendemos. Eu não tresli. A referência à FNAC era uma ironia, uma brincadeira com a alusão aos «livros que não posso comprar» (fantasma partilhado por todos os bibliófilos). E por que razão "escolhi" a FNAC? Simplesmente porque é na FNAC que mais vezes me sinto tentado a desbaratar a minha esquálida conta bancária. Concordo que ali há «muito do muito que é mau e pouco do pouco que é bom», mas o pouco do pouco que é bom não deixa de ser muito (repara que as lojas da FNAC são enormes). Resumindo: «livros que não posso comprar» é o que há mais nas amplas FNAC do Chiado e do Colombo. Falo por mim, claro. Aliás, se quiseres até posso apresentar-te uma lista das obras que só ficariam ao meu alcance, hélas, se algum mecenas decidisse investir, a fundo perdido, nas minhas leituras (deixem-me fantasiar um bocado), ou se arranjasse maneira de aplicar, para reforço da modesta biblioteca lá de casa, um qualquer obscuro (quero dizer, inexistente) fundo estrutural da União Europeia.
Não discuto que o critério da FNAC é demasiado abrangente e assino por baixo quando escreves que «a "personalidade" de uma livraria é definida pela sua escolha: a FNAC prefere não escolher». Garanto-te que a FNAC está muito longe de corresponder ao meu ideal de livraria (prefiro a Ler Devagar, por exemplo, para não falar de uma boa dezena de antros de perdição, lá para os lados do parisiense Quartier Latin). Mais: estou contigo na raiva contra o "apartheid" que condena os nossos livros - esses intrusos - a um temporário exílio dentro de um claustrofóbico saco de plástico.
Acontece que não sou fundamentalista como tu, Francisco. A FNAC pode não ser perfeita. Pode falhar na questão do ar condicionado. Mas foi lá que encontrei (a um preço simpático, é bom não esquecer) grande parte das obras que fazem das minhas estantes uma aproximação do paraíso.


 
PEQUENA DÚVIDA INGÉNUA. Será que nos muitos briefings e trabalhos de preparação para esta guerra, os soldados americanos foram informados sobre a História riquíssima do país que neste momento estão a bombardear? Além dos esquemas tácticos e dos planos de voo dos F16 e das lições sobre a melhor forma de fazer com que um Tomahawk acerte, cirurgicamente, no alvo, alguém lhes terá dado umas luzes sobre o que foi a Mesopotâmia, Nabucodonosor, a Babilónia, os jardins suspensos, Ur, a escrita cuneiforme, o código de Hamurabi? Será que os soldados de infantaria, com óculos escuros e pinta de Rambo, ao pisar aquela terra árida, aquele deserto que começaram a detestar desde o primeiro minuto, fazem pelo menos ideia de que foi ali, entre o Tigre e o Eufrates, que nasceu a civilização humana? A mesmíssima civilização que é suposto defenderem?

 
MST. Eu nem sempre concordo com o que pensa e escreve o Miguel Sousa Tavares, mas uma coisa é certa: seja a criticar os crimes dos patos-bravos na costa alentejana, ou os desvarios estratégicos dos vários governos que têm feito com que o nosso país vegete na mais deprimente mediocridade, ele sabe "dizer mal" como poucos. E mesmo quando lhe falta a razão, sobra-lhe sempre a ferocidade da linguagem, uma invejável capacidade argumentativa e um talento para incendiar os ânimos, pôr o dedo na ferida, separar as águas. Por tudo isto, é com uma secreta satisfação (e alívio) que o vejo do lado certo da barricada, no que à guerra diz respeito. Um exemplo? A crónica que assinou ontem no Público e onde se pode ler isto: «(A guerra) às vezes é necessária, é justa, é digna, é o último recurso de homens livres. Mas ficar entusiasmado quando se vê aquelas caras distorcidas pelo ódio e pelo desprezo de um Bush, um Rumsfeld, um Cheney, um Wolfowitz, a anunciar o "choque e pavor" sobre um povo a quem já bastava o Saddam para ter uma vida miserável, desculpem que vos diga, ou é uma doença nova de intelectuais ou é uma grave perturbação do foro psicológico». Nem mais, Miguel. Para basófia e arrogância civilizacional, já bastam o Vasco Graça Moura e o Pacheco Pereira.

4.4.03
 
O FILME MALDITO. Estreia hoje em Portugal, at last, «Bowling for Columbine», o premiadíssimo documentário de Michael Moore, panfleto provocador que a direita, compreensivelmente, odeia de uma forma visceral. O melhor, minha gente, é ter muito cuidadinho porque os fachoblogs já devem estar a limpar as carabinas. E a nossa sorte é que não estamos nos EUA. Se estivéssemos, os direitistas andariam por esta altura a fazer fila nas caixas registadoras do Pão de Açúcar, com os carrinhos cheios das munições de que precisam para nos «correr a tiro»...

 
É A CULTURA, ESTÚPIDO! No próximo dia 9, quarta-feira, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, às 18h30, arrancará de forma imparável (esperemos...) um novo conceito de debate público sobre livros e temas culturais. Sob a égide das Produções Fictícias, no «É a Cultura, Estúpido!» haverá análise crítica (pela dupla interbloguística Pedro Mexia/José Mário Silva), entrevista a escritores (por Anabela Mota Ribeiro), momentos de humor, colaboradores permanentes (Nuno Costa Santos, João Miguel Tavares, Nuno Artur Silva) e um aliciante "duelo de titãs" ideológico, entre João "O Desbocado Infame" Pereira Coutinho e Daniel "O Esquerdista de Aço" Oliveira. Na primeira sessão, teremos como convidados o escritor Pedro Rosa Mendes e o fotógrafo João Francisco Vilhena, que falarão do livro que fizeram a quatro mãos: «Atlântico - Um Romance Fotográfico» (Temas e Debates). Agora que já sabe (quase) tudo, não perca o «É a Cultura, Estúpido», ao vivo e a cores. A entrada é gratuita. Faltam 5 dias.

 
TEMPESTADE DE AREIA (2). Alguém acredita mesmo nas imagens que nos mostram? Quem são estes soldados, estes prisioneiros, estes mortos? Que explosões são estas? Qual é a verdade verdadeira por trás de tantas verdades aparentes, tantos exageros e simulacros? Há muita areia no ar, muita. Quando é que ela assenta de vez?

 
TEMPESTADE DE AREIA. A CNN faz propaganda sem pudor. A Sky News faz propaganda sem pudor. A Al-Jazira faz propaganda sem pudor. A RTP retransmite todas estas propagandas, sem pudor. E nós aceitamos tudo passivamente, sem poder.

 
NB(W)A(R). Nos EUA, a guerra afecta todos os níveis da sociedade. Até mesmo o desporto. Segundo o DN, as autoridades da NBA (Associação Nacional de Basquetebol) apelaram ao «sentido patriótico» e proibiram os jogadores de criticar a intervenção americana no Iraque. Quem se mostrar contrário à guerra, ou às ordens de George W. Bush, corre o risco de sofrer penalizações. E viva a liberdade de pensamento.
Emanuel Ginobili, um argentino que joga nos San Antonio Spurs, põe o dedo na ferida: «Não sei se nos Estados Unidos se tem uma ideia clara sobre o que está a acontecer. Os media ocultam bastante, a CNN emite o que quer no país, e por isso não temos uma ideia realista sobre o que sucede no Iraque». É bom perceber que ainda há alguma lucidez por baixo das tabelas.
Ginobili, amigo, para mim já és um MVP, um verdadeiro all star.

 
DUELO. Por e-mail, o nosso amigo Fernando Venâncio, leitor atentíssimo da blogosfera e conselheiro linguístico, chama-nos a atenção para uma diatribe literária que vale a pena acompanhar a par e passo. No semanário Euronotícias (sai às sextas), uma dupla de brilhantes cronistas epistolares vai trocando, alternadamente, mimos e pérolas de retórica. De um lado está Carlos Leone, sob o disfarce da «Esfinge Gorda»; do outro o próprio Venâncio, assumindo-se como «Estátua Famélica». E o resultado, as mais das vezes, é uma delícia. Espreitem aqui a última crónica (e os seus notáveis «zooms») para terem uma ideia.

 
PRÉMIO TATUAGEM FARFALHUDA. Esta semana, o galardão vai direitinho para Miriam Assor, essa prosadora de finíssimo recorte estilístico que escreve n' O Independente. Qual Eça, qual Flaubert, Miriam é que é! Leiam as crónicas ultra-pró-sionistas da rapariga e pasmem. Estou em crer que nem os serviços de Relações Públicas do Sr. Sharon conseguem alcançar tais cumes de fervor patriótico e proselitismo.
Mas vejamos dois exemplos do texto que a jornalista (?) dedica, hoje, ao livro A Guerra Infinita, de Francisco Louçã e Jorge Costa (autor que nem sequer é referido):

1) «Não tenho dúvidas nem medo, o anti-semitismo já pode usar saias sem o saiote. A Intifada deu asas para ele ser vomitado sem cerimónia».

2) «A Guerra Infinita está carregado de mau hálito e transborda a facciosismo epiléptico, fomenta a militância do ódio e foi inspirado para esmurraçar os outros. Se o propósito era concentrar outra manifestação a favor da Paz, pois bem, novamente, missão falhada; nem pela fechadura entrou uma migalha do antónimo da guerra. Pelo contrário - palavras, floretes e machados que consentem Saddam e nem com uma lupa tocam em García Lorca».

Sobre o livro propriamente dito e as suas teses? Nada. Só rancor, só raiva surda, só metáforas rasteiras. E uma descaradíssima má-fé. Vasco Graça Moura que se cuide. No reino das crónicas políticas lamentáveis, a esforçada Miriam é uma rival à altura.

 
CHAMADA DE CAPA. Reparem neste título retirado da primeira página de O Independente: «Americanos tomaram aeroporto de Bagdade e reportagem de Martin Adler na Síria». O que é que está mal, para além da sintaxe? Resposta: a segunda parte da frase. É que não foi só a reportagem de Martin Adler que os americanos «tomaram». Foi todo o jornal.

 
DEMISSÃO. Como nos bons velhos tempos, O Independente forçou hoje a demissão de um ministro. Contas na Suíça, património não declarado - adeus, Isaltino. Sim senhor: eis uma bela prenda para Durão Barroso, quando passa um ano sobre a entrada em funções deste governo...
Só não compreendo a urgência com que o ex-autarca de Oeiras pediu a demissão. Afinal de contas, ele nada fez que se visse durante meses, não tomou uma única medida de fundo e nem sequer esboçou uma reforma. Na prática, demitir-se agora ou há seis meses teria sido (quase) igual. Para quê a pressa? Isaltino não precisa de sair a correr do Ministério das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente porque, na verdade, nunca chegou a entrar. Já lá dizia La Palice: para concluir alguma coisa é preciso começá-la.

3.4.03
 
VERSOS QUE NOS SALVAM. Ainda Jorge de Sena, desta vez com um poema escrito a 27 de Junho de 1944. Um poema actualíssimo, se ignorarmos a referência aos tostões para o eléctrico e o título longo que hoje se resumiria numa palavra («FNAC»).

ODE AOS LIVROS QUE NÃO POSSO COMPRAR

Hoje, fiz uma lista de livros,
e não tenho dinheiro para os poder comprar.

É ridículo chorar falta de dinheiro
para comprar livros,
quando a tantos ele falta para não morrerem de fome.

Mas também é certo que eu vivo ainda pior
do que a minha vida difícil,
para comprar alguns livros
- sem eles, também eu morreria de fome,
porque o excesso de dificuldades na vida,
a conta, afinal certa, de traições e portas que se fecham,
os lamentos que ouço, os jornais que leio,
tudo isso eu tenho de ligar a mim profundamente,
através de quanto sentiram, ou sós, ou mal-acompanhados,
alguns outros que, se lhes falasse,
destruiriam sem piedade, às vezes só com o rosto,
quanto humanidade eu vou pacientemente juntando,
para que se não perca nas curvas da vida,
onde é tão fácil perdê-la de vista, se a curva é mais rápida.
Não posso nem sei esquecer-me de que se morre de fome,
nem de que, em breve, se morrerá de outra fome maior,
do tamanho das esperanças que ofereço ao apagar-me,
ao atribuir-me um sentido, uma ausência de mim,
capaz de permitir a unidade que uma presença destrói.

Por isso, preciso de comprar alguns livros,
uns que ninguém lê, outros que eu próprio mal lerei,
para, quando se me fechar uma porta, abrir um deles,
folheá-lo pensativo, arrumá-lo como inútil,
e sair de casa, contando os tostões que me restam,
a ver se chegam para o carro eléctrico,
até outra porta.


 
VERSOS CONTRA A BARBÁRIE. No momento em que as tropas americanas estão prestes a entrar em Bagdad, para gáudio das televisões nacionais e estrangeiras (todas elas ávidas do exclusivo, em directo, do “último assalto”), relembramos um poema escrito por Jorge de Sena em Agosto de 1969:

CADASTRADO

Uma vez, aos sete anos,
partiu à pedrada a lanterna da porta da igreja.

Dez anos depois, conduzindo um carro,
não parou num cruzamento de rua
onde havia um sinal de stop.

Dois anos depois, teve uma briga
num bar, e partiu a cabeça de um amigo
com uma garrafa de cerveja.

Quando se recusou a combater no Viet-Nam,
o seu cadastro provara como desde a infância
sempre manifestara sentimentos
nitidamente de traidor à pátria.


 
ERVAS, SOMBRAS. A propósito do belíssimo Grande Herbário de Sombras, feito por Lourdes Castro na Madeira (em 1972) e publicado recentemente pela Assírio & Alvim, escreveu Tonino Guerra (assombroso escritor e argumentista de cinema):

Começava a nevar em Pennabilli e eu detinha o olhar na neve que caía sobre as amendoeiras, em redor da casa, quando me chegou o Grand Herbier d`Ombres. É um livro com as sombras de muitas ervas do campo, da pintora Lourdes Castro, grande artista portuguesa que reproduz sombras de pessoas ou de outras formas de vida. Olhava eu, assim, os bordados da neve e logo depois as páginas do livro.
Num determinado momento, no branco do vale, vi manchas escuras que subiam da minha memória. Eram as sombras que passavam pelo tecto do meu quarto dia do regresso da prisão, na Alemanha, e eu, naqueles reflexos, procurava reconhecer os meus conterrâneos. Depois vi o vale, além da janela, atravessado pela grande sombra do obelisco da Praça de S. Pedro, num dia de Agosto, quando Roma me apareceu deserta. E no entanto, os turistas estavam à fresca, na sombra daquele obelisco se apinhavam.
De repente, pensei nos belos dias de Agosto com Andrei Tarkovski quando trabalhávamos no filme Nostalgia, em Bagno Vignoni. A pequena aldeia toscana tem, na praça, um lago de água quente criando nuvens de vapor que enevoam, qual mundo medieval. É nestas águas que Catarina de Siena banhava seu corpo e as palavras de sua oração. Uma manhã entrámos na pequena igreja, na margem da rua que contorna o grande lago. Sentámo-nos sobre um banco de madeira para gozar aquele silêncio abandonado. Descobrimos que o feixe de luz matutina proveniente de uma janela alta estampava sobre a parede interior, junto de nós, uma pequena planta selvática crescida sobre o terriço trazido pelo vento, sob o pequeno vitral. Uma sarça de sombras incertas que se tornava decoração naquele reboco gessoso e humilde. Eu e Andrei permanecemos por algum tempo contemplando estas imagens trémulas que nos traziam reflexões profundas. A um certo ponto pareceu-nos sentir no ar um perfume de menta. Levantámo-nos de imediato para descobrir aquela imagem sobre o muro e perceber se a fragrância vinha daquela sombra. Assim era.
É por isso que agora aproximei do nariz as sombras de Lourdes Castro que possuem uma presença viva e misteriosa capaz de fazer crescer mágicos pensamentos a quem os olha.
(tradução de Mário Rui de Oliveira)

Embora de forma muito mais modesta (e jornalística), também me refiro a este Herbário num texto publicado hoje no DN.

 
CUBA. Do leitor Nuno Guilherme Costa, recebemos este e-mail:
Caros organizadores do Blog de Esquerda: não sendo de esquerda tenho lido com atenção os vossos comentários aos mais variados assuntos. Como é natural, em 90% das ocasiões discordo das vossas posições, no entanto, tenho estranhado o vosso silêncio, como defensores da liberdade de expressão, sobre os mais recentes eventos na República Popular Cubana. Parece que o libertador Fidel, a coberto da guerra no Iraque (não é conveniente atrair as atenções para a democracia popular cubana) decidiu, de uma só vez, julgar sumariamente (sem direito a advogado de defesa e outras esquisitices da justiça burguesa e liberal) 80!! dissidentes do regime por delito de opinião. Acho que têm aqui uma boa oportunidade para se demarcarem das "bernardas" do também esquerdista Bernardino Soares, para quem estas notícias devem ser "plantadas" pela CIA.

Caro Nuno Guilherme:
Nós estamos contra todas as limitações da liberdade de expressão, aconteçam elas onde acontecerem. Neste caso, como noutros, reprovamos a forma como o regime cubano lida com os oposicionistas, nomeadamente os que continuam presos por razões políticas. Mas, já agora que falamos de Cuba, gostava também de ver a opinião "bloguística" de direita a comentar o que se passa na base de Guantanamo, onde continuam presos em condições desumanas (sem direito a advogado de defesa; ou melhor, sem direito a coisa nenhuma) centenas de "suspeitos" terroristas. Acho que está aqui uma boa oportunidade para se demarcarem da mais absoluta e descarada hipocrisia que têm revelado, sobre este assunto incómodo, os governos ocidentais.

 
NOVOS BLOGS. Eles continuam a aparecer todos os dias, a um ritmo constante. De tal maneira que já se tornou impossível (falo por mim) acompanhar tudo o que se passa de relevante na blogosfera. Só nos últimos dias, ficámos a conhecer mais estes lugares a incluir na ronda diária, quando para isso sobra tempo: o literário A montanha mágica (com poemas e textos críticos, publicados na imprensa), o melódico Crónicas da Terra (escrito por Luís Rei, sobre as «músicas do mundo») e o jornalístico Conversas de Café (uma cuidada "revista da imprensa" feita por dois cúmplices: Inês Amaral e Jaime Silva).

 
FERNANDA DE CASTRO. Espantou-se a Coluna Infame com o facto de termos publicado um poema de Fernanda de Castro, não propriamente uma esquerdista (foi mulher de António Ferro) e muito menos uma autora que se aproxime dos nossos "padrões estéticos". Confrontada com este sobressalto de uma suposta vigilância ideológica, a Coluna atirou-nos à cara a sua irónica perplexidade: estaríamos nós, Blog de Esquerda, a ficar «ecuménicos»? Nada disso, meus caros, nada disso. Acontece que uma leitora que muito prezamos nos enviou um poema, não por ser deste ou daquele autor mas porque as palavras a tocaram profundamente e quis partilhar essa comoção connosco. Apenas isso. Aliás, não hesitámos um minuto em publicá-lo e em agradecer o gesto.
Para evitar mais equívocos, relembro o que escrevemos no primeiro post deste projecto (01/01/2003): «Nós gostávamos muito que o Blog de Esquerda se transformasse num forum aberto (...), um lugar de encontros e partilhas, aprendizagens e discordâncias, polémicas e barricadas». É óbvio que presumimos uma sintonia ideológica em quem decide connosco colaborar, mas isso não impede que pessoas com outras posições digam também de sua justiça. Para sublinhar uma das palavras da frase citada, não receamos (antes acarinhamos) as "discordâncias". Claro que nunca publicaremos neste Blog um poema fascista ou que defenda ideias que nos repugnam, mas o poema da Fernanda de Castro, sinceramente, era apenas um poema.

PS: Já agora, agradecíamos que estas discussões ou polémicas fossem feitas no espaço de comentários. É para isso que ele serve.

 
É A CULTURA, ESTÚPIDO! No próximo dia 9, quarta-feira, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, às 18h30, arrancará de forma imparável (esperemos...) um novo conceito de debate público sobre livros e temas culturais. Sob a égide das Produções Fictícias, no «É a Cultura, Estúpido!» haverá análise crítica (pela dupla interbloguística Pedro Mexia/José Mário Silva), entrevista a escritores (por Anabela Mota Ribeiro), momentos de humor, colaboradores permanentes (Nuno Costa Santos, João Miguel Tavares, Nuno Artur Silva) e um aliciante "duelo de titãs" ideológico, entre João "O Desbocado Infame" Pereira Coutinho e Daniel "O Esquerdista de Aço" Oliveira. Na primeira sessão, teremos como convidados o escritor Pedro Rosa Mendes e o fotógrafo João Francisco Vilhena, que falarão do livro que fizeram a quatro mãos: «Atlântico - Um Romance Fotográfico» (Temas e Debates). Agora que já sabe (quase) tudo, não perca o «É a Cultura, Estúpido», ao vivo e a cores. A entrada é gratuita. Faltam 6 dias.

2.4.03
 
UM FILME PARA LYNCH. Eis uma história com todos os ingredientes para agradar à opinião pública americana e para espicaçar o orgulho patriótico dos soldados que se aproximam de Bagdad. Jessica Lynch, uma adolescente de 19 anos que pertencia a uma unidade de apoio logístico do exército dos EUA, foi resgatada de um hospital de Nassiriyah, numa acção espectacular levada a cabo por um comando de marines. É tudo perfeito: a menina delicada e sorridente (que aparece nas fotografias com uma boina de camuflado, em frente de uma gigantesca bandeira americana), a audácia dos soldados salvadores («nunca deixamos ninguém para trás») e a eficiência digna do mais inspirado enredo de um filme de Steven Segal. A destoar, só o nome da terra em que Jessica nasceu: Palestine (estado da Virginia). Nada que os argumentistas de Hollywood, neste momento já a ultimar o primeiro draft do script, não possam corrigir.

 
GONÇALVISMO. A Governadora Civil de Lisboa, Teresa Caeiro, proibiu uma manifestação de estudantes com base num decreto-lei assinado, em 1974, por Vasco Gonçalves. Talvez seja bom lembrar que Teresa Caeiro, além de ser "giraça" (para usar os termos do infame Pedro Mexia), é militante do PP. O mundo está mesmo doido.

 
ANÚNCIO DO MÊS. Vem nos jornais de hoje e tenta "vender" o romance de Saddam Hussein: «Zabiba e o Rei» (Publicações Europa-América). Vale a pena resgatar este "naco de prosa": «Um livro premonitório que nos transporta da magia das Mil e Uma Noites para a crua actualidade, numa mistura assombrosa de grande conto de amor, romance histórico, político e de aventuras e onde um grupo dos mais grotescos e selvagens dos aliados se coligam para invadir o Iraque». Alguém se oferece para fazer uma recensão desta "obra-prima" no DNA? Pagamos em géneros (um bilhete de ida, sem volta, para Kerbala).

 
TÍTULO DO MÊS. «O Corno e a sua Globalização», de J. Penha Brava (Hugin), o autor desse clássico contemporâneo que se intitula «Breves Considerações para um Melhor Conhecimento da Masturbação em Portugal» (2001).

 
ESCRITA EM DIA. O Francisco José Viegas regressa hoje aos programas sobre livros, desta vez na rádio. Com um título velho mas conversas novas, o «Escrita em Dia» entra esta semana na grelha da Antena 1 (RDP), prometendo continuar o trabalho de divulgação da literatura e dos escritores em que o Francisco é mestre. A primeira emissão pode ser ouvida mais logo, entre a meia-noite e a uma da manhã. Convidados? O "infame" Pedro Mexia e... moi même. Pois é, a dupla volta a reunir-se, desta vez para discutir o tema central do romance «Sefarad», de Antonio Muñoz Molina: os grandes crimes cometidos, no séc. XX, pelo nazismo e pelo estalinismo. Se quiserem ouvir, estão à vontade.

 
É A CULTURA, ESTÚPIDO! No próximo dia 9, quarta-feira, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, às 18h30, arrancará de forma imparável (esperemos...) um novo conceito de debate público sobre livros e temas culturais. Sob a égide das Produções Fictícias, no «É a Cultura, Estúpido!» haverá análise crítica (pela dupla interbloguística Pedro Mexia/José Mário Silva), entrevista a escritores (por Anabela Mota Ribeiro), momentos de humor, colaboradores permanentes (Nuno Costa Santos, João Miguel Tavares, Nuno Artur Silva) e um aliciante "duelo de titãs" ideológico, entre João "O Desbocado Infame" Pereira Coutinho e Daniel "O Esquerdista de Aço" Oliveira. Na primeira sessão, teremos como convidados o escritor Pedro Rosa Mendes e o fotógrafo João Francisco Vilhena, que falarão do livro que fizeram a quatro mãos: «Atlântico» (Temas e Debates). Agora que já sabe (quase) tudo, não perca o «É a Cultura, Estúpido», ao vivo e a cores. Faltam 7 dias.

 
FRANCIS PONGE. Para abalar os critérios inquestionáveis da “boa literatura” e da “bela poesia”, nada melhor do que um excerto do Francis Ponge de «O partido tomado pelas coisas» (tradução de Manuel Gusmão). Chama-se «A Laranja»:

«Como na esponja há na laranja uma aspiração a retomar a forma depois de de ter sofrido a prova da expressão. Mas enquanto a esponja o consegue sempre, a laranja nunca: porque as suas células estoiraram, os seus tecidos rasgaram-se. Enquanto que só a casca se restabeleceu languidamente na sua forma, graças à sua elasticidade, um líquido de âmbar derramou-se, acompanhado por um frescor e perfume suaves, é certo, - mas muitas vezes também pela consciência amarga de uma expulsão prematura de caroços.
Será necessário tomar partido entre estas duas maneiras de suportar mal a opressão? - A esponja é apenas músculo e enche-se de vento, de água limpa ou suja, consoante: essa ginástica é ignóbil. A laranja sabe melhor, mas é demasiado passiva, - e esse sacrifício odorífero...é de facto vender-se barato ao opressor.»

Não consigo deixar de pensar, forçando a comparação, noutra laranja: Durão Barroso e o governo que junta a cor do fruto ao azul e amarelo de uma direita extrema. Afinal também eles se venderam barato ao opressor. E, como sabemos, este sumo português, espremido há semanas na base das Lajes, não vale um caracol.
(Pedro Rodrigues)

 
PERGUNTAS E RESPOSTAS.

P: É verdade que os EUA atacaram o Iraque com METADE do numero necessário de soldados?
R: Sim!!!
P: Porquê?
R: Porque Donald Rumsfeld queria uma guerra barata.
---> ver aqui

P: Mas o Rumsfeld está assim tão preocupado com o buraco orçamental?
R: Quem falou em buraco orçamental? Isso não existe!
P: Então mas porque raio a guerra tinha de ser barata?
R: Porque os NEO-CONSERVADORES que governam os EUA querem comprar guerras em série.
---> ver aqui (penúltimo parágrafo)

P: Mas afinal quem é que são esse tais de NEO-CONSERVADORES???
R: Uns gajos tão maus, tão maus... que fazem o Kissinger parecer bom!!!
P: A sério?... E que querem eles, dominar o mundo?
R: Não, que ideia!!! Só o Médio oriente...
---> ver aqui

P: Entao um grupo de EXTREMA-DIREITA tomou conta do governo dos EUA?
R: Não, pior que isso... um grupo de EXTREMA-ESQUERDA !!!
---> ver aqui (penúltimo parágrafo)

Moral da história:
Se neo-conservadores --> neo trotskistas
e Saddam e partido Baath --> neo-estalinistas

Como é que alguém esperava impedir a guerra!?

(Nuno Anjos)

 
VERSOS QUE NOS SALVAM. A leitora Teresa Santos Silva, a quem agradecemos esta e outras gentilezas, enviou-nos um poema de que gosta particularmente e que deseja partilhar com os outros leitores deste blog. Foi escrito por Fernanda de Castro e consta do livro «Exílio» (Livraria Bertrand, Lisboa, 1952).

Entrei na vida
com armas de vencida:
Alma, Sonho, Poesia.
Quando eu cantava
o mundo ria
mas nada me importava:
cantava.

Depois, um dia,
o mundo atirou pedras ao meu canto
e a minha alma rasgou-se.
Que seria?
Medo, ou simplesmente dor?
Fosse o que fosse,
o orgulho foi maior.
Com dez punhais nas unhas afiadas
e nos olhos azuis duas espadas,
eu nunca mais seria, nunca mais,
a que entrara na vida
com armas de vencida.
Agora o meu querer era mais fundo:
de um lado, eu, do outro, o mundo.
E começou a luta desigual
do tigre e da gazela.

A vencida foi ela.
Mas que louros colheu dessa vitória
o mundo cego e bruto?
O sangue dos Poetas? Triste glória...
Cinza de sonhos mortos? Magro fruto...
Oh, não, punhais e espadas!
Eu só quero cantar! Não quero ossadas
nem, sob os pés, um chão de campas rasas.
Eu só quero cantar! Só quero as minhas asas
e a minha melodia:
Alma, Sonho e Poesia...
Alma, Sonho, Poesia.


 
AJUSTE DE CONTAS. O início de semana na blogosfera foi muito agitado. Nós ficámos off-line quase três dias, ontem os servidores do Blogger deram o berro (parece mentira mas é mesmo verdade) e houve um coup d' etat de matriz estalinista no impagável Blogue dos Marretas (entretanto controlado por uma coligação de forças ao serviço do capital e do Império americano). Pelo meio, houve unfriendly fire disparado por vários fachoblogs: nuns casos fogo ligeiro, noutros artilharia pesada, mas todos a merecerem uma resposta como deve ser. Lá mais para a noite, com calma, trataremos disso.

1.4.03
 
FINISTERRA. Eis a primeira contribuição do nosso amigo Pedro Rodrigues:

Carlos de Oliveira é dos que não cabem nas palavras grandes que a teoria e a crítica literária dominantes e às vezes decididamente imbecis usam acriticamente. Em «Finisterra» encontra-se o que poderia ser um método seu para a escrita, feita tanto de chama como de precisão. É só assim: «Calcular com rigor o espaço em que posso mexer-me, a distância entre as coisas, o sítio certo das cadeiras. Andar altas horas através da casa: às escuras e sem tropeções.»

 
CONTRA O SÍNDROMA PLAYMOBIL. Nesta hora em que se delimitam os campos e se multiplicam as campas dos que sucumbem às operações cirúrgicas, não poderia deixar de mostrar a belfa e alardear conhecimento de algumas causas e coisas. Estou disposto a aceitar que, entre os argumentos de peso para a guerra, para além dos Manifestos de Marx e Marinetti, esteja a pueril e imberbe predilecção dos homens por "gadgets" com códigos alfanuméricos indecifráveis para qualquer outro género, incluindo sufragistas sujeitas a tratamentos hormonais. No entanto, a mediocracia nacional-saloia deveria abster-se de alimentar o "Síndroma Playmobil" do Rogeiro, pelo que sei uma fase terminal do "Síndroma Peter Pan". Da mesma forma, por muito que Luís "preferia-levar-com-os-xailes-negros" Delgado ou Durão "guerrilheiro-Mao-mau" Barroso papagueiem, não devemos chegar ao absurdo de admitir a cognoscibilidade das ladainhas antinómicas que balbuciam. Por este motivo, fornecerei a sua real tradução:

– "Smart-bombs" - Principal Arma de Distracção Maciça utilizada pela cruzada anglicano-baptista contra Satan... perdão... Saddam.

– "Friendly-fire" - Forma que os americanos têm de provar que os verdadeiros Patriots terão sempre a mesma missão: abater ingleses. É um resquício da revolução americana; em nome de George, o rei-momo, eliminam-se os herdeiros do homónimo George (o rei inglês) que se recusaram a apostatar o imperial-colonialismo de sua majestade. Vão por mim, o espírito de Lafayette ainda irá reconciliar a "entente" franco-americana. Ouvi dizer que as galerias estão em saldos!

– "Military-intelligence" - Comentários da soldadesca portuguesa nas várias televisões. Os magalas, uns mais roliços e atoucinhados, outros mais fanecas, deambulam pelos ecrãs, como peixe na água, reproduzindo o pensamento de Sun Tzu ou Confúcio, mas, acima de tudo, alarvejando uma razão-prática que nos impele para a acção expressa no pensamento filosófico de Kumba Yalá. Esta rotina diária ilumina a néscia populaça, ofuscando-nos a retina com as medalhas que cintilam, cravadas no peito, lembrando o pleito e os seus actos heróicos praticados ao serviço de um país que não entra numa guerra há quase trinta anos! Existe um sub-agrupamento desta estirpe: os generais de poltrona, como Pacheco Pereira ou Eduardo Cintra Torres, que já presenciaram os horrores da guerra, mas que mudaram logo de canal!

– "President-Bush" - é um daqueles termos quase indefiníveis, mas recolhi um bushismo elucidativo do ideotário do "cowboy" missionário que quase me converteu ao seu anti-francesismo: "The problem with the French is that they don’t have a word for entrepreneur", cit. George Bush, comandante supremo das forças americanas e, por vontade de Deus (se não foi do povo, só pode ser divino!), presidente dos Estados Unidos. E olhem que deve ser um cargo importante porque o homem até comutou... (não se assustem)... a bandeira dos confederados, que exibia enquanto zelador do campo de extermínio do Texas, pela bandeira da União, que agora ostenta na sua lapela. Já agora, seguindo o exemplo do congresso americano, que retirou do cardápio as "french fries" e incluiu as "freedom fries", estou mesmo a pensar, inspirado no apotegma de Bush e nos valores da Democracia americana enunciados por Tocqueville (que nome tão afrancesado?!), em sugerir a substituição do termo "Chaise-longue" por "Cadeira-eléctrica", o que acham?

– "Direita-democrática" - no sistema poliárquico moderno, os primeiros sintomas são a demagogia e o populismo. Não é contagioso e manifesta-se, geralmente, através de um anódino conservadorismo parlamentar; em Portugal, não passa de uma coligação para lamentar. Entre a súcia "neo-con" e demoliberal, com uma proto-síntese em Burke, há ainda, cá no burgo, os que citam Oakeshott e se deitam com "A Theory of Justice" de Rawls na sua cabeceira. Mas, conservando os hábitos púberes, como quem esconde a Playboy dentro de uma sebenta, o que os deleita mesmo é a personalização boulangista, representada pelas jaculatórias regurgitações do bobo da Madeira ou o providencialismo de sacristia de Joseph de Maistre. O objectivo é pôr o andor a andar para o trono e para o altar.

– "Guerra-preventiva" - Grassa a ignorância, mas já não mete piada! De uma vez por todas, o qualificativo guerras preventivas aplica-se a alguns conflitos do século XIX, no sistema pós-concerto europeu. No Iraque, a música é outra; trata-se, segundo a própria doutrina estratégica americana, de "pre-emption", termo que encerra o paradoxal princípio de "retaliar antes de ser atacado", com um fim determinado. Ora, como qualquer jurista da mula ruça saberá, preempção está ligado a dois direitos: o de compra e o de antecipação. A finalidade dos Estados Unidos é justificar o ataque a um putativo adversário (o Iraque) com o intuito de se antecipar aos reais antagonistas (o eixo Paris-Berlim-Moscovo), usurpando o território iraquiano e beneficiando da sua posição geográfica e dos seus recursos (controlo do Shatt al Arab, da saída para o Golfo Pérsico e do subsolo mineralógico). A subversão dos preceitos doutrinários apenas acontece porque: 1) o ataque não foi de surpresa, começando pouco mais de uma hora após o fim de uma emocionante contagem decrescente (Richard Betts, num livro intitulado «Surprise Attack», de 1982, fala da atracção dos estrategas americanos por esta táctica, dando o desembarque na Baía dos Porcos como exemplo); 2) os Estados Unidos, depois de muito tentar, deixaram de querer comprar ou sequer levar fiado, passando, sem resultados satisfatórios, por um longo processo (superior a 20 anos) de recompensa e ameaça, enveredam agora pela aquisição por meio da força bruta. Neste contexto, o messianismo da nova cruzada, que a direita acolhe acriticamente, prova o seu selvático primarismo. Estão arrebanhados em torno de profecias de maniqueus e são incapazes de ver «para além do bem e do mal». No âmbito da ontogénese, os belicistas são, como diria Conrad Lawrence, primatas pelados.

Desta vez dei-vos pérolas, mas, para a próxima, prometo amendoins, tá?
(Hugo Leal)


 
MALDITO BLOGGER. Insondáveis bloqueios informáticos adiaram (temíamos que ad aeternum) o aparecimento dos posts feitos nos dois últimos dias. Agora que apareceram, tarde mas a boas horas, pedimos por este involuntário atraso mil desculpas aos nossos fidelíssimos leitores.

 
UM DE ABRIL. Hoje não é dia das mentiras porque a minha mãe faz anos. O aniversário da minha mãe, por ser o aniversário da minha mãe e por ser verdade, arruina todas as mentiras do mundo.

31.3.03
 
O PAVOR DO CHOQUE. Ficou hoje disponível on-line o artigo em que se pormenorizam as relações tensas entre Donald Rumsfeld e as cúpulas militares do Pentágono. Um excerto: «Plan 1003 (o plano da ofensiva no Iraque) was repeatedly updated and presented to Rumsfeld, and each time, according to the planner, Rumsfeld said, "You’ve got too much ground force - go back and do it again." In the planner’s view, Rumsfeld had two goals: to demonstrate the efficacy of precision bombing and to “do the war on the cheap.” Rumsfeld and his two main deputies for war planning, Paul Wolfowitz and Douglas Feith, “were so enamored of ‘shock and awe’ that victory seemed assured,” the planner said. “They believed that the weather would always be clear, that the enemy would expose itself, and so precision bombings would always work.” (...) “They all said, ‘We can do it with air power.’ They believed their own propaganda.”»
O artigo intitula-se «Offense and defense» e foi escrito por Seymour M. Hersh para a New Yorker. Escusado será dizer que este texto, ainda não há muito tempo, daria uma excelente crónica de Clara Pinto Correia no próximo número da «Visão».

 
COMPETÊNCIA MILITAR. Desde que chegou ao Pentágono, Donald Rumsfeld envolveu-se numa guerra com os seus militares. Quando recebeu os primeiros planos para a invasão do Iraque logo exigiu uma grande redução no número de tropas envolvido. O plano que finalmente resultou foi um compromisso entre os desejos dos militares e as interferências de Rumsfeld. Esse plano previa uma Frente Norte lançada através da Turquia. Com o colapso desta hipótese os EUA perderam metade das tropas de combate que deveriam entrar no Iraque.
Uma estratégia prudente e conservadora seria lançar primeiro a guerra aérea, desgastando as unidades blindadas iraquianas, até ao momento em que os meios mobilizados para a Turquia fossem recolocados no Kuwait. A ofensiva aérea duraria o mesmo tempo que durou na primeira guerra do Golfo. Porém, a administração havia prometido uma guerra muito diferente. Nunca deixando os factos interferir nos seus planos, e desprezando as capacidades do inimigo, Bush ordenou o ataque imediato. As unidades principais avançaram facilmente, mas o recurso a tácticas de guerrilha permitiu ao regime iraquiano ameaçar as linhas de abastecimento americanas. Os americanos têm certamente a capacidade de derrotar as principais forças iraquianas, mas não têm efectivos suficientes para cercar ou entrar em Bagdad. Serão forçados a esperar pela chegada das unidades que foram transferidas da Turquia. Entretanto, terão de sofrer o desgaste causado pelo inimigo. Esta experiência militar de Donald Rumsfeld vai custar algumas vidas americanas e muitas iraquianas.
A ideologia conservadora sempre pretendeu ter por base o bom-senso, a prudência, o respeito pelo Direito e pelos direitos dos indivíduos. Os conservadores sempre tiveram horror a grupos de esclarecidos que tentavam mudar as sociedades à revelia dos indivíduos, aos que tentavam destruir as instituições estabelecidas e aos que tomavam as pessoas como meros objectos de um grande desígnio. A administração Bush e os ideólogos neo-conservadores que a apoiam são a antítese da ideologia conservadora democrática.
(Nuno Anjos)

 
FALHANÇO DIPLOMÁTICO. Após o 11 de Setembro, os Estados Unidos receberam o apoio de todos os seus aliados, e até de antigos inimigos. A intervenção no Afeganistão teve largo apoio internacional. A insistência de Bush na questão do Iraque não foi bem recebida, mas ainda assim Colin Powell conseguiu uma resolução unânime nas Nações Unidas, e o regresso dos inspectores. Mas o crescendo militar e a pressão constantes tornaram óbvio que só a mudança de regime sastisfaria Bush, o que alienou a maior parte dos potenciais aliados e bloqueou a NATO e a ONU.
Alguns elementos da primeira administração Bush declararam a sua discordância em relação a este processo. É de contrastar o genuíno empenho na procura de uma coligação mostrado por aquela administração, com viagens constantes de James Baker, até para conversar com Tarek Aziz, e a displicência da actual administração, que não foi além de uma conversa com os seus apoiantes nos Açores.
Sucede que o dogma neoconservador pretende assegurar a superioridade permanente da América. Assim há que rejeitar eventuais obrigações impostas por alianças instituídas ou tratados internacionais, bem como desvalorizar a NATO e a ONU. Somente interessam alianças pontuais, em que os Estados Unidos serão lideres indisputados. Mas esta política fracassou de forma desastrosa para os Estados Unidos, ao não garantir o aliado mais vital: a Turquia.
Um conservador não dogmático, como o primeiro Bush, compreenderia que é mais fácil levar nações independentes e políticos eleitos a colaborar usando as organizações internacionais. Por exemplo, ninguém gosta do Pacto de Estabilidade Europeu, mas todos o seguem, porque é uma política comunitária. Se a ONU ou a NATO chegassem a um consenso, os turcos dificilmente diriam não. Mas os EUA tentaram comprar a Turquia. Seria suicídio político para o governo turco aceitar!
(Nuno Anjos)

 
DESCONTROLO ORÇAMENTAL. Ao chegar ao poder, Bush proclamou como grande prioridade da política doméstica o corte nos impostos. Clinton deixara um grande excedente orçamental e Bush argumentava que era necessário devolver esse dinheiro aos contribuintes. Isto está de acordo com o conservadorismo tradicional. Entretanto os escândalos financeiros e os atentados de 11 de Setembro levaram à crise, e o excedente evaporou-se. O orçamento militar explodiu e o corte nos impostos passou a ser apresentado (encoberto) como pacote de estímulo económico, uma medida
keynesiana! Um genuíno conservador seguiria uma política baseada no senso comum (gastar tanto quanto se recebe) e tomaria medidas para assegurar o equilibrio orcamental.
Após os Estados Unidos avançarem para o Afeganistão, o défice orçamental americano ficou fora de controlo, e a admnistração deixou de apresentar previsões a longo prazo. Porém mesmo as previsões a curto prazo apresentam défices permanentes. Alan Greenspan, o conservador presidente do FED, criticou publicamente o orçamento de Bush. E após longo encobrimento só agora foi apresentado o orçamento para um único mês de guerra no Iraque. Ainda assim, Bush continua a insistir no corte de impostos. Como explicar?
O objectivo de Bush não é simplesmente devolver algum dinheiro aos contribuintes. O objectivo da política neo-conservadora é forçar cortes profundos na assistência médica e social, que obriguem à sua privatização, impedindo o Estado de alguma vez voltar a erguer uma política social. Que esta política leve ao enfraquecimento do dólar e ao empobrecimento dos americanos é secundário. Não me parece que os conservadores prudentes possam aprovar esta política de reengenharia social. De facto o próprio Senado, controlado pelos Republicanos, prepara-se para cortar o corte fiscal...
(Nuno Anjos)

 
O QUE DIZ O ANJOS. Amigo do Filipe Moura, o Nuno Anjos considera-se de centro-esquerda e comete «o terrível pecado de ler o Expresso», onde descobriu «essa fonte de prazer perverso que são as crónicas de João Carlos Espada (ainda mais delirantes que os textos de Vasco Graça Moura ou João César das Neves)». Foram de resto os esforços de JCE para tentar enquadrar legalmente a intervenção no Iraque que o inspiraram a escrever o intróito que se segue:

A política da actual administração Bush baseia-se numa ideologia neo-conservadora que é incompatível com o conservadorismo tradicional. O neo-conservadorismo dogmático implica que a administração Bush recorra a políticas irresponsáveis e ao encobrimento sistemático, resultando na indiferença à sorte dos cidadãos comuns. Os verdadeiros conservadores, a quem repugnam as políticas dogmáticas, têm o dever de denunciar esta administração.
Apresentarei nos próximos posts três exemplos de políticas incompetentes baseadas em motivos ideológicos.




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