BLOG DE ESQUERDA

POLÍTICA, CULTURA, IDEIAS, OPINIÕES, MANIFESTOS E ETC. (envie os seus contributos, dúvidas e sugestões para o blog_de_esquerda@hotmail.com)Este blog é mantido por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?
12.1.03
 
VERSOS QUE NOS SALVAM. Jorge Sousa Braga tem dado a conhecer, aos leitores portugueses, vários poetas orientais especialistas em formas mínimas (como o haiku), traduzidos de forma mais ou menos livre. Agora, na Assírio & Alvim, reuniu pequenas pérolas de Itaro Kobayashi (1763-1827), mais conhecido por Issa, num livrinho precioso intitulado «Primeira Neve». Aqui vos deixo cinco dos poemas deste herdeiro de Bashô:

A primavera
Deixou na soleira da porta
Os tamancos enlameados

Da mesma boca
Que mordeu uma pulga -
Uma oração a Buda

Pássaros constroem o ninho
Sem saberem que aquela árvore
Vai ser derrubada

Quando morrer
Guarda tu a minha sepultura
Oh gafanhoto

A lua da montanha
Ilumina também
O ladrão de flores





 
ARIEL LAVA MAIS SUJO. Afinal, ainda há esperança para o Médio Oriente. Ao contrário do que se chegou a pensar, a reeleição de Ariel Sharon, como primeiro-ministro de Israel, não é um dado adquirido. Parece que o Procurador-geral ordenou investigações a negócios escuros do Sr. Sharon e dos seus dois filhos, a que se juntam diversas suspeitas de corrupção no seio do Likud. Resultado: já existe um quase empate técnico com os trabalhistas, nas sondagens para o próximo acto eleitoral. Num momento em que a arrogância sionista continua a fazer vítimas na Faixa de Gaza e o Governo dos «falcões» se dá ao luxo de rejeitar gestos de boa vontade (como o apelo de Arafat para que acabem os ataques a civis israelitas), é bom saber que o anafado Ariel pode ser apeado do poder. Para bem da região, quanto mais cedo isso se verificar, melhor.



 
CINEMATECA, OUTRA VEZ. É bom voltar a ver cinema na R. Barata Salgueiro, agora que a Cinemateca, exemplarmente dinamizada por João Bénard da Costa (um dos cinéfilos mais apaixonados do mundo), regressou a casa - dois anos e muitas obras de remodelação depois. As diferenças são consideráveis: em vez de uma sala passamos a ter duas (com mais sessões diárias), há um novo bar-restaurante, uma livraria, mais espaços de exposição.
Num primeiro contacto, não posso dizer que tenha aderido completamente ao conceito arquitectónico. Há por ali uma certa frieza, um tom melancólico (é tudo muito castanho) e uma ostensiva «boa qualidade» dos materiais e acabamentos, a atirar para um novo-riquismo que contrasta com os frequentadores das sessões (os mesmos de sempre: estudantes de cinema, intelectuais desarranjados, mais o sósia do Lenine). Todos sabemos que os cadeirões brancos da antiga sala estavam a precisar de reforma, mas o requinte burguês das novas instalações ainda não me convenceu. No entanto, já lá dizia o outro: «primeiro estranha-se; depois entranha-se». E o que interessa são os filmes.
Esses, felizmente, continuam a ser de primeira água. Reparem bem no que pude ver ontem: «Où gît votre sourire enfoui?», de Pedro Costa (um documentário magnífico sobre o casal Straub, filmado durante a montagem de «Sicilia!»; uma lição sobre o que deve, e pode, ser o cinema; desde já, para mim, fortíssimo candidato a melhor filme do ano); «Operai, Contadini», precisamente de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet (uma obra belíssima e radical, que não vai ter distribuição no nosso país); e «Numéro Zero», de Jean Eustache, um delicioso documento em que o realizador entrevista a sua avó, uma mulher de armas que não se cala e vai contando histórias, umas atrás das outras, como se a vida pudesse caber inteira assim, nas palavras ditas a um neto que a escuta, à mesa, entre copos de whisky e baforadas de charuto.
E agora, sem whisky mas com vinho tinto alentejano, levanto o copo e brindo à nova «velha casa» do cinema. Do fundo do coração: obrigado, Bénard.



 
VAMOS LÁ AJUDAR OS RAPAZES (2). Veio-nos parar às mãos, hoje, mais um apelo de um grupo de animadores culturais. O e-mail, assinado por Paulo Ferrero, diz assim:
«Como é do vosso conhecimento, o carismático cinema Odéon encontra-se encerrado há uma série de anos e corre o risco de se tornar mais uma memória do passado (tal qual o Paris, com demolição iminente), se não for rapidamente objecto de uma operação de resgate por quem lhe queira dar uma segunda oportunidade.
Nesse sentido, a equipa de que faço parte apresentou recentemente à CML, ao MC, ao Ippar, ao IGAC e à Banca um projecto de parceria – o Novo Odéon (www.geocities.com/novo_odeon/odeon.html) – com vista à sua compra, restauro e exploração de modo a torná-lo num pólo cultural incontornável na vivência cultural alfacinha.
A ideia é colocar o Odéon nas mãos de todos nós, por via da compra pelo Estado, avançando nós com a gestão da sala, de forma empenhada e continuamente avaliada, quase que gratuita e a termo certo, se for essa a vontade da CML/MC.
Em virtude de todos os esforços serem poucos para que seja possível salvar a belíssima sala que é o Odéon (praticamente intacta e que apenas precisa de limpeza interior e restauro das fachadas) pedimos que nos ajudem, publicitando esta iniciativa ou, pelo menos, dando voz ao Odéon.»

Aqui fica a mensagem. E, já agora, uma dica para as vossas negociações. Quando o Santana Lopes vos disser que não há dinheiro para o projecto, é altura de recorrer aos únicos argumentos a que ele é sensível. Primeiro, apresentem estudos de viabilidade económica que incluam processos modernos de financiamento cultural. Ou seja, uma sala de bingo na cave. Depois, é só convidarem o Niemeyer para coordenar a recuperação arquitectónica (não vale a pena tentarem o Frank O. Gehry, ele já anda muito ocupado).






 
JOÃO AMARAL. Há cerca de um mês, assisti a um debate sobre o tema «Que Europa?», organizado pela Associação dos Amigos do «Le Monde Diplomatique», no Instituto Franco-Português. Os oradores eram Bernard Cassen (Presidente da associação ATTAC), Mário Soares e João Amaral. No estruturado discurso do presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, em que eram analisadas a fundo as várias questões prementes que a UE tem que enfrentar nos tempos mais próximos, houve um pormenor de linguagem que causou um certo "frisson" na sala. Sempre que o ex-deputado comunista se referia ao seu partido, ou às políticas europeias por ele defendidas, não dizia PCP mas sim «um certo segmento da esquerda portuguesa» (expressão que mereceu, mais tarde, um comentário irónico de Soares). Pois bem, no momento em que as páginas dos jornais se enchem de elogios fúnebres à «dignidade» e «coragem» de um homem que afrontou a ortodoxia do Partido, sem nunca bater com a porta, não vale a pena repetir o que já toda a gente disse sobre o seu percurso, a sua coerência, as suas ilusões e até a sua forma elegante de vestir. João Amaral era um homem que acreditava numa mudança (a do seu PCP) que talvez seja impossível, a julgar pela forma como o «segmento» reagiu a esta lamentável perda. Há esquecimentos e omissões que são uma espécie de segunda morte.




10.1.03
 
AINDA SOBRE A COLUNA INFAME. Vale a pena dizer mais uma quantas palavras sobre o simpático e colorido retrato que a “Coluna” fez da nossa dupla. Aqui vão dois apontamentos suplementares:
1- A descrição dos “irmãos Silva”. Dum lado um intelectual de esquerda culto e esteta (o José Mário), de gosto refinado e ecléctico, feito de leituras de Borges e de muito Bach por Glenn Gould. Do outro, seu irmão (eu próprio), militante façanhudo, bolchevique de faca nos dentes, mata-padres e leitor de insondáveis canhenhos estalinistas. A evocação é algo romanesca e demonstra que os nossos amigos da “Coluna Infame” não só têm talento literário, mas uma forte propensão para a mitologia. É que a direita gosta muito de imaginar assim dois tipos de esquerda, uma delicada e idealista, e uma outra sisuda, dogmática (aquela que metia medo - BUUUH!! - mas já não mete).
Deixemos de lado os exageros e digamos apenas isto: Nós não nos reconhecemos nessa forçada dicotomia. A esquerda radical deve partir de uma abertura inteligente à diversidade do mundo e à pluralidade da sua história. Mas igualmente ser trasformadora, revolucionária e militante. O eclectismo intelectual que defendemos, a beleza com que descobrimos a multiplicidade das expressões artísticas, cumpre-se numa crítica radical desta sociedade que nos apresentam como uma evidência. Ou para citar o que Marx (porque de facto o continuamos a ler) nos diz sobre o Direito, recusamos sempre aqueles que vêm «em cada existência uma autoridade, e em cada autoridade um fundamento». Sabemos que é essa esquerda aquela que continuará sempre a fazer medo.
2- Pode parecer estranha a amizade e cortesia entre os autores deste blog e os nossos já proclamados rivais/camaradas. Até porque continua ainda firme a ideia de que não há amizade possível entre pessoas de esquerda e de direita.
[Podemos apesar de tudo lembrar o caso da revista «Homens Livres», que juntou no ano de 1923 gente tão diversa e como António Sérgio, António Sardinha, Jaime Cortesão, Afonso Lopes Vieira, Aquilino Ribeiro, Hipólito Raposo, Raul Brandão, o chamado grupo da Biblioteca Nacional, numa mistura explosiva de seareiros e integralistas, movidos pelo mesmo desejo de abanar o país e criticar o “descalabro” republicano. A verdade é que a revista durou apenas dois números, vítima da forçada proclamação de uma política nova que varresse a velha, esquecendo as verdadeiras diferenças entre esquerda e direita. Que isso nos sirva de lição.]
Conhecemos os autores da “Coluna” de outras lides (nomeadamente do saudoso DN-Jovem) e as divergências sempre fizeram parte da convivência (por entre barricadas de palavras) desse pequeno grupo que se juntou em torno de afinidades literárias e de boa camaradagem.
Como já disse o Zé Mário, as futuras polémicas com a "Coluna Infame" serão, como sempre, sem concessões. Nunca sofisticados e aristocráticos duelos de palavras, cada um defendendo as cores da sua dama, cabendo a palma ao estilo mais brilhante e habilidoso. Não é assim que vemos o debate de ideias. Porque achamos a política coisa séria. E o pensamento, também. Apetece até dizer, nestes tempos amnésicos, que são mesmo coisas de vida e de morte.

 
BAUSCH (NEM SEMPRE) É BOM. O espectáculo que Pina Bausch trouxe a Lisboa, "Água", é para já a maior desilusão cultural deste princípio de 2003. A coréografa de Wuppertal, de quem já vimos diversos trabalhos simplesmente extraordinários ("Café Müller", "Kontakthof", "1980 - Ein Stück" ou "Viktor"), apresentou desta vez no CCB uma obra preguiçosa e mal estruturada que parece - é terrível dizer isto - o trabalho de alguém a «imitar», de forma descarada, Pina Bausch. Os gestos e os princípios estão lá; a criatividade é que não. E se no binónio Dança/Teatro o primeiro elemento ainda consegue resistir (apesar da insistência na imagem gasta dos homens em tronco nu e das mulheres em camisa de dormir), já os apontamentos «teatralizados» são de uma pobreza confrangedora. Os bailarinos continuam excelentes, como sempre, mas a maioria deles não faz a mínima ideia do que é representar. Para além disso, a imagem que Bausch transmite do Brasil - esse universo tão rico e cheio de potencialidades artísticas - não é sequer uma imagem, mas antes uma caricatura de postal ilustrado (as imagens de coqueiros, as cataratas do Iguaçu, as praias ao pôr-do-sol) com laivos de um paternalismo neo-colonial. De repente, fiquei com saudades dos primeiros tempos de Pina, antes desta questionável «abertura ao mundo», quando as suas personagens eram muito alemãs e muito infelizes e explodiam para dentro e se atiravam contra as paredes e caminhavam, sonâmbulas, num mundo de arestas.
No fim de "Água", o público português, parolo e acrítico, aplaudiu de pé, agitou cachecóis e gritou muitas vezes «Bravo!», numa histeria colectiva que é o retrato perfeito do nosso provincianismo embasbacado diante dos «grandes nomes». Gosta-se porque é suposto gostar. E porque, caramba, Pina Bausch é sempre Pina Bausch, como um Picasso é sempre um Picasso (mesmo que se trate de um esboço sem interesse, garatujado num guardanapo de papel). Eu pergunto-me: depois de tanto entusiasmo à volta de um frouxo exercício de estilo, que farão estes admiradores fervorosos (e pavlovianamente cegos) quando a artista nos voltar a oferecer espectáculos dignos do seu talento?



 
VERSOS QUE NOS SALVAM. Como em todos os blogs, também nós vamos instituir, aos poucos, as nossas rubricas mais ou menos regulares. Nesta, "Versos que nos salvam", resgataremos poemas (na íntegra ou em pequenos fragmentos) dos mais variados autores, balões de oxigénio para um tempo em que a mediocridade reina.
Começamos com alguns versos de José Agostinho Baptista, uma parte do poema "Celma" (in "Afectos", um livrinho de circulação restrita que acaba de ser publicado pela Assírio & Alvim):

Penso que enlouqueci.
Os espelhos quebravam-se à aproximação do meu
rosto,
devolvendo-o aos bosques frios.
Tive medo
e quis matar os relógios e os meus anos excessivos.
Quis morrer tantas vezes.
Em vão.
Pouco a pouco, começaste a cortar as asas dos belos
pássaros da bondade e estremeci.
Uma faca de gelo atravessou as minhas costas e a alta
fronte das noites.
Deitei a cabeça no teu colo de pétalas perdidas e chorei.
Era um menino que chorava, abandonado pelas mães.
Estava só.
E tu quem eras, então?
Um lírio, um punhal, uma estrela errante?




 
VAMOS LÁ AJUDAR OS RAPAZES. Lembram-se da «Bíblia», aquela revista iconoclasta que tinha a pretensão de ser "mais lida do que a outra" e que foi publicando, ao longo de 14 números, centenas de autores mais ou menos "underground"? Era um projecto com uma linha editorial muito definida (obra e graça do carismático Tiago Gomes), uma "filosofia" completamente à margem das estratégias comerciais e que, por isso mesmo, só sobrevivia com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa. Mas agora, como nos conta o Tiago numa carta-SOS, «por entre chernes e casinos, parece não ter sobrado tempo nem dinheiro para apoiar um projecto que já fez mais de cem lançamentos, debates, apresentações, happenings e etc, por todo o país e estrangeiro, permitindo um espaço de liberdade a todos os leitores e autores que pela revista têm passado os seus olhos». A situação, pelo vistos, é mesmo dramática. E a única saída está numa mega-campanha que consiste na assinatura de quatro números por 20 euros, com direito ao bónus de uma edição atrasada à escolha (as revistas são enviadas para casa, sem portes de correio). Se quiserem dar uma ajudinha, podem enviar "cheque, vale postal ou mesmo dinheiro" para a R. da Boavista, 76, 2.º - 1200 Lisboa ou contactar o Tiago "himself" (21.347.92.41; 93.457.16.27). Vá lá, não custa (quase) nada.






9.1.03
 
SARAVÁ COLUNA INFAME! Andávamos nós (eu e o Manel) tranquilamente em experimentações, afinando a máquina, esperando o momento certo para divulgar este blog, quando uma inconfidência veio precipitar as coisas. Devo admitir que a culpa foi minha. Há uns dias, falei vagamente deste projecto ao Pedro Mexia, amigo de longa data e fundador do blog «Coluna Infame» (http://colunainfame.blogspot.com). Ele veio dar uma olhada ao "estaleiro" e escreveu logo, na dita Coluna, um texto de expectativa (pelas polémicas futuras) que nos apontava como "rivais". E assim começámos, de facto, a existir.
Mas vamos por partes. Em primeiro lugar, a César o que é de César. Há uns três meses, quando eu ainda não fazia a mínima ideia do que era um blog (web-log), nem sonhava com as espantosas potencialidades deste suporte, o Pedro disse-me que tinha iniciado, com mais dois cúmplices (o Pedro Lomba e o João Pereira Coutinho jornalista, não confundir com o milionário), um espaço na Net assumidamente de direita. O nome, «Coluna Infame», foram-no buscar a Manzoni, que é um clássico e fica sempre bem. Quanto ao estilo, tem oscilado entre a reflexão séria – com uma profundidade de análise que contrasta com o habitual vazio de ideias da direita tradicional portuguesa – e um registo mais terra-a-terra, todo ironia e sarcasmo, "straight to the point" e tendencialmente demolidor. Mesmo se quase nunca estamos de acordo com o que defendem, uma coisa é certa: eles são conservadores mas sabem pensar e – coisa ainda mais rara – escrever.
Além disso, como não somos hipócritas, admitimos sem problemas que a existência da «Coluna Infame» teve um papel decisivo no surgimento do nosso blog. Não só porque já sabíamos, à partida, que existia alguém do outro lado da barricada disponível para um confronto ideológico, mas também porque não queríamos deixar mais este «media» sob o controlo exclusivo da direita. A partir de agora, a «Coluna» seguirá o seu rumo e nós o nosso, com a certeza de que havemos de polemicar muitas vezes.
Escaramuças e diatribes, venham elas!

PS: O que o Pedro escreveu sobre os "manos Silva", todo aquele extenso elogio que sabemos sincero (mas porventura exagerado), deixa-nos numa posição delicada. Qualquer resposta no mesmo tom pode soar a troca de galhardetes - e mesmo a compromisso. Mas podem os leitores ficar descansados: nós nunca nos deixaremos amolecer com pancadinhas nas costas. De qualquer forma, para evitar suspeições, optámos pelo silêncio. E por isso não vamos dizer que o Pedro Mexia é já o mais lúcido e consistente dos críticos literários que escrevem na imprensa portuguesa, além de magnífico poeta (com novo livro no prelo), cinéfilo de gosto apuradíssimo, direitista incapaz de renegar escritores "engagés" (como Pavese ou Éluard) e feliz proprietário de uma das mais invejáveis bibliotecas de Lisboa. Não vamos dizer que o Pedro Lomba é um rapaz de outro tempo, educadíssimo, um conservador da velha cepa e advogado competente, mas que anda a desperdiçar a sua notável capacidade de argumentação em aborrecidas audiências no tribunal, quando podia dedicar-se em exclusivo ao estudo da evolução dos sistemas parlamentares e temas afins (sobre os quais sabe muito); ou à literatura. Não vamos dizer, por fim, que o João Pereira Coutinho é o enfant terrible do jornalismo português: espalha-brasas que leu tudo (ou quase tudo), oxfordiano a caminho do doutoramento, um espírito radical e cínico, brilhante e "perigoso". Não vamos dizer nada disto. E fica o assunto arrumado. Eles sabem ao que vêm. Nós também. "Alea jacta est".








8.1.03
 
A GUERRA LIMPA. Num momento em que já se sente o cheiro a pólvora no ar, é preciso ir percebendo e intuindo o que está em causa na mais que certa guerra do "Ocidente" (leia-se EUA) contra o Iraque. O que nos interessa não são apenas as circunstâncias do conflito, as suas engrenagens retóricas e obscuras motivações, mas sobretudo o que se vai desenhando por trás, no cenário de um mundo que ainda não estabilizou depois do 11 de Setembro. Mais do que certezas, queremos oferecer pistas para a reflexão.
Como esta. Um excerto da entrevista de Alessandro Baricco (autor de «Seda» e «City») a Anne Dufourmantelle, publicada como introdução a um livro de ensaios do escritor italiano («Constellations - Mozart, Rossini, Benjamin, Adorno», Calmann-Lévy, 1999). Desculpem, mas vai em francês: «Alessandro Baricco - Il y a une chose que je vois, c'est qu'en Occident, maintenant, il n'y a plus de culture de la révolution. Nous avons desórmais une culture de la réforme. La réforme c'est exactement le contraire de la révolution. C'est émettre l'hipothèse qu'on puisse changer sans provoquer ni douleur ni mort. Anne Dufourmantelle - L' illusion d'une "guerre propre"... Alessandro Baricco - Une guerre propre, sans morts, sans douleur, c'est un symbole si puissant... La guerre, qui est la pire des choses, devient respectable! C'est assez terrifiant!» Sim, Alessandro, é aterrorizador, estamos de acordo. Mas é justamente uma guerra desse tipo que os americanos continuam a preparar, cirurgicamente, lá para os lados do Golfo Pérsico...



 
MISERICÓRDIA CHRISTÃ. Lembram-se daquele artista maluco que embrulhou, literalmente, o Reichstag e o Pont Neuf? Pois é, Christo promete voltar a fazer das suas. Desta vez, a ideia é cobrir o Central Park, em Nova Iorque, com um manto de tecido amarelo-mostarda. Nós, aqui no Blog de Esquerda, deixamos um apelo ao criador búlgaro. Uma vez que está nos EUA, não conseguiria dar um saltinho a Washington e estender um lençol por cima da Casa Branca? E, para completar o serviço, não poderia já agora mumificar também o ocupante da Sala Oval?

 
O «C» DE BAUSCH. Apesar de toda a sua bagagem cultural e heterogénea erudição, é sabido que Eduardo Prado Coelho comete, de vez em quando, umas gaffes. Nomes trocados, confusão entre actores e actrizes, citações mal atribuídas, erros involuntários, etc. Enfim, toda a sorte de lapsos que só confirmam uma evidência: por muitos livros que EPC leia, ele é humano e falível (como todos nós). Acontece que hoje, na sua habitual crónica do Público, o "maître a penser" decidiu falar de Pina Bausch. Nada a opor, antes pelo contrário (também lá estarei, quinta-feira, à espera de um deslumbramento). Só que em vez de Bausch, Prado Coelho escreveu Baush. Não uma vez (seria gralha) mas seis, sem contar com o título ("Baushemos, amigos!"). Seria ridículo, como é óbvio, crucificá-lo por isso. "Errare humanum est". Mas fica uma pergunta: ninguém lê as prosas de EPC antes do "imprimatur"? Não há editores no Público? Nem copy-desk? Nem revisão?
PS: Só mais uma coisa. O animal que ilustra o cartaz do espectáculo não é um tigre, caro Eduardo. Os tigres só existem na Ásia. Quem os queira encontrar no continente sul-americano tem que ir ao jardim zoológico; ou aos contos do Borges. O animal que se vê no cartaz é um jaguar. Há também quem lhe chame pantera. Os brasileiros preferem um terceiro nome: onça-pintada.



 
«CUT THE TAXES». Era previsível. No novo plano de recuperação da economia americana, apresentado ontem por George W. Bush, a principal medida é um gigantesco corte nos impostos. A lógica não podia ser mais "republicana": para fugir à recessão é preciso mais emprego; para haver mais emprego é preciso aumentar o consumo; para aumentar o consumo é preciso que as famílias tenham dinheiro para gastar. Vai daí, "oferece-se" em média cerca de mil dólares a cada contribuinte, parte do bolo que o Estado deixa de cobrar. Além disso, é eliminada a taxação dos dividendos sobre investimentos na bolsa.
Não é preciso ser um génio das finanças para compreender quem vai realmente ganhar com estas medidas, pois não? Os ricos continuarão sem pagar a crise. E haverá menos verbas do Estado para apoiar os milhões de indigentes que continuam, ainda e sempre, na base da pirâmide social.



7.1.03
 
SACO AZUL. Fátima Felgueiras julgou que estava acima da lei, mas não está. Pensou que a impunidade geral duraria para sempre, mas não dura. Acreditou que bastaria ter consigo os muitos conterrâneos que vêem nela uma «dama de ferro», uma santa de pulso firme, mas não basta. A esta senhora de porte arrogante, faltou perceber o essencial: ela chama-se Felgueiras, não «é» Felgueiras. E a antonomásia só fica bem às figuras ilustres.

 
A BAGUNÇA QUE INTERESSA. Escreve Luís Fernando Verissimo, na sua crónica do Zero Hora de Porto Alegre, que na tomada de posse de Lula como presidente do Brasil, «Além da esperança vencer o medo, a emoção venceu a prudência e a bagunça venceu o protocolo (...). Bendita bagunça. Foi inaugurado o que promete ser o mais informal dos governos da República». Mas para o cronista e escritor que muito apreciamos aqui neste Blog de Esquerda, «o descaso com o protocolo promete outras coisas além de cenas simpáticas e seguranças aflitos». Segundo LFV, «A primeira “quebra” do protocolo foi a própria eleição do Lula, uma possibilidade que a nossa etiqueta política não permitia, ou sequer concebia. Assim como não ficava bem alguém como o Lula tomando um vinho caro, não ficava bem alguém como o Lula, que nem doutor é, na Presidência. Antes de vencer o medo, a esperança teve que vencer dezessete preconceitos. Estabelecidos os precedentes, na eleição e na posse, está aberto o caminho para outras quebras de protocolo. Para a bagunça que interessa».
Pode também ser o contrário, e a "bagunça" ser o primeiro sinal de fraqueza de um governo manietado por compromissos de "viabilidade", querendo dar um "ar sério" de si próprio aos circuitos económicos, assegurando na rua um colorido "folclore" de esquerda. Mas a mudança parece ter começado aí mesmo, nessa fragilidade aparente. O governo Lula parece não saber muito bem como mudar o Brasil. O que nos livra, pelo menos, de aventuras dogmáticas de triste fim. Pode estar em marcha, nesta nova maneira algo desajeitada de viver a transformação política, essa "bagunça" criativa e entusiástica tão necessária, aquela de quem quando não sabe fazer (porque nunca fez) tenta de outra maneira, que deixa de lado muita coisa e que subverte outro tanto, que põe em cima o que estava em baixo, mistura e volta a dar. No meio dessa "bagunça", parece estar em prepararação uma, por enquanto, modesta e hesitante revolução, na continuidade das experiências de democracia participativa de Porto Alegre: o lento despontar de uma nova apropriação popular da representatividade política e o fim das elites tradicionais do poder brasileiro. Esperemos que Lula, lá do alto do palácio do Planalto, saiba acompanhar estes sintomas e compreenda que é por aí que está a nascer um novo Brasil.

 
JANEIRAS. À boa maneira submissa do antigamente, um grupo de populares de uma qualquer aldeia do Norte (cujo nome não fixei) veio a Lisboa cantar as janeiras ao primeiro-ministro. O costume: adufes, vozes esganiçadas e versos de pé quebrado. «O Durão olha para a frente/ Ele nunca olha para trás/ Enquanto for governante/ O país não fica atrás». Algo assim, muito pobrezinho e descaradamente bajulador. Depois, segundo um repórter da TSF, os representantes do «povo» ofereceram ao chefe do Governo um farto cabaz, com queijos e enchidos lá da terra. Do mal o menos, parece que da generosa oferta não constava o fatídico bolo-rei, iguaria natalícia que tão complicados problemas de deglutição provocou a um antigo inquilino do palácio de São Bento...




6.1.03
 
A ESPERA. Eu já tinha ouvido histórias de pessoas que ficam presas em aeroportos, dias a fio, por causa de greves (mais na Europa) ou de tempestades de gelo (mais nos EUA). Imaginava a angústia e o desamparo de quem não pode fugir de um ambiente hostil: os átrios enormes, as desconfortáveis cadeiras de metal, as portas giratórias onde cabem 20 pessoas de cada vez. Imaginava a impotência de quem está a milhares de quilómetros de casa e sente que não tem alternativas para lá chegar a horas (perde-se a aula sobre Nietschze, o concerto único, talvez a possibilidade de um beijo). Imaginava até as pragas que lançaria, se me encontrasse em tais circunstâncias, a todos os pioneiros da aviação: Otto Lilienthal, os irmãos Wright, Santos Dumont, Blériot e o resto da trupe (todos menos Ícaro, esse loser).
Mas uma coisa é imaginar e outra é sentir na pele. Ontem, em Roissy, na parte moderna do aeroporto Charles de Gaulle, junto ao balcão 1 do sector 2F, eu, cidadão da Comunidade Europeia com o BI em dia e sem ligações à Al Qaeda, esperei quase nove horas (!), em pé, para fazer o registo num voo da Air France - companhia que manifestamente não sabe gerir situações de crise. Quando escrevi «eu» não me estava a referir, obviamente, só a mim. Comigo, na travessia do deserto, estiveram sempre milhares de outros passageiros, nem todos com a mesma paciência e civilidade (os que perderam o avião na véspera e tiveram que dormir nos corredores, por exemplo, mostraram-se particularmente exaltados).
Não vou contar aqui a odisseia - esse é o assunto da minha próxima crónica no DNA - mas gostava de esclarecer dois aspectos desta história.
1) A justificação das entidades oficiais, segundo a qual tudo se deveu «às más condições atmosféricas», não colhe. Então um dos maiores aeroportos da Europa entra em colapso só porque nevou umas horas? Ná, meus amigos, o problema é outro. Tem mais a ver, parece-me, com as «poupanças» feitas em áreas críticas (o número de aviões disponíveis, a gestão do tráfego aéreo, a manutenção) e com problemas laborais mal resolvidos. Temo, aliás, que se as políticas económicas neo-liberais continuarem a cortar onde não devem, este tipo de transtornos passem a ser a regra, em vez da excepção.
2) Incómodos à parte, devo admitir que a experiência foi bastante instrutiva. É nestes momentos-limite que as pessoas revelam a sua verdadeira face. É nestas alturas que vem tudo à superfície: a solidariedade e os gestos altruístas, mas também (ou sobretudo) a falta de princípios e o mais puro dos egoísmos. O certo é que no meio de tanta bagunça, de tanto atropelo, nunca deixei de observar o que se passava à minha volta. E posso-vos garantir uma coisa: aprendi muito. Ou talvez, se virmos bem, quase nada. Porque não há mais escorregadio e impalpável objecto de estudo do que a natureza humana.




Site Meter