BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

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30.3.03
 
MENOS UM FALCÃO DE BICO AFIADO. Nem tudo são más notícias: Richard Perle demitiu-se.

 
SLOW WAR. O que começou por ser uma suspeita é agora uma evidência: a guerra não será rápida e a vitória dos EUA não é certa. Rumsfeld fez asneira da grossa. Ignorou os conselhos dos generais veteranos, decidiu avançar com efectivos insuficientes, confiou na superioridade tecnológica (sobretudo aérea), deu como adquirida a rendição de parte significativa do exército iraquiano e agora tem um problema complicado para resolver: a reorganização das tropas, com o reforço de pelo menos 120.000 soldados, vai durar semanas e implica uma mudança radical na estratégia militar. Num terrível ricochete, o "choque e espanto" voltou à origem e atingiu em cheio o Pentágono e a Casa Branca, que já não sabem muito bem o que fazer com esta guerra. Esperar? Avançar? Suspender? Adiar?
Entretanto, continuam os bombardeamentos, os danos colaterais, as vítimas civis. E começam a ser evidentes os riscos de uma vietnamização do conflito no Iraque. Sejamos claros. Já aqui escrevemos que, uma vez iniciada esta guerra injusta, só podíamos defender o resultado que permitisse um desfecho rápido e com poucos mortos: a vitória dos "aliados" em poucos dias e a destituição de Saddam Hussein. Porém, não toleraremos uma guerra que se vai prolongar no tempo e nas consequências humanitárias, só porque um falcão mais afalcoado do que os outros todos decidiu ser estupidamente teimoso e fazer birra. Num cenário de guerra prolongada, muda tudo. E é sobre isso, também, que reflectiremos nos próximos dias.
Fica para já uma pergunta aos blogs que têm apoiado a Administração Bush e a "lógica" desta guerra preventiva: se o Iraque se transformar num novo Vietname (ou Bagdad numa nova Estalinegrado), qual será a vossa posição? Manter-se-ão sem pestanejar ao lado de Rumsfeld e companhia? Ou ousarão finalmente os primeiros sinais de crítica à desastrosa estratégia militar dos neo-conservadores?
Aguardamos respostas na volta do correio.

 
LIMIAR. O lançamento do livro «O Anjo Melancólico – Ensaio sobre o conceito de alegoria na obra de Walter Benjamin» (Angelus Novus), escrito pela Maria João Cantinho (a partir da sua dissertação de mestrado), realizou-se na passada sexta-feira, às 22 horas, na «Eterno Retorno», a minúscula livraria filosófica do Bairro Alto. Afazeres diversos, um jantar tardio e dificuldades para estacionar, hélas, fizeram-me chegar às 22h45. Ainda bem, atrevo-me a dizer agora - retrospectivamente.
Passo a explicar porquê. A sala estava muito cheia, com a Maria João lá ao fundo e a voz serena de Maria Filomena Molder a iluminar o pensamento de Benjamin, a voz deambulando por esta filosofia da "rememoração" (em que não há lugar para o futuro), sempre na sombra tutelar do anjo de Klee - o anjo impotente, incapaz de fechar as asas, arrastado pelo vento da História. Com a sala à cunha, eu fiquei na soleira da porta: nem dentro nem fora, no limiar, no lugar utópico da "passagem". E o que aconteceu foi isto: as palavras circulavam dentro da livraria, chocavam com os livros, pairavam no meio do fumo, acendiam-se dentro da voz serena da professora Maria Filomena Molder, mas quando chegavam até mim vinham frágeis, quase vapor, nuvens a desfazer-se. Na soleira da porta, no limiar, um campo de batalha. As palavras de dentro lutando contra os ruídos da rua: o motor de um carro ao ralenti, os gritos de um grupo já bem bebido, pombos batendo as asas, um correr de pressianas. E a voz serena da professora Maria Filomena Molder a partir-se, a fragmentar-se, até ser um conjunto de frases desligadas umas das outras, mas ainda assim com a centelha de um saber oculto e precário. Feliz de mim naquele lugar – a soleira da porta, o limiar – tão benjaminiano.

 
OLHANDO O TEMPO. Ao princípio era um bocadinho vago, irregular, aéreo. Mas desde que passou a observar mais de perto a realidade dos dias que passam (e das coisas dentro deles), o blog da Carla Milhazes melhorou muitíssimo. Vale a pena ir passando por lá.

 
VIAGEM DE INVERNO. O mesmo alto funcionário da Casa Branca aproveitou a conferência de imprensa para pedir aos senhores jornalistas que parem de insinuar que George W. Bush tem um baixo QI, uma cultura geral miserável e gostos de texano labrego. «Por exemplo, neste momento ele está recolhido nos seus aposentos, a ouvir uma gravação de Die Winterreise, um ciclo de lieder do compositor Franz Schumann».

 
VÉNIA OU VÁQUIA? A malta de esquerda é tramada. Quem decidir falar de estatísticas, índices demográficos ou qualquer informação mais obscura que conste de um atlas humano, já sabe: vamos a ter muito cuidadinho, que ela (a malta da esquerda) não perdoa o mínimo lapso. Falem com o Pereira Coutinho e ele explica-vos como elas mordem.
Agora foi a vez dos americanos levarem na cabeça só porque confundiram, numa repartição de fundos para os "aliados", a Eslovénia (anti-guerra) com a Eslováquia (pró-dólares). Um alto funcionário da Casa Branca apressou-se a desvalorizar a gaffe: «Afinal, fica tudo na Europa, não é? E a nós, como compreenderão, uma palavra que termina em "vénia" soa sempre melhor».

 
DOCTOROW ON SEBALD. No Los Angeles Times, um bom escritor (E. L. Doctorow) escreve sobre um escritor genial (W. G. Sebald): «The late W.G. Sebald's recourse - a return to the implicit denial of imaginative authorship - has been so masterfully conceived (his fictions are melanges of travel writing, memoir, essay, photographs, diaries and spoken reminiscence by subjects sought out and found in the midst of meticulously described settings) that his works, such as "The Emigrants," have puzzled some critics and are seen as some new undefined thing - perhaps not fiction at all. (...) The continent traveled by these emigrants seems used up - used up by all the living that has been done on it, all the armies that have trod upon it, all the blood that has poured into it. W.G. Sebald is an elegist. Here on this continent we have to hope that he is not a prophet.» O texto completo pode ser lido aqui.

 
AVENTURAS DA RAPOSA DIALÉCTICA. Sentada no sofá, a fazer zapping pela noite dentro (SIC Notícias, RTP1, CNN, Sky News, Al Jazeera, TV5, SIC Notícias, RTP1, CNN...), a raposa dialéctica começa a dar mostras de uma certa perplexidade. Os seus olhos têm sido tão bombardeados, por imagens, como Bagdad pelos mísseis da "coligação". Cruzámo-nos de manhã, na cozinha. Eu a preparar um prato de cereais. Ela a espremer uma laranja. «Parece-me que a coisa está preta», disse a raposa. Eu fui trabalhar. Ela voltou para o sofá, no preciso momento em que uma das estações dava início a mais uma reportagem, em directo dos arredores de Nasiriyah.

 
VERSOS QUE NOS SALVAM. No excelente Janela Indiscreta, o mais artístico dos blogs portugueses, tem sido divulgada - para nossa felicidade - alguma poesia galega. Já lá encontrámos, por exemplo, um poema da Yolanda Castaño, rapariga muito activa que organizou em Mondoñedo (província de Lugo), no final do ano passado, um interessantíssimo encontro de poetas vindos de toda a Península Ibérica. Foi nesse encontro que descobri, entre outros autores que merecem ser conhecidos pelos leitores portugueses, o Baldo Ramos (n. 1971), que além de poeta é artista plástico e professor de Língua e Literatura. Do seu primeiro livro, «Raizames» (Libros da Frouma, 2001), escolhemos o seguinte poema:

Palabras riscadas.
Lugares polos que pasamos
sen ir a ningures.

Pegadas que limitan
o territorio do abandono.

Anotacións,
sinais,
puntos de referencia.

Palabras esquecidas;
rexeitadas
como lugares de paso.


 
O JOGO. Estádio cheio, uma selecção motivada, 2-1 ao Brasil (após 37 anos de jejum). Que dizer? Houve classe, houve esforço, houve um bocadinho de sorte (benditos postes) e houve períodos de futebol "a sério". Scolari continua a fazer uma equipa, Rui Costa a dar aulas de geometria aplicada, Pauleta a perfilar-se como um "serial killer" na pequena área e Paulo Ferreira a provar que é o melhor lateral português da actualidade (além de MVP no encontro de ontem). Quanto ao resto, se faltou Figo sobrou Deco, o novato. Primeiro jogo, primeiro golo, primeira vitória.
Pode ser o meu optimismo a falar, mas acho que se acendeu uma luz verde no futebol português (e não me refiro ao Sporting, infelizmente). O EURO 2004 não tem que entrar para a lista das nossas eternas frustrações. Haja esperança.

 
TIRO AO BONECO. O que o JPC já percebeu há muito tempo mas furta-se a admitir, é que quem pratica uma escrita corrosiva arrisca-se a gerar muitos anticorpos. A posição de JPC em relação ao conflito entre Israel e a Palestina é polémica, mas respeitável. Menos aceitáveis são as bojardas em que diz que o Eduardo Lourenço só escreve banalidades ou que o Mia Couto é um caso de iliteracia (a lista é certamente mais longa, mas deixei há vários meses de ter acesso aos textos que o JPC publica na imprensa). Em consequência de um estilo bem conseguido mas excessivamente refém da arrogância e da provocação gratuita, quando JPC escreve uma calinada e se apresenta de flanco aberto, o pessoal gosta de ir lá afinfar umas punhaladas. Não percebo a indignação de JPC. Afinal, não são os conservadores que gostam de apregoar a desconfiança na boa índole do Homem? (Ivan)

29.3.03
 
CHURCHILL. Seguindo ainda a onda das citações de Churchill, aqui vai uma inspirada: «Não aceito que o cão do jardineiro determine a lei, mesmo se está no jardim há muito tempo. Não lhe reconheço esse direito. Também não reconheço que tenha sido feito mal aos índios da América ou aos aborígenes da Austrália. Não reconheço que tenha sido feito mal a estes povos, porque uma raça mais forte, uma raça superior, uma raça que possui mais conhecimento, para o dizer de algum modo, veio tomar o seu lugar.» Discurso perante a comissão parlamentar de inquérito, relativamente ao massacre praticado pelas tropas britânicas sobre a população palestiniana em 1936, na sequência de uma greve geral anti-sionista. (Ricardo Noronha)

 
AS PRATAS. A nota acerca do fervor e dos comícios, bem como a assunção da minha militância política acertam, todas elas, ao lado. A revolução será uma festa ou não será. Não gosto de comícios. Não sou militante de qualquer partido político. Comprei há dois dias uns ténis novos, amarelos e brilhantes, como eu gosto. Custaram 2 contos, já estão rotos. Será que me pode emprestar uns trocos para eu comprar um par de sapatos a sério? Com meninas vou-me divertindo, consigo menos. Esperava mais, já me vou habituando às desilusões. Espero convite para continuar esta conversa no seu latifúndio. Relaxado já estou. Apesar do embargo promovido pelas autoridades competentes, o tabaco de enrolar marroquino continua a chegar, em barcos de pescadores, a Quarteira e daí aos meus pulmões e neurónios (cada vez menos, reconheço; a droga, quando ilegal, é facilmente adulterável, logo prejudicial à saúde), através do trabalho árduo do dealer amigo cá do bairro (quem diz que a esquerda se opõe à iniciativa privada? Tudo depende da iniciativa). A minha amiga, Menina Classe operária (Sra.?) , também gosta. O João não conheço (também é caneco, como eu ?), Noronha é um nome com muitas histórias. Dificilmente chegará ao poder. As suas pratas nunca estarão a salvo. (Ricardo Noronha)

 
ESTALINE. Para Mexia as famílias e as ideias políticas são desenhadas a régua e esquadro. Estaline um conservador? Santa ignorância... «analfabetismo político»! Pois é, quando faltam argumentos sobram os insultos. Pessoas inteligentes como você podem fazer bem melhor. Percebo a confusão que lhe provoca esta abordagem pouco clássica da questão, mas peço-lhe que faça um esforço para me acompanhar. Estaline foi o conservador possível e necessário num contexto específico. Porque cobiçava o poder absoluto, viu-se forçado a derrotar uma revolução de matriz igualitária. O facto é que houve uma restauração conservadora na URSS ao longo dos anos 20 e 30, nos mais variados domínios (estado, família, trabalho, cultura, educação, arte, valores, vida quotidiana...). E não é preciso ficar chateado com a comparação. Estaline era por certo um conservador diferente dos infames. Tal como Salazar, aliás. (Ricardo Noronha)

 
AUTORITARISMO. O facto é que, do mesmo modo que há uma vertigem autoritária potencial em todo o revolucionário voluntarista e ingénuo (que não toda a esquerda), há um certo tipo de atitude face à "desordem" que aproxima os conservadores do autoritarismo. Trata-se, claro está, de uma tendência e não de uma inevitabilidade. Berlusconi emprega métodos (e invoca leis) do fascismo. Aznar também. A comparação não é um produto da minha imaginação, porque a clareza da sua actuação, métodos e objectivos, deixa pouco espaço à imaginação. Pessoas espancadas pela polícia numa cela, presas a dormir numa escola com recurso a provas forjadas, sem direito a um advogado ou um telefonema – é isso outra coisa senão o fascismo a ganhar terreno? (Ricardo Noronha)

 
IRONIAS. O Pedro Mexia deu-me a honra de reservar um amplo espaço da sua coluna para me responder. Corro o risco de lhe dizer que o mail que enviei para o Blog de Esquerda não era um duelo ao pôr-do-sol com os três amigos da Coluna Infame, mas um conjunto de ideias acerca de um conjunto de temas. E que quando me refiro à direita conservadora não me refiro necessariamente a esses três em particular, mas à ampla e naturalmente diversa família política que dá por esse nome. Nazi não será Mexia, e muito menos a minha mãe. Retribuo o carinho – a incapacidade de perceber a ironia é um problema grave. Talvez me queira recomendar uma leitura sobre o tema. (Ricardo Noronha)

 
NORONHA STRIKES BACK. Depois da réplica belicosa de Pedro Mexia, o Ricardo Noronha levantou novamente a mão, pedindo a palavra. «Bem sei que isto não é ping-pong. Mas certos comentários merecem certas respostas. Desta vez é mais curto». OK, por nós tudo bem, é sábado, pouco movimento, a casa é tua. Toma as chaves mas não te esqueças de as pôr debaixo do tapete, ao saires. Amanhã voltamos à carga.

 
ANTIAMERICANISMO. As minhas ideias sobre esta magna questão podem ler-se aqui.

28.3.03
 
BELÉM. Razão tem Manuel Villaverde Cabral ao escrever no DN que Jorge Sampaio "objectivamente" apoiou o "perverso protagonismo do Governo da direita na questão da guerra". Devo afirmar que, se a culpa de a direita estar hoje no Governo cabe inteiramente a António Guterres, a culpa de a direita poder ganhar as eleições presidenciais de 2006 é de Jorge Sampaio e de mais ninguém.
No mesmo artigo, MVC sugere que o Presidente poderia demitir o Governo por "comportamento anticonstitucional". Se o saudoso Vítor Cunha Rego fosse vivo, de certeza que já teria levantado essa possibilidade. Mas isso era noutros tempos, e com outro Presidente. De resto, como MVC conclui, nesta altura quem quer os socialistas de volta?
(Filipe Moura)

 
PROVIDÊNCIA. Depois de ler um post do infame JPC em que ele falava do combate ao fanatismo de extracção islâmica, descobri a delícia que se segue e que vem da US House of Representatives:
"Recognizing the public need for fasting and prayer in order to secure the blessings and protection of Providence for the people of the United States and our Armed Forces during the conflict in Iraq and under the threat of terrorism at home.
Whereas the United States is currently engaged in a war on terrorism in response to the attacks of September 11, 2001;
Whereas the Armed Forces of the United States are currently engaged in a campaign to disarm the regime of Saddam Hussein and liberate the people of Iraq;
Whereas, on June 1, 1774, the Virginia House of Burgesses called for a day of fasting and prayer as an expression of solidarity with the people of Boston who were under siege by the enemy;
Whereas, on March 16, 1776, the Continental Congress, recognizing that the `Liberties of America are imminently endangered' and the need `to acknowledge the overruling Providence of God', called for a day of `Humiliation, Fasting and Prayer';
Whereas, on June 28, 1787, during the debate of the Constitutional Convention, Benjamin Franklin, convinced of God's intimate involvement in human affairs, implored the Congress to seek the assistance of Heaven in all its dealings;
Whereas, on March 30, 1863, in the midst of the Civil War, Abraham Lincoln, at the bequest of the Senate, and himself recognizing the need of the Nation to humble itself before God in repentance for its national sins, proclaimed a day of fasting, prayer and humiliation;
Whereas all of the various faiths of the people of the United States have recognized, in our religious traditions, the need for fasting and humble supplication before Providence;
Whereas humility, fasting, and prayer in times of danger have long been rooted in our essential national convictions and have been a means of producing unity and solidarity among all the diverse people of this Nation as well as procuring the enduring grace and benevolence of God;
Whereas, through prayer, fasting, and self-reflection, we may better recognize our own faults and shortcomings and submit to the wisdom and love of God in order that we may have guidance and strength in those daily actions and decisions we must take; and
Whereas dangers and threats to our Nation persist and, in this time of peril, it is appropriate that the people of the United States, leaders and citizens alike, seek guidance, strength, and resolve through prayer and fasting: Now, therefore, be it Resolved,
That it is the sense of the House of Representatives that the
President should issue a proclamation –
(1) designating a day for humility, prayer, and fasting for all people of the United States; and
(2) calling on all people of the United States –
(A) to observe the day as a time of prayer and fasting;
(B) to seek guidance from God to achieve a greater understanding of our own failings and to learn how we can do better in our everyday activities; and
(C) to gain resolve in meeting the challenges that confront our Nation."

Foi adoptada ontem, 27/3/03.
(Abel Campos)


 
O REGRESSO DA CENSURA. Há alguns dias atrás, o Governo Galego (que, nunca é de mais lembrar, tem como responsável máximo o sr. Manuel Fraga Iribarne, ex-ministro de Franco) aprovou um decreto que proíbe qualquer referência, debate, acção ou simples informação sobre a guerra (especialmente sobre a oposição que a opinião pública tem manifestado) e o caso do petroleiro Prestige nas escolas, institutos de ensino e liceus em geral. Mais ainda, obriga os professores a passarem em revista os placards das instituições de ensino e a arrancarem quaisquer cartazes ou folhetos que refiram esses assuntos, garantindo ainda que a ausência destas referências se mantenha nos mesmos placards. O sr. Iribarne andava, certamente, saudoso do seu trabalho no Governo ditatorial do generalíssimo... Mas a coisa não se resume à Galiza! Segundo informações da delegação sindical (CCOO) da Rádio Televisão Espanhola, foram proibidas, na Rádio Nacional de Espanha, quaisquer informações sobre a guerra que não sejam previamente apreciadas por uma "redacção especial" (dantes chamava-se Comissão de Censura) que está a ser criada para o efeito em Madrid. A isto chama-se CENSURA e não é aceitável de modo algum, ainda por cima em regimes ditos democráticos, ainda por cima em países governados por apoiantes de uma guerra que serve, dizem eles, para "libertar o povo iraquiano"...Com liberdades destas... (Sara Figueiredo Costa)

 
UM EXEMPLO DE CLAREZA MORAL? A direita gosta muito de nos atirar à cara os pavorosos crimes do estalinismo. É um truque retórico como outro qualquer, embora particularmente despropositado (entre outras coisas, porque a "nossa" esquerda foi sempre a primeira a condenar – e a sofrer – esses crimes). O problema é que o truque retórico só funciona num sentido. Ou seja, a mesma direita que condena a crueldade estalinista fecha os olhos, sem pudor, à maioria dos crimes que foram sendo cometidos contra os comunistas, ao longo do séc. XX. Só assim se pode perceber que o mentor de um blog como o Valete Fratres! escreva, sem o mínimo rebate de consciência, isto: «Concordei com o apoio à ditadura de Suharto contra os comunistas. Logo que a ameaça comunista deixou de existir, deveria ter sido encorajada a reforma do regime». O Valete parece esquecer-se de um pormenor: durante as perseguições de 1965/66, para acabar com a «ameaça comunista», o regime de Suharto matou, eliminou, massacrou perto de um milhão de pessoas. Um milhão de pessoas! Bem sei que a vossa adorada Margaret Thatcher considerava Suharto «one of our very best and most valuable friends» (e não é difícil perceber porquê), mas será que as vidas dos comunistas indonésios valiam menos do que as vidas dos anticomunistas que morreram no Gulag? Assim se vê qual é a verdadeira "clareza moral" de uma certa direita.

 
10.000. Reparei agora mesmo que ultrapassámos, aqui no Blog de Esquerda, a barreira dos 10.000 "hits". Dizer que esta aventura bloguística tem excedido as nossas expectativas é, no mínimo, um understatement. Queremos agradecer aos nossos leitores a fidelidade (há mesmo casos de leitores addicted, quem diria?), a muita atenção com que nos lêem, o imenso "feed-back" (sobretudo através dos comentários e do e-mail, mas também de viva voz) e o sentido crítico com que analisam as nossas análises. Tudo faremos para continuar a merecer a vossa confiança e o vosso interesse. Gracias, amigos.

 
DEMOGRAFIA. Ontem à noite, talvez traído pelo sono, o João Pereira Coutinho "postou" uma prosa na Coluna Infame em que se referia à existência, neste atribulado planeta, de 13 biliões de chineses! Tendo em conta que ainda recentemente se assinalou o nascimento do habitante n.º 6.000.000.000, era no mínimo estranho que a China rebentasse agora com as estatísticas, apresentando um assombroso contingente de 13.000.000.000.000 de "almas". Como é óbvio, o JPC fez confusão. É que ele só lê textos na língua de Shakespeare e na língua de Shakespeare o "billion" equivale ao nosso milhar de milhões e não ao bilião (milhão de milhões). Depois de avisado por leitores amigos (e atentos), o "infame" já corrigiu o erro. Posto isto, devo dizer que o ensonado JPC tem outra atenuante, além da normal falibilidade humana. É que para ele, direitista avesso à «maralha» (por vezes animalescamente despromovida ao estatuto de «manada»), mais de duas pessoas já perfazem uma multidão. E de multidões, estamos fartos de saber, os "infames" não percebem mesmo nada.


27.3.03
 
VOLTA, MONICA, ESTÁS PERDOADA (CONTINUAÇÃO). Enquanto houver escritores conscientes como Roth e velhinhos insurrectos como Glaser (vejam outros trabalhos dele contra a guerra, aqui), podem ficar descansados que não nos apanham na rede esburacada do antiamericanismo.

 
VOLTA, MONICA, ESTÁS PERDOADA. A frase é de um dos maiores escritores vivos: Philip Roth. O design é do célebre Milton "I love New York" Glaser. Com letras brancas sobre fundo azul, o autocolante diz isto: «Bring Back Monica Lewinsky». Que é uma forma subtil de gritar: «Regressa Clinton, do mal o menos».Enquanto houver escritores conscientes como Roth e velhinhos insurrectos como Glaser (vejam outros trabalhos dele contra a guerra, posted by José Mário at 23:50

 
SUPERIORIDADE MURAL. O Hugo Leal escreveu-nos mas não é, como o Pedro Mexia poderá pensar, mais um futebolista com inesperadas preocupações políticas. Se o Jorge Costa que escreveu um livro a meias com o Louçã não é defesa-central, este Hugo também não joga no Paris Saint-Germain. Nada disso. O "nosso" HL é investigador do Centro de Estudos do Pensamento Político. E enviou-nos um e-mail que reza (salvo seja) assim:

Venho por este meio saudar o blog de esquerda e as "blagues" de direita, provas de que a hemiplegia mental não atingiu estas quodlibéticas discussões entre os "intelectuários" de Portugal e do Império e os "lumpen" proletários da Portugália e da Imperial. Avante, camaradas! Convém, desde já, separar as águas, antes que elas rebentem num texto prenhe de tanta verborreia. Sou de esquerda e, por isso, acho importante explicitar diferenças e explicar que nem tudo o que vem à rede de blogs é peixe: diverte-me particularmente o apego ao apodo: "esquerda caviar"; quando é que a reaça irá perceber que as ovas de esturjão cumprem a mesma função, na ideologia, que as Tripas, no Porto? Ou seja, afastar os metecos das tenras e ternas francesinhas?! Também me causa estranheza o facto da direita achar que tem o monopólio do banho; não confundam convicções revolucionárias com falta de asseio, caros amigos; vós estais na facção ("Chicken)hawk", nós somos "Doves" (como vêem, mantemos boa relação com o sabonete!). De uma vez por todas fixem as coordenadas: a escola está em Frankfurt e não na Quinta da Atalaia. Escolhemos o Adorno em oposição às fífias atávicas com que se agitam os obscuros fachos. Somos abalados pela "agit-prop" e pelas palavras de desordem e não embalados pelos boçais bocejos com que os infames se emBUSHam. Contra a "maioria moral", a superioridade mural! Permitam-me a soberba, mas a vantagem canhota é óbvia se procedermos a uma comparação da galeria iconográfica. Acato o (des)equilíbrio ético entre faces hirsutas e bigodes ridículos, mas o real fosso é estético: a distinção está inscrita no nosso código genético e, se duvidam, olhem para a capa do DNA do último sábado. Vá lá, atirem a toalha ao tapete e resignem-se porque não é um fosso que nos separa, é a fossa mesmo, né!?. Trocados os galhardetes, siga a luta, algures entre o catecismo revolucionário de Netchaev e Bakunine e o misticismo fascizante de Sorel... Se resolverem publicar este pedaço de prosa (ou de prosápia) e se assim o desejarem, voltarei dentro de momentos.

Volta sempre, Hugo, volta sempre. No campo de batalha da teoria política, onde já viste que não nos faltam "inimigos", todos os reforços são poucos.

 
O FIO DE ARIANNA. Tal como os Infames e O Intermitente, também nós recebemos as propostas indecentes de Arianna, uma napolitana de 22 anos que trabalha em Milão e se diz massagista profissional (?). O que vem a ser isto, hem? Será a CIA a querer desviar-nos a todos – fachoblogs e canhotoblogs – do recto caminho da discussão ideológica?
Como medida urgente, sugiro desde já uma cimeira no bar das lajes (em Almada Velha há um jeitoso, que as tem de tijoleira), entre o Diácono Remédios e o Providêncio Canhoto. Eles lá saberão orientar-nos neste labirinto de nefastas tentações. E não pensem que isto é um assunto insignificante, meus amigos. Se formos atrás da primeira Arianna que nos saltar ao caminho, qualquer dia... qualquer dia ainda damos de caras com o Minotauro. Depois não digam que não avisei.

 
GUERRAS. Para quem não queria falar de guerra, os infames têm levantado polémicas que cheguem. Respondendo brevemente: é irrelevante discutir quem se quer que ganhe a guerra, uma vez que Bush vai ganhá-la, com mais ou menos facilidade. Não tenho nada a acrescentar ao que, sobre isso, escreveu Miguel Sousa Tavares. O que todos queremos é que a guerra acabe depressa e com o menor número possível de vítimas. Mas quero deixar claro que, para mim, embora Saddam seja intrinsecamente muito pior do que Bush (não quero imaginar o que seria se Saddam tivesse o seu poderio militar), Bush representa, neste momento, uma ameaça muito superior para o mundo do que Saddam. Recapitulando Miguel Sousa Tavares: «a ignorância dos poderosos tem de ser vigiada». (Filipe Moura)

 
SAUDAÇÕES. O Vítor Ribeiro é mais um dos muitos casos de novos bloggers que foram inspirados pelo artigo de Pacheco Pereira, no Público, faz hoje uma semana. Nas suas próprias palavras, VR propõe-se «apenas emitir algumas opiniões, nem sempre coerentes, e até por vezes contraditórias, mas sempre com o desejo de contribuir para a discussão livre e saudável neste "admirável mundo"». Além disso, deixou palavras de elogio ao nosso trabalho, tanto no e-mail como no blog (mais um que se pode incluir na “constelação direitista”, mas em versão soft core). Obrigado, Vítor. Vamo-nos lendo por aí.

 
O GRAU ZERO. Bem, vou responder aqui, porque já nem localizo bem os comentários no rol, porque ia gerar uma tira gigante e porque acho que mesmo sem o contexto, qualquer leitor percebe de que se fala.
Maradona,
1- O facto de a TV mostrar mortos e feridos porque sabe que há quem queira ver (o eterno argumento da TV lixo), com objectivos gananciosos e menos éticos não torna automaticamente ilegítimas as imagens, nem não pertinentes, apenas acautela menos a sua função num país carente de valores, cultura, educação digna desse nome e disciplina.
2- Se as pessoas foram manifestar-se para aliviar a sua consciência isso denota pelo menos que a têm. Se está cheia de meias verdades ou não, é algo que não lhes deve ser creditado na conta dos pecados mortais, mas na das imprudências (a prudência é, segundo o catecismo, uma virtude, mas cardial, o seu contrário não é necessariamente pecado mortal).
3 - Se há pessoas para quem só o que passa no Telejornal é que existe, então, quanto mais longe da realidade este estiver, mais estarão as pessoas, o que é um problema grave de que já se sentem efeitos. Por mim, deixei de andar de transportes públicos por me enojarem as conversas das pessoas, não sobre a realidade, mas precisamente sobre essa «irrealidade quotidiana» de que falava Eco, e que abarca todos esses programas que vão dos concursos aos reality shows incluindo necessariamente os telejornais e as ficções que lá aparecem em lugar da realidade (os encenados congressos partidários, as declarações à imprensa dos comentadores de serviço, os clichés dos repórteres, todo esse enjoo permanente das frases construídas para caberem no sketch do telejornal, desde o choradinho pelos drogados-coitadinhos aos arrojados lobbyers do sector automóvel).
4 - «Esta gente» de que fala Maradona, e à parte dos que lá se deslocam por ser necessário aí capitalizarem (por motivos eleitoralistas, se quiser), foi levada essencialmente por generosidade e é muito mais heterogénea do que possa pensar. No meio dela, além dos que aderem por motivos religiosos, nacionalistas, ambientalistas, europeístas (os que pensam que esta é uma guerra contra a Europa e não contra uns indígenas obcecados e tiranos no meio de um deserto cada vez mais valioso), políticos, partidários não eleitoralistas (por não serem elegíveis para coisa alguma), etc etc etc. Fica mal, acho eu, face a um problema tão sério, simplificar, porque, como avisava Bachelard, as generalizações são perigosas.
5 - Conheço gente ligada à organização da manifestação e sei que, mesmo sem televisão no horizonte, todas elas lá estariam, porque nenhuma delas persegue votos.
6- De facto não ouvi falar de mortos na Costa do Marfim. Mas ouvi falar de mortos nas obras do estado, mortos nas estradas que o estado não obriga a sinalizar devidamente, mortos à espera de intervenção cirúrgica, e de escândalos a nível interno com autarcas que actualmente ocupam lugares de relevo. E não vejo as televisões, jornais e afins preocuparem-se em perguntar a quem devem como vai o estado de Direito punir os responsáveis: ou será que nem punidos vão ser? Também observo que as pessoas (de esquerda e de direita) se alheiam completamente dos problemas do país enquanto the show is going on, mas a principal beneficiada com isso é a todos os títulos a direita no poder - que apenas por acaso também é quem manda nas televisões, diários e afins - e não a esquerda que barafusta na rua (bem acompanhada de alguma direita, isso garanto-lhe).
7 - Sempre haverá imagens excessivas para almas sensíveis, Zé Mário, o que é bom sinal, porque atesta que ainda existem almas sensíveis, mas se os violinos te incomodam então talvez o problema seja estético e não ético, já pensaste?

(«O Grau Zero» é da responsabilidade de Sandra Augusto França, que não tem afinidades com nenhum partido nem está muito convencida de ser de esquerda)


 
NEM DE PROPÓSITO. O telefilme «Só por Acaso», de Rita Nunes, transmitido esta noite pela RTP1, revelou-se um falhanço completo. E é com pena que o constato, porque gostei muito da primeira curta-metragem desta realizadora («Menos 9») e julguei que ela pudesse contribuir para uma renovação com pés e cabeça do cinema português. Se um anterior telefilme já me parecera fraquinho (era um drama arrebicado com fotografia Azeite Gallo, nem me lembro do título), este então é um verdadeiro desastre. Argumento não existe, mas a isso já estamos habituados. Há um esboço de história, sobre um rapaz que esteve cinco anos em coma e perdeu a passagem do milénio, mais uma intriga sentimental básica, meia dúzia de personagens à deriva e um assalto falhado. É tudo. Quer dizer, quase nada.
A realização é mole, os diálogos uma lástima (com muitos «foda-se» para impressionar) e o resto são lugares comuns: cenas em discotecas, linhas de coca, Parque das Nações, telemóveis, Lisbon by night, uma pseudo-modernidade urbana. E um taxista clone do Lenny Kravitz, que não adianta nem atrasa. Ah, já me esquecia: o climax narrativo do filme é um tiroteio inenarrável, imitação barata de Tarantino - tão barata e tão ridícula que chega a ser comovente.
Desculpa, Rita, mas isto não pode ser o cinema português moderno. Primeiro, porque não é moderno (já foi feito mil vezes e mil vezes melhor). Segundo, porque não é português (a "história" podia passar-se em qualquer lugar, Lisboa é só paisagem). Terceiro, porque não é cinema (estou a tentar recordar-me de um único plano digno desse nome e não consigo).
Desculpa, Rita, mas se isto é o teu futuro, por favor regressa ao passado e aprende tudo de novo. Eu fico à espera.

26.3.03
 
DEIXEM-SE ESTAR DESCANSADINHOS QUE NÓS TRATAMOS DE TUDO. Se for verdade o que ouvi num dos muitos noticiários sobre a guerra, a administração Bush já "escolheu" o futuro governo do Iraque. Bendita democracia...

 
PRÉMIO TATUAGEM FARFALHUDA. Desta vez nem somos nós a implicar com Vasco Graça Moura. É o leitor Abel Campos, que nos enviou esta nota:

De um artigo publicado hoje por um destacado cronista: «As posições francesa e alemã quanto à guerra no Iraque traduziam a vontade de ajudar indefinidamente à manutenção do regime de Saddam Hussein, a intenção de proteger interesses nacionais específicos naquele país e uma efeminada complacência eleitoralista em relação à opinião pública. (...) Foram dando a Saddam sucessivos balões de oxigénio, com a acolitação solícita de um Vaticano ainda freudianamente nostálgico de uma vingança não meramente escatológica contra os judeus que crucificaram Nosso Senhor Jesus Cristo, e quem sabe se empenhado num sibilino ajuste de contas com o país que pôs a nu a pedofilia de inúmeros dos seus agentes qualificados.» Sendo assim, está tudo explicado: é tudo uma conspiração de uma cambada de maricas anti-semitas cheios de desarranjos intestinais e incontroláveis flatulências, ainda por cima pedófilos nos tempos livres!

 
O TEMPO NÃO PÁRA. José Barros Moura bem poderia ter cantado esta canção do Cazuza a quem dele se ria. O Cazuza foi outro que morreu bem antes do tempo, mas a rir, em paz consigo mesmo, e é um dos cantores da minha predilecção. Oportunamente escreverei mais sobre ele, mas convido-os a conhecerem-no melhor. (Filipe Moura)

 
MEMÓRIA. José Barros Moura: É com tristeza que escrevo este texto. Verifico que uma geração que conheceu e lutou contra o fascismo, que se manteve firme nas suas convicções democráticas, está a desaparecer prematuramente: Luís Sá, João Amaral e, agora, José Barros Moura. Da geração anterior ainda restam, felizmente, vários membros, que passaram a maior parte das suas vidas na prisão ou na clandestinidade. Talvez por isso, não gostam que os façam rir. Ainda tenho esperança que vivam o suficiente para descobrirem que já não estão na prisão e que os muros caíram. (E já agora, que ensinem isso às novíssimas gerações.) Talvez assim olhem para o mundo com os olhos bem abertos. Quanto a José Barros Moura, recordo as suas palavras em entrevista ao DN, em Março de 1998: «Tenho hoje a certeza de que me falta o killer instinct indispensável para ganhar o poder a nível de organização, por pequena que seja. Mas embora seja sofredoramente do Sporting, não sou um vencido. Considero, aliás, que estou na altura da vida em que é preciso combater o vencidismo, que na história portuguesa foi sempre uma atitude reaccionária.» José Barros Moura foi um vencedor, porque lutou. (Filipe Moura)

 
BLOGS BAND. Como é do conhecimento geral, na blogosfera portuguesa há uma superabundância de jornalistas jovens e bonitos. Só assim de repente, estou a lembrar-me do Pedro Mexia, do António Granado, do João Pereira Coutinho e de moi même, mas deve haver mais. Proponho por isso a criação urgente de uma boys band que cante músicas pós-pimba, com letras adaptadas de Kurt Hamsun, de Julio Cortázar, de Gramsci e de Oakeshott. Nome já tenho: News Kids on the Blog. Falta-nos apenas um agente que comece já a marcar as datas da tourné (mesmo antes de haver disco) e as sempre muito concorridas sessões de autógrafos nos hipermercados.

 
O FOGO AMIGO. Também nas notícias de ontem, soube que dos 19 soldados britânicos mortos desde o início da guerra, 17 pereceram devido a "fogo amigo". Será que uma bala "amiga" mata com mais piedade ou glória, ou com menos dor? Será menos obscena a morte que a bala "amiga" oferece? E, já agora, com "amigos" assim, porquê ir para o deserto à procura de inimigos? (João Almeida)

 
OS DOIS REIS DE BORGES. O João Almeida, leitor atento deste blog (além de grande, grande amigo), decidiu enviar-nos o seu primeiro contributo. E começa muitíssimo bem, invocando uma das nossas paixões comuns: a escrita de Jorge Luis Borges (outras são a música de Monteverdi, o Sporting e a observação de aves no seu habitat, não necessariamente por esta ordem). Passo-lhe então a palavra:

Ontem à noite, ao ver na televisão as tropas americanas e britânicas retidas no deserto do Iraque, não sabendo como lidar convenientemente com as tempestades de areia, lembrei-me de um texto que a seguir transcrevo (admito que não deva ter sido uma associação de ideias particularmente original, mas enfim...).
Intitula-se «Os dois reis e os dois labirintos», de Jorge Luis Borges, com tradução de Flávio José Cardoso. Naturalmente que o texto vale em primeiro lugar pela sua inquestionável qualidade literária, se bem que não foi exclusivamente por ela que dele me recordei ontem. Julgo que é compreensível.
Cá vai então:

«Contam os homens dignos de fé (porém Alá sabe mais) que nos primeiros dias houve um rei das ilhas da Babilónia que reuniu os seus arquitectos e magos e lhes mandou construir um labirinto tão complexo e subtil que os varões mais prudentes não se aventuravam a entrar nele, e os que nele entravam se perdiam. Essa obra era um escândalo, pois a confusão e a maravilha são atitudes próprias de Deus e não dos homens. Com o correr do tempo, chegou à corte um rei dos árabes, e o rei da Babilónia (para zombar da simplicidade do seu hóspede) fez com que ele penetrasse no labirinto, onde vagueou humilhado e confuso até ao fim da tarde. Implorou então o socorro divino e encontrou a saída. Os seus lábios não pronunciaram queixa alguma, mas disse ao rei da Babilónia que tinha na Arábia um labirinto melhor e que, se Deus quisesse, lho daria a conhecer algum dia. Depois regressou à Arábia, juntou os seus capitães e alcaides e arrasou os reinos da Babilónia com tão venturosa fortuna que derrubou os seus castelos, dizimou os seus homens e fez cativo o próprio rei. Amarrou-o sobre um cavalo veloz e levou-o para o deserto. Cavalgaram três dias, e disse-lhe: "Ó rei do tempo e substância e símbolo do século, na Babilónia quiseste-me perder num labirinto de bronze com muitas escadas, portas e muros; agora o Poderoso achou por bem que eu te mostre o meu, onde não há escadas a subir, nem portas a forçar, nem cansativas galerias a percorrer, nem muros que te impeçam os passos."
Depois, desatou-lhe as cordas e abandonou-o no meio do deserto, onde morreu de fome e de sede. A glória esteja com Aquele que não morre.»


Na mouche, João. Todos sabemos como se chama, hoje, o país onde ficava a Babilónia...

 
OLHA AÍ, TVI. Certamente influenciado pelo «THEY LIVE!» do Carpenter que fui ver há pouco tempo à Cinemateca, reparei hoje no novo (?) slogan da TVI (cobria um dos autocarros-publicidade que por aí andam). Dizia: «TVI, uma televisão feita por si». Leituras possíveis:

1. A televisão já não é só feita para nós, como queria o Rangel, agora somos nós próprios (os que aparecemos nos telejornais populistas e demagógicos) quem a faz. De uma assentada, transforma-se no seu oposto a passividade típica do espectador e subverte-se, com requintes de perversidade, a utopia de uma imprensa feita por todos, aquela que começou com os jornais de parede e continua agora com os blogs.
2. Não somos nós que fazemos a televisão porque há alguém que a faz por nós, quer dizer, em vez de nós. E quem nos representa são os actores (cujas caras estavam pintadas no dito autocarro) que, na telenovela, vivem vidas como nós. Representam-nos como no parlamento os deputados. Não precisamos, por isso, de nos maçarmos, a televisão (e o parlamento) estão "bem entregues".
3. Não há ninguém, de facto, a fazer esta televisão, ela faz-se sozinha, por si, como por magia. As caras que vemos são realidade virtual, não há, "lá atrás", nenhum responsável, ninguém a quem pedir contas.

Estas três hipóteses de leitura, longe de se excluírem, contribuem todas, felizmente para a TVI, para a naturalização (ideológica) do "fenómeno televisivo". Nada pode correr mal: ou somos nós os seus autores (e a culpa não pode ser nossa), ou os nossos lindíssimos representantes por nós, ou a televisão nasce assim, de geração espontânea, a programação e os alinhamentos "tão naturais como a sua [nossa?] sede". E ficamos todos descansados.
(Francisco Frazão)

 
A PERGUNTA. Num extraordinário momento de sincronia, o Pedro Mexia e o João Pereira Coutinho fizeram, na Coluna Infame, a mesma pergunta: quem preferimos nós que vença a guerra no Iraque? Importa desde logo dizer que a pergunta é tudo menos inocente, sobretudo quando eles conhecem muito bem a nossa opinião sobre a legitimidade (nula) deste conflito e a forma encarniçada como nos batemos contra ele. Às 3 e 40 da manhã, ao publicarem os dois posts simultâneos, os infames devem ter sorrido ao pensar: deixa cá ver como é que eles descalçam esta bota...
Pois bem, meus amigos, não vou perder tempo com "enquadramentos", "contextualizações" e outras delongas. Se é uma resposta numa palavra que querem, é uma resposta numa palavra que vão ter: o que eu desejo que aconteça é a derrota clara, definitiva e rápida de Saddam Hussein. Uma vez que a guerra não pode ser parada, espero que tudo acabe quanto antes, com o menor número possível de baixas civis e militares (de ambos os lados, Pedro, que os soldados iraquianos não têm culpa da loucura dos seus chefes).
Continuo a pensar que este conflito é uma aberração, um erro histórico e uma tragédia que se podia ter evitado. Continuo a defender que a pressão diplomática e o trabalho dos inspectores poderia ter conduzido, a curto (ou médio) prazo, ao desarmamento do Iraque exigido pelas resoluções da ONU. Continuo a considerar que o avanço da "coligação" nunca deveria ter sido feito à revelia do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Continuo a temer o pior no cenário, ainda indefinido, do pós-guerra. Mas a realidade é que a guerra está aí e assume, todos os dias, as velhas formas do horror. No deserto, nas estradas cobertas de areia, nas cidades, há pessoas a morrer. Soldados ou civis, democratas ou fanáticos, não interessa: pessoas.
Quero por isso que a guerra termine tão depressa quanto possível. Com o único resultado imaginável: a vitória dos "aliados", representantes da "civilização ocidental" de que o João Pereira Coutinho tanto gosta de falar. Depois, cá estaremos para o rescaldo. E aviso desde já que aguardo ansiosamente que: 1) seja feita a demonstração cabal de que as armas de destruição maciça existiam realmente e foram destruídas (se isto não acontecer, alguém terá que arcar com a responsabilidade moral e "civilizacional" de uma guerra abominavelmente espúria); 2) o processo de reconstrução e consolidação democrática do Iraque "regresse" ao círculo de jurisdição da ONU; e 3) a comunidade internacional resolva rapidamente as muitas fracturas provocadas por esta crise e previna outros desastres semelhantes (aliás, já previstos pela cega política da «Guerra Infinita» de Washington contra o terrorismo).
Aqui fica, sem rodeios, a minha posição (o Manel dirá de sua justiça, se o entender). Como vêem, a clareza moral não é um atributo exclusivo da direita.

PS: Caro JPC, quando perguntas «ou estão com Saddam Hussein até ao fim?» lavras no mais despropositado dos equívocos. Já o repetimos mil vezes, mas pelos vistos não adianta: nós não estamos, nem nunca estivemos com Saddam, ao contrário do Sr. Rumsfeld no tempo da guerra contra o Irão. O dia em que Saddam sair do poder vai ser celebrado lá em casa. Com champanhe, se houver.

25.3.03
 
NOTÍCIA DO DIA. Li, reli e nem queria acreditar nos meus olhos: «Está para breve a compra dos populares "Marretas" pela Walt Disney. (...) O negócio vale entre 100 e 200 milhões de dólares». Eu logo vi que aqueles dois velhotes, mais o Animal, não iam sobreviver muito tempo na blogosfera portuguesa. Tanto talento, tanto humor, tanta irreverência – hmmm, alguém haveria de reparar, mais tarde ou mais cedo, nas potencialidades daquele blog. E pronto, lá vão eles ser engolidos por uma multinacional. Só espero é que não mudem o template para uma qualquer foleirada cor-de-rosa e pisca-pisca, com textos infantilóides sobre idas à praia, feitos a pensar naqueles meninos americanos que nem sequer conseguem descobrir o seu país no mapa-mundi. Algures nas Filipinas, ou em Taiwan, já devem estar em produção os novos peluches do Waldorf e do Statler. Boa sorte, camaradas.

PS: Se aqueles calões que só mandam bocas "valem" entre 100 e 200 milhões de dólares, quanto é que valeremos nós? E a Coluna Infame?

 
PROMESSA. Falta-me espaço e tempo para comentar o sexismo infame neo-chique dos neo-conservadores. Prometo voltar à carga quando tiver ocasião. (Ricardo Noronha)

 
O NOSSO FILHO DA PUTA. Os argumentos relativos à suposta predisposição dos franceses para a rendição, ainda por cima invocando a II Guerra Mundial, também permitem algumas gargalhadas. Pois era outra coisa senão conservador esse governo que tanta facilidade teve em entender-se com os Nazis? E seria ele mais ou menos francês do que a resistência que se prolongou durante toda a ocupação nazi? E os governos norte-americano e britânico que resolveram não intervir em Espanha, onde alemães e italianos testaram o seu material mais recente e as suas novas tácticas de guerra motorizada? Seriam eles por acaso pacifistas de esquerda?
Os argumentos de comparação desta guerra com a ascensão do fascismo são ridículos. A única comparação minimamente aceitável é a que atribui responsabilidades aos governos das "democracias ocidentais", pela criação das condições óptimas ao fundamentalismo religioso, e/ou a regimes ditatoriais de origem militar (como outrora ao fascismo), para que estes crescessem e se afirmassem contra as "ameaças" nacionalista ou comunista em emergência no mundo árabe durante a Guerra Fria. Como dizia Kissinger relativamente a Somoza, o sanguinário ditador da Nicarágua: "Ele é um filho da puta. Mas é o nosso filho da puta."
(Ricardo Noronha)


 
O AFEGANISTÃO "REAL". A esquerda enganava-se no Afeganistão, diz a direita cheia de esperteza saloia. «Diziam que ia ser difícil e em três meses tudo se tornou fácil». Convido todos aqueles que sustentam a ideia de que o Afeganistão se tornou uma democracia e um lugar seguro para viver, após a invasão americana, a passear fora das duas ou três principais estradas e a penetrar no "país real", onde os senhores da guerra e das papoilas, os chefes tribais, continuam a fazer a sua lei e a gozar na cara do governo fantoche de Karzai e das divisões americanas ali estacionadas. (Ricardo Noronha)

 
CINISMO & REGRAS DE CAVALARIA.O discurso sobre a guerra tem sido particularmente infame. Todos desejam que haja poucas baixas entre a população civil, mas «se tiver mesmo que ser, então seja». O que estamos a ver é que nenhuma guerra, a não ser as que se passam em filmes de Hollywood ou jogos de computador, é verdadeiramente cirúrgica (pelo menos na medida em que o emprego da metáfora não se distancie quilometricamente do sentido original da palavra "cirúrgica"). E agora vêm os americanos queixar-se de que os iraquianos não combatem segundo as regras. É preciso ter uma enorme dose de humor para lidar com tanto cinismo sem recorrer a insultos. O país que mantém centenas de presos em Guantanamo às margens de qualquer legalidade, sem sequer uma acusação e qualquer tipo de prova, vem falar de legalidade? Esperavam porventura que os iraquianos ficassem simplesmente à espera de uma derrota honrosa e leal, segundo as regras da cavalaria, quando estão a defender as suas casas e famílias? Com um pouco de sorte dividiam o campo, marcavam as horas e escolhiam as armas. É óbvio que o número de vítimas tem tendência a aumentar quanto maior for a vontade de resistir da população. E mesmo quando os americanos chegarem a Bagdad, poderão eles fazer outra coisa senão aquilo que os Israelitas fazem em Gaza e na Cisjordânia – intimididar e assassinar com o intuito de desmoralizar a resistência? (Ricardo Noronha)

 
SUBVERSÃO VS ORDEM. Na política, cujo regresso foi entusiasticamente saudado, não vivemos no domínio das intenções e sim dos actos. Historicamente, não é nenhuma ficção afirmar que a direita conservadora apoiou, facilitou e/ou desejou a ascensão do fascismo para combater a praga da revolução social e colocar fora da lei a luta de classes. Assim foi na Alemanha, em Espanha, em Itália, em Portugal, Chile, Argentina ou Grécia. O Pedro Mexia, ao justificar o seu sentido de voto nos partidos da coligação governamental, estava apenas a ser irónico, mas não deixou de enunciar a forma de pensamento típico de um conservador em tempo de crise e convulsão: contra a subversão, a ordem a todo o custo.(Ricardo Noronha)

 
GARIMPA. É como diz António Ferreira (autor do excelente «A queda do fascismo»): declarações de amor à democracia qualquer ministro turco do interior as pode fazer. Para a direita conservadora, a democracia que temos já é muito boa e devíamos dar-nos gratos por a termos. É como que uma espécie de dávida, que os indivíduos esclarecidos cá do burgo nos concederam num momento de inexcedível generosidade, para que nós pudéssemos confirmar-lhes o nosso apoio na sua missão dura de zelar pelos nosso destinos e contribuir para a nossa doutrinação civilizadora. Algo que devíamos valorizar muito, em vez de questionar teimosamente. Não admira por isso que achem necessário sujar um pouco as mangas do fato a pôr-nos na ordem outra vez – tudo para nosso bem, é claro – quando levantamos demasiado a garimpa. «Deixem-me trabalhar», dizia o outro, em quem por certo ainda votará o Pedro Mexia quando for ocasião para isso. (Ricardo Noronha)

 
OBJECTIVAMENTE. Em Itália, Berlusconi é corrupto e utiliza métodos fascistas (entre os quais fazer desaparecer activistas sindicais durante dias, fora de qualquer legalidade). Mas, para qualquer conservador italiano, "ou ele ou os sovietes". Pois não se viu já que na linha da frente dos que se opõem a este estado de coisas estão precisamente os mesmos agitadores de sempre (agora ao que parece a precisar de um banho e um novo par de calças)? Eventualmente, opormo-nos à direita, ainda que populista, autoritária, xenófoba, anticonstitucional, não fará de nós, objectivamente (esta é uma palavra que Pacheco Pereira herdou inequivocamente do seu antigo ídolo bigodudo), cúmplices de algo terrível, algo que se assemelha a uma traição, agora que a guerra, global, omnipresente, permanente, começou e a linha da frente está precisamente aí, a separar os bons e os maus, verdadeiros e falsos amigos da democracia?(Ricardo Noronha)

 
O MEDO. Este medo, este pavor que os que mandam e seus respectivos cães de guarda – os cúmplices e os ideólogos da "normalidade" – têm da ralé, da chungaria, dos mitras, da subversão. E também das palavras claras, do conflito, do gesto claro e inequívoco de recusa da mentira e da farsa, da raiva e do ódio dos espezinhados, entediados, crédulos, alienados e sempre bem comportados (até ao dia...) zés-ninguém. Este medo, evidente na prontidão com que se coloca fora da democracia quem pura e simplesmente não partilha a fé na nossa democracia de baixa intensidade, não se explica apenas por convicções fortes.
Por se sentir pouco segura relativamente às soluções democráticas e civilizadas próprias dos países desenvolvidos, a direita portuguesa reproduz todos os medos do inconsciente da burguesia portuguesa, desde 1974 receosa de que novamente a populaça se erga para lhe "roubar" o latifúndio, a fábrica e o banco, há gerações na família. Basta ver a velocidade e carinho com que Cavaco Silva entregou aos expropriados as suas antigas posses, os indemnizou pelos incómodos e se apressou a tranquilizá-los com o corpo de intervenção e o SIS, quando novamente soaram ruídos de descontentamento.
Estes senhores têm medo da multidão e é esse medo que os atira para as posições mais reaccionárias. Por isso se servem da direita tachista (enquanto esta pintar alguma coisa para este campeonato) para nos dizer que temos de apertar o cinto e, a seu tempo, se servirão do populismo autoritário que emerge da crise social, económica e política em que vivemos, quando essa lhe parecer a única solução. Trancam as portas do carro assim que vêem aproximar-se algum indivíduo com aspecto menos remediado. "Chungoso, logo perigoso". E talvez não se engane tanto como isso ao ter medo. Basta andar um pouco mais nos transportes públicos desta cidade para perceber que algo de terrível resultará de tanto mal estar. A nossa miséria consumir-nos-á lentamente, mas só enquanto não os consumir a eles rapidamente.
(Ricardo Noronha)


 
CARTOGRAFIA (2). Tudo isto para dizer que o posicionamento político e as opções que são feitas não obedecem a qualquer régua e esquadro e nem sempre cabem nas grandes famílias doutrinárias. Hoje conservadores, amanhã um pouco autoritários, logo depois anti-democráticos. Apenas o quanto baste. «Ou isso ou os sovietes», como já dizia, por certo com mais razão do que se quer imaginar, um qualquer nazi com as mãos manchadas de sangue. E não custa dizer que não foram apenas os Nazis, ou não estivesse já essa caminho iniciado por alguns eminentes dirigentes do «socialismo democrático», como Ebert – ministro alemão da Social-Democracia que ordenou o assassinato de Rosa Luxemburgo e de Karl Liebknecht em 1919, a quem pertence a famosa divisa «O Socialismo significa "trabalhar muito"» – ou Largo Caballero e o liberal Azaña, que ordenaram uma repressão de camponeses andaluzes em 1933, em Casas Viejas, onde homens e mulheres foram regados com gasolina e queimados vivos. Barbárie? Por certo tudo isso tem mais a ver com esta nossa (?) civilização do que o querem reconhecer certos civilizados. Há sempre um contexto para o texto do posicionamento político, por mais altissonante que este possa revelar-se em determinados momentos. À sua maneira, Estaline era um conservador e não por acaso se entendeu tão bem com Churchill. Após a sua ascensão ao poder, entre outras coisas, passou a ser lei a proibição do aborto e da homossexualidade, a subordinação dos trabalhadores à hierarquia das empresas, a glorificação do esforço e do trabalho, dos valores da família e da pátria. Há tantas camisas que servem a mesma compleição... (Ricardo Noronha)

 
CARTOGRAFIA. Primeiro que tudo, a cartografia da direita. O Pedro Mexia não hesita em demarcar-se da direita real. Nada tem a ver com os broncos liberais tecnocratas e carreiristas do PSD, ou os pseudo-conservadores das feiras, da moderna, dos pensionistas, dos veteranos de guerra, do CDS-PP. A direita dele tampouco é fascista e para prová-lo estão as opções bem claras afirmadas em voz alta. «Somos de direita, sim. Mas antes de mais nada democratas e conservadores.»
Como se pudesse ser assim tão simples. Ouvi uma vez da boca do Domingos Abrantes, dirigente do PCP há mais de 40 anos (por certo admirador das virtudes democráticas de Pyongyang), que «a reacção não brinca em serviço e, mesmo que hesite ao longo da corrida, quando necessário sabe escolher o cavalo que mais depressa atinge a meta». Assim, à falta de melhor e por agora, lá se foi o voto para a direita bronca, que Pedro Mexia odeia tanto como outro qualquer ser humano inteligente. Tudo porque, goste-se ou não, «era isso ou os Sovietes...»
(Ricardo Noronha)


 
10 X NORONHA. O nosso leitor Ricardo Noronha andava com uma série de coisas "entaladas" há não sei quanto tempo. Agora que decidiu deitá-las cá para fora, começou a escrever e o resultado é o que se vê: 10-posts-10, para todos os gostos e feitios. Grande Ricardo. É de colaboradores assim que este blog anda a precisar (mas também não exagerem).

 
THEY’RE BACK. Regressaram «Os Sopranos» (RTP2, segundas-feiras, 23h00). Isto é, regressou a melhor série de televisão dos últimos anos (arrisco mesmo: a melhor de sempre). Porque já não estamos, aqui, no território da linguagem televisiva. «Os Sopranos» é cinema de cinco estrelas, em doses semanais de uma hora. Reparem, por favor, na qualidade da fotografia, na estrutura "fílmica" dos argumentos, no requinte dos diálogos, nas espantosas bandas sonoras, nos movimentos de câmara dignos de Scorsese, no rigor absoluto do trabalho dos actores (tanto os "pesos-pesados" como, sobretudo, os fabulosos "secundários"). Meus amigos, isto é ouro puro, uma tiara de diamantes no meio do pechisbeque da TV.
Veja-se o episódio de hoje. Recuperam-se histórias da série anterior, criam-se novas plotlines (a agente infiltrada do FBI, a promoção do impagável Baccalla), vemos pairar sobre a família Soprano a sombra da crise (financeira, afectiva, psicológica), sentem-se subterraneamente os abalos provocados pelo 11 de Setembro, o Christopher Moltisanti vinga a morte do pai, Tony volta às deliciosas conversas com a psiquiatra, o Tio Junior prepara-se para um julgamento difícil, operam-se novos arranjos de poder dentro da estrutura mafiosa - enfim, já há ali muito pano para mangas do ponto de vista ficcional. O que faz de «Sopranos» uma série de qualidade estratosférica (infinitamente acima de «Sete Palmos de Terra», «24» e afins) é a atenção aos detalhes: Carmela a ler o New York Times pela manhã, o som de uma porta a fechar, o tempo que a câmara se demora num rosto, o «Rio Bravo» na TV ou a forma como Tony reage à estupidez alheia (violentamente, na discussão por causa do gelo com o empregado idiota do Badabing; ou cheio de tolerância "familiar", na genial conversa em que Baccalla confunde Quasimodo com Nostradamus e Nostradamus com Notre-Dame).
Se alguém merecia um Oscar, na cerimónia de ontem, era um senhor chamado David Chase. E tenho dito.


24.3.03
 
ENTÃO E A MOSTRA? Eu sei que prometi falar-vos sobre a Mostra Nacional de Jovens Criadores, um importante acontecimento cultural que decorreu em Sta. Maria da Feira, entre quarta e domingo da semana passada. Descansem que eu cumpro com o prometido (sou um homem de palavra). E se ainda não o fiz foi porque decidi ler o catálogo de uma ponta à outra, para ter uma ideia geral da coisa. Resultado: ainda estou a tentar decifrar umas sinopses pós-pós-pós-modernas, duríssimas de roer. Lá chegarei, espero, antes da entrada dos "aliados" em Bagdad.

 
SINAIS DE PÂNICO. O Luís Rainha sugeriu-nos uma visita a este site, onde se goza à grande com os ícones que o governo americano inventou, recentemente, no âmbito das campanhas de protecção civil pós-11 de Setembro. Contra a psicose do terrorismo, nada melhor do que umas boas gargalhadas.

 
AFTER GUANTANAMO. Como sempre, as notícias interessantes quase passam despercebidas em tempos de gritaria. Leio que 19 prisioneiros foram libertados de Guantanamo. Lembram-se destes homens detidos numa base americana, aos quais, segundo as autoridades americanas, nem a Convenção de Genebra (por serem terroristas) nem as próprias leis federais (por a base não se encontrar em território americano) se aplicariam, o que permitiria, entre outras coisas e ainda segundo as autoridades US, a desnecessidade de formalizar uma acusação contra eles e a possibilidade de os submeter a tortura? Estiveram detidos nas condições que se sabem durante mais de um ano e são agora libertados com a singela explicação «afinal não são terroristas». E agora? Poderão eles pedir uma indemnização por detenção ilegal e injustificada nos termos das leis federais (que, como vimos, não se aplicam em Guantanamo) e dos princípios gerais do Direito? Poupo-vos as minudências jurídicas que se calhar não interessa aqui debater, mas já seria talvez interessante abordar a questão do ponto de vista político: qual a resposta conservadora a esta questão? Como sabem os infames melhor do que qualquer piolhoso esquerdista, para um conservador, os direitos civis e políticos (aqueles que os marxistas chamavam "burgueses") e, acima de todos, o direito à liberdade, são a pedra angular de uma sociedade democrática e devem ser garantidos (ou limitados) por um sistema racional (logo, sem lacunas) de protecção jurídica. Por outras palavras, que isto já vai longo e não quero abusar da vossa paciência, como é que se vão safar os ex-terroristas de Guantanamo? Metem um processo no tribunal da comarca de Cabul? (Abel Campos)


 
O IRAQUE PÓS-SADDAM. Um leitor (Filipe Bret) chama-nos a atenção para o artigo de Andy Robinson publicado hoje no jornal La Vanguardia (Barcelona). Transcrevemos de seguida a informação mais relevante:

Richard Perle, (...) uno de los impulsores más fervientes de la invasión de Iraq, ha firmado un contrato de consultoría con la multinacional estadounidense de telecomunicaciones Global Crossing, en suspensión de pagos tras un presunto fraude contable.
Según Global Crossing, el contrato de 725.000 dólares suscrito con Perle corresponde a los servicios de lobby que éste proporcionará aprovechando sus estrechas relaciones con la Administración Bush para facilitar la venta de Global a una "joint-venture" de telecomunicaciones asiática. Perle, que pronunció ayer una conferencia en Goldman Sachs sobre las oportunidades de inversión que genera la guerra titulada "Implicaciones de una guerra inminente. Ahora Iraq, el siguiente Corea del Norte", es un allegado del grupo Nuevo Siglo Americano, que ejerce gran influencia sobre el vicesecretario de Defensa, Paul Wolfowitz, y es partidario de mantener una larga ocupación de Iraq, ampliar la ofensiva militar a Corea del Norte y presionar en favor del cambio de régimen en Arabia Saudí. (...) En un ya ultimado plan de reconstrucción iraquí diversas empresas con estrechas relaciones con la Administración – entre ellas, Halliburton, antes la empresa del vicepresidente Cheney, así como la empresa de tecnología militar Bechtel – ya han firmado contratos por cientos de millones de dólares.
Richard Perle, que se negó a hablar con "La Vanguardia", negó que el acuerdo con Global violase las normas de la ética profesional. Pero Steve Weiss, portavoz del Center for Responsive Politics, un instituto de Washington contra la corrupción, dijo en declaraciones a "La Vanguardia": "Hay evidentes conflictos de interés en las actividades de Perle". El ex secretario de Defensa de George Bush padre, William Cohen, es miembro del consejo de Global Crossing.
Perle es socio – al igual que el ex secretario de Estado Henry Kissinger – de una empresa de capital riesgo, Trireme Partners, que invierte en empresas de tecnología especializada en defensa y seguridad interna, uno de los negocios más prometedores en el mundo después del 11 de septiembre, tanto más, en medio de conflictos como el de Iraq. Kissinger tuvo que dimitir como presidente de una comisión de investigación sobre las causas del 11-S el año pasado porque no quería divulgar los nombres de sus clientes. Entre los financieros que han mantenido relaciones con Trireme Partners se incluye el polémico empresario saudí Adnan Khashoggi y la compañía aeronáutica – cada vez más orientada al sector de la defensa – Boeing.
Adnan Khashoggi, un hombre involucrado en el escándalo Irangate en los años ochenta, dijo a la revista "The New Yorker" que Perle fomentaba la guerra en sus relaciones con la Administración porque "si no hay guerra, ¿para qué hace falta seguridad?. Si hay guerra, miles de millones de dólares se gastarán". Según "The New Yorker", un colaborador de Perle en Trireme Partners propuso al consejo en febrero que tras la guerra iraquí se deberían anular los contratos existentes de explotación petrolera y "echar a patadas a los rusos y franceses " de la zona para luego "vender futuros en la empresa petrolera iraquí".


Depois, o Filipe completa num tom irónico (sem emoticons): «Eis a demonstração clara de que para o governo americano "a guerra no Iraque tem um objectivo político claro: acabar com o longo tirocínio de Saddam e instaurar um regime de liberdades e regras democráticas no Iraque", como se diz na Coluna Infame. Há pessoal tão inocente.»

 
A FUNDA DE DAVID. Será que alguém consegue explicar - talvez o Nuno Rogeiro - como é que um camponês iraquiano conseguiu abater, com tiros de carabina, um helicóptero Apache (essa sofisticadíssima máquina de guerra que custa 40 milhões de dólares por unidade)?

 
MAIS UMA REFERÊNCIA. A blogosfera política continua a merecer inesperadas atenções da imprensa clássica. Hoje foi a vez do suplemento Computadores, do Público, a quem agradecemos a citação completa de um post curto (sobre a guerra) e a correcção do lapso de Pacheco Pereira (ao insinuar um vínculo, inexistente, ao Bloco de Esquerda).

 
ALICE IN IRAKLAND. O Francisco Nazareth, leitor que nos lê nos antípodas (mais concretamente em Sydney), enviou por e-mail um artigo do jornalista Peter Freundlich, de que vale a pena citar a parte final:

I think it is a good thing that the members of the Bush administration seem to have been reading Lewis Carroll. I only wish someone had pointed out that "Alice in Wonderland" and "Through the Looking Glass" are meditations on paradox and puzzle and illogic and on the strangeness of things, not templates for foreign policy. It is amusing for the Mad Hatter to say something like, `We must make war on him because he is a threat to peace,' but not amusing for someone who actually commands an army to say that.
As a collector of laughable arguments, I'd be enjoying all this were it not for the fact that I know - we all know - that lives are going to be lost in what amounts to a freak, circular reasoning accident.


Não podíamos estar mais de acordo. Até porque a administração Bush encontrou em Donald Rumsfeld, autor da fabulosa tirada sobre os «unknown unknowns», um legítimo herdeiro do muito esquivo gato de Cheshire. Relembremos um diálogo entre esse mítico felino e a nossa querida Alice:

«Would you tell me, please, which way I ought to go from here?»
«That depends a good deal on where you want to get to,» said the Cat.
«I don't much care where----», said Alice.
«Then it doesn't matter which way you go», said the Cat.
«----so long as I get somewhere», Alice added as an explanation.
«Oh, you're sure to do that», said the Cat, «if you only walk enough.»
Alice felt that this could not be denied, so she tried another question.
«What sort of people live about here?»
«In that direction», the Cat said, waving its right paw round, «lives a Hatter: and in that direction», waving the other paw, «lives a March Hare. Visit either you like: they're both mad.»
«But I don't want to go among mad people», Alice remarked.
«Oh, you ca'n't help that», said the Cat: «we're all mad here. I'm mad. You're mad.»
«How do you know I'm mad?», said Alice.
«You must be», said the Cat, «or you wouldn't have come here».


 
BOWLING FOR HOLLYWOOD. Noite longa de Oscares em Los Angeles, enquanto no outro lado do mundo tombam soldados americanos no Iraque. Já se sabe: a globalização do entertainment não pára, há muita publicidade vendida e dois mil milhões de espectadores à espera. No país mais moralista que existe à superfície da Terra, pode sempre colocar-se a moral entre parêntesis, quando valores mais altos se levantam (a "honra nacional" ou os dólares, tanto faz). The show must go on, dizem eles.
E lá se fez a cerimónia. Tristonha. Chatinha. Previsível.
Principais pontos negativos: as zero estatuetas para «Gangs of New York»; o Oscar de Melhor Actor longe das mãos de Daniel Day-Lewis (um gigante no filme de Scorsese) e o de Melhor Actriz longe de Juliane Moore (sublime em «Far from Heaven»); a canção de Paul Simon (tão fraca que até dói); o recuo diplomático de Peter O' Toole e a falta de imaginação dos habituais clips nostálgicos (excepção feita à evocação, feita por vários actores, do que é «receber um Oscar»).
Principais pontos positivos: as piadas ácidas de Steve Martin; o dueto de Caetano Veloso com uma cantora mexicana (cujo nome não fixei); a participação de Gael García Bernal, o actor mexicano que teve coragem de falar alto contra a guerra em frente daquela "distinta" audiência (furando, by the way, a proibição da Academia); e, claro, o momento alto da noite: o discurso de Michael Moore, ao receber o Oscar de Melhor Documentário para «Bowling for Columbine», durante o qual condenou a guerra «fictícia» de um presidente «fictício» e gritou «Shame on you, Mr. Bush!». Grande Michael.

Depois apagaram-se as luzes, desfez-se o "glamour" chocho e voltaram para os armários os fatos de milhares de dólares. O cinema, o verdadeiro cinema (como muito bem elencou o Alexandre Andrade), está noutros lados.

 
INSULTOS VS IDEIAS. Mais um esclarecimento necessário: ao contrário de alguns dos nossos leitores, nós não consideramos que a Coluna Infame seja «um blog de insultos e não de ideias». Quem leia diariamente as prosas do(s) Pedro(s) e - mensalmente - as do João Pereira Coutinho, sabe que além de boa escrita, ironia e um certo desassombro, há muita reflexão por aqueles lados. Ideias não lhes faltam e eles sabem defendê-las com garbo. No question about it.
Agora, o que os nossos leitores por vezes não compreendem é que os "infames" são mestres na arte da provocação. Eles falam em "gajas", em "esquerda festiva", em «Saddamitas» e disparates do género para nos picarem. O que eles querem é ver-nos a "espernear" em indignações episódicas, porque enquanto perdemos tempo a responder-lhes, não fazemos outras coisas mais úteis.
Resumindo: por vontade própria e estratégia de "choque", a Coluna é muitas vezes, entre outras coisas, um blog de ideias insultuosas. Se quiserem continuar a responder à letra, caros leitores, façam favor. Pela nossa parte, já nos deixámos dessas guerrilhas verbais. Preferimos guardar munições para as polémicas que valem mesmo a pena.

 
SANGUE NO DESERTO. Todos os canais portugueses de TV estão a cair no mesmo erro grosseiro: mostrar imagens de combates e mortos ensanguentados e tanques a avançar no deserto e crianças chorando, tudo em câmara lenta e com música de violinos. Alguém devia explicar aos senhores jornalistas (?) que fazem, autorizam e emitem estes miseráveis clips que a guerra do Iraque é uma GUERRA, não é o rali Paris-Dakar.



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